El Niño, frio e chuvas: o que o clima pode trazer para a safra de cana
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A safra 2026/27 de cana-de-açúcar começou sob um cenário climático mais favorável para o desenvolvimento das lavouras no Centro-Sul do Brasil, principal região produtora do país. Apesar de episódios localizados de excesso de chuva e da recente entrada de uma frente fria que levou temperaturas baixas e até geadas em algumas áreas, analistas avaliam que, até o momento, o impacto sobre a produção é limitado.
As estimativas para a nova temporada seguem otimistas. A consultoria StoneX elevou sua projeção para a safra 2026/27 do Centro-Sul para 632,2 milhões de toneladas, acima da previsão divulgada em março, de 620,5 milhões de toneladas, e também superior às 621,9 milhões de toneladas registradas na safra passada. Segundo a consultoria, as boas condições climáticas devem favorecer o aumento da produção, com parte do excedente de cana sendo direcionado para a fabricação de etanol.
Chuvas reduzem ritmo no Centro-Sul
Embora o cenário geral seja positivo, algumas regiões enfrentaram dificuldades operacionais devido às precipitações mais intensas desde abril.
De acordo com Felippe Reis, analista de culturas da EarthDaily, Mato Grosso do Sul e Paraná foram os estados mais impactados pelas chuvas, que reduziram a janela de trabalho no campo e afetaram o ritmo de colheita e moagem.
“As condições climáticas desde o início de abril vêm impactando pontualmente o ritmo de colheita e moagem em algumas áreas do Centro-Sul, principalmente em Mato Grosso do Sul e Paraná, onde as chuvas mais volumosas reduziram a janela operacional das usinas”, afirmou.
Segundo o analista, nesses estados as precipitações interromperam ou reduziram significativamente as operações por cerca de três dias em abril e outros três dias entre 1º e 11 de maio.
Ainda assim, Reis destaca que o cenário atual é menos restritivo do que o registrado no mesmo período do ano passado.
“No mesmo período de 2025 houve registro de chuvas volumosas em aproximadamente 10 dias nessas regiões, indicando que, apesar dos impactos recentes, o cenário atual ainda é menos restritivo do que o observado no ano passado”, explicou.
No restante da região canavieira do Centro-Sul, as chuvas ocorreram de forma mais limitada e insuficiente para provocar paralisações prolongadas. A principal exceção foi o sudoeste paulista, especialmente entre Presidente Prudente e Itapetininga, onde as precipitações podem ter provocado até quatro dias de interrupção operacional entre abril e maio.
Frio e El Niño entram no radar
Outro fator que passou a preocupar parte do setor foi a recente onda de frio registrada em algumas áreas produtoras, com temperaturas abaixo de 6°C.
Segundo Felippe Reis, ainda é necessário monitorar os efeitos dessas temperaturas mais baixas sobre os canaviais.
“Apesar de episódios curtos de frio nem sempre resultarem em danos relevantes, temperaturas mais baixas podem afetar temporariamente o desenvolvimento das lavouras e alterar a dinâmica de ATR em algumas regiões”, afirmou.
Além das condições atuais, o mercado também acompanha a possibilidade de formação de um evento de El Niño nos próximos meses.
Segundo o analista, alguns centros meteorológicos internacionais já indicam um possível fortalecimento do fenômeno climático.
“Um eventual fortalecimento do fenômeno pode alterar os padrões de chuva e temperatura em parte da região canavieira do Brasil, além de outras importantes áreas produtoras globais, como Índia e Tailândia”, disse.
Apesar disso, Reis pondera que ainda é cedo para dimensionar os possíveis impactos sobre a safra brasileira.
Tendência é de menos chuva nos próximos meses
A meteorologista Giovana Barbosa, do Clima no Zap, ressalta que os dados climáticos mais recentes já indicam redução das chuvas nas principais regiões produtoras de cana do país.
“Como estamos em El Niño, a tendência é que nos próximos meses tenhamos cada vez menos chuvas nas áreas produtoras do Sudeste e
Centro-Oeste”, afirmou.
Segundo a meteorologista, dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) mostram que, já no último trimestre (entre fevereiro e abril), importantes áreas produtoras registraram precipitações abaixo da média histórica.
“Nos meses considerados chuvosos e também na transição para o período seco já choveu abaixo do normal em áreas produtoras de cana-de-açúcar, principalmente no estado de São Paulo e no Triângulo Mineiro”, explicou.
Maior oferta deve ampliar produção de etanol
Com a expectativa de maior disponibilidade de matéria-prima, o setor também projeta mudanças no perfil de produção da safra 2026/27.
Segundo a Datagro, apesar da produção de açúcar permanecer praticamente estável, em torno de 40,7 milhões de toneladas, a fabricação de etanol deve avançar cerca de 4,6 bilhões de litros no novo ciclo.
A avaliação é de que parte maior da cana será direcionada ao biocombustível, em um movimento estratégico das usinas diante do cenário de mercado.
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