Não a importação de café - temos estoques, por Armando Matiello

Publicado em 05/12/2016 09:10 e atualizado em 05/12/2016 09:46
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Armando Mattiello é Presidente da SINCAL, Engenheiro Agrônomo com MBA na FVG em Agribusiness e Produtor Rural em Guapé/MG

O Setor industrial brasileiro vem clamando a importação de café, principalmente, a ABICS (Associação Brasileira da Indústria de Café solúvel) e a ABIC (Associação Brasileira da Indústria de café). Alegam que é inevitável à importação do CONILON dado a seca do Espírito Santo. Querem atender a demanda, do solúvel, no mercado interno e também para as exportações. A argumentação que os preços são proibitivos e que poderão acessar a matéria prima em outros países produtores concorrentes do Brasil.

Preços proibitivos? Um verdadeiro descalabro essa afirmativa, demonstrando claramente que querem café barato prejudicando o setor produtivo. Inaceitável!!! Sabemos que os maiores produtores de CONILON são o Vietnã e Indonésia. O café do Vietnã é produzido sem nenhuma sustentabilidade tanto social como ambiental. Do lado social, os trabalhadores rurais, daquele país, recebem US$ 30-40/mensal numa verdadeira escravidão humana. O Brasil será o fomentador da pobreza e das condições sub-humanas? Do lado ambiental sabemos que as leis ambientais daquele país são frouxas. Portanto, exigimos sustentabilidade dos cafeicultores Brasileiros e, somos complacentes com os concorrentes? Além do que, a maioria do CONILON do Vietnã tem excesso de umidade e muitos cafés de péssima qualidade. Com relação à Indonésia que produz ao redor de 12 milhões de sacas/ano, dado ao El Nino, produzirá 30% a menor e terão pouco café a exportar.

Somando as produções de café do Brasil, Vietnã, Colômbia e Indonésia chegarão ao redor de 110 milhões de sacas de café, ou quase 75% da produção mundial. Nesses cálculos, o faltante da produção mundial, de 150 milhões de sacas sobra para uma gama extensa de países com produções, praticamente, residuais quando comparado aos 75% da produção Mundial nos 4 (quatro) países citados. Concluímos que não há tanto café no mundo como se preconiza. O Brasil, sem dúvida alguma, é o país que possui o maior estoque de café do mundo. Tendo o maior estoque, por que importar café? Além disso, não sabemos qual é o nosso estoque internamente nas mãos das cooperativas, exportadores, traders, Armazéns Gerais e dos produtores. Como abrir a importação se não conhecemos os nossos estoques que são praticamente “segredos de estado”?

A Importação de café, com certeza, não atenderá as pequenas torrefadoras e, a centenas de marcas comerciais pulverizadas no território brasileiro. A Indústria de torrefação está centralizada, verdadeiro oligopólio, composto de 5 a 6 torrefadoras de capital estrangeiro como da Alemanha, Israel, Japão entre outros. Com isso, o café que deveria ser importado, estaria a atender o estrangeiro em detrimento ao capital nacional. Portanto, esse fator é de suma relevância confirmando mais uma vez que o negocio Agrocafé está desprovido de gestão por parte de nossas lideranças e do próprio MAPA. 

O Ministério da Agricultura e outras regulamentadores só deverão permitir importação a partir do conhecimento real do estoque elaborados por firmas credenciadas, renomadas como KPMG, S.G.S, Pricewaterhouse ou mesmo o nosso PROCAFÉ que goza de excelente credibilidade. Da CONAB é desacreditado pela classe produtora, pois, o levantamento da CONAB é realizado de forma empírica. Portanto, como representantes dos cafeicultores, somos totalmente contra a importação enquanto não tivermos números críveis do estoque interno. Sabemos e estamos cansados, de uma política cafeeira caótica, e, acostumada a nos tratar como um segmento a serviço do setor comercial que é explorador e mantém os números fechados.

Temos o direito de pensar, pelo exposto, que, pode-se tratar de uma estratégia para importar uma quantidade que somado a safra menor de 2017, faz-se uma ponte para atravessar o próximo ano e, chegando a 2018, ano de possível safra alta e, com isso mantendo esses preços baixos e, ou ainda provocar quedas dos preços.

Outro aspecto importante foi o grande prejuízo dado aos cafeicultores e a Nação pagando preços aviltados em anos anteriores, como exemplo, 2013 que vendemos o CONILON na faixa de R$ 150,00 a R$ 180,00/saca e o arábica de R$ 220,00 a R$ 250,00/saca. Tínhamos recursos suficientes, do FUNCAFÉ, para regulagem de fluxo e estocagem visando uma emergência. As nossas lideranças são lenientes. Se tivessem estocado, no preço mínimo ao redor de R$ 312,00/ saca, elevaríamos os preços de exportação e, ao final um possível montante/faturamento superior aos baixíssimos preços que vendemos no mercado internacional, provocando dumping. No caso do arábica, agora, teríamos café na faixa de R$ 530,00/saca capitalizando o FUNCAFÉ com R$ 2.000.000.000,00 (Dois Bilhões), com uma estocagem por exemplo de 10(dez) milhões de sacas. Estamos citando apenas um ano. Calculem esse prejuízo no decorrer de 20 anos que praticamos a mesma política. Podemos concordar com isso? Nunca concordaremos! Teríamos irrigado as regiões cafeeiras melhorando o IDH, aumentando o rendimento dos trabalhadores rurais e a economia de cada município produtor. Ao final com essa política cafeeira lesa a pátria, os cafeicultores foram os maiores prejudicados.

Encerro com a frase do ministro da Agricultura Dr. Blairo Maggi, que ouvi pessoalmente, no mês passado: “A política do café precisa mudar e separar os elos envolvidos porque o maior sofredor é o produtor que tem o sol e o suor no rosto”. Portanto, o Ministro Blairo Maggi, nos deu esperança e força para mudarmos o status quo!!!

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Fonte: Sincal

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