No ESTADÃO: Eleições 2014: das vaias aos votos

Publicado em 27/07/2014 08:34 e atualizado em 27/07/2014 20:43 660 exibições
por SERGIO FAUSTO - O ESTADO DE S.PAULO

A mais recente safra de pesquisas de intenção de voto indica que o eleitorado brasileiro vai encontrando forma mais elegante do que a ofensa pessoal e mais eficaz do que a vaia para demonstrar o seu descontentamento com o governo Dilma Rousseff.

Ainda faltam quase três meses para a eleição, mas impressiona o virtual desaparecimento da diferença entre as intenções de voto na atual presidente e no principal candidato da oposição, Aécio Neves, num cada vez mais provável segundo turno. Essa diferença, que era de 27 pontos porcentuais no Datafolha de fevereiro, é hoje, segundo a última pesquisa do mesmo instituto, de apenas 4 pontos porcentuais. A tendência é consistente com a piora na avaliação do governo e com o aumento da rejeição à presidente-candidata. Quando a comparação se faz com o outro candidato da oposição, Eduardo Campos, a tendência é a mesma, embora a redução da diferença seja menor.

O quadro eleitoral em formação põe por terra a ideia ventilada pelo ex-presidente Lula de que a insatisfação com o governo Dilma se concentra num grupo social restrito, a chamada "elite branca". Não é ódio o sentimento que move o crescente descontentamento político-eleitoral. Fosse ódio, as oposições já apareceriam nos calcanhares de Dilma nas intenções de voto para o primeiro turno, pois o eleitor que odeia quem está no poder logo cristaliza o seu voto em quem possa derrotá-lo. Trata-se de um sentimento mais brando: um desejo de mudança que ainda não sabe quem quer, mas dá sinais de começar a saber quem não quer.

As pesquisas tampouco refletem um suposto cerco da "mídia conservadora" ao governo. Não tem faltado oportunidade para a presidente se comunicar com a população pelos meios de comunicação de massa. Se alguém se pode queixar do tempo de exposição na TV na fase de pré-campanha são os candidatos da oposição, que travam a disputa sem a vantagem de estar na Presidência da República, foco natural de atenção da mídia. Que culpa tem a imprensa se a economia está parando, a inflação segue alta e o mercado de trabalho esfria?

A imagem de um governo popular submetido ao cerco de uma "elite odienta" e de uma "mídia conservadora" é uma figura recorrente na retórica utilizada pelo ex-presidente Lula. Ele a empregou pela primeira vez em resposta à crise do "mensalão". Voltou a usá-la recentemente, na convenção que oficializou a candidatura de Dilma Rousseff. Em momentos de dificuldade política, para efeitos dramáticos, recorre ao paralelo histórico com o segundo governo de Getúlio Vargas, cujo trágico desfecho completa 60 anos no próximo dia 24 de agosto.

No imaginário lulista, o golpismo udenista ressurge encarnado no PSDB, que como a velha UDN, por não conseguir ganhar no voto, pretenderia chegar ao poder por vias tortas, ao arrepio da vontade popular. Essa narrativa faz lembrar a famosa frase de Marx segundo a qual a História ocorre duas vezes: uma como tragédia e outra como farsa.

É inegável a inclinação não democrática da ala ferozmente antigetulista da UDN. Basta lembrar o que escreveu Carlos Lacerda ainda antes de Vargas anunciar sua candidatura às eleições de 1950: "O sr. Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato a presidente da República. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar". Para interromper o mandato de Vargas a UDN conspirou com setores das Forças Armadas e da imprensa. O partido não reconhecia a legitimidade do "velho ditador", a despeito de sua volta ao poder pelo voto, e apontava a suposta ameaça de imposição por Vargas, em aliança com Perón, de uma "República sindicalista", que subverteria a ordem liberal da Constituição de 1946 e elevaria o risco de o País pender em direção ao bloco soviético.

O paralelo histórico com o presente é uma farsa. A legitimidade dos mandatos recebidos por Lula e Dilma nunca foi questionada. Os militares estão nos quartéis e atuam rigorosamente dentro dos limites que a Constituição estabelece. O PSDB, como partido de oposição, moveu-se sempre dentro da legalidade e com moderação, sendo não raro criticado por isso. A imprensa é hoje mais plural e politicamente independente do que jamais foi na História brasileira. As elites diversificaram-se e abriram-se a novos grupos, acostumando-se a lidar com governos de distintas cores políticas. As densas paranoias da guerra fria dissiparam-se.

Com todos os seus defeitos, temos hoje uma democracia melhor que no passado. A queda da presidente nas pesquisas não resulta de uma orquestração de pequenos grupos poderosos contra o governo, da mesma maneira que a piora de todos os indicadores da economia brasileira não é produto de uma "conspiração dos mercados". Ambos os fenômenos respondem a um processo típico em regimes democráticos e em economias de mercado, duas criações humanas que costumam andar juntas: um ciclo vicioso de deterioração das expectativas por perda de confiança no governo.

Para o eleitor, eleições são tanto um julgamento sobre o passado (estou melhor do que estava?) quanto sobre o futuro (tenho uma expectativa realista de que estarei melhor do que estou?). A estratégia petista para outubro é convencer o eleitor a julgar o governo Dilma como base em todo o período de 2003 a 2014, para obscurecer o fato de que os últimos quatro anos não sustentam a retórica triunfalista dos anos Lula. Será isso suficiente para recuperar a esperança em "mais futuro, mais mudança"? Ou o PT deixará o futuro e a esperança de lado e martelará a tecla do passado e do medo, pintando o PSDB como a reencarnação da UDN e o governo de Dilma como a cidadela a defender em nome dos interesses do "povo"?

Acontece que, numa democracia, sem restrições ao direito de votar, o eleitorado é expressão do povo. E se uma nova maioria eleitoral começa a formar-se, como dizer que ela é contra os interesses do povo?

SERGIO FAUSTO É SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DO iFHC, COLABORADOR DO LATIN AMERICAN PROGRAM DO BAKER INSTITUTE OF PUBLIC POLICY DA RICE UNIVERSITY, É MEMBRO DO GACINT-USP. E-MAIL: [email protected]

 

IDH em marcha lenta SUELY CALDAS - O ESTADO DE S.PAULO

Os mais expressivos avanços sociais e econômicos alcançados na história do Brasil ocorreram a partir de 1994, quando o País se livrou da hiperinflação, estabilizou e organizou sua economia, criou condições para expandir investimentos e começou a olhar com foco mais ajustado a educação e a saúde da população. Mas, se antes de 1994 - sobretudo na chamada década perdida (1980/1990 e o período Collor) - os indicadores sociais estagnaram, depois disso passaram a avançar sem recuos, mas em ritmo lento, aquém do que esperam os brasileiros e do que é capaz de produzir um país com o nosso potencial de riquezas. Essa lentidão tem sido registrada anualmente no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), elaborado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) com 187 países - e o Brasil aparece na 79.ª posição em 2013, depois de ter ocupado o 75.º lugar em 2008. 

Criado em 1990 pelos economistas Amartya Sen e Mahbub ul Haq, o IDH da ONU desviou o foco único na economia e passou a usar também critérios sociais para medir o bem-estar da população. Após algumas mudanças metodológicas, o índice hoje reflete três indicadores: renda, educação e saúde. Nos três o Brasil contabiliza avanços desde 1994, mas o enorme passivo de atraso social, as renitentes desigualdades regionais e uma classe política governante que prioriza a politicagem e descuida de melhorias sociais têm impedido uma evolução mais rápida. 

A história do mundo mostra um ponto em comum entre os países que alcançaram desenvolvimento acelerado: todos priorizaram investimento em educação. Foi assim com os chamados tigres asiáticos (Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Filipinas, Indonésia, Tailândia). Acusados de trabalho escravo por pagarem salários irrisórios até 1960/1970, esses países viveram extraordinários booms econômicos depois de aplicar políticas de Estado dirigidas a elevar o grau de educação e o conhecimento da população. Na sequência, a produtividade do trabalho expandiu, os salários cresceram, os produtos que fabricam ganharam em qualidade e hoje são países que acumulam altas taxas de poupança exportando para todo o mundo. 

O Brasil investe mal em educação e em saúde. Há enorme carência de hospitais públicos, faltam remédios, médicos, aparelhos para exames, a população pobre sofre em longas filas para ser atendida e muitos morrem antes da cirurgia marcada para três, seis meses depois da consulta. Na educação, políticas de avaliação da qualidade do ensino só começaram a ser aplicadas em 1996, com o chamado Provão, mas a qualidade continua muito ruim - do ensino fundamental (em que é comum o aluno ler e não entender o que leu) ao universitário.

Nas duas áreas tem havido avanços muito lentos. Na saúde foram necessários 30 anos para a expectativa de vida do brasileiro avançar 12 anos, para 74,6 anos. Na educação o trabalhador tem hoje, em média, 7,6 anos de estudo, só cinco anos mais do que em 1980. Comparado aos tigres asiáticos, o Brasil perde feio em competição, produtividade do trabalho, qualidade do produto e rapidez no progresso da educação. E na renda - terceiro indicador do IDH -, apesar da ascensão de 30 milhões de pobres para a nova classe média, as desigualdades regional e de renda continuam graves e empurrando o Brasil para o atraso no IDH.

Segundo a pesquisa da ONU, em 2013 o Brasil alcançou um IDH de 0,744 (numa escala de 0 a 1, quanto mais próximo de 1 melhor é a situação do país), abaixo do Chile (0,822), da Argentina (0,808), do Uruguai (0,790) e da Venezuela (0,764).

Lanterna na lista dos 49 países de desenvolvimento humano muito elevado, a Argentina tende a recuar na classificação, diante da expectativa de recessão econômica em 2014. No interior do Brasil, contudo, há municípios com índices de Primeiro Mundo - os paulistas São Caetano do Sul (0,862) e Águas de São Pedro (0,854) são campeões nacionais em prosperidade, com serviços sociais eficientes, educação e saúde satisfatórias e IDH bem acima da capital São Paulo (0,805).

SUELY CALDAS É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: [email protected]

 

SERGIO FAUSTO É SUPERINTENDENTE EXECUTIVO DO iFHC, COLABORADOR DO LATIN AMERICAN PROGRAM DO BAKER INSTITUTE OF PUBLIC POLICY DA RICE UNIVERSITY, É MEMBRO DO GACINT-USP. E-MAIL: [email protected]

De mal a pior

Saulo Queiroz

A última pesquisa Datafolha mostrou a extensão de uma doença que 

avança pelo País: a rejeição ao PT e a Dilma. Como são duas entidades 

diferentes, não é fácil saber qual é depositária do percentual mais forte, 

mas há indícios de que a rejeição ao PT é de controle mais difícil.

Outro aspecto que fica claro é sua susceptibilidade ao contágio, que 

aumenta com maior velocidade nos grandes conglomerados urbanos,

mas avança também, mais lentamente, nas pequenas cidades e até 

em espaços que pareciam imunes, como o Nordeste, onde a rejeição 

a Dilma alcançou incríveis 23%.

Para se ter uma ideia do que isso significa vale lembrar que na 

eleição presidencial passada, em pesquisa Datafolha de 23.07.2010, 

a rejeição a Dilma em todo o País era de 19%. Nesta última 

pesquisa já alcança 35%, quase o dobro de igual período em 2010.

Para uma identificação mais precisa do depositário da maior taxa de 

rejeição, se o PT ou Dilma, é preciso uma rápida caminhada pelo País, 

começando pelo Sul. O PT tem candidato nos três Estados, mas apenas 

no Rio Grande do Sul seu candidato está em segundo lugar nas pesquisas.

No Paraná e Santa Catarina estão em terceiro. No Sudeste, o 

desempenho é pífio em São Paulo com Alexandre Padilha, sofrível no 

Rio de Janeiro, com Lindbergh Farias ,em quarto lugar, e sem expressão 

no Espírito Santo.

 

Apenas em Minas Gerais, com Fernando Pimentel, apresenta 

um desempenho satisfatório, mas a lógica é que ele não resistirá a 

máquina de moer carne que o espera, com Aécio Neves crescendo 

nas pesquisas para Presidente, um candidato ao governo, Pimenta 

da Veiga, de boa história, e um ao Senado, com a qualidade e 

aprovação de Antonio Anastasia, o governo do Estado e a maioria de 

deputados.

No Nordeste seu candidato na Bahia, maior colégio eleitoral da região 

está muito atrás do candidato do DEM. É segundo no Ceará e apenas 

no Piauí mantém folgada liderança. Nos demais Estados apoia 

candidatos de outras legendas, o que significa dizer que nestes 

quatro anos não consolidou personagens estaduais para 

concorrer ao cargo de governador, o que demonstra fragilidade partidária.

A pergunta que fica é: que culpa cabe à presidente Dilma por esta 

fragilidade do PT em seu principal reduto eleitoral que é o Nordeste. 

Penso que muito pouca. No Norte, afora o Acre onde pode reeleger o 

governador, não tem presença de destaque nos principais colégios 

eleitorais, visto que apoia o PMDB no Pará e Amazonas, além de 

fazer o mesmo em Tocantins.

No Centro Oeste tem candidato a reeleição no Distrito Federal com 

baixa perspectiva, em Goiás sem nenhuma e no Mato Grosso não tem 

candidato. Apenas em Mato Grosso do Sul tem perspectivas concretas 

de vitória porque seu candidato, o senador Delcídio Amaral, está 

bem a frente nas pesquisas e tem baixa rejeição. A questão é saber até 

onde ele resistirá ao processo de contaminação, visto que o Estado é 

vizinho de São Paulo e Paraná, onde é virulenta a rejeição ao PT – a maior 

em todo o País. Há que se vacinar para controlar o contágio.

Finalmente, é quase chocante que um partido que comanda o País há 

12 anos, tenha favoritismo para eleger apenas três governadores, em 

Estados de pequena densidade eleitoral e dois senadores. 

Cinco em 54 disputas majoritárias. Quase nada. A pergunta, repetitiva, 

é se foi Dilma a responsável por uma rejeição que se estendeu por todo o 

Pais ou se foi o PT o principal responsável pela rejeição de Dilma. Não 

vale dizer que as duas se encontram.

A verdade é que estes últimos quatro anos de governo da presidente 

Dilma foram marcados por dificuldades na economia, não só aqui no 

Brasil, mas em quase todo mundo. Evidente que o governante paga uma 

conta que nem sempre é sua, como aconteceu nas eleições realizadas na 

Europa, mas é do jogo da política.

Lula presidente, a economia bombou, ele soube tirar proveito político 

disso e se tornou quase um ídolo no País. E ainda arrastou seu PT para o 

bom caminho da vitória nas eleições de 2010. Mas será que as dificuldades 

de Dilma, a baixa avaliação de seu governo, seria a causa principal 

para o desgaste do Partido em quase todos os Estados ou será que a causa 

é mais além?

Com certeza, mais além. No período do governo Dilma o País viveu 

o episódio que representou o maior massacre pelo qual já passou um 

partido na história política desse País: o julgamento do mensalão. 

Meses e meses de intensa cobertura de televisão, rádios e jornais de um 

julgamento onde o principal réu acabou se tornando o PT.

Engana-se quem acha que isto não teve grande importância. Teve 

sim e pensar o contrário é um menosprezo à opinião pública. 

Evidente que foi determinante para criar esse vírus da rejeição ao PT, que 

se espalha pelo País. A bem da verdade, nem Dilma nem seu governo têm 

qualquer coisa a ver com o mensalão. Ela, como muitos outros 

candidatos petistas, é apenas uma vítima.

Quanto à eleição presidencial deste ano o quadro caminha para um 

desfecho trágico para o PT e sua candidata. Quem estiver olhando para 

os números atuais das pesquisas e avalia que há um quadro de 

indefinição comete um erro básico de julgamento.

Há um status totalmente diferente entre os competidores, porque 

enquanto Dilma é conhecida por 99% dos eleitores, 19 e 36% 

desconhecem Aécio e Eduardo Campos, respectivamente. Todos os dados 

das pesquisas atuais mostram apenas a notória rejeição da candidata à 

reeleição.

Aécio e Campos são fatos para após o início do horário eleitoral. 

Vale que olhemos um pouco para 2010. Em 23.07, havia um empate 

entre Dilma e Serra, ambos com 36% de preferência. Em 15.09, com 

25 dias de horário eleitoral, Dilma tinha 50% e Serra 27%.

Evidente que, agora, em meados de setembro, quando todos conhecerem 

melhor Aécio e Campos, os números serão diferentes e, tudo indica, 

um deles estará a frente de Dilma e, muito à frente, ambos, em 

uma simulação de segundo turno.

Não é provável, mas não impossível, que nesta data a campanha da 

presidente esteja com a preocupação voltada para assegurar sua 

presença no segundo turno. Apenas isso, porque não haverá mais 

nenhuma perspectiva de vitória.

Informações no bolivarianismo

MAC MARGOLIS - O ESTADO DE S.PAULO

Encontrar informação confiável na Venezuela é um desafio. Com a polarização abissal da república bolivariana, a mídia privada é muitas vezes tendenciosa, enquanto o restante ou aplaude o espetáculo oficial ou faz vista grossa. Por isso, a nação de 29 milhões recebeu com preocupação a notícia da venda do jornal El Universal, diário centenário e um dos pilares da imprensa independente venezuelana.

Oficialmente, foi apenas um negócio. O jornal caraquenho sangrava dinheiro e foi arrematado por investidores da Espanha. De fato, o jornal morreu asfixiado, vítima do garrote do governo Nicolás Maduro, que lhe cortava bobinas de papel importado.

Do comprador, pouco se sabe. A empresa surgiu na Espanha em 2013 no setor imobiliário e, meses depois, renasceu empreendedora de mídia. Alega ter US$1 bilhão na cartola. Para presidir o jornal, indicou o empresário Jesús Abreu, notório apenas por ser irmão do maestro José Antonio Abreu, criador de uma escola de música para jovens pobres. Jesús nega, mas a mídia independente venezuelana - a parcela que ainda resiste - enxerga na troca a mão invisível de Maduro, o acossado herdeiro de Hugo Chávez, que tem todas as pretensões do seu antecessor e nada de seu cacife político.

Como Chávez, Maduro não engole desaforo. Mas o mentor era habilidoso o suficiente para evitar colisão frontal com desafetos. Como todo autocrata do século 21 que se preze, Chávez preferia manipular a democracia a esmagá-la. Nos seus 14 anos no poder, os venezuelanos foram às urnas em eleições livres e razoavelmente limpas, mas o governo fez as regras e o mapa eleitoral. As cortes deliberavam, mas os juízes eram chavistas. O Legislativo legislava, geralmente sob ordens de Miraflores.

A receita encontrou aprendizes. No Equador, na Bolívia e na Nicarágua, caudilhos se elegeram pelo voto popular e mobilizaram suas maiorias para centralizar o poder, domesticar a Justiça e intimidar a crítica. Mas ninguém adestrou a imprensa como Chávez. A oposição venezuelana sabia que atrás do sorriso de Chávez havia a bota do comandante. Manter a aparência da democracia e um simulacro de liberdade de expressão eram cruciais para legitimar o chavismo.

Em vez de usar censura bruta, Chávez sabotava a mídia com processos e multas, por ofensas reais ou imaginárias. Televisões e rádios que não faziam seu jogo tiveram concessões canceladas - 34 estações de rádio foram extintas em um só dia e, em 2007, o governo simplesmente deixou de renovar a licença para a maior rede de televisão do país, a RCTV. E, para divulgar a boa nova, Chávez construiu sua própria rede: 10 TVs e 100 rádios. Quando queria mais, convocava rede nacional para rezar, cantar, passar descompostura ou descortinar novidades.

Maduro até que tenta. Nos seus primeiros 12 meses, apareceu 147 vezes na TV e falou durante quase 200 horas. Quando não falava, armava. Ao cortar o papel importado, Maduro matou de inanição o Universal. Dois outros gigantes de mídia independente, a Globovisión e a Cadena Capriles, também definharam e foram vendidos após o cerco oficial.

Mesmo com a mídia na mão, Maduro não consegue sair bem na foto. Para domar a inflação, decretou congelamento de preços, causou um motim de consumidores em horário nobre, empobreceu a rede elétrica e nacionalizou o apagão. Os bandidos agradeceram o breu e tornaram Caracas uma batalha campal. A solução de Maduro: vetar noticiar o crime. Violência, escassez e repressão também tingiram a era de Chávez, mas, com seu carisma e brado, o beato bolivariano conseguia vender o sacrifício. Mas Chávez se foi e hoje sobraram apenas as cadeias nacionais.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS 'VOCATIV'

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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