Mercado de açúcar: MUITOS INGREDIENTES

Publicado em 13/07/2014 12:34 e atualizado em 14/07/2014 07:33 765 exibições
por Arnaldo Luiz Correa, da Archer Consulting

O mercado de açúcar em NY teve uma semana de queda acentuada no vencimento outubro/2014 que encerrou a sexta-feira cotado a 17.04 centavos de dólar por libra-peso, ou 75 pontos (cerca de 16.50 dólares por tonelada) de baixa. Considerando a alta atingida neste mês, o outubro/2014 já caiu 104 pontos. 

Quais mudanças ocorreram nos fundamentos do açúcar este mês para explicar tamanha queda? Um executivo do setor responde, ironicamente, que é a seca no canavial que deve, segundo ele, reduzir a produção de sua usina entre 7-10%. Uma trading europeia acabou de reduzir sua estimativa de produção de cana para a 2014/2015 para 559 milhões de toneladas. Mais cana está sendo destinada ao etanol que remunera melhor que o açúcar. Cada ponto percentual de mudança no mix para etanol, reduz a disponibilidade de açúcar em 800 mil toneladas. Estamos vivendo dois mercados desiguais, o baixista de curto prazo e o altista de médio longo prazo. 

Muitas usinas estão recomprando as posições futuras hedgeadas na bolsa fundamentadas por aquilo que estão vendo dentro de casa. Convenhamos, é raro ver esse tipo de estratégia. Ninguém toma uma posição dessas (recompra dos hedges) sem estar relativamente seguro com o cenário que está vendo acontecer diante de seus olhos. O mercado despenca porque a demanda de curto prazo é ruim, os fundos erraram no timing, ou seja, quiseram ficar comprados mas o nível médio de compra estava alto, muitos reduziram a posição (hoje estão comprados ainda uns 60-70 mil lotes mas já cuspiram 40-50 mil) por não aguentar a queda, o mercado interno despenca a olhos vistos, o que era de se esperar pois se a exportação está largada, o jeito e ir para o mercado interno que acaba não aguentando a pressão de venda e sucumbe. Enfim, parece que um Panzer alemão passou por cima do mercado de açúcar, semelhante àquele que esfarelou a seleção do Brasil.

Até o mês de maio/2014, a exportação de açúcar pelo Brasil no acumulado de doze meses, atingiu 25.806.009 toneladas com uma queda de 20.8% em relação ao mesmo período do ano anterior. O valor das exportações chegou a mais de US$ 10.5 bilhões com o preço médio atingindo US$ 408.96 por tonelada. As exportações de etanol, no mesmo período, alcançaram 2.64 bilhões de litros, com receita total de pouco menos de US$ 1.7 bilhão. 

Nos últimos 10 anos, as exportações mensais de açúcar para os meses de julho, agosto, setembro e outubro, acumuladamente, representaram 41% de todo o volume exportado no respectivo ano-safra. Nesse período, já tivemos volumes pífios, como em abril de 2012, início da safra 2012/2013, em que exportamos apenas 548 mil toneladas, mas encerramos a safra com quase 27 milhões de toneladas exportadas, contrapondo-se, na mesma safra, à exportação do mês de outubro que chegou a 14.68% de todo o volume daquele ano. E as piores performances se concentram mesmo em março, abril e maio. Por oito vezes na história, as exportações mensais de açúcar ultrapassaram 3 milhões de toneladas: de agosto a novembro de 2010, julho e agosto de 2011, outubro de 2012 e agosto de 2013. 

Tentar fazer uma previsão de quanto será o volume de exportação de açúcar pelo Brasil neste ano safra, é uma aventura perigosa. Veja o que ocorreu em 2010, mais precisamente em maio. NY negociava a 13 centavos de dólar por libra-peso no início do mês e a demanda raquítica. Encontro certa semelhança entre 2010 e hoje. Na época parecia que estávamos todos olhando para uma direção (queda do mercado) quando uma série de circunstâncias (chuva no interior, chuva no porto, volta desesperada da demanda, entre outras) elevou os preços em velocidade assustadora. 

Mas o que pode ainda coibir uma eventual recuperação do mercado? Quantos mais ingredientes têm um processo para tomada de decisão, mais difícil fica a decisão. Insisto no que se desenha com o provável aumento de consumo de combustíveis no Brasil e seu efeito na mudança de mix. Mesmo que o crescimento do consumo em doze meses despenque dos atuais 8% para 2.5% (o menor no acumulado móvel de doze meses desde a crise de 2008), ainda assim o Brasil precisaria crescer pelo menos 15-20 milhões de toneladas de cana. Uma desvalorização acentuada do real poderia fazer com que NY caísse mais. Chuvas que interrompem a moagem. Fatores climáticos. Pesquisa eleitoral. Se Dilma cair na preferência dos eleitores, isso sinalizaria uma recuperação da Petrobras e provável alinhamento dos preços da gasolina com o mercado internacional, favorecendo o etanol e diminuindo a disponibilidade de açúcar. 

A Archer está promovendo o I Curso Avançado de Opções Agrícolas, atendendo a pedidos de vários segmentos do agronegócio. Serão dois dias de curso focados exclusivamente em opções sobre commodities agrícolas. O curso ocorre dias 29 e 30 de julho em São Paulo.

Bom final de semana para todos.

Arnaldo Luiz Corrêa

Fonte:
Archer Consulting

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