Na VEJA: Mercado vê em Marina chance maior de derrubar Dilma e ter 2.o turno

Publicado em 14/08/2014 08:22 e atualizado em 14/08/2014 11:04 1927 exibições
Se entrar no pleito eleitoral, vice poderá ter candidatura mais forte que a de Campos, apontam analistas, por Ana Clara Costa e Naiara Infante Bertão

trágica morte do candidato Eduardo Campos (PSB) na manhã de quarta-feira lança Marina Silva a uma realidade antes imponderável: a menos de uma semana do início da campanha de TV, ela terá de decidir se continua a caminhada de Campos, como sua sucessora, ou sepulta de uma vez por todas sua ambição pelo Palácio do Planalto. Diante de tal cenário, que colocou a disputa eleitoral de volta à estaca zero, o mercado se arma de incertezas. Fosse nas eleições passadas, o desaparecimento de um terceiro colocado nas pesquisas talvez não surtisse efeito representativo na avaliação dos investidores sobre as perspectivas para o país. Afinal, tanto a reeleição de Lula quanto a vitória de Dilma, em 2010, passaram praticamente incólumes ao olhar dos donos do dinheiro. Mas 2014 tem se mostrado um ano atípico: não só o mercado rechaça a reeleição da presidente Dilma Rousseff, como também responde com fortes oscilações a todo e qualquer acontecimento envolvendo o governo.

A resposta da BM&FBovespa à tragédia que se abateu sobre Campos foi emblemática. Em meio a rumores de que o avião estivesse ocupado tanto pelo candidato, quanto por sua vice, a Bolsa despencou cerca de 3% em questão de trinta minutos. Investidores se mostraram apreensivos com a possibilidade de não haver um terceiro candidato de peso — o que abriria mais espaço para uma vitória do PT sobre Aécio Neves (PSDB) no primeiro turno. A confirmação da ausência de Marina no voo fez a Bolsa reduzir as perdas e operar no azul por alguns minutos, antes de voltar a recuar, fechando em queda de 1,5%. Na avaliação do economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados, ainda é cedo para traçar cenários precisos, mas a força de uma provável candidatura de Marina transforma o jogo eleitoral daqui para frente. “A entrada da Marina muda não só as perspectivas para o primeiro turno, mas também para o segundo. Ironicamente, ao se tornar candidata numa circunstância de comoção nacional, Marina pode se fortalecer mais do que se tivesse sido escolhida lá atrás”, afirma.

Uma candidatura de Marina mais forte que a de Campos é a avaliação de todos os analistas ouvidos pelo site de VEJA nesta quarta-feira. Para João Augusto de Castro Neves, da consultoria Eurasia, a vice do PSB tem potencial, inclusive, de ir para o segundo turno com Dilma Rousseff, no lugar do candidato tucano, cenário pouco provável no caso de Campos. “Num hipotético segundo turno entre Dilma e Marina, os votos de Aécio são herdados por Marina, que também consegue pegar mais votos dos indecisos. Já o Aécio não herdaria tantos votos do PSB”, afirma Castro Neves. A Eurasia colocou em revisão sua análise eleitoral para o Brasil, mas ainda não divulgou se sua estimativa de vitória de Dilma, reafirmada até o relatório mais recente, se manterá. “O cenário ficou muito mais complexo”, diz o economista. Para Castro Neves, há uma discrepância entre a avaliação do mercado e dos eleitores sobre o pleito eleitoral. Aécio, segundo ele, continua como favorito dos investidores. Marina, se confirmar sua candidatura, vem em segundo lugar, enquanto Dilma permanece como a escolha a ser evitada. “O mercado tem uma opinião muito extrema de sucesso absoluto com Aécio e caos total com Dilma. O que, na realidade, não deve se concretizar”, diz.

Apesar da preferência por Aécio, o mercado parece não demonstrar apreensão ao ser confrontado com as convicções econômicas de Marina. Apesar de conflitos ideológicos com setores da economia, em especial o agronegócio, a vice de Campos levou para a campanha eleitoral um time heterogêneo de economistas que agradou investidores. Ele é capitaneado por Eduardo Giannetti da Fonseca e André Lara Resende — este último, um dos criadores do Plano Real. “Já faz algum tempo que a avaliação do mercado é positiva em relação a ela. A Marina mostra uma perspectiva de renovação e o mercado já deu sinais de que quer mudança”, afirma Oliveira, da GO Associados. Segundo o economista, no entanto, os desafios macroeconômicos que se formaram ao longo dos últimos anos, também conhecidos como a ‘herança maldita’ de Dilma, devem se sobrepor a qualquer plano de governo. “Tendo em vista o aconselhamento econômico de Marina e os desafios que se mostram adiante, algumas medidas serão inevitáveis tanto para ela quanto para Dilma e Aécio, como conter a deterioração fiscal, reajustar tarifas e tentar reconquistar a confiança do setor privado”.

Marina tem dez dias para protocolar sua substituição a Eduardo Campos junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Até lá, ao menos duas pesquisas serão divulgadas apontando intenções de voto numa hipotética candidatura da vice à Presidência da República. Seu potencial de definir o pleito poderá ser notado, sobretudo, no Sudeste, especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, onde teve desempenho acima da média nas eleições de 2010. Segundo Rafael Cortez, da Tendências, este é um ponto de atenção para os tucanos, já que, ainda no primeiro turno, Marina poderia angariar votos tanto de eleitores de Dilma quanto de Aécio. “Ela tem uma importante base de eleitores em Minas. E esse é o campo do Aécio, onde ele é mais forte. Se ela pode tirar força de Dilma, certamente também representa risco para a oposição”.

A candidata a vice na chapa de Eduardo Campos, Marina Silva (PSB), comenta a morte do companheiro de campanha, em Santos

A candidata a vice na chapa de Eduardo Campos, Marina Silva (PSB), comenta a morte do companheiro de campanha, em Santos (Joel Silva/Folhapress)

POLÍTICA

Marina Silva é tratada como sucessora natural de Eduardo Campos

 

João Domingos e Pedro Venceslau, Estadão

A ex-ministra Marina Silva é considerada a sucessora natural do ex-governador Eduardo Campos para disputar a Presidência da República pelo PSB por todos os integrantes do partido e da coligação, que conta também com PPS, PHS, PRP, PPL e PSL.

Embora as principais lideranças desses partidos estejam ainda muito emocionadas com a morte de Campos, provocada pela queda do jatinho que o transportava do Rio de Janeiro para Santos, ontem, a impressão geral é de que Marina, candidata a vice na chapa, não conseguirá resistir à pressão para que assuma o posto de presidenciável da coligação. O PSB tem prazo de dez dias para fazer a substituição.

 

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O Imponderável é o verdadeiro deus da história. Ou: Os “engenheiros de gente” erraram mais uma!

Autoritários de direita e de esquerda não conseguem conviver com o mais severo e perigoso de todos os deuses — o Imponderável. Se é fato, retomo expressão que empreguei ontem, que podemos cercar as margens de erro para obter os resultados ambicionados, não é menos verdade que mais movem a história as circunstâncias que não estão sob nosso controle do que aquelas que podemos escolher. Ainda que alguns sociopatas imaginem que podem determinar a forma do futuro, este se faz de um emaranhado de sistemas que nos escapam. O avião em que viajavam Eduardo Campos e outras seis pessoas foi planejado para não cair. Simulam-se situações de risco às quais a aeronave pode resistir. Mas fatores os mais diversos — naturais e humanos — podem se combinar e pronto! Nada mais será como se apostava antes.

Estamos a menos de dois meses do primeiro turno da eleição presidencial, e tudo pode acontecer, inclusive nada de novo no que diz respeito ao prognóstico. Ainda que a petista Dilma Rousseff venha a vencer a eleição — segundo apontava o retrato momentâneo até ontem —, será com outra narrativa, que não havia sido imaginada por nenhum roteirista, por mais criativo que fosse.

Parece-me difícil, apesar dos fatores contrários, que não são poucos, que Marina Silva, da Rede, não venha a ocupar o lugar de Eduardo Campos na cabeça da chapa da coligação “Unidos para o Brasil”. Ainda que as divergências sejam imensas, não se despreza, assim, com tanta ligeireza alguns milhões de votos — e ela os tem, isso é inegável.

Não que a presidente Dilma Rousseff, o PT e outros potentados não tenham se movido nos bastidores para tentar inviabilizar a sua candidatura e para criar dificuldades para a criação da Rede. Essas mesmas forças se mexeram, note-se, para facilitar a formação de legendas que hoje servem à base aliada. Os leitores sabem o que penso sobre Marina Silva. Tenho horror a seu pensamento — ou seja como se chame as coisas que ela diz. Mas as manobras de bastidores para barrar a sua postulação são bastante conhecidas e asquerosas.

Vale dizer: os que se querem donos da história e do futuro decidiram operar com determinação para eliminar os adversários — fez-se de tudo, não custa notar, para impedir a candidatura do próprio Eduardo Campos. Vejam que coisa: estivesse Marina com a sua “Rede”, teria um tempo ínfimo na televisão, e o PSB, a esta altura, ungiria um nome apenas para não ficar fora da disputa. Os feiticeiros devem olhar para a realidade agora cheios de perplexidade. É grande a chance de Marina ser candidata à Presidência com uma força que, sozinha, certamente não teria.

A ex-senadora, por sua vez, é sabido, é melhor de voto e de “mídia” do que de articulação política. Campos era o grande organizador do PSB e sua maior figura. De tal sorte seu comando era unipessoal que não deixa nem sequer um candidato a herdeiro. A aproximação de setores importantes do partido com a candidatura do tucano Aécio Neves é uma possibilidade mais do que evidente.

Os “engenheiros do futuro” do PT comemoravam as dificuldades eleitorais de Campos, que não eram pequenas, e contavam com o início do horário eleitoral gratuito para tentar liquidar a fatura ainda no primeiro turno. A possibilidade me parecia remota, mas os petistas estavam bastante confiantes. Se Marina for mesmo a candidata do PSB, o PT precisa ser muito otimista para apostar nessa possibilidade. Mais: Marina atrai com mais facilidade votos que, no que concerne aos valores ao menos, estão à esquerda e não se sentiam identificados com Aécio e com Campos. Acabariam, por inércia, caindo no colo de Dilma; agora, surge uma alternativa.

Pode haver um estresse também nas hostes tucanas? É claro que sim. Só disputa o segundo turno quem passa pelo primeiro, e é evidente que se justifica certo temor no PSDB de que Marina fique com a segunda vaga — e, nessa perspectiva, seu adversário imediato é Aécio. Vamos ver.

Mas o destino também colhe Marina de calças curtas. Como candidata a vice e representante da Rede na aliança, ela podia forçar a mão em favor do seus pontos de vista, contrastando com o PSB, na certeza de que Campos arbitraria o jogo. Esse árbitro, agora, desapareceu. Se for a candidata, passa a falar em nome da coligação, muito especialmente do partido ao qual está formalmente filiada. Vai se adaptar à nova realidade ou será aquela Marina de 2010, que se sentia mera hospedeira do PV?

Está tudo embaralhado. Os “engenheiros de gente” erraram mais uma.

Por Reinaldo Azevedo

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veja.com.br

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