Mercado de açúcar: PERIGOS ESCONDIDOS

Publicado em 03/02/2013 17:48 e atualizado em 04/02/2013 08:23
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Por Arnaldo Luis Correa, da Archer Consulting.
O mercado de açúcar em NY fechou a semana com alta de 51 pontos no vencimento março de 2013 (11,24 dólares por tonelada) cravando 18,89 centavos de dólar por libra-peso. Desde o final do ano, considerando que este é o nosso primeiro relatório de 2013, o açúcar está em território negativo, amargando uma queda 3% nos dois primeiros vencimentos. 

O mercado físico de açúcar continua pressionado, com poucos negócios e a movimentação dos descontos indica que a pressão de venda como não poderia deixar de ser está maior para os embarques em abril e maio, com melhora do prêmio para açúcares para embarque a partir de julho. O carrego no físico compensa daquele mês de embarque em diante, já que o mercado futuro apresenta uma curva de custo e carrego compensando o carregamento do estoque para as empresas melhor capitalizadas. Até mesmo o spread outubro 2013/março 2014 mostra uma taxa de quase 9% ao ano. 

O físico pode estar largado e sem grande interesse, é verdade. Mas à luz dessa breve análise é importante se perguntar por que alguma empresa capitalizada teria pressa de vender sua mercadoria num ambiente de juros ridiculamente baixos. Ou, na outra ponta, porque uma refinaria deixaria de comprar açúcar agora se os preços lá adiante embutem um custo adicional de até 9% muito mais alto do que custaria a ela carregar o açúcar? Faria muito mais sentido por parte das refinarias anteciparem suas compras para embolsar a diferença entre os custos indicados pelo mercado futuro (via spread) e seus custos internos, a aplicar o dinheiro a juros próximos de zero. É algo que me incomoda esse paradoxo do mercado. Ir comprado a preço fixo nos níveis atuais tem menor potencial de risco de queda, podendo ainda ser bafejado pelo fortalecimento da paridade do etanol no Brasil caso haja modificações na sua estrutura tributaria, o que poria pressão no mix a favor do hidratado e consequente reduçã o na produção de açúcar. 

Enquanto os preços visitaram a mínima de 18,06 centavos de dólar por libra-peso dia 23 de janeiro - o nível mais baixo desde agosto de 2010 - e os fundos não-indexados com uma posição vendida a descoberto alucinante, é preciso olhar com atenção o que mencionei no parágrafo anterior e adicionar à receita do bolo alguns outros ingredientes. A situação na Índia é de estabilidade já que o consumo daquele pais é basicamente a sua produção. No entanto, dependendo da estrutura interna de preços e da moeda, pode fazer sentido para os indianos importarem açúcar caso o preço internacional negocie abaixo dos 18 centavos de dólar por libra peso. Esse para nós parece ser um forte suporte. 

Com o mercado atingindo as mínimas e considerando o suporte que mencionamos, quanto mais os fundos adicionam vendas em suas posições vendidas, menor nos parece ser o risco/ retorno delas. Em outras palavras, existe um potencial irracional de recuperação de preços caso ocorra algum fator não esperado de natureza fundamentalista ou exógena (clima, greve, congestionamento no porto, etc).

A volatilidade do mercado está ridiculamente baixa. A média de 20 dias está em 21,84%. A média dos últimos 12 meses é de 26,29% e a dos últimos dois anos é de 33,68%. Acho que é prato cheio para um desastre. Já vimos esse filme antes. Precisamente no inicio do último trimestre de 2005. Usinas felizes por terem fixado açúcar a 10,50 centavos de dólar por libra-peso (o custo de produção era mais baixo do que isso). Muita gente vendida calls (opções de compra). Volatilidade lá embaixo. E como sempre ocorre nesses momentos em que todo mundo acha que nada vai acontecer, a volatilidade das opções explode de 18 para 48% pois quem comprava cobria parte do rombo produzido pela chamada de margem dos futuros que chegaram a negociar a 19,73 em apenas 4 meses. A vida de trader não é fácil.

O aumento do combustível foi pífio e pouca coisa afetou no mercado. A antecipação da elevação da mistura de anidro na gasolina é bem vinda, evidentemente, mas não resolve a falta de transparência que inibe a entrada de capital novo no setor. A estatal do petróleo continua importando gasolina por 4 e vendendo por 3, sangrando o caixa indiretamente bancado pelo contribuinte num subsidio mascarado para o consumidor. É sempre batendo na mesma tecla porque as soluções estão nas coisas simples. No entanto, é tarefa hercúlea ser otimista nesse país onde quase tudo que depende do governo funciona de maneira precária. Temos um ministro das minas e energia que não sabe nem trocar uma lâmpada e um ministro da fazenda que, usando mais uma vez a conceituada revista The Economist, não tem a mínima ideia do que está fazendo, um dia quer o dólar pra cima, noutro quer o dólar pra baixo.

O modelo da Archer Consulting indica que as fixações de preço em NY para a safra 2013/2014 até o fechamento do dia 30 de janeiro, estavam entre 9,8 e 12,0 milhões de toneladas, ao preço médio de 19,67 centavos de dólar por libra-peso.

Fique de olho: as commodities estão se recuperando lenta e gradualmente neste ano. Até hoje, com exceção do cacau e do açúcar, todas as commodities agrícolas estão em alta no acumulado do ano (algodão lidera com 10%) com a percepção de que as economias da China e dos Estados Unidos vão se recuperar, impulsionando a demanda por matéria-prima.

O preço mais baixo negociado pelo mercado em reais por libra peso (preço de fechamento de NY vezes o dólar PTAX) foi em 11 de agosto de 2010 de 32,32 centavos de reais por libra-peso, ou seja, aproximadamente 15% abaixo do que está hoje. 

Para aqueles que se dirigem à Dubai para mais uma Conferência, meus votos de boa e segura viagem.

Bons negócios!
Fonte Archer Consulting

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