Rastreabilidade bovina promete ampliar mercados e agregar valor à carne gaúcha
A identificação individual de bovinos foi apontada como estratégica para garantir acesso a novos mercados, agregar valor à carne e ampliar a competitividade do Brasil no comércio internacional. O tema foi debatido por representantes do governo, pesquisa e setor produtivo, com destaque para o projeto-piloto que será desenvolvido no Rio Grande do Sul como etapa preparatória para a implementação nacional prevista até 2032.
O Brasil possui cerca de 200 milhões de bovinos, o maior rebanho comercial do planeta, e lançou, em 17 de dezembro de 2024, o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, com a meta de que, a partir de 2032, toda movimentação de animais ocorra com identificação individual. No Rio Grande do Sul, que concentra aproximadamente 12 milhões de cabeças, a estratégia será construída a partir de testes práticos em propriedades rurais.
O secretário-adjunto da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Estado, Márcio Madalena, explicou que o projeto-piloto tem como objetivo testar o modelo antes da definição do plano estadual definitivo. “Esse processo tem que ser complexo o suficiente para atender as demandas mais exigentes de mercado em tendências internacionais, mas também tem que ser simples o suficiente para ser exequível por aquele produtor que não dispõe de tecnologia e manejo organizado”, afirmou.
Segundo ele, a proposta é “estressar o sistema”, avaliando tanto a capacidade tecnológica — como a emissão de Guia de Trânsito Animal (GTA) com identificação individual — quanto a adaptação dos diferentes perfis de produtores. “Nós só temos uma coisa com a qual não temos compromisso: o erro”, reforçou, destacando que o modelo será construído de dentro da porteira para o gabinete.
Atualmente, 15 propriedades já integram o sistema piloto, que conta com uma aba de gestão dentro do aplicativo para inserção de informações de manejo e outros dados produtivos. A expectativa é que o projeto contemple todo o Estado, com inscrições abertas para novos participantes. Cada unidade da federação terá seu próprio modelo, mas com integração nacional.
Para o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso, a identificação individual é um diferencial competitivo já reconhecido pelo mercado. “Rastreabilidade é o aspecto fundamental para o acesso ao mercado e a agregação de valor, e essa agregação já é realidade. Os produtores que têm rastreabilidade estão recebendo mais por esse produto”, destacou.
Ele também ressaltou ganhos adicionais, como o fortalecimento do controle sanitário e a melhoria da gestão dentro das propriedades. A identificação eletrônica, segundo Cardoso, permite acompanhar ganho de peso, histórico sanitário e movimentação dos animais, além de ampliar a responsabilidade sobre o cumprimento de protocolos, especialmente em mercados exigentes como a União Europeia.
Pedro Piffero, pecuarista e presidente do Conselho Técnico Operacional da Pecuária de Corte do Fundesa, enfatizou que o modelo proposto difere de experiências anteriores. “Tudo que está sendo proposto hoje é diferente. É uma rastreabilidade com foco sanitário, que pode aderir a protocolos econômicos e ambientais, mas que respeita a individualidade do produtor”, explicou. Para ele, o projeto-piloto permitirá ajustes necessários antes da implantação definitiva. “Qualquer coisa que se começa dá erro. O piloto vai nos dar tempo para errar e corrigir.”
A fiscal estadual agropecuária da Secretaria da Agricultura (Seapi), Rosane Collares, destacou que a rastreabilidade é requisito recorrente nas negociações internacionais. “A partir de 2020, com a visita de missões internacionais, grande parte delas manifestava claramente: ‘rastreabilidade é o que nós compramos de vocês’”, relatou.
Segundo Rosane, o Rio Grande do Sul tem características semelhantes às da Argentina e do Uruguai, países que já operam com alto nível de identificação individual e fidelização junto a mercados premium. “O Uruguai tem 100% do rebanho rastreado, e a Argentina já possui grande parte. Nós precisamos garantir aos parceiros comerciais um sistema confiável e, ao mesmo tempo, simples para o produtor rural”, afirmou.
Historicamente, a ausência de identificação individual limitou o acesso a determinados mercados e reduziu o potencial de remuneração diferenciada à carne gaúcha. Com o avanço do plano nacional e a construção do modelo estadual, a expectativa é ampliar a inserção do Rio Grande do Sul em mercados mais exigentes.
Além do acesso comercial, os participantes destacaram que o consumidor final exige cada vez mais alimento seguro, de qualidade e com origem comprovada. Nesse contexto, a identificação individual se consolida como ferramenta para garantir transparência e controle sanitário.
A meta é que o sistema estadual esteja estruturado antes do prazo nacional de 2032, permitindo que o Rio Grande do Sul se antecipe às exigências do plano federal.
A 36ª Abertura Oficial da Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas ocorre na Estação Experimental Terras Baixas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em Capão do Leão (RS). O evento é promovido pela Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), com correalização do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) e patrocínio do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga). A programação está disponível em www.colheitadoarroz.com.br.
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