Artigo na VEJA: As fazendas do futuro da África

Publicado em 27/07/2014 08:25 1118 exibições
O setor privado tem investido mais de US$ 7 bilhões por ano no desenvolvimento agrícola de países africanos para tentar fazer com que a agricultura tenha o mesmo nível de avanço que as telecomunicações, por Strive Masiyiwa, de "Project Syndicate".

Iniciar um negócio pode ser uma tarefa difícil, especialmente na África, onde sistemas deficientes de governo sólidos e acesso a recursos essenciais podem limitar a chance de êxito. Para os agricultores da África, as dificuldades são particularmente pronunciadas. Considerando os enormes benefícios econômicos e sociais apresentados por um setor agrícola dinâmico e moderno, proporcionar incentivos aos agricultores, investimentos e regulamentações de que necessitam para terem sucesso deveria tornar-se uma prioridade.

O recente crescimento no setor de telecomunicações na África – que revolucionou inteiramente certos setores da economia, para não mencionar o estilo de vida da população – demonstra a eficácia dessa abordagem. Atualmente, no continente, há mais de 500 milhões de conexões móveis; ou seja, em muitos aspectos, a África é o lider mundial em crescimento e inovação de telecomunicações móveis.

Por que a África não conseguiu repetir esse crescimento no setor agrícola? Porque é que, em vez de colheitas abundantes, a África tem de pagar uma fatura anual de importações de alimentos que supera os 35 bilhões de dólares? De acordo com o último relatório anual do Africa Progress Panel, o problema é simples: tudo parece ir contra os agricultores da África.

Isto se aplica, em particular, aos pequenos agricultores, a maioria dos quais são mulheres. Esses agricultores, cujas áreas de plantação são iguais a um ou dois campos de futebol, tendem a não ter acesso a uma irrigação confiável e insumos de qualidade, como, por exemplo, sementes e fertilizantes. Além disso, raramente ganham o suficiente para investir em ferramentas necessárias, e não têm acesso a crédito.

E como se essas condições não bastassem, os agricultores enfrentam condições climáticas cada vez mais instáveis, que aumentam a probabilidade de colheitas escassas.  Por exemplo, o rendimento de milho deve diminuir um quarto durante este século. E, quando as colheitas finalmente estão prontas, os agricultores novamente enfrentam sérios obstáculos, incluindo sistemas de estradas inadequados em zonas rurais e a falta de instalações de armazenamento refrigerado, que, se melhorados, lhes permitiria vender seus produtos no mercado.

Apesar dessas dificuldades, que são mínimas se comparadas àquelas existentes na indústria de telecomunicações, os pequenos agricultores africanos não são menos eficazes do que os seus homólogos mais importantes – o que demonstra a sua tenacidade e resiliência. No entanto, em vez de apoiar os agricultores, os governos africanos têm criado novas barreiras ao crescimento, incluindo uma pesada tributação, investimentos insuficientes e políticas coercivas.

Os agricultores africanos precisam de condições favoráveis que lhes permita superar os desafios que enfrentam. Neste contexto, o setor agrícola do continente poderia experimentar uma revolução semelhante à impulsionada pelo setor das comunicações.

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A boa notícia é que tanto o setor público quanto o privado – motivado pelo aumento da demanda de alimentos, especialmente nas cidades em rápido crescimento na África, bem como a escalada nos preços globais dos alimentos - parecem prontos para executar essa mudança. As empresas privadas começaram a investir no setor agrícola na África mediante iniciativas como Grow Africa (da qual sou Co Presidente), o que facilita a cooperação entre os governos nacionais e mais de uma centena de empresas locais, regionais e internacionais a fim de atingir metas de crescimento agrícola. Ao longo dos últimos dois anos, essas empresas têm investido mais de 7,2 bilhões de dólares no setor agrícola.

Por seu lado, os governos africanos e os parceiros de desenvolvimento, reconhecendo o papel fundamental que a agricultura pode desempenhar os programas de desenvolvimento econômico, começam a reverter o declínio do investimento público na agricultura nas últimas três décadas. Na verdade, o setor agrícola tem o potencial para reduzir a pobreza duas vezes mais rapidamente que qualquer outro setor.

Em muitas partes do continente, o impacto de tais esforços já está se tornando aparente. De Gana a Ruanda, o elevado nível de investimento na agricultura sustenta o crescimento econômico em áreas rurais, impulsionando a criação de emprego e ajudando na redução da pobreza e da fome.

No entanto, todas essas conquistas permanecem frágeis. Para sustentá-las, os governos africanos precisam solidificar o seu compromisso com a Declaração de Maputo sobre Agricultura e Segurança Alimentar da União Africana, que compreende a promessa de canalizar pelo menos 10% dos seus orçamentos para o investimento agrícola. Além disso, devem proporcionar aos agricultores infraestruturas, fornecimento de energia, e políticas de apoio aos que necessitam, para colocarem os seus produtos no mercado.

O setor das comunicações também desempenha um papel fundamental. A tecnologia móvel já começou a transformar a agricultura africana ao facilitar aos agricultores informações valiosas, tais como preços no mercado, suporte à produção por meio de cupons online e até mesmo o acesso ao crédito. Muitos desses serviços inovadores tornam-se mais acessíveis para os pequenos produtores africanos, do que para seus homólogos norte-americanos ou europeus. 

Finalmente, empresas privadas, as organizações agrícolas e atores da sociedade civil devem trabalhar juntos para assegurar o desenvolvimento da agricultura. Por exemplo, a Aliança para uma Revolução Verde para a África (AGRA) fornece sementes de qualidade - muitas das quais são resistentes à seca - a milhões de pequenos produtores do continente.

A União Africana declarou 2014 como o Ano da Agricultura e Segurança Alimentar na África. Através de uma ampla ação normativa, investimento e tecnologia, os agricultores africanos poderão duplicar a sua produtividade dentro de cinco anos.  Já é hora de dar ao setor agrícola a oportunidade de que todos os africanos precisam para entrar em uma nova era de prosperidade partilhada. 

Strive Masiyiwa, membro do Africa Progress Panel, é presidente e diretor executivo do Econet Wireless, Co-Presidente do GROW Africa, e Presidente do Conselho de Administração da AGRA (Aliança para uma Revolução Verde em África).O setor privado tem investido mais de 7 bilhões de dólares por ano no desenvolvimento agrícola de países africanos

O setor privado tem investido mais de 7 bilhões de dólares por ano no desenvolvimento agrícola de países africanos (Carl de Souza/AFP)

O déficit de segurança global

Insegurança política, conflitos potenciais e relações internacionais desgastadas têm representado uma ameaça maior ao progresso econômico do que o debate pós-crise anteviu, avalia o Nobel de Economia Michael Spence

Michael Spence
Globalização

O fracasso em conter conflitos regionais pode levar a mais do que apenas choques econômicos (R. Michael Stuckey/Getty Images)

O verão no hemisfério norte é normalmente uma época para se fugir dos riscos e das preocupações do dia a dia e talvez de fazer um balanço sobre onde estamos e para onde estamos indo. Mas isto tem sido cada vez mais difícil porque o nosso cotidiano está se tornando cada vez mais arriscado e preocupante.

Grande parte do debate no período seguinte à crise financeira de 2008 focava nos vários desequilíbrios econômicos que ou ameaçavam, ou impediam o crescimento. Esses problemas não desapareceram. O desempenho surpreendentemente fraco da economia dos Estados Unidos no primeiro trimestre, por exemplo, deixou os analistas confusos e incertos sobre a sua trajetória. 

Mas, com intensidade cada vez maior, insegurança política, conflitos potenciais e relações internacionais desgastadas têm representado uma ameaça maior ao progresso econômico do que o debate pós-crise anteviu. 

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A Ásia, um foco de esperança em termos de crescimento nos anos pós-crise, agora vive tensões crescentes que põem em risco o comércio e o crescimento da região. A recuperação ligeiramente frágil do Japão pode sair dos trilhos com a escalada dos seus conflitos territoriais com a China, que além de ser um dos maiores mercados para as mercadorias japonesas, está profundamente integrada às cadeias de fornecimento do país. 

Embora as disputas territoriais frequentemente sejam histórica e politicamente importantes, a sua relevância econômica costuma ser secundária, mesmo insignificante, a menos que se permita que tensões como as que ocorrem nos Mares Oriental e Sul da China saiam de controle. O papel dúbio dos Estados Unidos na segurança asiática – devido ao seu interesse em apoiar seus aliados regionais, sem rivalizar com a China – contribui para a sensação de insegurança.  

Além do seu minueto estratégico na Ásia, China e Estados Unidos estão envolvidos em umabatalha de cibersegurança que já está começando a afetar o fluxo de mercadorias, investimentos e tecnologia. Declarações de compromisso para resolver a questão cooperativamente, dos dois lados, não produziram resultados significativos. E discussões sobre vigilância eletrônica causaram tensão entre Estados Unidos e Europa. 

O Oriente Médio, enquanto isso, entrou em um período de extrema instabilidade que com certeza terá efeitos econômicos negativos em âmbito regional e global. E a queda de braço entre a Rússia e o Ocidente pela Ucrânia e outros ex-satélites soviéticos irá afetar adversamente a estabilidade regional, a segurança energética e o crescimento econômico na Europa.  

queda do voo MH17 da Malaysia Airlines no leste da Ucrânia – e, mais recentemente, asuspensão de voos comerciais para Tel Aviv – cria uma nova dimensão de insegurança. Quando o tráfego aéreo civil não está mais a salvo de ataques, pode-se legitimamente questionar a eficiência dos sistemas básicos de governança que sustentam o comércio global. 

De fato, a Organização Mundial do Comércio (OMC) está em risco mais uma vez, com o governo indiano ameaçando vetar o Acordo sobre Facilitação do Comércio, alcançado em Bali no ano passado, devido a desentendimentos sobre armazenamento de comida e subsídios. A perda de confiança na OMC seria um forte golpe para uma instituição que tem um papel vital em assegurar a cooperação e regulação mundial. 

A economia global é um lugar bem mais interconectado do que era há 40 anos. O fluxo transfronteiriço de mercadorias, informação, pessoas e capital, que é a sua força vital, depende de um nível mínimo de segurança, estabilidade e previsibilidade. É este nível mínimo que parece estar sob ameaça. O progresso econômico continuado nos países em desenvolvimento e a recuperação nos países desenvolvidos exigem prevenir que conflitos locais e regionais gerem grandes choques sistêmicos. 

Em termos de prioridade, é indiscutivelmente mais importante para os Estados do G20 fortalecer os sistemas principais que possibilitam os fluxos globais do que visar problemas estritamente econômicos. Além disso, há um interesse claro e compartilhado em fazê-lo; ninguém se beneficia com a expansão do risco sistêmico. 

O fracasso em conter o impacto dos conflitos regionais e tensões bilaterais pode levar a mais do que apenas choques de suprimentos em áreas como a energia. O principal efeito provavelmente será uma série de choques de demanda negativa: investidores recuando, turistas ficando em casa e consumidores fechando a carteira. Em uma economia global em que a demanda agregada é um elemento chave para a limitação do crescimento, essa é a última coisa de que o sistema precisa. 

Fomos tão longe quanto pudemos com um sistema global que é, na melhor das hipóteses, parcialmente governado e regulado. À medida em que a ordem global definida pela Guerra Fria (e depois pelos Estados Unidos, brevemente dominante) se torna coisa do passado, um novo conjunto de instituições e acordos deve ser elaborado para proteger a estabilidade do sistema. 
É mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. Mas o ponto de partida é reconhecer os enormes danos à economia global que o fracasso em lidar com o problema implica. A regulação ineficiente em áreas como segurança alimentar, doenças infecciosas, cibersegurança, mercados energéticos e segurança aérea, combinada à inabilidade em administrar tensões e conflitos regionais, irá enfraquecer os fluxos globais e reduzir a prosperidade por toda a parte.

De certa forma, o panorama global de hoje é um caso clássico de externalidades negativas. Os custos localizados do subaproveitamento – aqueles que se pode esperar que sejam internalizados – estão muito aquém dos custos globais como um todo.

Muitos outros problemas mais estritamente econômicos – por exemplo, padrões de crescimento defeituosos, subinvestimento em ativos tangíveis ou intangíveis e a ausência de reformas planejadas para ampliar a flexibilidade estrutural – são ainda motivo de preocupação, porque reforçam o baixo crescimento.  

Mas, neste momento histórico, as principais ameaças à prosperidade – aquelas que exigem urgentemente a atenção dos líderes mundiais e cooperação internacional efetiva – são os enormes efeitos colaterais negativos de tensões, conflitos e disputas regionais por esferas de influência. O fator de impedimento mais poderoso ao crescimento e à recuperação não é este ou aquele desequilíbrio econômico; é a perda de confiança nos sistemas que tornaram a ascensão da interdependência global possível. 

Michael Spence, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, é professor de economia na Escola Stern de Negócios da Universidade de Nova York e pesquisador sênior na Hoover Institution. O seu último livro é Os Desafios do Futuro da Economia. 

(Tradução: Roseli Honório)

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veja.com.br

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