Argentina: Crise no governo Fernandez/Kirchner intensifica incertezas ao já fragilizado agro argentino
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Entrevista com Leonardo Trevisan - Professor da ESPM São Paulo sobre o Eleições na Argentina
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A recente derrota do governo Alberto Fernandez e Cristina Kirchner para a oposição na eleição primária legislativa pode afetar ainda mais diretamente o já fragilizado agronegócio do país. O setor já vinha enfrentando problemas que foram agravados desde a posse da chapa peronista e agora sofre com ainda mais inseguranças diante de mudanças que vem sendo promovidas pelo governo de forma a abafar os problemas que vem registrando, além de sua desaprovação.
"O governo argentino vinha com uma série de medidas, medidas que, inclusive, afetavam o agronegócio, que foram consideradas insuficientes pela população", explicou o professor da ESPM, Leonardo Trevisan. "Quando olhamos para Alberto Fernandez está atrás dele um fantasma, que é Cristina Kirchner, e entre os dois há diferentes formas de governar. O governo Alberto Fernandez cuida do déficit público, lê-se não gastar muito mais do que arrecada. Cristina Kirchner pensa em gastar mais do que arrecada e isso chama-se inflação. Esta situação atinge diretamente o agronegócio argentino".
E o poder crescente de Kirchner é refletido diretamente na troca dos cinco ministros de pastas que vinham sendo um pedido específico da vice-presidente, entre eles o chefe de gabinete - agora assumido por Juan Manzur, muito alinhado com a dirigente.
O Ministério da Agricultura tem como seu novo líder agora Julián Domínguez, sucedendo Luis Basterra. Como explica o professor, Domínguez possui um vínculo maior e mais intenso com o setor produtivo, o que poderia trazer algum alento ao campo, porém, sem mudanças efetivas muito profundas. Um dos primeiros pedidos da indústria frigorífica ao novo ministro foi a retirada do bloqueio às exportações de carne bovina.
"Será um pouco melhor, mas o governo argentino tem uma necessidade de arrecadar que é desesperadora. Provavelmente, não podemos apostar em nada, ele fará um alívio nas violentas contenciones, nas barreiras de exportação para que a carne fique no mercado argentino e os preços caiam no mercado interno", explica Trevisan.
Além das questões da indústria frigorífica, um dos principais pleitos do setor é a retomada das discussões em torno das retenciones, mecanismo que diminui severamente a competitividade do agro argentino, em especial na soja, no quadro global de oferta e demanda. "O agronegócio argentino tem um peso ainda maior do que o brasileiro (para o Brasil) na realidade argentina. Precisamos entender se esse novo ministro terá força política, principalmente, diante da figura de Martín Guzmán, ministro da economia, que tem compromissos com essa mirada fiscalista", afirma o professor.
E passa pela permanência de Guzmán na pasta da economia um desagrado de Cristina Kirchner, uma vez que a vice também queria sua substituião. Todavia, Fernandez opta por mantê-lo e isso também terá peso sobre o futuro das retenciones sobre as exportações de soja, milho, carne, entre outros produtos.
Atenções voltadas também à questão cambial e a relação peso argentino x dólar, que há muito compromete a renda e as estratégias do produtor rural argentino. "O sinal emitido pela derrota do governo Fernandez nas prévias já derrubou a defasagem do dólar em 17%, isso é bastante significativo. Em outras palavras, o meio econômico argentino prefere outro governo ao governo Fernandez. Esta situação terá que ter uma solução", complementa o professor da ESPM.
As inúmeras greves que se deram durante a gestão Fernandez/Kirchner até este momento também têm sido um sinal importante que muitas vezes foi ignorado pelo governo e precisa ser revisto. "Esse é um quadro de alerta, com o setor alertando o governo da dureza sofrida pelo setor".
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