Dólar bate novo recorde depois de superar R$ 4,50 com tensão externa por coronavírus

Por José de Castro
SÃO PAULO (Reuters) - O dólar fechou em nova máxima histórica nominal nesta quinta-feira, chegando a superar 4,50 reais durante os negócios pela primeira vez, em meio a uma forte onda global de aversão a risco conforme se multiplicaram avaliações de que o coronavírus reduzirá o crescimento econômico mundial e afetará a atividade também no Brasil.
O Bank of America reduziu nesta quinta-feira sua perspectiva de crescimento econômico para o Brasil em 2020 para menos de 2%, enquanto o JP Morgan cortou a projeção ainda mais abaixo dessa linha, que muitos observadores dizem ser altamente sensível para o governo do presidente Jair Bolsonaro.
Um porta-voz do Fundo Monetário Internacional dissera mais cedo que o coronavírus claramente terá um impacto no crescimento econômico global e o FMI provavelmente reduzirá sua previsão de crescimento como resultado.
O real já vem sofrendo neste mês diante da piora nos cenários para a economia do Brasil, que reduzem o ânimo com a recuperação e, por tabela, podem prejudicar adicionalmente o quadro para fluxo cambial.
"O real piora mais, pois o governo/BC aqui acham que (a moeda) tem que desvalorizar", disse o gestor de um grande fundo em São Paulo, citando ainda aumento de ruídos políticos locais entre Executivo e Legislativo.
O dólar à vista fechou em alta de 0,70%, a 4,4751 reais na venda, com folga superando o recorde anterior, de 4,4441 reais, alcançado na véspera.
Às 11h39, a cotação bateu 4,5030 reais, pico histórico intradia.
A alta da moeda nesta sessão é a sétima consecutiva, período em que acumulou ganho de 4,04%. É a mais longa série do tipo desde os também sete pregões de valorização entre 15 e 23 de agosto de 2018, quando o dólar somou alta de 6,62%.
No acumulado de 2020, o dólar dispara 11,52% ante o real, com a moeda brasileira amargando o pior desempenho dentre 33 pares do dólar. Em fevereiro, a alta é de 4,42%, a mais forte para o mês desde 2015 (+6,19%).
Tamanha valorização, contudo, já atrai algumas recomendações de compra para o real. A firma independente de investimento privado MRB Partners diz que o real já está excessivamente depreciado. Veja imagem a seguir:
Mais cedo, em ação de apoio ao real, o Banco Central vendeu 1 bilhão de dólares em contratos de swap cambial tradicional para conter a volatilidade. Na véspera, a autoridade monetária havia colocado 500 milhões de dólares nesses ativos, também em oferta líquida.
Estrategistas do Citi disseram terem visto fluxos de recursos em busca de retornos depois de o BC ter retomado as vendas de swaps, desde 13 de fevereiro. "Isso sugere que a performance mais fraca do real pode estar perto do fim", disseram em relatório.
Dólar desacelera alta após bater em R$ 4,50, mas fecha em novo nível recorde (Estadão Conteúdo)
Após bater em R$ 4,50 no início da tarde, a valorização do dólar perdeu um pouco de fôlego e a moeda fechou em R$ 4,47, novo recorde histórico. A preocupação com o coronavírus seguiu como foco principal dos investidores e declarações do governo de Israel, de que o país está prestes a desenvolver a primeira vacina, ajudaram a trazer algum alívio temporário no mercado internacional. Aqui, operadores ressaltaram que os ruídos políticos ganharam hoje peso importante para o enfraquecimento do real, com o temor de que as manifestações de apoio do governo atrapalhem a aprovação de reformas, mesmo aquelas dadas como certas, como a independência do Banco Central. No mercado à vista, o dólar fechou em alta de 0,79%, a R$ 4,4764, a sétima alta seguida e novo recorde histórico. No início da noite, o BC anunciou novo leilão extra de dólar para a manhã desta sexta-feira, de US$ 1 bilhão.
A moeda americana sobe 4,47% no mês, isso depois de ter registrado alta de 6,8% em janeiro. Assim, o real é a moeda com pior desempenho no mercado internacional no mês e no ano, considerando uma cesta de 34 divisas fortes e emergentes.
O sócio-fundador da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, ressalta que o dólar vem se fortalecendo no mundo todo, por causa da aversão ao risco gerada pelo avanço do coronavírus. Mas a convocação feita pelo presidente Jair Bolsonaro no WhatsApp para protestos contra o Congresso, no próximo dia 15, agravou a situação, fazendo o risco-País subir. O Credit Default Swap (CDS) de cinco anos do Brasil bateu hoje em 133 pontos, alta de 40 pontos em relação a segunda-feira, chegando ao maior nível desde outubro.
Marcatti diz que a busca de proteção no câmbio por tesourarias também ajuda a pressionar a moeda americana. Já o BC hoje colocou mais US$ 1 bilhão no mercado em dinheiro novo, via swap cambial (venda de dólar no mercado futuro). Ontem, havia injetado US$ 500 milhões.
Para um ex-diretor do BC, a estratégia da instituição para o câmbio deixa claro que o BC não quer mudar a tendência do mercado ou determinar um preço para o dólar. O objetivo é dar liquidez, disse ele, destacando que esta semana a visão é que a demanda maior estava no mercado futuro e não no à vista. Por isso, a opção por swap. Ele avalia que o discurso do governo não ajuda, ao não mostrar pragmatismo e ainda gerar ruídos desnecessários, que repercutem mal aqui e lá fora. Ele avalia que o investidor estrangeiro não vai voltar enquanto "o crescimento econômico não começar a impressionar".
Por enquanto, bancos seguem cortando as estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Hoje foi o Bank of America Merrill Lynch que reduziu de 2,2% a 1,9% a estimativa de alta em 2020. Já o dólar deve ficar em R$ 4,00 ao final deste ano, prevê o banco americano.
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