O agronegócio e o latifúndio de subsistência, por Roberto Gregori Jr.

Publicado em 21/03/2016 10:16
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Roberto Gregori Jr. é engenheiro agrícola pela Unicamp e Mestre em Agronomia pela Universidade de Bonn/Alemanha. Proprietário da Gregori Consulting Group atualmente atuando no Oeste da Bahia.

Nos últimos anos o agronegócio tem sido o responsável por grande parte do sucesso brasileiro na economia. Enquanto os setores de serviço e indústria tem sido afetados pelo mau humor decorrente do desgoverno federal, os produtores rurais têm se mantido firme em seu timão.

Vejamos a situação na produção de proteínas animal: A produção e as exportações de carne bovina, suína e de frango levaram à constituição de grupos altamente profissionalizados, que atuam no exterior adquirindo grupos concorrentes e se transformando em joias da coroa do agronegócio.

Entretanto, chama-me a atenção para uma fatia do agronegócio, formado em sua maioria por antigos pequenos produtores ou seus descendentes. Esses produtores detêm, em sua maioria, grandes extensões de terra, possuem um grande conhecimento agrícola, mas não se vem como gestores rurais: A sucessão e a continuidade da tradição familiar têm um peso grande na formação do seu perfil e muitos deles não se identificam com a necessidade de se assumirem como líderes de seu negócio.

Costumo relacionar estas propriedades rurais com as empresas estabelecidas nas cidades: Muitas destas faturam acima de vinte milhões de reais por ano e ao compararmos estas com seus pares urbanos, estes últimos possuem no mínimo um departamento financeiro e RH bem estruturado, com pelos menos um gerente administrativo-financeiro e auxiliares. Este departamento faz as vezes da gestão de pessoal, contas a pagar, a receber, prepara a contabilidade e o mais importante, faz a gestão de caixa e de investimentos.

Nesta fatia do agronegócio, este departamento praticamente não existe ou é ocupado apenas por uma assistente encarregada de juntar as notas fiscais, pagar as contas e manejar o arquivo. O produtor rural então, envolvido pelas urgências da lavoura, dá pouca atenção ao aspecto mais importante de sua atividade: a gestão financeira e econômica.

Eu cunhei a expressão “Latifúndio de Subsistência” para definir esta ausência de gestão financeira e econômica. Se no passado eles detinham uma pequena parcela de terra para a sua sobrevivência, hoje com grandes extensões produtivas, a gestão financeira se manteve inalterada, apesar do alto volume de recursos envolvidos. Eles saíram da pequena propriedade, mas é necessário que a pequena propriedade saia da mentalidade gerencial dos mesmos.

O endividamento destes grupos chama a atenção e está colocando em risco a continuidade da atividade agrícola. Como a liquidez e o crédito disponível vão diminuindo e seu patrimônio está imobilizado em terras, o produtor se vê, muitas vezes, incapaz de custear sua próxima safra. É somente neste momento que ele se dá conta que algo está errado e precisa de socorro.

Este socorro muitas vezes chegará tarde, encerrando a atividade familiar rural que muitas vezes vem de várias gerações. Com a disponibilidade de administradores formados neste país, o Brasil possui os recursos humanos suficientes para virar o jogo nesta fatia do agronegócio. Despertar para esta necessidade será imprescindível para que o latifúndio de subsistência seja transformado em uma empresa rural e garanta sua continuidade pelas gerações futuras.

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Fonte: Roberto Gregori

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