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No Estadão: O mercado de commodities e a balança comercial

Publicado em 04/07/2013 16:31 481 exibições
editorial de economia do jornal O estado de S. Paulo

A balança comercial do primeiro semestre apresentou déficit recorde de US$ 3 bilhões e, no que depender das commodities, não será surpresa se os resultados do segundo semestre decepcionarem. Nos primeiros seis meses do ano, os produtos primários - soja, milho, minério de ferro, café, entre outros - responderam por 47,6% das exportações, porcentual idêntico ao do primeiro semestre do ano passado. Ou seja, a contribuição dos primários é essencial para preservar as vendas externas.

Mas, segundo dados oficiais, os preços de commodities como soja em grão, minério de ferro e café apresentavam leve queda até meados de junho. Ainda pior, algumas análises mais recentes apontam para um cenário internacional menos favorável às commodities, justamente num período em que o Brasil depende de maiores exportações desses produtos para recuperar o equilíbrio da balança comercial.

Entre os fatores negativos mais evidentes para as cotações de commodities estão a alta dos juros nos Estados Unidos, antecipando-se a medidas previsíveis de contenção monetária, e a desaceleração superior à esperada na China. A remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano de 10 anos aumentou, entre 2 de junho e 2 de julho, de 2,12% ao ano para 2,46% ao ano. Na China, responsável por quase uma quarta parte das exportações brasileiras, os mais pessimistas já admitem que o crescimento do PIB poderá cair à casa dos 6%, neste ano, contra cerca de 10% ao ano, na última década.

Entre maio e junho, o Índice de Commodities Itaú registrou uma queda de 1,3%, liderada por metais básicos. Além disso, as perspectivas para o milho já não são tão favoráveis, dado o aumento além do previsto da área plantada nos Estados Unidos. Maior oferta poderá deprimir as cotações. Também se espera uma produção maior de soja, embora, no curto prazo (isto é, neste mês), tanto as cotações de milho como as de soja ainda mostrem resistência.

O Brasil dispõe de condições extremamente favoráveis para a produção de commodities - e também de semimanufaturados como açúcar e celulose -, mas depende do comportamento dos mercados internacionais. No caso das commodities alimentares, os riscos parecem ser menores, porque a demanda não poderá cair muito. No caso das demais commodities, não há muito a fazer.

Quaisquer dificuldades adicionais às exportações primárias, inclusive logísticas, poderão custar caro à balança comercial deste ano.

 

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O governo precisará de muito mais que reservas acima de US$ 370 bilhões, uma boa safra e um nível de emprego ainda elevado para enfrentar com alguma tranquilidade os próximos meses e - bem pior - a aproximação das eleições de 2014. Para avançar sem grande risco, a presidente Dilma Rousseff terá de reconquistar a confiança geral em sua política e, portanto, no futuro do País. Nenhum governo sem rumo preserva sua credibilidade por muito tempo, e a falta de rumo e de realizações relevantes é hoje evidente até para os menos informados. Os mais informados perceberam a piora do quadro econômico há muito mais tempo e isso explica a hesitação dos investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros. Mas o mal-estar é hoje muito mais amplo do que há alguns meses. A profusão de bandeiras e de cobranças nas manifestações de rua das últimas semanas é sintoma de algo muito mais sério que falta de foco. É uma reação às falhas dos administradores e políticos em todos os campos importantes para a maioria dos cidadãos, como a educação, a saúde, a tributação, o transporte, os preços ao consumidor e, naturalmente, a moralidade pública.

A crise maior é de confiança

Quem acompanha a economia percebe logo as turbulências em formação. Os dados continuam mostrando um cenário preocupante. As contas externas vão mal, o déficit comercial é disfarçado por exportações fictícias de equipamentos petrolíferos e o investimento direto estrangeiro é insuficiente para cobrir o rombo em transações correntes. Há um bom volume de reservas, mas ninguém pode prever quantos dólares serão necessários para conter uma crise de confiança mais grave. Um governo prudente evitaria esse risco.

Há uma forte ligação entre a piora das contas externas, a fraqueza da indústria e o baixo nível de investimento. A queda de 2% em maio quase anulou o pequeno crescimento da produção industrial no ano. Além disso, a fabricação de máquinas e equipamentos voltou a cair, indicando uma nova retração dos investimentos empresariais. Mesmo a recuperação registrada estatisticamente nos meses anteriores havia resultado, em boa parte, da maior demanda de caminhões e de equipamentos agrícolas. Havia sido, portanto, concentrada.

Também o consumo tem avançado mais lentamente, apesar do emprego ainda elevado e da oferta de crédito ainda generosa. Todos esses dados combinam perfeitamente com as últimas pesquisas sobre expectativas do empresariado industrial e dos consumidores.

Longos anos de baixo investimento diminuem a eficiência e a capacidade competitiva da indústria e, portanto, seu potencial de expansão. O incentivo ao consumo pode produzir alguma animação temporária, mas os poucos benefícios gerados por essa política - veja-se a estagnação dos últimos dois anos e meio - já se esgotaram. Sem investimento, a geração de empregos tende a ser menor e, de alguma forma, os consumidores percebem esse perigo, como têm indicado as pesquisas.

Diante da estagnação econômica, da inflação, dos protestos populares e da crise de confiança, o governo responde com a proposta de um plebiscito extemporâneo e com promessas de mais ações destinadas ao fracasso. O governo anuncia ao mesmo tempo a manutenção de incentivos ao consumo, truques contábeis para arrumar as contas públicas, improváveis cortes de gastos e mais impostos para reforçar as receitas do Tesouro. Bastaria isso para comprovar a desorientação da presidente e de sua equipe.

A falta de rumo e as decisões erradas também se refletem no declínio do Ibovespa, o principal índice da bolsa. Esse indicador, dizem especialistas, é distorcido pelo peso de algumas ações, como as da Petrobrás. Mas o mau estado dessa empresa é consequência inegável de intervenções desastradas do governo. O desastre do Grupo X - mais um estouro de bolha - também é mais que um evento de mercado. Afinal, o crescimento desse grupo foi em boa parte facilitado pelo apoio financeiro do governo e pela ação política do ex-presidente Lula - mais uma aposta errada.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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