De tijolo em tijolo

Publicado em 05/07/2010 12:56 641 exibições
Comentário Semanal de 28 de junho a 02 de julho de 2010

O mercado de NY fechou a semana com alta nos vencimentos para outubro de 2010 e março de 2011, de 8 e 6 dólares por tonelada, respectivamente, e queda média de 9 dólares por tonelada para os demais vencimentos, acentuando a inversão de mercado (quando os preços com vencimento mais curto são maiores que os preços de vencimento mais longo) da safra 2011/2012 em relação à safra 2012/2013. Pegando as cotações de fechamento de NY, em suas respectivas safras (safra = maio, julho, outubro e março do ano seguinte) e assumindo o hedge cambial e o frete médio de R$ 72 por tonelada e elevação de 10,50 dólares por tonelada, os valores líquidos para as próximas duas safras seriam de R$ 30,32 e R$ 28,97 por saca posto usina, para 2011/2012 e 2012/2013. Um retorno médio de 10% e 5%, respectivamente, sem custo financeiro.
A expiração do contrato de julho em NY acabou sendo muito construtiva, afinal uma entrega num mercado invertido como ocorreu é bem vista, embora lastreada pelo pânico de última hora na cobertura de posições vendidas à descoberto (um squeeze, no jargão do mercado) e falta de espaço no porto. As nomeações de navio para Santos estão acima de 2.6 milhões de toneladas. O spread julho/outubro chegou a negociar inacreditáveis 275 pontos, ou seja, o julho chegou a valer 60 dólares por tonelada a mais do que o outubro. Os preços de julho de 2010 alcançaram 18,40 centavos de dólar por libra-peso e muitos negócios foram feitos ex-pit, ou seja, houve troca de futuros entre compradores e vendedores nos últimos dias evitando exposição desnecessária sobre o real volume a ser entregue. No final cerca de 380.000 toneladas, quase tudo Brasil, foram efetivamente entregues. Paquistão deve comprar 175.000 toneladas para agosto e Tailândia e Rússia estão comprando.
O cenário macro leva-nos a fazer algumas ilações. Até as pedras sabem que o Brasil vai precisar crescer pelo menos 10% em termos de cana nos próximos 3-4 anos para atender à demanda que se avizinha com o crescimento da economia, com a venda de carros flex (mais de 300.000 em junho), o sucateamento e substituição da frota, etc. No entanto, como as commodities de maneira geral estão caindo (com exceção daquelas cuja equação da oferta e demanda é complicada) e a China dá sinais de desaceleração (ainda que inercialmente eles crescessem pelo menos 5%) é provável que novos investimentos sejam colocados em espera. E esse ponto é preocupante. Se não tivermos a perspectiva de investimentos sólidos na faixa de 30-35 bilhões de dólares para o setor nos próximos 3-4 anos, a cana será disputada de maneira implacável entre o açúcar e o etanol. Quando esse sentimento de provável falta de investimento no tempo devido começar a se delinear, vai ser o momento que a curva de preços em NY vai in  verter de vez. Em outras palavras: ficar vendido a descoberto nesse mercado vai ser extremamente perigoso. Os consumidores industriais que não fizerem suas proteções de preço depois terão que se queixar ao bispo.
A soberba precede a queda. Não importa se o assunto é a seleção de futebol ou uma corporação. Se alguém acha que basta usar a camisa canarinho ou o logo da empresa no cartão de visita e tudo se resolve, é aí que as coisas começam a ruir. Já vimos empresas que achavam que podiam ditar os preços, que fabricavam fundamentos para os incautos acreditarem que o que elas diziam é que era irrefutável (vide os suspeitos relatórios de petróleo em 2007, por exemplo), assim como vemos técnicos de futebol que teimam em utilizar cabeças de bagre que pensam que são Pelés. Coisas diferentes que no fundo possuem a mesma raiz: a soberba. Foi por isso que Sodoma afundou. 
Ninguém possui coisa alguma, em seus próprios recursos, que o faça superior; portanto quem quer se ponha num nível mais elevado que seu semelhante não passa de imbecil e impertinente. A frase é de Calvino, teólogo francês, que teve grande influência na reforma protestante, e independentemente de nossa atividade no planeta, deveríamos lê-la todos os dias. Eu a ouvi pela primeira vez de um amigo com quem trabalhava numa trading americana. Logo em seguida, num escorregão pecaminoso, completando o raciocínio, ele me sai como uma dessa: Eu, que sou eu, sou humilde. Assim não dá.
No Fundo Fictício da Archer Consulting encerramos a semana com uma posição short no delta em 161 lotes equivalente no vencimento outubro/2010, apesar de termos zerado no inicio da semana vendendo
356 puts (opções de venda) de 16 centavos de dólar por libra-peso coletando um prêmio de 102 pontos. O desempenho da semana foi um ganho de US$ 259.077,52. O resultado acumulado chega a US$ 4.718.512,52, com retorno anualizado de 220,38%. Na terça-feira vamos zerar o short vendendo mais puts (opções de venda) de preço de exercício 16 centavos de dólar por libra-peso.


Boa semana para todos.
Arnaldo Luiz Corrêa

Fonte:
Archer Consulting

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