Açúcar: Calmaria no físico, agitação no futuro

Publicado em 14/03/2011 08:21 505 exibições
Comentário Semanal – de 7 a 11 de março de 2011.
O mercado de açúcar em NY fechou a semana em baixa de 23 dólares por tonelada nos dois primeiros meses de vencimento e quedas entre 2 e 18 dólares por tonelada nos demais meses. O maio encerrou a semana cotado a 28,86 centavos de dólar por libra-peso. No acumulado do ano,
o maio é o único vencimento que apresenta queda (de 1,6%). Todos os demais apresentam altas que variam de 1 a 4,5%.

Qual o número para a safra que se inicia? Uma pergunta de um milhão de dólares. Os números vão de 540 até 585 milhões de toneladas. Em tese, a necessidade de cana para 2011/2012 visando
atender aos mercados interno e externo seria de 700 milhões de toneladas (Brasil total). Como devemos produzir 10% a menos teremos os impactos na disponibilidade na exportação de açúcar e no mercado interno de etanol. Nada que não esteja devidamente refletido nos preços, é certo. Mas, para a 2012/2013 continuamos na mesma toada, enquanto os preços para aquele vencimento estão baixos considerando que a demanda interna de etanol continua e o volume de cana
necessário para aquela safra beira os 750 milhões de toneladas. A média de preços da 2012/2013, considerando as máximas, é de meros 23 centavos de dólar por libra-peso. Se levarmos em consideração que o custo de produção hoje é de 20,41 centavos de dólar por libra-peso FOB Santos com custo financeiro. Fixar a 2012/2013 agora não parece ser boa   política.

Os negócios no mercado físico estão fracos. Reza-se por alguma notícia que o leve para alguma direção, de preferência para baixo para ver se atrai aqueles compradores que desapareceram quando o mercado andou perto dos 33 centavos de dólar por libra-peso. Ao som
da campainha, a entrega de março equivalia a maio mais 300 pontos.

Hoje tem comprador para abril a maio mais 200 pontos. Como se fecha essa conta? Fique de olho: esta semana 56% do volume negociado em opções foi de puts (opções de venda). Ou seja, o mercado está preocupado com mais queda pela frente.

O modelo desenvolvido pela Archer Consulting indica que as fixações de açúcar para a safra 2011/2012, que começa a ser produzida no mês que vem, estão entre 11,4 e 13,4 milhões de
toneladas, que deve representar entre 44% e 51% da estimativa de exportação de açúcar pelo Brasil. O preço médio apurado pelo modelo é de 24,83 centavos de dólar por libra-peso sem o prêmio de polarização.

Um dado intrigante – o volume de contratos de açúcar negociados em NY este ano é de pouco mais de 5,75 milhões, o que projeta para o final do ano pouco mais de 33,7 milhões de contratos, o que representaria um aumento de 15,5% em relação ao volume de 2010. No entanto, a posição em aberto é declinante. Prova que o volume de negócios que temos visto são mais espuma do qualquer outra coisa.

Operadores que entram e saem da posição com rapidez e vão pra casa sem carregar um saco de açúcar na posição. Continua a questão sobre a participação dos HFT (High Frequency Traders) e se eles distorcem o mercado. Nada conclusivo, exceto que as quedas súbitas e os picos de preço têm ocorrido com maior frequência. Pode ser que tenhamos a reintrodução dos circuit breakers que funcionam como disjuntores que “desligam” quando o mercado entra em pane elétrico.

Lembro-me de uma palestra dada pelo trader e ensaísta Nassim Taleb, em 2007, num dos Seminários sobre Derivativos promovidos pela BM&F Bovespa. Taleb dizia que era inútil se no ajuste de determinado portfólio todos os participantes do mercado respondessem da mesma maneira quando houvesse um surto de volatilidade. Teríamos quedas súbitas e picos de preço. A mesma história vale para os HFT que usam modelos semelhantes entre si que aproveitam de distorções estatísticas. Em outras palavras, o efeito manada não foge do julgamento dos computadores, mas pode ser evitado por um operador de carne e osso com visão diferente sobre a situação c  orrente do mercado, coisa que um computador não consegue fazer.

 Como observa um competente corretor nova-iorquino, quando ocorrem inovações tecnológicas existe uma propensão para que novas tendências de negociação se antecipem a regulamentação do
mercado. Foi assim com as operações de balcão que antes eram liquidadas pelas contrapartes fora da bolsa e hoje podem ser acertadas via troca de futuros na própria bolsa. Mas há necessidade imperiosa de regulação: enquanto os HFT zeram suas posições em bases diárias com impacto zero no fluxo de caixa via margem inicial, as tradings, os produtores e demais usuários comerciais têm que deixar de lado pelo menos US$ 120 por tonelada para atender à margem inicial
e reserva de ajuste diário.

Em 2007, no Seminário de Derivativos da BM&F Bovespa, em Campos do Jordão, no coquetel oferecido pela bolsa para o lançamento no Brasil do livro “Black Swan” do Nassim Taleb, entro na fila e na minha vez de entregar o livro para a dedicatória de praxe em eventos como esse, puxo conversa com o autor e lhe digo que achava seu livro “Dynamic Hegding” um dos melhores sobre o tema e literatura indispensável para gestores de risco, operadores, acadêmicos. “Eu não gosto desse livro”, disse ele de chofre. “Como não, foi você que escreveu..?”. ”Hoje eu o não teria lançado”. Saí meio confuso da conversa e nem vi sua dedicatória. Quando abro o livro já no quarto
do hotel, surpreendo-me: “Ao Arnaldo Correa, Obrigado pelo apoio e desculpe por não gostar do Dynamic Hedging”. Imprevisível, como todo o gênio.

No Fundo Fictício da Archer Consulting, encerramos a semana com uma posição long (comprada) no delta equivalente a 134 lotes. Tivemos que comprar 250 lotes a 30,20 quando o mercado subiu e quase tivemos que vender a 27,80 (o mercado bateu 27,83). Assim, apesar dos ajustes,
conseguimos fechar a semana com um ganho (basicamente time-value) de US$ 382.554,25, totalizando o ganho em US$ 4.959.694,76 que em 799 dias de Fundo, nos dá um rendimento líquido de 126,14% ao ano !!!

Vamos ajustar a posição comprando 250 lotes caso o maio negocie a 31,40 ou vendendo caso negocie a 28,30.  Nossas preces para o querido povo japonês nesse triste momento de
sua história.

Fonte:
Archer Consultiing

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