Mercado de açúcar: É COMO SE NY SUBISSE 200 PONTOS

Publicado em 23/06/2013 14:23 e atualizado em 24/06/2013 08:36 675 exibições
Por Arnaldo Luis Correa, da Archer Consulting.

O cenário macro mundial foi largamente influenciado pela decisão do FED de diminuir a emissão de dólares e começar a recomprar gradualmente os títulos americanos até o final de 2014, enxugando lentamente o mercado e consequentemente provocando uma valorização da moeda americana. Lembra quando a Dilma e Mantega reclamaram do excesso de liquidez no mercado que valorizava o real e prejudicava as exportações brasileiras? Pois é. Agora a situação se inverteu: muitos economistas refizeram suas projeções e já colocam o dólar a 2,3000 para o final do ano. Com isso, teremos consequências no crescimento do PIB (para baixo) e na taxa de juros (para cima). E o brilhante ministro achava que era marolinha.

Em NY, o mercado de açúcar fechou a semana em baixa. O vencimento julho/2013 encerrou a 16,74 centavos de dólar por libra-peso, apenas 4 pontos abaixo da semana passada. Os demais meses de vencimento, no entanto, tiveram quedas mais acentuadas de até 51 pontos na semana (pouco mais de 11 dólares por tonelada).

O custo de produção de açúcar de acordo com o modelo desenvolvido pela Archer Consulting é de R$ 33,3949 por saca posto usina, sem custo financeiro. Para o anidro e hidratado, os valores são de R$ 1,0887 e R$ 1,0451 por litro posto usina, sem custo financeiro. A melhor rentabilidade continua sendo a do anidro e a pior, a do açúcar VHP exportação.

A desvalorização do real que chegou ao nível mais baixo dos últimos 4 anos pode ter acionado o gatilho para que algumas empresas aproveitassem o overshooting (aceleração da desvalorização da moeda, muitas vezes movida pela percepção de aumento de risco) e hedgeassem parte de suas produções para o próximo ano safra, aproveitando os valores altos convertidos em reais. Desde que houvesse liquidez para se fazer um NDF (Non-Deliverable Forward, ou contrato a termo de dólar com liquidação financeira), fixações para a safra 2014/2015 poderiam chegar na média de 848 reais por tonelada na usina contra um custo de produção de 668 reais por tonelada (27% acima do custo de produção)

Por isso, para as usinas, apesar da queda do açúcar no mercado internacional, a desvalorização do real mais do que compensou a menor receita em dólares. Os preços em reais obtidos com o fechamento de sexta-feira do dólar e do açúcar, por exemplo, são os maiores desde 24 de janeiro, ou seja, quase cinco meses. Para obter a mesma liquidação de hoje, com o dólar de um mês atrás – 2,0382 – NY teria que ter fechado com 200 pontos de alta !!! A desvalorização também foi boa para os fundos que estando vendidos 95.000 lotes (4,8 milhões de toneladas equivalente) tiveram o benefício do cenário macro e podem posar de muito brilhantes. Para as usinas endividadas em dólares a semana aumentou o débito

Real mais fraco significa que a Petrobras importa petróleo mais caro, piorando seu fluxo de caixa, agravando ainda mais sua situação financeira e contando com zero de possibilidade de repasse do custo maior de importação para o consumidor, em função do atual clima político. Para tentar minorar esse problema, a solução é usar mais etanol anidro na mistura, construir um estoque estratégico de hidratado e – sem que ninguém nos ouça – até usar uma gasolina de pior qualidade (e menor preço) para a mistura.

Para as usinas, muda muito pouco um dólar mais alto quando se trata de produzir etanol já que assumimos que desvalorizações maiores deverão impactar as cotações de açúcar em NY de tal modo que os valores percebidos em reais praticamente fiquem inalterados. O que deve impactar no etanol é a maior demanda provocada pelo que dissemos acima. Dessa forma, acreditamos que o mix para o etanol será maximizado. A última estimativa da Archer para a safra 2013/2014 aponta 45,6% de açúcar e 54,4% de etanol. Isso pode mudar. Cada ponto percentual na redução do mix pró-etanol, reduz a produção de açúcar em aproximadamente 800.000 toneladas.

As commodities tomaram um banho de sangue essa semana. O açúcar até que se saiu bem com redução de apenas 0,7%. A soja caiu 1,5%, o café 2,3%, suco de laranja 3,4%, petróleo 4,0% e algodão 6,5%. Já no acumulado do ano, café e açúcar lideram as perdas com 16,9% e 13% respectivamente.

A 9ª estimativa da Archer Consulting indica que pelo nosso modelo, até o dia 1º de junho de 2013, as usinas estavam fixadas 15,8 milhões de toneladas ao preço médio de 18,50 centavos de dólar por libra-peso. Se estimarmos que o Brasil (não apenas o Centro Sul) deve exportar em torno de 26 milhões de toneladas isso quer dizer que 61,03% das vendas para a safra 2013/2014 estão fixadas.

No campo político, o (des)governo Dilma começa a pagar a fatura de sua soberba e arrogância. As manifestações que ocorrem em todo o país, embora ainda sem uma explicação definitiva dado o seu ineditismo, mostram que a população está cansada da enorme desfaçatez da classe política brasileira em todos os níveis. O que se rouba nesse país, desde a vereança até os mais altos cargos da república é algo deplorável. O sentimento de impunidade e a certeza da morosidade da justiça fabricam uma legião de vigaristas que roubam livremente pois sabem que jamais irão para a cadeia. E esse comportamento espúrio reflete-se no dia-a-dia das empresas, nas facilidades e dificuldades construídas por essa gente impondo-as nas decisões que precisam ser tomadas por seus executivos. Quem se aventura a investir sob esse cenário?

Mais de 2.000 pessoas acessaram os comentários de açúcar este mês em nosso site. Muito obrigado pelo prestígio.

Boa semana para todos.

Fonte:
Archer Consulting

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1 comentário

  • ananias pereira de lima junior Maceio - AL

    o povo tinha que aproveitar o momento na rua pra acabar com a imunidade parlamentar e com a impunidade dos membros do judiciario (inclusive ministros e juizes) envolvidos em crimes de corrupção e que o julgamento desses processos sejam efetuados em no maximo um ano a contar da denuncia feita pelos orgãos de investigação, com logicamente devolução do dinheiro desviado para que o mesmo sejo empregado na saúde com acompanhamento popular.

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