Rio+20: ONGs se dedicam a fechar negócios

Publicado em 24/06/2012 20:03 437 exibições


Longe das discussões políticas e da retórica anticapitalista de alguns, a Rio+20 pode ser considerada um sucesso para ONGs e empresas que apostaram no evento como oportunidade de concretizar parcerias e projetos.

No último dia da conferência, o secretário-geral da ONU para a Rio+20, Sha Zukang, anunciou que durante os eventos oficiais foram firmados cerca de 700 compromissos voluntários entre ONGs, empresas, governos e universidades. Isso significa um investimento de US$ 513 bilhões para ações de desenvolvimento sustentável nos próximos dez anos.

Mais que partilhar experiências e discutir práticas sustentáveis, para muitas instituições a Rio+20 se transformou em fórum de fomento a projetos, acordos de cooperação e negócios.

É o caso do Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA), atuante no interior do Rio, que aproveitou a Cúpula dos Povos para firmar parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e se tornar parte de um ambicioso projeto que pretende restaurar 1,5 milhão de km² de florestas no mundo até 2020. Somente no Brasil, pretende-se recuperar 10 mil km², quase o dobro do desmatamento registrado na Amazônia em 2011. Ao ITPA ficará a responsabilidade de recuperar mil hectares de Mata Atlântica - 0,1% da meta brasileira.

"Vamos fazer parte dessa aliança mundial e estamos levantando áreas e dimensionando a equipe", diz o cofundador do Itpa, Maurício Ruiz, que dobrará seu quadro de funcionários, atualmente de 130 pessoas. De acordo com a IUCN, essa meta mundial possibilita injetar mais de US$ 80 bilhões nas economias nacionais e globais.

Na outra ponta, empreendedores também vislumbram o mercado verde, oferecendo consultoria para empresas que buscam reduzir a ineficiência em seus processos. "Mostramos que a redução dos custos passa pela redução do impacto ambiental", afirma Krishnamurti Evaristo, da empresa de consultoria Vaporenge.

Novo perfil. A transformação dos eventos da Rio+20 em espaço de interação e negócios também revela a mudança no perfil de atuação das ONGs nos últimos20 anos. Se em 1992 as instituições do terceiro setor se caracterizavam pela informalidade, forte apelo ideológico e pouca estrutura, hoje muitas contam com organização profissional e modelos empresariais de prestação de contas e financiamento.

A avaliação é de Reinaldo Bugarelli, coordenador do curso de gestão do terceiro setor da FGV. Para ele, que participou da conferência em 1992, as parcerias e contatos feitos na conferência são um efeito colateral positivo em função da tecnologia de gestão e agendas entre ONGs mais estruturadas e as pequenas associações. Bugarelli indica que a busca de financiamento nas empresas acabou por influenciar a estrutura das instituições.

Gestão. "As organizações adotaram à imagem e semelhança o modelo de gestão dessas empresas, para ser mais efetivas, demonstrar resultados. Isso acaba por tirar um pouco da criatividade e da energia transformadora das instituições, da sua inovação no pensamento da sociedade", avalia.

É com esse pragmatismo que pretende atuar o Grupo de Trabalho Novas Fronteiras para Cooperação do Estado do Maranhão, que desde 2004 funciona como rede de articulação entre ONGs de 84 municípios que desenvolvem atividades de agricultura familiar, gestão de resíduos, preservação das matas ciliares e extrativismo - especialmente do babaçu, uma das principais atividades econômicas de pequenas comunidades da região.

"Nosso foco é inserir o processo econômico dentro da preservação do meio ambiente", afirma Edval Oliveira, diretor de articulação institucional do grupo. Oliveira veio à Rio+20 com 13 conselheiros e aproveitou a visita para selar cinco parcerias com pequenas empresas no espaço SebraeTec, no Aterro do Flamengo. Elas prestarão consultoria à ONG, com apoio do Sebrae, em qualificação profissional, eficiência energética, medição de carbono e tecnologias sustentáveis. O próximo passo, segundo Oliveira, é difundir esse conhecimento nas cooperativas e associações de produtores, fechar parcerias institucionais com governos e desenvolver estratégias de captação de recursos para viabilizar todas essas medidas.

Apoio. E para que a falta de dinheiro não seja um obstáculo à concretização dessas iniciativas, há entidades que atuam exclusivamente como apoio financeiro, como a Sitawi - Finanças do Bem, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) que oferece empréstimos abaixo do mercado e gestão de fundos sociais, para que ONGs não dependam apenas de doações.

No Brasil, as doações movimentam cerca de R$ 10 bilhões por ano. É pouco comparado ao volume de empréstimo a pessoas jurídicas, que chega a R$ 1 trilhão por ano, segundo Leonardo Letelier, presidente da Sitawi. "Isso não quer dizer que crédito resolve todos os problemas nem que todas as organizações sociais deveriam fazer empréstimo. Quer dizer que esse recurso deveria estar disponível para quando fizer sentido", diz Letelier.

Sul-africano muda perfil do Greenpeace

Desde que foi nomeado dirigente do Greenpeace, há dois anos, o sul-africano Kumi Naidoo trabalha para ser aceito nas salas de reunião de diretorias de empresas para ganhar apoio das companhias à sua ampla agenda sobre mudanças climáticas e justiça social - apesar de seu grupo tentar preservar seu status de transgressor radical. É um jogo sofisticado de atuação por dentro e por fora que nem todos aprovam.

Naidoo, que perdeu os dentes quando era adolescente no movimento antiapartheid na sua Durban natal, não tem aversão à publicidade. Assegurou, por exemplo, que sua tentativa de abordar uma plataforma de petróleo no Oceano Ártico ao largo da Groenlândia, há um ano, fosse amplamente coberta pela mídia.

Ele fugiu da África do Sul quando jovem, após repetidas prisões e espancamentos por atividades antigovernamentais. Ganhou uma bolsa de estudos para a Universidade de Oxford, fez doutorado em sociologia e criou uma amizade duradoura com Susan E. Rice, a enviada do presidente Barack Obama às Nações Unidas.

Voltou à África do Sul e começou uma carreira como ativista de direitos civis e membro do conselho do Greenpeace África antes de ser recrutado, em 2009, para servir como diretor executivo da organização internacional.

Revitalização. A abordagem de Naidoo para revitalizar a ONG de 40 anos que vive algo como uma crise de identidade lhe rendeu muitos detratores. As críticas mais duras vêm de ex-funcionários do Greenpeace para os quais Naidoo está renegando as origens do grupo no movimento ambientalista e o transformando em uma máquina de levantar recursos e uma organização de assistência social.

Naiddo diz que durante muito tempo o movimento ambientalista foi um projeto de elites em países ricos que se importavam mais com a salvação de animais raros que com ajudar pessoas ameaçadas por pobreza e mudanças climáticas. E ele resolveu mudar o foco. "Desde que entrei nesse trabalho, fui acusado de traição. Mas sinto que a luta para acabar com a pobreza e para evitar uma mudança climática catastrófica são dois lados de uma mesma moeda."

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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