Artigos na FOLHA: Salve-se quem puder, POR ELIANE CANTANHÊDE

Publicado em 27/07/2014 08:46 935 exibições
na edição deste domingo

ELIANE CANTANHÊDE

Salve-se quem puder

BRASÍLIA - A rejeição do tal "mercado" a Dilma e as reavaliações para baixo das chances de reeleição são a típica faca de dois gumes --ou o típico discurso que cabe em dois palanques, em sentidos opostos.

Assim como rebaixam toda hora as previsões de crescimento, que já rondam 1%, agências e consultorias rebaixam simultaneamente as perspectivas de vitória de Dilma.

Se essas duas tendências andam juntas --quanto mais o aumento do PIB cai, mais a crença na vitória de Dilma cai--, há um pêndulo que já virou piada socialmente, mas é levado a sério nas campanhas: Dilma cai nas pesquisas, as Bolsas sobem; Dilma sobe, as Bolsas caem.

Para a oposição, é, ou parece ser, um grande trunfo poder martelar nos palanques e nos programas de TV, com dados de pesquisas, agências e bancos, o quanto Dilma é rejeitada por "quem entende das coisas".

Mas, para o PT e a campanha da reeleição, é, e não apenas parece ser, uma imensa vantagem poder usar os mesmíssimos dados para cristalizar ainda mais o discurso, talvez a sensação, de que Dilma é rejeitada "pela elite", "pelos mercados", "pelos bancos" por sua alma "robinhoodiana", de tirar de ricos insaciáveis para dar aos pobres famintos.

Não é bom para Aécio Neves e para Eduardo Campos colar suas imagens, seus discursos e seus programas a essa "elite", símbolo da desigualdade ancestral brasileira. E é bom para Dilma mostrar-se como a mulher que lutou contra a ditadura e agora enfrenta os poderosos.

Entre a versão e os fatos (os bancos nunca lucraram tanto quanto na era Lula...) vai uma imensa distância. Mas sempre há um bom marketing para sobrepor versões a fatos.

O problema é que a rejeição de Dilma está longe de ser exclusiva do "mercado". Bate em 35% no país, 47% no Estado de São Paulo e em estonteantes 49% na capital paulista. E não é só dela --é dela e do PT.

Aliás, Lula vai passar incólume por essa imensa onda de rejeição?

 

SÉRGIO DÁVILA

Campos, Plano B de Lula?

SÃO PAULO - Teoria ouvida de importante representante do PIB nesta semana: é Eduardo Campos o verdadeiro plano B de Lula. Pelo raciocínio, a carta que o ex-presidente tem guardada na manga caso a candidatura de Dilma Rousseff cruze agosto e chegue a setembro perdendo impulso não é o "Volta, Lula", mas o "Vai, Campos".

Se isso acontecer, o ex-presidente passaria a apoiar informalmente o ex-governador de Pernambuco e liberaria a base governista para fazer o mesmo, na esperança de que ele chegue ao segundo turno contra Aécio Neves (PSDB). Viria daí o pacto de não agressão que os dois, Campos e Lula, mantêm desde o começo na corrida.

De fato, chama a atenção o esforço do candidato pessebista para preservar o petista em suas críticas de candidato de oposição. Na entrevista que deu ao programa "Roda Viva" em maio, Campos passou boa parte do último bloco se esquivando das perguntas dos jornalistas para conseguir sair sem fazer um reparo que fosse à conduta e ao governo do mentor.

À repórter Daniela Pinheiro, da revista "Piauí", explicou a tática: "Essa tucanada fica querendo me botar para brigar com ele porque é bom para Aécio. É uma estupidez brigar com Lula. Parte do lulismo vai deixar Dilma e vai votar em mim. Não vou falar mal de Lula nunca. É uma questão de autodefesa".

Já Lula tem sido econômico em menções, positivas ou negativas, ao seu ex-ministro de Ciência e Tecnologia (2004-2005). Em junho, sem citar seu nome, comparou-o a Collor, dizendo se preocupar "que venha um desconhecido, que se apresente muito bem, jovem". Completou: "Nós vimos o que deu".

Em 2010, no entanto, dias antes de deixar a Presidência da República, falou sobre Campos: "A gente não acha diamante em qualquer lugar. Não acha gente boa em qualquer lugar. Não acha companheiro em qualquer lugar".

 

EDITORIAL DA FOLHA: 

Conta que não fecha

O crescimento econômico mundial mais uma vez ficou aquém do esperado na primeira metade do ano. A decepção foi generalizada nas principais regiões e levou o FMI a revisar de 3,7% para 3,4% suas projeções para a alta do PIB global em 2014. O fundo, porém, manteve a expectativa de retomada global para 2015.

A recuperação virá sobretudo das nações desenvolvidas, que devem crescer 2,4% no ano que vem, no que serão acompanhadas pela maior parte dos emergentes, com alta de 5,2%. Nesse grupo, o Brasil continua a ser um dos lanternas --o fundo espera que a economia do país avance apenas 2%.

Não é de hoje que o desempenho brasileiro fica abaixo da média. Mas, na atual conjuntura, sem expansão econômica, logo aparecerão consequências estruturais.

Uma delas é a piora da avaliação sobre a qualidade do crédito do governo na praça. A medida para isso pode ser obtida por meio de contratos de seguro contra calotes que são negociados nos mercados financeiros (o CDS).

No caso brasileiro, a proteção contra não pagamento fica em torno de 1,4% ao ano; para o México, de 0,7%. De 2010 a meados de 2013, os valores estavam em patamares próximos. Ou seja, os investidores começam a se preocupar mais com o Brasil do que com outros emergentes --e uma razão fundamental para isso é o baixo crescimento. Com o PIB estagnado, torna-se mais difícil pagar dívidas.

As agências de classificação de risco têm chamado a atenção para o problema, dando a entender que rebaixarão a nota brasileira se a dinâmica não melhorar.

A situação ainda piora porque os juros da dívida pública são elevados (cerca de 15% ao ano), acima da taxa básica (Selic), hoje 11%. Isso ocorre devido à concessão de empréstimos subsidiados para empresas, entre outros fatores.

Não é preciso ser grande financista para perceber que, com estagnação econômica e juros estratosféricos, a conta não fecha.

Verdade que as circunstâncias estão longe de ser alarmantes, como foram no passado. O país tampouco está à beira de uma crise. Mas o aviso permanece. A melhor forma de reduzir a desconfiança é reforçar a transparência na gestão do Orçamento e cortar os gastos de forma a evitar que a dívida cresça.

HENRIQUE MEIRELLES

A bolha das bolhas

Cresce a preocupação de alguns analistas de que estamos vendo a formação de megabolha de ativos em várias partes do mundo, cujo estouro poderia gerar uma crise de dimensões ainda maiores do que as da década passada. A diferença, agora, é que seria uma bolha de diversos tipos de ativos, enquanto na última crise tivemos o estouro da bolha imobiliária nos EUA.

O FMI não crê na formação da megabolha, mas, por precaução, recomenda aos países diminuir vulnerabilidades.

Para entender as preocupações atuais, temos que olhar a formação recente de bolhas. O período de duas décadas anteriores à grande crise nos EUA foi chamado de a "Grande Moderação", caracterizado por juros e inflação baixos e alto crescimento. A evolução da política monetária, que ganhou potência e credibilidade, a importação de deflação em dólar via produtos chineses e outros fatores mantiveram a inflação em níveis aceitáveis, apesar do juro baixo e da alta liquidez. Mas não impediu grande alta no preço de ativos, principalmente imóveis e ações de tecnologia.

O primeiro resultado foi o estouro da bolha da internet, em 2000. O Fed (BC dos EUA) reagiu com injeção de grande liquidez, política replicada quando os ataques terroristas de 2001 provocaram contração temporária da economia americana. Assim, o preço dos imóveis seguiu em alta.

Mas tudo o que sobe em excesso desce. O preço dos imóveis despencou, incapacitando tomadores de empréstimos imobiliários de honrar pagamentos. Foi o início da última grande crise.

A injeção de liquidez, desde então, é muito mais forte que em estouros de bolhas anteriores. E está elevando os preços de vários ativos no mundo, como imóveis, ações e títulos públicos e privados.

A Espanha emitiu dívida com os juros mais baixos em mais de um século pouco depois de sua severa crise. Países insolventes, como Senegal e Costa do Marfim, voltam a captar valores expressivos a juros historicamente baixos, construindo a próxima crise de dívida soberana. Imóveis em Manhattan voltam a atingir preços impensáveis há poucos meses.

São alertas de que uma megabolha pode se formar em diversos ativos e países, cujo estouro geraria problemas ainda maiores.

É importante que a economia brasileira esteja preparada para todas as eventualidades. É preciso reequilibrar o quanto antes as contas públicas e adotar maior transparência fiscal para que os agentes econômicos sintam mais confiança. E também levar a inflação de volta à meta.

Quanto mais estável e sólida estiver nossa economia, mais protegida estará a população brasileira diante dos riscos da megabolha. Ou do estouro de uma mera bolha.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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