Cacau: Suspensão temporária das importações não elimina impactos recentes sobre preços internos
No campo, produtores enfrentam uma realidade cada vez mais desafiadora: custos elevados, perda de rentabilidade, margens comprimidas e um ambiente de mercado marcado por instabilidade e insegurança.
O setor convive hoje com uma combinação de fatores que ameaça diretamente o equilíbrio econômico da atividade.
A retração da demanda por cacau figura entre as principais preocupações. Parte desse movimento decorre de mudanças estruturais na indústria, especialmente a substituição do cacau e da manteiga de cacau por gorduras vegetais alternativas em produtos comercializados como chocolate. Em muitos casos, observa-se apenas a alteração da denominação para “sabor chocolate”, reduzindo significativamente o uso efetivo da amêndoa.
Paralelamente, a chegada de navios carregados com cacau africano amplia a pressão sobre o mercado interno. Em um cenário já marcado por estoques elevados, essas entradas adicionais contribuem para o excesso de oferta, aprofundando o deságio e pressionando ainda mais os preços pagos ao produtor nacional.
Contexto reforça percepção de concorrência desleal
O Brasil opera sob rigorosos padrões ambientais, trabalhistas e sanitários, que representam avanços indispensáveis, mas que também elevam custos e exigências produtivas. Ao mesmo tempo, o cacau importado ingressa muitas vezes sob realidades produtivas distintas, criando distorções competitivas relevantes.
Mesmo com a recente suspensão temporária das importações medida relevante, porém transitória os impactos da entrada de cargas anteriores já foram absorvidos pelo mercado. A chegada de navios e a formação de estoques elevados ampliaram o excesso de amêndoas, pressionando preços e agravando a deterioração da renda no campo.
Mas a crise não é apenas econômica.
Existe uma preocupação crítica e silenciosa com os riscos fitossanitários. A possível introdução de patógenos presentes em países africanos, como Phytophthora megakarya e o vírus do broto inchado do cacaueiro, representa ameaça real à produtividade, à estabilidade da produção e à segurança sanitária das lavouras brasileiras.
O impacto potencial de uma contaminação dessa natureza seria devastador.
Desde sua fundação, em 2022, a Associação Nacional dos Produtores de Cacau (ANPC) vem alertando de forma consistente para os riscos e desequilíbrios que hoje se intensificam no setor.
Entre as principais reivindicações defendidas pela entidade destacam-se:
* Revogação da Instrução Normativa 125
* Importações condicionadas à comprovação objetiva de necessidade
* Rigor absoluto na proteção fitossanitária
* Combate às distorções de mercado e ao deságio
* Previsibilidade regulatória e transparência nas políticas de comércio exterior
* Previsibilidade de safra, como instrumento essencial para planejamento e estabilidade de mercado
* Valorização do cacau nacional
* Reconhecimento da sustentabilidade da produção brasileira
O atual cenário também impõe uma reflexão inevitável.
Como grandes grupos globais do setor chocolateiro frequentemente associados ao discurso de sustentabilidade — podem sustentar essa narrativa enquanto avançam na substituição do cacau por gorduras vegetais e adotam estratégias que reduzem o consumo efetivo da matéria-prima que sustenta milhares de produtores?
Sustentabilidade não pode ser apenas um conceito de comunicação.
Ela exige coerência entre discurso, formulação de produtos, práticas comerciais e valorização efetiva da cadeia produtiva.
É fundamental lembrar que o cacau brasileiro é produzido majoritariamente em sistemas sustentáveis, especialmente em arranjos agroflorestais que preservam a floresta, promovem biodiversidade, capturam carbono e sustentam milhares de famílias agricultoras.
Se esse processo de desestruturação econômica persistir, as consequências poderão ultrapassar a esfera do mercado.
A perda de viabilidade da cacauicultura tende a induzir mudanças no uso da terra, com risco real de substituição de sistemas agroflorestais por atividades de menor complexidade ambiental, como a pecuária extensiva.
Esse movimento representaria um impacto significativo justamente em regiões onde o cacau exerce papel estratégico na conservação dos principais biomas produtores especialmente a Mata Atlântica e a Amazônia.
Além do efeito ambiental, o enfraquecimento da atividade pode desencadear um novo ciclo de êxodo rural, ampliando pressões sociais, econômicas e urbanas.
O cacau, historicamente, não é apenas uma cultura agrícola.
É um vetor de renda, fixação do homem no campo e proteção ambiental.
Quando o cacau perde valor, não perde apenas o produtor.
Perde o campo, perde o meio ambiente, perde a economia regional e perde o país.
Diante desse cenário, a ANPC reforça a urgência de medidas estruturais que restabeleçam equilíbrio competitivo, segurança regulatória e estabilidade econômica para a cadeia.
E lança também um alerta à sociedade:
O consumo responsável é parte essencial dessa equação.
Valorizar produtos que utilizem efetivamente cacau e manteiga de cacau não é apenas uma escolha individual. É uma decisão que impacta diretamente a renda no campo, a sustentabilidade ambiental e a qualidade do alimento oferecido ao consumidor.
Defender o cacau brasileiro é defender produção sustentável, segurança sanitária, desenvolvimento regional e equilíbrio de mercado.
O momento exige atenção, responsabilidade e ação coordenada.
Porque os sinais de desgaste econômico já são visíveis e suas consequências podem ser amplas e duradouras.
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