Faixa Oeste do País apresenta condição crítica de água no sub-solo, alerta Sentelhas

Publicado em 20/11/2020 17:40 e atualizado em 22/11/2020 06:28 7223 exibições
Paulo Sentelhas - CTO da Agrymet
Entrevista com o Prof. Paulo Sentelhas - especialista em meteorologia aplicada na agricultura (Esalq/USP e CTO da Agrymet)

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Entrevista com Paulo Sentelhas - CTO da Agrymet sobre o Clima

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Baseado em 11.600 pontos de coletas espalhados pelo Brasil (medição diária), o professor Paulo Sentelhas, da Esalq/USP, reafirma ao Notícias Agrícolas sua preocupação com o atual estágio da safra 20/21 em relação às condições do clima.

As recentes chuvas que entraram no País foram suficientes para abastecer o centro e a faixa leste do País, mas a grande e produtiva faixa Oeste -- que vai desde as fronteira Sul (Uruguai/Argentina/Paraguai) até os limites do alto Mato Grosso (região de Sapezal/Parecis) -- continua dramaticamente sem ou com baixíssima umidade. As lavouras nesta faixa do País estão fenecendo ou passando por replantios pela terceira vez. 

O professor Sentelhas mostra o mapa formado a partir dos pontos de coleta da sua rede de dados, e com eles configura o que chama de "Balanço Hídrico" do País. O retrato é preocupante. 

--"É uma situação gravíssima no Oeste, pois as condições estão críticas para o estabelecimento dos stands recém-plantados. As lavouras estão entrando em estágio vegetativo, e a soja, nesse momento, precisa de umidade para o arranque. Mas as chuvas estão falhando".

O problema maior está no sub-solo, onde o lençois freáticos dessas regiões estão sem receber recargas desde a safra passada.

--"Não chove há muito tempo, estamos há mais de seis meses sem chuvas volumosas, e agora, com o início do novo ciclo, as regiões Oeste só registraram chuvas esparsas, isoladas e com frequencia esporádica. As águas ainda não recuperaram o lençol...".

O pesquisador reclama dos erros das previsões meteorologicas:

--"Como sou um consumidor das informações dos centros meteorologicos, me baseio, como todos os produtores, no que os institutos de meteorologia divulgam. Mas, nesta safra, venho observando que as previsões estão muito desencontradas, nos causando muita insegurança".

As mais recentes  previsões dos serviços de meteorologia indicam que novas chuvas deverão entrar pelo Cone Sul nos próximos dias 25 e 26 "mas tenho dúvidas se serão suficientes para corrigirem o atual déficit hídrico da faixa Oeste".

É O LA NIÑA

Paulo Sentelhas  diz  que as anomalias são provocadas pelo fenomeno La Niña. Diz também ter tomado conhecimento das análises do climatologista LCMolion (divulgadas aqui no Notícias Agrícolas), dando conta de que o La Niña não teria se formado e que estariamos sob a condição de neutralidade climatologica.

--"Respeito muito os estudos do professor Molion, mas acompanho as informações mais recentes vindas das medições do Oceano Pacífico e o que constato é a presença de uma grande massa de água fria no Oceano, afetando, sim, o continente sul-americano. Portanto, não há o que duvidar da existencia desse fenomeno (o La Niña corta as chuvas nas regiões Sul e Oeste, mas privilegia o centro-norte do País, como o Matopiba).

-- "Mesmo que a atividade do La Niña seja de moderada a fraca, os efeitos resultantes são veranicos nesta época do ano. O Estado mais afetado é o Rio Grande do Sul, que registra estiagem nas faixas central, norte e sul. E a tendencia é que as lavouras gauchas venham a receber chuvas abaixo do normal no trimestre dezembro/janeiro/fevereiro - sendo que em fevereiro há possibilidade de se registrar seca dramatica no período".

Para o professor de meteorologia aplicada na agricultura, só haverá possibilidade  de sucesso nessas condições climatologicas para aqueles produtores que fizeram a semadura mais tarde, podendo ter, com isso, alguma chance de recuperação durante o ciclo.

-- As anomalias são severas, o deficit hídrico é crítico, e o cenário é de uma situação que não é registrada no País nos últimos 40 anos", finaliza Paulo Sentelhas. (acompanhe a íntegra na entrevista acima).

 

Fonte:
Notícias Agrícolas

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2 comentários

  • Carlos Massayuki Sekine Ubiratã - PR

    A cooperativa local registra chuvas desde 1979 e este ano registramos, no acumulado até outubro, o ano mais seco da série... Foi também o mês de outubro mais seco da história com apenas 27 mm. Novembro não está sendo muito diferente, com 51 mm até agora e provavelmente não vai passar disso até o final do mês. Com La niña ou sem La niña, a não ser que chova 400 mm até o final de dezembro, fecharemos o ano com a menor precipitação em 41 anos... 2019 foi o segundo ano mais seco da série (o mais seco foi 1988), já estamos no terceiro ano com chuvas abaixo da média e realmente a reserva de água no solo está muito baixa... Mas antes que os catastrofistas de plantão anunciem o fim dos tempos, é bom esclarecer que tudo na natureza é cíclico e já tivemos séries de anos secos no passado como em 1984, 1985 e depois em 1988. Tivemos também os anos de 2006 a 2008 aqui em nossa região.

    É como costumamos dizer... "Essa seca não é a primeira, nem vai ser a última".

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    • Vilson Ambrozi Chapadinha - MA

      Os anos de 1977/78 foram horríveis em Ubiratã/PR. A diferença foi que, naquela safra, o plantio correu bem -- o problema se deu na formação das vagens. Virou safra de lentilhas... Digo isso porque, nessa época, eu andava por aí (Nova Aurora , Ubiratã , Campina da Lagoa, enfim o Oeste do PR). A estiagem perdurou até o plantio de 78/79... Agora planto em Chapadinha, Maranhão. E digo que, com ou sem La Niña, o fato é que nunca na história da climatologia do Nordeste choveu tanto no Maranhão como neste ano. 400% acima da média mensal.

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    • Carlos Massayuki Sekine Ubiratã - PR

      O importante é que, com fé em Deus, vamos superar mais essa crise provocada pelo clima...

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  • wenderson lambert pouso alegre - MG

    Incrível, mas o Dr Molion já explicou claramente estes fatos que o sr. Paulo Sentelhas contesta, só que há cerca de uns dois ou três anos atras, quando afirmavam concretamente que estaríamos em La Nina, e o Dr. Molion foi um dos únicos que contestaram, no final ficou provado que ele estava certo. O grande problema é que muitos ditos especialistas não aceitam o trabalho do Dr. Molion, principalmente quando ele questiona e desmistifica o aquecimento global, hoje mudado para mudanças climaticas, pois ele mesmo ja demonstrou que tudo isto que tentam apresentar é bem ao contrario do que afirma, daí nao aceitarem nada que ele demonstre...

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