Pragas Vorazes, por Rogério Arioli

Publicado em 06/02/2012 13:41 746 exibições
Lá pelos idos de 1980 o saudoso professor Augusto Paiva Netto, titular da cadeira de entomologia da Faculdade de Agronomia de Passo Fundo alertava seus alunos, nos quais eu me incluía, sobre a voracidade das pragas que atacavam as lavouras.  A maioria dos alunos ouvia, sem pestanejar, sobre a imensa capacidade destruidora dos insetos.  Começando pelas lagartas, na sua insaciável demanda por folhagem tenra e passando pelos percevejos, bicudos e pulgões, na suas fantásticas capacidades reprodutivas, o poder de dano econômico das pragas parecia incontrolável e capaz de inviabilizar qualquer empreendimento agrícola. Muitos anos se passaram e, confesso que hoje, quando se fala em voracidade me assustam mais as dos governos do que as das pragas.  Pragas são controláveis, governos, nem sempre.

Na irrefreável busca de aumento das receitas deixa-se sempre em segundo plano a antipática medida - do ponto de vista político- de cortar despesas.  O estado de Mato Grosso através do decreto 854 cometeu o absurdo de taxar em 8,4% os fertilizantes utilizados nas lavouras o que onerará os produtores rurais em R$ 360 milhões, segundo o presidente da Famato Rui Prado.  Não deveria ser necessário lembrar que o fertilizante é o principal insumo utilizado na agricultura mato-grossense, sendo responsável, em média, por 25% do custo total da produção de grãos e fibras. Qualquer técnico sabe que os solos de cerrado, por serem originalmente pobres em nutrientes, demandam adubações bem mais pesadas do que as utilizadas nas outras regiões do país.  Ressalte-se ainda que os produtores já suportaram altas significativas nos preços internacionais deste insumo que, no ano de 2011, chegaram até 52% na uréia e 38% no caso do cloreto de potássio.

No atual panorama econômico em que o mundo globalizado se encontra o ano de 2012 não passa de um enorme ponto de interrogação.  A crise européia de solução difícil e demorada pode afetar sobremaneira o desempenho de muitos países, entre os quais o Brasil. Apesar de o governo ainda trabalhar com um crescimento de 3,5% do PIB para este ano, parece ser o momento de buscar-se competitividade para que os momentos de dificuldades sejam superados.  Tudo isso precisa ser lembrado, pois, não parece haver nenhuma racionalidade no aumento da carga tributária dos setores que ainda sustentam a estabilidade econômica brasileira.    Ano passado foram arrecadados exorbitantes R$ 1,5 trilhão em impostos, o que carreou aos cofres públicos a expressiva parcela de 35,13% de toda riqueza produzida no país.

Embora todo este recurso tenha sido disponibilizado ao governo este fato não impediu que o Brasil ficasse em último lugar, segundo o IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), no que se refere ao retorno, na forma de serviços, destes recursos à população.  O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) brasileiro ainda é muito menor do que em países que possuem arrecadações bem menos impregnadas com a gulodice tributária nacional.  Argentina e Uruguai são exemplos disso, só para ficar-se aqui por perto.

Não se poderia esperar nada de diferente, pois se utiliza 70% do valor arrecadado apenas para o custeio de uma máquina pública paquidérmica, perdulária e ineficiente.   Acrescidos das despesas previdenciárias, juros da dívida pública e “otras cositas más”, sobram apenas 7% dos recursos para investimentos, o que é muito pouco, face às demandas existentes.

No mesmo diapasão da voracidade tributária federal encontra-se o governo do estado, buscando, ensandecidamente, recursos para a “Copa do Pantanal”.   Não importa que  para isto tenha de onerar as atividades agrícolas, pecuárias e industriais pelo aumento dos impostos proposto o que, segundo o IMEA (Instituto Mato Grossense de Economia Agrícola), atingirá a magnitude de R$ 1,1 bilhão.   Recursos que serão subtraídos justamente de setores que carregam nos ombros o desenvolvimento de Mato Grosso.

O conhecimento técnico-científico atual possui  capacidade de  controlar de maneira econômica e integrada as principais pragas que atingem as culturas.  Infelizmente, ainda não se conhece tratamento eficaz contra a praga representada pela ganância arrecadatória dos governos, que de maneira voraz e irresponsável avança sobre tudo e sobre todos, não importando os resultados destas desastrosas atitudes.  Sobre esta praga o professor Augusto Paiva Netto se esqueceu de alertar-nos.

Rogério Arioli Silva

Engº Agrºe Produtor Rural

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Rogério Arioli Silva

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