O que há por trás do REFÚGIO, artigo / alerta de Wanderlei Dias Guerra

Publicado em 21/06/2014 18:03 e atualizado em 23/06/2014 11:12 2183 exibições
Wanderlei dias Guerra é Coordenador de Defesa Vegetal do MAPA (Ministério da Agricultura) em Mato Grosso. Participou de reunião em Brasília, semana passada, sobre o tamanho do refúgio a ser adotado oficialmente no Brasil. Abaixo texto que mostra sua preocupação

Amigos!
Escrevi este artigo (texto um pouco longo) mas que, acredito, irá elucidar em algo o tema e demonstrar sua importância estratégica para o país.
O que há por trás do REFÚGIO


O Brasil semeia perto de 30 milhões de hectares só com a soja, mas a tecnologia Bt inserida nas sementes e que confere resistência da planta às lagartas de algumas espécies, também está presente em variedades de algodão e milho com outros milhões de hectares semeados no Brasil.  Vamos, no entanto, fazer umas contas considerando apenas a área semeada com soja. Esta tecnologia custa R$ 115,00/ha (e vai aumentar). Este é o valor mínimo que a dona da biotecnologia cobra (e usa quem quiser) para cada hectare semeado com uma variedade ou cultivar que tenha sua tecnologia inserida. Caso o produtor resolva produzir sua própria semente vai ter que pagar lá na moega, aí os preços podem dobrar.  

As pesquisas em Manejo de Resistência de Pragas feitas mundo afora, especialmente na Austrália (CSIRO) e também aqui nas universidades e empresas públicas indicam a necessidade de que pelo menos 50% da área semeada com soja em cada fazenda que use as sementes geneticamente modificadas sejam feitas com sementes convencionais, portanto sem a tecnologia Bt  (recomenda-se também 20% sem a tecnologia no milho e, na mesma proporção, no algodão). Isto é o que se denomina como áreas de refúgio, pois os insetos precisam se multiplicar naturalmente nestas áreas, longe da tecnologia Bt, para não adquirirem resistência e cruzarem com os outros que vão ficando resistentes, aqueles que saem das áreas com a tecnologia e, assim, os descendentes também serão controlados pela mesma tecnologia.  

Então, vou dar minha opinião do porquê de tanta discussão (interesses econômicos) em não se manter uma área de 50% de refúgio, sugerindo apenas 20%, ou menos. Considerando 50% de 30.000.000 ha de soja = 15.000.000 ha sem a tecnologia Bt. Isto significa: 15.000.000 x R$ 115,00 = R$ 1.725.000.000,00, valor que passará muito dos R$ 2 bilhões a menos em arrecadação a cada ano se considerarmos o preço de U$ 250,00 por hectare como o custo da mesma tecnologia no algodão, além do milho, apesar da comprovada perda de eficiência neste último, mas que ainda assim foi (continuará sendo?) cobrada.  

Por outro lado, mantendo-se apenas 20% de áreas de refúgio na soja, o dono da tecnologia só deixará de ganhar R$ 690.000.000,00 (20% x 30.000.000ha x R$115,00/ha), ou seja, uma diferença de “apenas” 1 bilhão de reais, que será seu ganho extra a cada ano, caso sua proposição seja a normatizada.  

A criação de uma nova tecnologia de controle de pragas, no caso da Bt, por exemplo, é algo importante para os produtores, além de ser uma nova ferramenta com cunho sustentável, apesar de não ser este o foco, pelo menos no Brasil. Na Austrália este é um grande trunfo, sobretudo depois de o país ter sofrido as conseqüências de contaminações da carne e leite, além de processos contra o governo federal de lá, pelo uso excessivo de agrotóxicos para controle da Helicoverpa armigera. Lá, portanto, a tecnologia Bt inserida nas sementes é de interesse estratégico, considerado de segurança nacional para o país o que, infelizmente, ainda não é o caso do Brasil.  

Por coincidência, acredito nisto, esta importante tecnologia chegou praticamente junto com uma das mais importantes e devastadoras pragas, a mesma Helicoverpa armigera da Austrália. O simples fato de ela ter se mostrado eficiente contra a praga, apesar desta vantagem não ser "vendida" com esta garantia, ainda assim já é fundamental e, portanto, deveria também ser considerada estratégica no Brasil. Para enfatizar isto cito, como exemplo, o grande número de pulverizações com inseticidas que tem sido necessárias (e tende a aumentar a cada ano) para o controle de lagartas nas lavouras brasileiras, especialmente em algodão e soja o que, certamente, poderá ser motivo de restrições aos produtos brasileiros no mercado externo.  

A pesquisa na área de manejo de resistência de pragas de todo o mundo diz que os insetos controlados pela citada biotecnologia, assim como ocorre com os agrotóxicos, tendem a adquirir resistência, ou seja, deixarão de ser combatidos pela tecnologia. Os pesquisadores da Austrália, dentre os quais incluem os próprios funcionários da empresa detentora da tecnologia lá e cá, mostram o que deve ser feito para se minimizar a tal perda de eficiência, informações que o Brasil - infelizmente um pouco atrasado com estes estudos - poderia simplesmente aprender com os erros e acertos dos demais e, sem ter vergonha disso, “copiar e colar”, juntando os resultados do que se estuda aqui no país. Pesquisas que também demonstram o que deve ser feito para preservar a tecnologia e esta preservação passa por áreas de refúgio, no mínimo iguais as que citei acima, exatamente o que pregam nossos melhores cientistas. Viram o que eu disse? Porque será lá na Austrália o assunto é tratado de forma tão diferente, inclusive pela dona da biotecnologia?

O fato, assim penso, é que quase sempre as empresas de biotecnologia tem prontinhas no forno uma solução ainda mais nova, a qual poderá ser lançada de imediato, como já fez ao lançar o Bt II quando a atual, a Bt I, começou a falhar.  Agora pensem comigo: quanto pode valer cada nova tecnologia quanto maior for o nível de dependência dos produtores? Estou, na verdade falando de dependência nacional (e não independência!), sobretudo se a tal praga se tornar cada vez mais resistente, de dificílimo controle. O pior é que isto não é mais teoria, a pesquisa agropecuária brasileira já tem dados que provam este fato, só não sei se e quando os resultados serão publicados, pois alguém mais também poderá ser calado.

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Fonte:
Redação NA/Facebook de WDG

1 comentário

  • Evandro Corral Morales Cuiabá - MT

    Não há dúvidas de que há alguém ou alguns levando dinheiro para beneficiar a grande empresa detentora da tecnologia Bt. Mas a APROSOJA ciosa do interesse do produtor rural que representa já deve ter emitido nota de apoio ao técnico como também estar lutando pelo refúgio de 50%.

    Se não fez isso ainda, deve esclarecer o porque!

    A imprensa deve mesmo investigar o caso e alertar o produtor

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