Pesquisadores identificam novas pragas que podem atacar lavouras

Publicado em 01/08/2013 08:14
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A fiscalização de fronteiras secas e maior agilidade na aprovação de moléculas são consideradas fundamentais para evitar a entrada de novas doenças

No início dos anos 90, uma praga desconhecida deixou um rastro de devastação nas lavouras de cacau cultivadas na Bahia. A praga, que posteriormente foi batizada de vassoura de bruxa, causou perdas imensas aos produtores do estado. Como resultado, a produção cacaueira do Brasil, que respondia por cerca de 15% da mundial, foi reduzida a míseros 4% e até hoje não se recuperou, tamanho prejuízo causado pela doença. Para se ter uma ideia, a produção que em 1989 foi de 390 mil toneladas, no ano 2000 não passou de 123 mil toneladas.

Pragas como essa rondam as lavouras brasileiras, vindas de diversas partes do mundo. Algumas, como a Helicoverpa armigera, que vem tirando o sono dos produtores do sudoeste baiano, Goiás, Mato Grosso e do Paraná, nem se sabe ao certo como chegaram aqui. Atentos a essa ameaça constante, a Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef) e a Sociedade Brasileira de Defesa Agropecuária (SBDA), em parceria com pesquisadores da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), desenvolveram um estudo que aponta quais são as 150 pragas e doenças que podem atingir as lavouras brasileiras nos próximos anos. Entre elas, dez oferecem maior risco por estarem em áreas próximas ou em países com importantes relações comerciais com o Brasil.

“Esse estudo deixa claro quais são os desafios que o Brasil tem para evitar que essas ameaças se concretizem. Precisamos reduzir a burocracia na aprovação de novos agroquímicos e melhorar a fiscalização das nossas fronteiras”, explica Eduardo Daher, presidente da Andef.

Entre as dez mais ameaçadoras, Daher destaca a Striga, uma planta daninha que chega silenciosa e se instala junto à raiz de vários tipos de outras plantas. “Ela mata literalmente pela raiz, sugando todos os nutrientes de que a planta precisa para se desenvolver. É perigosa porque não é visível como a ferrugem, que você identifica as manchas nas folhas”, explica o executivo.

Para se ter uma ideia dos prejuízos que tais doenças causam nas lavouras, em duas safras, a Helicoverpa já causou danos de R$ 2 bilhões à agricultura brasileira. “A ferrugem da soja, que chegou ao Brasil em 2003, já causou prejuízos da ordem de R$ 25 bilhões ao agronegócio”, ressalta Daher.

Fronteiras

Um dos principais veículos para a expansão desse tipo de praga no mundo é o ser humano. Por isso, Daher chama a atenção para os cuidados que o Brasil precisa ter com suas fronteiras, especialmente durante eventos internacionais, como foi o caso da Copa das Confederações, da Jornada Mundial da Juventude e, no próximo ano, com a Copa do Mundo. “Às vezes as pessoas trazem vírus e bactérias na sola do sapato, dependendo do local por onde passam antes de viajar”, explica.

Para Regina Sugayama, consultora da Agropec e uma das pesquisadoras que participam do trabalho, não há como blindar o Brasil da entrada de pragas, pois toda fronteira tem suas falhas. O problema, segundo ela, é que “a vigilância brasileira está focada nos portos e aeroportos que historicamente têm mais entrada de material agropecuário. Mas no Norte do Brasil, a situação é de insuficiência, com poucos postos de vigilância, poucos fiscais”, alerta.

Assim, Daher considera fundamental o reforço da comunicação com o público urbano, sobre os cuidados que devem ser tomados, inclusive com os itens da bagagem durante viagens nacionais e internacionais. “Trazer alimentos não industrializados ou amostras de plantas e sementes do exterior, por exemplo, é proibido, mas muita gente não sabe disso”, explica. Ele afirma ainda que boa parte dessas pragas são trazidas sobretudo pela América Central, em movimentos terrestres. “E para piorar, não temos controle da fronteira seca do País; as doenças entram pelo sapato e pelo vento”, diz.
Ela explica ainda que, em um recente levantamento feito pelos pesquisadores que participam do estudo foi constatado que, nos últimos 20 anos, ao menos 20 pragas exóticas foram detectadas no Brasil. “É um a por ano. Será que a gente vai dar conta de oferecer tecnologia para lidar com tantos problemas emergentes?”, questiona.

Novas tecnologias

Regina revela que sua maior preocupação é pensar em um futuro onde mais pragas terão entrado no País, enquanto o sistema nacional de registro de tecnologias para o controle das mesmas não avança na mesma velocidade. “Muitas moléculas têm tido seu uso banido ou estão em processo de reavaliação. Ou seja, teremos mais pragas e menos tecnologia. O tempo para desenvolver e registrar uma tecnologia é muito mais longo do que a velocidade com que as pragas têm entrado”, explica.

Atualmente, um defensivo para ser aprovado no Brasil precisa obter laudos e aprovações junto ao Ibama, Anvisa e ao Ministério da Agricultura, o que pode levar anos. “Não é possível esperar de quatro a cinco anos para que uma nova molécula seja aprovada para ser comercializada no Brasil, quando muitas vezes ela já usada em larga escala em outros países. A praga não espera”, critica.

Diante desse cenário desafiador, o Ministério da Agricultura (Mapa) vem se reunindo com as principais entidades do setor para discutir o assunto e estudar a criação de um centro estratégico de política fitossanitária. O levantamento sobre as pragas que ameaçam o Brasil, inclusive, tiveram início com iniciativa do Dr. Odilson Ribeiro, então diretor do departamento de Sanidade Vegetal do Mapa. Mas, para Daher, o governo precisa também desburocratizar a aprovação de novas moléculas e produtos para o mercado.

Segundo ele, o Brasil costuma reagir ao problema e não buscar maneiras de preveni-lo, o que acaba complicando o quadro. “É muito mais barato e inteligente prevenir um problema dessa magnitude do que combater quando ele já estiver se alastrando e causando prejuízos”, pondera.

Conheça as principais pragas que podem atacar as lavouras brasileiras e seus locais de ocorrência:

Pulgão da soja – A praga com potencial devastador é capaz de reduzir em até 50% a produção de soja. Até o final do século passado, estava restrito a algumas regiões da Ásia. Em 2000, foi encontrado nos Estados Unidos e desde então tem causado grandes estragos. No Brasil, a região Sul poderia ser a mais afetada. Locais de ocorrência: Canadá, EUA, China, Indonésia e Tailândia.

Mosca Branca raça “Q” - Ainda não foi registrada no Brasil, mas oferece real perigo às lavouras. Isso porque é resistente aos inseticidas do grupo de neonicotinóides, de amplo uso no Brasil e pode se misturar às raças de moscas-brancas já existentes. A “raça Q”, porém, não é praga quarentenária no Brasil. Locais de ocorrência: México, Estados Unidos, Canadá, Holanda, França, Espanha, Marrocos, Egito, Israel, China e Japão.

Necrose letal do milho - Uma variante muito agressiva dessa doença apareceu no Quênia em 2012, dizimando as plantações daquele país. Devido à importância do milho para o Brasil, esta é uma doença que mereceria maior atenção por parte das autoridades brasileiras. Atualmente não é considerada uma praga quarentenária no Brasil. Locais de ocorrência: EUA e Quênia.

Monilíase do cacaueiro - Doença que pode reduzir em até 80% a produção de cacau. Até 2010, afetava apenas as lavouras situadas à Oeste da Cordilheira dos Andes, mas já foi encontrada em plantações de cacau do lado Leste. Para especialistas, a monilíase é ainda mais agressiva do que a vassoura-de-bruxa, que quase devastou as lavouras brasileiras anos atrás. Locais de ocorrência: Venezuela, Colômbia e Peru.

Amarelecimento letal do coqueiro - O Brasil possui uma rica flora de palmeiras e biomas formados por babaçu e carnaúba, que poderiam ser fortemente impactados pela doença. A praga leva ao amarelecimento dos coqueiros e palmeiras e causa a morte da planta. Locais de ocorrência: Caribe e África.

Striga – Trata-se de uma planta parasita que liga suas raízes diretamente às raízes de outras plantas, sugando a seiva absorvida, especialmente nas lavouras de milho. A Striga produz muitas sementes, pequenas e leves, que são facilmente dispersadas pelo vento. Locais de ocorrência: EUA, Guiana e Ásia.

Ferrugem do trigo - Atualmente, 90% do trigo plantado no mundo e 100% do trigo plantado no Brasil têm uma mesma base genética para resistir à ferrugem, o gene Sr31. Em 1999 foi encontrada uma nova raça de ferrugem, batizada de Ug99, capaz de infectar de forma agressiva e matar plantas de trigo que possuem o gene Sr 31. Essa raça se espalhou pela África e chegou à Ásia, dispersada pelo vento. Locais de ocorrência: África e Leste da Europa.

Mosaico africano da mandioca - Encontrada em países da África e Ásia, esta é uma doença de potencial devastador e facilmente disseminada pelas moscas-brancas. A entrada desta praga é uma ameaça à agricultura familiar em todo o Brasil – especialmente no Nordeste, onde a produção é pouco tecnificada. Locais de ocorrência: África subsaariana e Oriente Médio.

Ácaro chileno das fruteiras - Praga de fruteiras que surgiu no Chile e já chegou à Argentina. Pode reduzir a produção de uvas em até 30% e afeta também as lavouras de kiwi e citrus. Sua introdução no Brasil levaria à imposição de barreiras fitossanitárias para exportação de frutas frescas. Locais de ocorrência: Chile e Argentina.

Xanthomonas do arroz – Bactéria que provoca a mais devastadora doença do arroz existente na Ásia. Estima-se que apenas no Japão, 25% da produção seja perdida por causa da doença, todos os anos.Já existem registros da ocorrência dessa doença em alguns países da América do Sul. Locais de ocorrência: Peru, Índia, China, Japão, Tailândia e Filipinas.

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Fonte: Sou Agro

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