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A balança comercial do agro frente às turbulências internacionais, por Agroanalysis/FGV

Publicado em 08/11/2019 15:26 e atualizado em 20/11/2019 10:08
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De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2019, o crescimento da economia mundial será o menor dos últimos dez anos. Uma das principais causas é a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. Como consequência, as exportações brasileiras caíram 6% no acumulado de janeiro a agosto de 2019 em comparação a 2018. O agronegócio ainda contribui fortemente para o resultado das contas externas do Brasil.

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De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia mundial deverá expandir apenas 3% em 2019 – o menor crescimento desde 2008. Entre as explicações para o modesto crescimento, merecem destaque os atritos comerciais entre os Estados Unidos e a China. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), devido a esse conflito comercial, o valor exportado pelas vinte maiores economias do mundo (G20) no primeiro semestre deste ano (dado mais recente disponível) foi 2,4% menor do que no mesmo período de 2018.

 

Obviamente, o Brasil não está fora desse contexto. No acumulado no ano até agosto, as exportações brasileiras registraram uma contração de 6,0%, impactadas, além da contração do comércio mundial, pelos problemas da Argentina.

 

COMO ESTÃO AS EXPORTAÇÕES DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO?

 

Entre janeiro e agosto deste ano, o valor total das exportações do agronegócio brasileiro acumulou uma retração de 7,0%. Essa contração é puxada tanto pelas atividades agropecuárias, que estão exportando 6,2% menos do que em 2018 (até agosto), como pela agroindústria, que teve o valor das suas vendas externas reduzido em 7,6% no período.

 

Contudo, como o setor agropecuário e a agroindústria não são unidades homogêneas, é necessário analisar esses setores detalhadamente.

 

ATIVIDADES AGROPECUÁRIAS: EXPORTAÇÕES EM QUEDA INFLUENCIADA PELA SOJA

 

Em relação às atividades agropecuárias, é a soja que está puxando o valor exportado para baixo. Além de responder por uma fração relevante dos embarques do agronegócio nacional (68,6%), as exportações de soja registraram uma forte contração (-20,3%) entre janeiro e agosto deste ano. É válido destacar que, provavelmente, essas exportações foram fortemente impactadas pelos problemas decorrentes da peste suína africana, que afetou, sobretudo, a China.

 

A retração das vendas externas das atividades agropecuárias só não foi mais expressiva especialmente por conta do milho (classificado no setor de cereais), cujas exportações já acumularam alta de 153,5% no ano.

 

AGROINDÚSTRIA: CONTRAÇÃO DAS EXPORTAÇÕES PUXADA PELOS PRODUTOS ALIMENTÍCIOS

 

Em relação à agroindústria, o setor que está levando as suas vendas externas para baixo é o de produtos alimentícios. A importância desse setor para o resultado das exportações agroindustriais deve-se tanto à magnitude da sua contração (-12,0% no acumulado do ano), como à sua participação (57,1%) no total do valor exportado pela agroin- dústria. Dentro do grupo de produtos alimentícios, a contração foi observada tanto entre os alimentos de origem animal (-4,3%), como entre os alimentos de origem vegetal (-18,7%)

 

Essa forte contração entre os alimentos de origem vegetal é explicada pela redução dos embarques, de um lado, de óleo e de farelo de soja (setor de óleos e gorduras) e, de outro, de açúcar. O setor de óleos e gorduras representa 45,7% do valor exportado dos alimentos de origem vegetal e apresentou uma contração de 18,8% no ano. O setor de refino e produção de açúcar, por sua vez, registrou uma contração de 22,3% das suas vendas externas. É importante lembrar que, em 2019, problemas climáticos prejudicaram a produção de cana-de-açúcar.

 

COMO ESTÃO AS IMPORTAÇÕES DO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO?

 

Apesar da desvalorização cambial e do limitado crescimento econômico brasileiro, as importações do agronegócio acumulam um crescimento de 3,7% no ano, sendo que tanto as atividades agropecuárias (1,0%) como a agroindústria (4,2%) contribuíram positivamente para essa expansão.

 

ATIVIDADES AGROPECUÁRIAS: EXPANSÃO DAS IMPORTAÇÕES INFLUENCIADA PELAS COMPRAS DE TRIGO

 

Nas atividades agropecuárias, o setor que puxou as importações para cima foi o de cereais (essencialmente, trigo). Esse é o principal setor importador das atividades agropecuárias brasileiras, responsável por 44,1% do valor importado. No acumulado do ano até agosto, as suas compras externas aumentaram em 7,7%. O crescimento dessas importações pode ser um reflexo da safra interna menos favorável, também comprometida por fatores climáticos.

 

AGROINDÚSTRIA: CRESCIMENTO DAS IMPORTAÇÕES DE INSUMOS

 

Em relação às importações agroindustriais, o setor que mais contribuiu para o seu crescimento foi o de insumos. Além de representar 48,0% do valor total importado no ano pela agroindústria, as importações de insumos registraram uma expansão expressiva de 15,5% no período. Esse aumento das importações de insumos mesmo em um momento de depreciação da moeda nacional é, possivelmente, um reflexo dos produtores preparando-se para a próxima safra, visto que, de acordo com o boletim Focus, o Produto Interno Bruto (PIB) da agro- pecuária é o que deve registrar o maior crescimento (2,7% a.a.) em 2020.

 

BALANÇA COMERCIAL DO AGRONEGÓCIO: AINDA CONTRIBUINDO FORTEMENTE PARA AS CONTAS EXTERNAS

 

Em consequência da queda do valor das exportações e do aumento das importações do agronegócio, a balança comercial do setor registrou uma retração de 11,5%, passando de US$ 49,9 bilhões, em 2018 (até agosto), para US$ 44,1 bilhões, em 2019 (mesmo período), permanecendo, contudo, superavitária. Tanto as atividades agropecuárias como a agroindústria puxaram o crescimento da balança comercial do agronegócio para baixo, uma vez que ambas apresentaram contração no valor dos seus saldos comerciais.

 

As atividades agropecuárias registraram uma redução da sua balança comercial em 6,9% no ano. Esse setor é o principal responsável pelo superávit do saldo comercial do agronegócio, respondendo por 61,3% do total (US$ 27,0 bilhões). A agroindústria, do mesmo modo, registrou uma contração significativa do seu superávit comercial no ano, de 18,0%. Apesar de ainda ter se mantido superavitário, o saldo comercial desse setor passou de US$ 20,8 bilhões, em 2018, para US$ 17,1 bilhões, em 2019.

 

Portanto, fica evidente que o Brasil não está passando ileso pela tensão comercial entre os Estados Unidos e a China, uma vez que o comércio internacional está ficando mais restrito. Além disso, o Brasil sofre com as consequências dos problemas na Argentina. No entanto, o agronegócio brasileiro continua – com a sua balança comercial significativamente positiva – sendo responsável por uma parte importante do superávit comercial brasileiro acumulado em 2019, de US$ 31,4 bilhões.

 

Para acompanhar todas as informações disponibilizadas pela revista Agroanalysis, clique aqui.

Por: Roberta Possamai, Felippe Serigati, Kellen Severo
Fonte: Agroanalysis/FGV

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