O HORROR DO COMUNISMO: Por que a China ignora sua maior crise de fome?

Publicado em 02/03/2014 10:19 1537 exibições
Apesar da catástrofe ter matado cerca de 45 milhões de chineses em apenas quatro anos, não há nenhum registro fotográfico do desastre promovido por Mao Tsé-tung. Por Frank Dikötter, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE HONG KONG E AUTOR DO LIVRO 'MAO'S GREAT FAMINE: THE HISTORY OF CHINA'S MORE DEVASTATING CATASTROPHE, 1958-1962'

Por que a China ignora sua maior crise de fome?

Apesar da catástrofe ter matado cerca de 45 milhões de chineses em apenas quatro anos, não há nenhum registro fotográfico do desastre promovido por Mao Tsé-tung

por Frank Dikötter - Foreign Policy - O Estado de S.Paulo

Durante décadas, a União Soviética escondeu seus horrores atrás da Cortina de Ferro. O mais trágico foi a fome provocada por Joseph Stalin na Ucrânia e no sul da Rússia, como resultado do seu programa de coletivização rural forçada, que matou de 7 milhões a 10 milhões de pessoas em 1932 e 1933.

Terras, propriedades, gado, até mesmo casas foram requisitadas, enquanto os camponeses se tornavam funcionários públicos obrigados a produzir cotas de trigo cada vez maiores. Os que resistiam ou tentavam esconder alimentos eram deportados para um gulag ou executados.

Regiões inteiras do interior da Ucrânia tornaram-se zonas de morte. Milhões de pessoas pereceram. Entretanto, Stalin conseguiu que se fizesse um silêncio total sobre a fome, enviando os que murmuravam uma palavra para os campos de trabalho forçado na longínqua Sibéria. Os dados do censo, que deveriam ter mostrado um enorme pico das taxas de mortalidade, foram ocultados durante meio século.

Mas, mesmo antes do colapso da União Soviética, em 1991, os líderes do Partido Comunista da Ucrânia começaram a investigar a carestia nos arquivos do seu próprio partido. Eles descobriram uma quantidade de documentos macabros. Algumas das provas mais chocantes foram as fotografias de crianças morrendo de fome com os crânios reduzidos a caveiras, o esqueleto pressionando a pele, pedindo um pouco de comida na rua em Kharkov, capital da Ucrânia na época da fome.

Uma das imagens mostrava corpos macilentos captados nas fotografias - uma carroça, membros reduzidos a meros gravetos, pernas abertas no meio de um monte de corpos. Não se tratava de alguns instantâneos isolados. Eram centenas de imagens. Leonid Kravchuk, que mais tarde se tornaria o primeiro presidente democraticamente eleito da Ucrânia, foi um dos primeiros a ver estas fotos. Ficou tão impressionado com o rosto das crianças mortas pela fome que convenceu Vladimir Ivashko, então primeiro-secretário do Partido Comunista da Ucrânia, a aprovar a reprodução de 350 fotografias para um livro lançado em 1990. Hoje, a fome é oficialmente lembrada em toda a Ucrânia como Holodomor, literalmente "a morte pela fome".

Um desastre provocado pelo homem de magnitude ainda maior abalou a China no final dos anos 50 e início dos anos 60. Na campanha que denominou de "O Grande Salto para Frente", o presidente Mao Tsé-tung transformou o interior do país em gigantescas fazendas coletivas em 1958, acreditando que elas proporcionariam uma utópica abundância para todos. Assim como na Ucrânia, tudo foi coletivizado: os aldeões foram privados do seu trabalho, da moradia, da terra, dos pertences e do seu sustento.

O experimento acabou na maior catástrofe que o país jamais conheceu. Pelo menos 45 milhões de pessoas morreram de fome em quatro anos, como descobri quando tive acesso, num fato sem precedentes, aos arquivos do Partido Comunista recentemente abertos na China. Li milhares de documentos: relatórios secretos dos Departamentos de Segurança Pública, detalhadas atas de reuniões dos altos escalões do partido, investigações de casos de assassinatos em massa, inquéritos compilados por equipes especiais com a tarefa de determinar as dimensões da catástrofe, pesquisas de opinião secretas e cartas de queixas redigidas por cidadãos comuns.

Algumas estavam cuidadosamente escritas à mão, outras datilografadas sobre fino papel amarelado. Algumas eram extremamente dolorosas, como por exemplo um relatório de uma equipe de investigação destacando o caso de um menino numa aldeia de Hunan que fora apanhado roubando um punhado de trigo. Um funcionário do Partido Comunista local obrigou o pai da criança a enterrar o filho vivo. O pai morreu de dor dias mais tarde. Outros documentos apresentavam o horror da fome na linguagem estéril típica da burocracia comunista.

Um relatório policial, que descobri num arquivo da província, catalogou 50 casos de canibalismo, todos numa cidade de Gansu, uma província do noroeste da China. Data: 25 de fevereiro de 1960. Local: Comuna de Hongtai, aldeia de Yaohejia. Nome do réu: Yang Zhongsheng. Situação: camponês pobre. Número de pessoas envolvidas: 1. Nome da vítima. Yang Ershun. Relação com o réu: irmão mais novo. Número de pessoas envolvidas: 1. Modalidade do crime: morto e comido. Motivo: questão de sobrevivência.

No entanto, apesar de meses de paciente trabalho, durante os quais fui selecionando material no meio de montanhas de documentos amarelados, nunca encontrei uma única foto da catástrofe naqueles arquivos. Os historiadores em Pequim explicaram a falta de documentos fotográficos dizendo que os quadros do partido na época não tinham máquinas fotográficas, porque a China era ainda um país pobre.

Não é uma explicação convincente. Os arquivos estão repletos de investigações criminais que contêm exaustivas provas fotográficas dos anos 50 aos 60, retratos de criminosos, fotos das cenas do crime, até mesmo rolos de filmes documentando disputas de terras entre fazendas coletivas. Certamente, a máquina da propaganda oficial nunca deixou de ter equipamentos fotográficos.

Hoje, é fácil encontrar fotos online, em preto e branco, do período entre 1958 e 1962, mostrando camponeses alegres dirigindo o trator de modelo mais recente em meio aos campos, de criancinhas de bochechas rosadas ao redor de mesas cobertas de frutas frescas, legumes e carne nas cantinas coletivas, e do presidente Mao andando em meio aos campos com um chapéu de palha e sapatilhas de algodão ou admirando uma colheita recorde. Há até fotos do rival de Mao, o chefe de Estado Liu Shaoqi, investigando a fome no seu distrito de origem, na Província de Hunan, em 1961.

Então o que aconteceu com as provas documentais das atrocidades mais horrendas do mundo? Os Guardas Vermelhos, os revolucionários armados de Mao durante a Revolução Cultural, provavelmente as destruíram. Mao lançou a Revolução Cultural em 1966, em parte para eliminar os funcionários de alto escalão que criticavam suas temerárias experiências econômicas que levaram à fome. Quando os Guardas Vermelhos começaram a se apoderar das instituições do Estado pela força, em 1967,os funcionários públicos destruíram os registros e todo material fotográfico - tudo o que pudesse desacreditar o "Grande Salto para Frente" de Mao.

Os cidadãos que tinham fotos da fome brutal agiram movidos pelo mesmo impulso. Rae Yang, filha de uma família de diplomatas que trabalhara para o governo no exterior, viu quando seu pais queimaram todas as cartas que haviam guardado, além de fotos antigas, e jogaram as cinzas no vaso do banheiro. Mas nem todas as provas foram reduzidas a cinzas.

É de se supor que existam ainda fotos da fome guardadas bem no fundo dos cofres do partido. E parte do material mais sensível do "Grande Salto para Frente" é ainda protegido por sigilo. Coleções inteiras - a maioria dos arquivos centrais de Pequim, por exemplo - continuam fora do alcance até mesmo dos historiadores mais conceituados do PC.

Em sua aclamada biografia Mao: The Unknown Story, Jung Chang e Jon Halliday contam que durante a Revolução Cultural, quando funcionários de alto escalão, como Liu, eram torturados até a morte, o pessoal da segurança os fotografava e enviava as fotos para Mao e para o premiê Zhou Enlai. Elas também, provavelmente, estão arquivadas em alguma secreta galeria dos horrores.

Por quatro anos, estudei a fome da era de Mao e apenas uma vez vi uma ilustração de seu horror. Em 2009, visitei um historiador num cinzento edifício de concreto nos subúrbios de Pequim. Ele também trabalhara na história do "Grande Salto para Frente", garimpando arquivos por mais de dez anos e documentando obsessivamente a fome que dizimara a região onde nascera, um condado a pouco menos de 160 quilômetros da cidade natal de Mao, em Hunan.

Pilhas de material fotocopiado estavam enfiadas em arquivos em seu amplo escritório. Questionei se ele vira uma foto da fome. Ele franziu a testa e, com relutância, puxou uma pasta com a reprodução da única imagem que ele descobrira. Ele a encontrara nos arquivos do comitê do partido de seu condado de origem, entre os documentos da investigação policial de um caso de canibalismo.

A pequena foto esmaecida mostrava um jovem de pé diante de uma parede de tijolos, olhando diretamente para a câmera, aparentemente sem qualquer emoção. Aos seus pés estava uma bacia contendo partes do corpo de um menino, a cabeça e os membros separados do tronco.

* É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE HONG KONG E AUTOR DO LIVRO 'MAO'S GREAT FAMINE: THE HISTORY OF CHINA'S MORE DEVASTATING CATASTROPHE, 1958-1962'

'Visto de ouro' abre Portugal a chineses

Milionários chineses investem em Portugal para virar cidadãos europeus

por JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA - O Estado de S.Paulo

Milionários chineses desembarcam com força total em Portugal, um dos países mais afetados pela crise dos últimos cinco anos na Europa e que começa a dar sinais de uma leve recuperação. Dados do governo e de consultorias apontam que, em 2013 e começo de 2014, 519 vistos de residência foram concedidos a investidores de todo o mundo com a condição de que aplicassem parte de sua fortuna em Portugal. Em troca, ganhariam o visto e, por consequência, um acesso direto e automático ao território de outros países europeus.

O resultado foi a atração de mais de 361 milhões em apenas um ano, no esquema conhecido como "Golden Visa", ou Visto de Ouro. Mas quase 80% do investimento foi realizado por chineses, que passaram a comprar imóveis abandonados em Lisboa, investir em diversos setores e em áreas residenciais.

O esquema foi criado no fim de 2012 com a esperança de ajudar o país a sair de sua pior crise desde o período democrático. Em troca da compra de um imóvel de pelo menos 500 mil, um investidor receberia um visto de residência, algo que somente era dado a um estrangeiro que viva por mais de seis anos de forma regular em Portugal. Agora, a exigência é de que esteja em Portugal por apenas sete dias ao ano. Outra alternativa é investir 1 milhão em um negócio que gere pelo menos dez empregos.

Ranking. Um levantamento realizado pela empresa Colliers Internacional apontou que, entre janeiro de 2013 e janeiro de 2014, 79% dos vistos dados por Lisboa a investidores foram para chineses. Um deles foi Janon Wu, empresário de Xangai que, por 520 mil, comprou um apartamento em Lisboa com vista não apenas para a cidade, mas para o fato de que passou a ter livre acesso a todos os demais países da União Europeia (UE).

Em segundo lugar estão os russos, com 6% dos vistos concedidos. Os brasileiros vêm na terceira posição, com 3%, ao lado de investidores angolanos. No total, cerca de 15 brasileiros já aderiram ao programa e ganharam acesso aos demais países europeus. "Este ano temos notícia de que continua a haver brasileiros no mercado, talvez um pouco mais que no ano passado", apontou ao Estado o chefe de pesquisa da Colliers, Gustavo Castro.

"Para essa população, Portugal poderá funcionar como uma porta de entrada privilegiada no acesso a um dos maiores mercados de investimento mundial, a União Europeia."

A Colliers em Portugal admite que a medida pode ser importante para dar um sentimento de credibilidade à economia local diante de investidores. Mas também faz seu alerta. O programa faz sentido em termos econômicos. Mas ele precisa ser monitorado, já que pode haver implicações negativas para países que emitem esses vistos.

Riscos. "Os dois principais riscos para Portugal residem na atração de imigrantes pouco desejáveis e numa proliferação descontrolada deste mecanismo", alertou Castro. "Estes são os riscos dos programas deste gênero que existem em muitos países no mundo. Estes riscos mitigam-se com um controle profissional dos candidatos a visto por um lado, e pela monitorização do número e tipo de investidores que entram neste mecanismo", destacou o executivo da Colliers.

O que ninguém nega é que, para o mercado imobiliário português, o Golden Visa tem sido fundamental para a recuperação dos preços. Parte dos estrangeiros tem entrado no mercado português justamente em alianças com grupos locais, em projetos que estavam parados.

Segundo o vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, a esperança é que, no fim de 2014, um volume total de mais de 500 milhões tenha sido arrecadado.

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Fonte:
Foreign Policy - O Estado de SP

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