O perigo do exagero na dessecação das lavouras de soja; a pressa é inimiga da qualidade...

Publicado em 09/02/2018 16:41 e atualizado em 09/02/2018 21:25
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Acompanhe abaixo relato do dr. Áureo Lantmann num processo judicial sobre qualidade e quebra de contrato
Confira a entrevista com Áureo Lantmann - Consultor Técnico

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O consultor Áureo Lantmann, consultor técnico e pesquisador aposentado da Embrapa Soja, alerta, em entrevista ao Notícias Agrícolas nesta sexta-feira (09), para o perigo da dessecação em exagero nas lavouras de soja.

Ele destaca que a dessecação é uma recomendação específica para ser utilizada em lavouras desuniformes, que sofreram maior ataque de pragas. Contudo, a generalização da aplicação vem ocorrendo com frequência, o que pode causar problemas para a qualidade do grão.

Lantmann aponta que isso se deve ao fato de que a dessecação "tira toda a água da planta", que fica ávida por água. "Isso se transforma em um campo fantástico para os patógenos que mexem na qualidade do grão", avalia.

Os padrões de exportação da ANEC exigem que, no máximo, apenas 8% da soja apresente problemas de qualidade. A dessecação sem necessidade, portanto, pode afetar o produto em relação a esse fator, impedindo que os produtores recebam o preço total.

Existe, ainda, um grande número de produtores que realizam a dessecação na fase R5 da soja, quando o correto seria realizar na fase R6.

O consultor ainda respondeu às perguntas dos produtores.

Relato do dr. Áureo num processo judicial sobre qualidade e quebra de contrato

Dentro desse processo de venda da soja, temos um conjunto de componentes. Ao nível de agricultor (produtor) no nível de qualidade determinado no recebimento (cooperativa, trading, cerealista, revenda e etc) temos também no nível dos compradores/exportadores.

Varios exportadores assume compromissos com venda de soja padrão ANEC.

Tem produtores que vende antecipadamente com compromisso de entregar tantas toneladas com padrão ANEC.

Então esta é uma questão na outra ponta, a ponta da venda/exportação com qualidade.

Diante disso, tem uma questão, como os produtores conseguem produzir uma soja padrão anec? Tem fatores que ele controla, dano de insetos, mistura com outras sementes (plantas daninhas) umidade entre 12 a uns 15%, dano mecânico (regulando a colheitadeira), mas tem outros que ocorre sem que se possa controlar que são danos em função de clima.

Algo que prejudica muito a qualidade de graõs são os efeitos deletérios de dessecação pre-colheita associado às chuvas.

João, recentemente fiz uma pericia sobre esse problema, uma soja que foi vendida fora do padrão anec. Que passo para você, em anexo, para que se possa situar.

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1) O preço da soja padrão exportação (ANEC) é diferente em cada região do Estado?

Resposta.: Sim, o preço da soja padrão exportação (ANEC) é diferente em cada região do estado.

2). Qual, a justificativa para diferença de preço da soja padrão exportação (ANEC) para cada região do Estado?

Resposta.: A diferença de preço da soja padrão exportação (ANEC) para cada região do estado se dá em função da diferença de frete da região oriunda até o porto.

A referência de preço da soja, sempre é a do porto. E o cálculo é feito da seguinte forma.

Os componentes para formação do preço são:

CBOT + Prêmio x Fator de Conversão - Despesas x cotação dólar.

CBOT → preço na bolsa de Chicago em bushel.  Chicago Board of Trade.

Prêmio → acréscimo no preço da soja, dado pelo comprador em função da forma de demanda tais como, pressa, soja convencional, características de portos. Em cents de dólar.

Fator de conversão → transforma o preço de bushel para tonelada, que vale 36,7454.     

Despesas → Despesas de transporte. Frete varia em função da distância.

Um bushel → 27,2155 kg.

Exemplo: para dólar valendo R$ 3,15 um bushel  de soja valendo US$ 10,05 e premio US$ 0,78.

US$ 10,05 + 0,78 x 36,7454 = US$ 397,95/ton no porto - US$ 45,00/ton despesas (aproximadamente) = US$ 352,95/ton no interior.

No exemplo teríamos o seguinte

No porto US$ 23,88/sc. → R$ 75,22

No Interior US$ 21,18/sc. → R$ 66,71

ANEC, Associação Nacional dos Exportadores de Cereais.

3) - O preço do frete até o Porto de Paranaguá influencia no preço da soja padrão exportação (ANEC) o interior e na cidade de Paranaguá?

Resposta.: O preço do frete influência diretamente no preço da soja padrão exportação (ANEC) no interior, pois quanto mais distante do porto maior é o frete e automaticamente menor é o preço final da soja.

4) - A soja padrão exportação (ANEC) tem preço maior na cidade de Paranaguá por conta do custo do transporte já realizado do interior ao porto?

Resposta.: Sim o preço da soja padrão exportação (ANEC) tem preço maior na cidade de Paranaguá por conta de custo do transporte já ter sido realizado do interior ao porto.

5) - Qual foi o preço da soja padrão exportação (ANEC) pago pela Autora junto a terceiros para formar o lote de exportação decorrente da não entrega da soja padrão exportação (ANEC) pela Ré (vide documentos de movimentos 37.2, 37.3 e 37.4)?

Resposta.: Consta nos contratos os seguintes valores: documentos, 37.2, 37,3 e 37,4, com os preços R$ 81,00, R$ 84,00 e R$ 84,50 respectivamente.

6) - Os contratos constantes dos movimentos 37.2, 37.3 e 37.4 de compra e venda de soja padrão exportação (ANEC) foram quitados pela Autora?

Resposta: Conforme documentos, foram pagos sim.

7) - Por conta da necessidade, da urgência e das condições de mercado na aquisição de soja padrão exportação (ANEC) é possível que o preço do produto tenha um preço acima da cotação do dia?

Resposta.: Sim, devido a necessidade, a urgência e as condições de mercado na aquisição da soja padrão exportação (ANEC) é possível que o preço do produto tenha um preço acima da cotação do dia, principalmente porque existem cláusulas contratuais com multas por ocupação de espaços no porto, estadias e atrasos nos embarques de navios (Demurrage). Demurrage, ou sobrestadia, é a multa paga pelo contratante, quando o contêiner permanece em seu poder mais do que o prazo acordado.

8) - Qual era a cotação da soja padrão exportação (ANEC) nas cidades de Londrina e Paranaguá nos dias 01/10/2015 e 26/10/2015, segundo informação fornecida pela Safras & Mercado?

Resposta.: A cotação da soja padrão exportação (ANEC) nas cidades de Londrina e Paranaguá no dia 01/10/2015 era de R$ 76,00/77,00 e R$ 82,00/83,00 respectivamente.

O valor para o dia 26/10/2015 era similar ao dia 01/10/2015, ou seja, R$ 76,00/77,00 Londrina e R$ 82,00/ 83,00 em Paranaguá.

Apenas para ilustrar, enquanto uma compradora estaria pagando R$ 76,00 em Londrina, outra poderia estar pagando R$76,50 e até R$ 77,00 devido a necessidade, urgência e agressividade provocando essa pequena variação na mesma cidade.

9) -  O preço da soja padrão exportação (ANEC) pago pela Autora nos contratos de movimentos 37.2, 37.3 e 37.4 estavam dentro das cotações fornecidas pela Safras & Mercado?

Resposta.: Os preços constantes nos contratos 37.2, 37.3 e 37.4, eram de R$ 81,00, R$ 84,00 e R$ 84,50, portanto dentro das cotações fornecidas pela Safras & Mercados.  (Segundo Safras e Mercados, o preço médio da saca de soja em Paranaguá foi de R$ 81,95)  

10) – O preço da soja padrão exportação (ANEC) constante no contrato celebrado com a Ré estava dentro das cotações fornecidas pela Safras & Mercados.     

Resposta.: Sim, estava.

11) - Considerando que a soja da Ré não estava dentro do padrão exportação (ANEC) qual seria o seu valor de mercado, caso a Autora tivesse intenção de compra-la?

Resposta.: Considerando-se que a soja da ré não estava no padrão exportação (ANEC) o seu valor de mercado fica a definir entre compradora e vendedora pois perde-se a referência de mercado. Entretanto, pode ocorrer que pela urgência e necessidade a compradora aceite o produto fora do padrão e aplique algum desconto na classificação do produto ou no preço em comum acordo. (Resposta complementada na resposta da pergunta 12)

12) -  A soja fora dos padrões da ANEC tem o mesmo valor de mercado da soja padronizada? Existem tabelas de descontos aplicados pelo mercado em soja fora dos padrões padrão exportação (ANEC) em caso de aceitação desses produtos pela compradora?

Resposta.:  A soja fora dos padrões da ANEC não tem o mesmo valor de mercado da soja padronizada. Em casos de grãos avariados (ardidos, queimados, fermentados, deteriorados por insetos... etc.) o padrão de exportação é até 8% com ressalvas para o grão queimado que não pode exceder 1%.

Nos casos acima desse percentual de 8% a compradora pode, mas não é obrigada, a aceitar o produto estabelecendo um desconto de 1x1, ou seja, para cada 1% de avariados acima de 8%, desconta-se 1% em produto ou no preço.

Exemplo: soja com 10% avariados seria aplicado desconto de 2%.

Vale lembrar que essa proporção de desconto 1x1 acima dos 8% é uma prática de mercado em comum acordo entre as partes envolvidas, mas não é uma obrigatoriedade sobre a compradora.

Ass. Aureo Lantmann

Por: João Batista Olivi
Fonte: Notícias Agrícolas

1 comentário

  • Angelo Miquelão Filho Apucarana - PR

    A maioria desseca para poder adiantar o plantio do milho safrinha, e soja dessecada não aguenta chuva, o caule simplesmente apodrece, as vagens rapiadamente tornam-se escuras e permitem a entrada de umidade que faz com que os grãos ardam e brotem com mais facilidade. Outra tática é plantar soja cedo demais, muitos plantam variedades super-precoces pensando em milho. Não raro colhem mal, diferenças que chegam a 40 sacas por alqueire a menos de outras lavouras plantadas no tempo indicado, e a pergunta é; quanto de milho teremos que colher para tirar a diferença, a quanto este milho vai ter que ser comercializado para compensar? Vou de aveia preta, brachiaria ruziziensis e um pouco de aveia branca, trigo e milho não fazem mais parte dos meus planos. Arriscar o certo pelo duvidoso é para quem tem bala na agulha...

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