Nova polarização (editorial da FOLHA) e Cinzas do planejamento (sobre a BR-163)

Publicado em 02/09/2014 05:55 492 exibições
e mais artigos sobre o debate presidenciaavel de ontem realizado em conjunto pelo SBT, Folha de S. Paulo, UOL, e rádio Jovem Pan.

Nova polarização (editorial da FOLHA)

Debate realizado ontem teve confronto entre Dilma Rousseff e Marina Silva no centro do palco, com Aécio Neves em segundo plano

Por força da profissionalização das campanhas, debates entre postulantes a cargos públicos de relevo com frequência se resumem a conhecidas fórmulas capazes de anular confrontos reais entre os candidatos. Por força das circunstâncias, contudo, nem sempre se restringem a exibir mais do mesmo.

Exemplo disso foi o encontro promovido ontem por esta Folha, pelo portal UOL, pela TV SBT e pela rádio Jovem Pan. Os aspirantes a presidente estavam, é claro, treinados na arte de sair pela tangente, mas a própria conjuntura se encarregou de trazer ao centro do palco um enfrentamento que hoje interessa à maioria dos eleitores.

Dirigindo-se a Marina Silva logo na primeira pergunta, a presidente Dilma Rousseff tirou da bainha suas armas contra a nova adversária. À petista interessava sugerir que a candidata do PSB não diz, de forma concreta, como transformará seus sonhos em realidade, dado o alto custo das propostas.

Trata-se, retrucou Marina, de melhorar a eficiência da máquina pública e a qualidade dos gastos, "fazendo as escolhas corretas" ao aplicar o dinheiro do contribuinte.

A discussão, no entanto, não se aprofundou mais do que isso. Engessados por regras impostas pelos próprios candidatos, debates desse tipo oferecem pouco tempo para o desenvolvimento das ideias.

É uma pena que seja assim. Segundo pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira passada, Dilma e Marina, empatadas em primeiro lugar, concentram dois terços das intenções de voto. Seria oportuno que tivessem mais espaço para evidenciar suas diferenças.

Constituiu novidade, de todo modo, que ambas tenham polarizado o encontro de ontem, no qual Aécio Neves (PSDB), com 15% das preferências, ficou em segundo plano. Na terça-feira passada, em evento realizado pela Rede Bandeirantes, o tucano ainda aparecia como principal opositor de Dilma.

Aos chamados nanicos coube os papéis de sempre. Protegidos pela legislação --devem ser convidados candidatos cujos partidos têm representação na Câmara dos Deputados--, também participaram Pastor Everaldo (PSC), Eduardo Jorge (PV), Luciana Genro (PSOL) e Levy Fidelix (PRTB).

Com todas as suas limitações, o debate teve o mérito de captar com clareza o novo espírito da disputa, em que o PSDB, ao menos por ora, não figura como protagonista. Ao eleitor interessa acumular o maior número de informações para decidir seu voto, e os debates, bem ou mal, permitem menos artificialismo do que as peças publicitárias.

Cinzas do planejamento (sobre a BR-163)

No final dos anos 1990, quando o governo apresentou o plano Avança Brasil, ambientalistas ficaram alarmados com seu potencial para induzir desmatamento na Amazônia. Milhares de quilômetros quadrados de floresta pereceriam com a pavimentação de corredores de exportação, como a BR-163 (Cuiabá-Santarém).

No início do século 21, as taxas de desmatamento de fato subiram depressa, mas em 2003 o movimento socioambiental viu uma representante, Marina Silva, assumir o Ministério do Meio Ambiente (MMA). A questão da sustentabilidade chegava ao coração do governo federal, acreditou-se então.

Tendo saltado de 18 mil km2 em 2001 para 27 mil km2 em 2004, a cifra da devastação passou a encolher nos anos seguintes até pouco abaixo de 5.000 km2 em 2012, o menor patamar registrado desde 1988 --ainda assim, o equivalente a três municípios de São Paulo.

A rodovia Cuiabá-Santarém se tornou um exemplo tanto de ocupação predatória como da tentativa de discipliná-la. Várias organizações governamentais e não governamentais se engajaram na elaboração do "BR-163 Sustentável", plano lançado em 2006.

Criaram-se unidades de conservação; dificultou-se o crédito a produtores rurais de municípios campeões em desmatamento; anunciaram-se ordenamento territorial e regularização fundiária. O asfaltamento do trecho paraense da estrada se tornaria realidade em breve, como todos queriam, sem incentivar mais destruição.

Menos de uma década depois, as promessas ficaram pelo caminho. A parte mais importante delas --legalização das propriedades na região, das pequenas às grandes-- virou fumaça. Novo Progresso (PA), município de madeireiros e pecuaristas visitado pela Folha no final de agosto, teve só 400 de 3.000 terras de produtores agrícolas regularizadas.

É grande a insatisfação com o governo federal. Os conflitos entre posseiros e assentados, de um lado, e fazendeiros e garimpeiros de madeira, de outro, estão de volta, mas todos concordam que somente a solução da questão fundiária pelo Incra poderá desentravar o desenvolvimento da região de maneira legal e sustentável.

Faltou planejamento, sobretudo quanto às temáticas ambientais --uma agenda que agora pode ganhar espaço na pauta eleitoral como consequência da ascensão de Marina Silva (PSB) nas pesquisas de intenção de voto.

Não seria ruim. A BR-163, por exemplo, encurta em 1.000 km o caminho da soja e do milho para o exterior. Se o país não pode abrir mão desse tipo de estrutura, tampouco deveria abandonar preocupações com a sustentabilidade.

ELIANE CANTANHÊDE

O segundo turno chegou

BRASÍLIA - O segundo turno já começou. Isso ficou evidente no debate desta segunda (1º/9) entre os presidenciáveis, quando Dilma Rousseff perdeu os pruridos e partiu para cima de Marina Silva, e Marina Silva não se fez de rogada e bateu firme no governo da adversária.

Em segundo plano, o tucano Aécio Neves estreou uma nova fase. Em vez da polarização PT-PSDB, com Marina no meio, o que se viu foi Dilma e Marina frente a frente, com Aécio tentando sobreviver entre as duas favoritas. Ele centrou fogo em Dilma, deixando à presidente a missão de bater em Marina. No fim, colocou-se como opção ao "fracasso" do governo e às "contradições" de Marina.

Dilma, enfim, cedeu à pressão de Marina para reconhecer os erros: "Pode parecer que estou plenamente satisfeita. Não estou". E Marina, enfim, saiu da zona de conforto em que trafegava desde 2010, mas se saiu bem ao explicar os pagamentos que recebe por palestras e ao se equilibrar entre o tripé econômico desprezado por Dilma e os avanços sociais. De avião, ninguém falou.

Propaganda na TV funciona a favor das reeleições porque todo governante, por pior que seja, tem sempre o que mostrar: a obra tal, o programa qual. Mas debate funciona contra, porque todo governante, por melhor que seja, também tem o que esconder. E o que é vantagem se transforma em desvantagem: os adversários se unem para apontar o dedo contra quem está no poder.

Debate é forma e conteúdo. Marina estava firme, segura, mantendo um discurso que tem pouco de concreto, mas fala à alma de uma grande maioria sedenta por mudança.

Alguém precisa dizer a Dilma, se é que Dilma sabe escutar, que a cara mal humorada, às vezes parecendo vermelha de raiva, não ajuda a convencer o telespectador nem a humanizar a sua figura. Ainda mais se, na propaganda do PT, atua como a vovó boazinha que faz macarrão e, no debate, assume o ar de lobo mau.

Não muda nada, mas é divertido.

HÉLIO SCHWARTSMAN

O mistério de Marina

SÃO PAULO - Como sempre, Rogério Cezar de Cerqueira Leite foi direto na ferida: dá para confiar o comando da nação a alguém que diz crer que o Universo foi criado em sete dias menos de 10.000 anos atrás?

Como Rogério, fico incomodado com essa possibilidade, mas, ao contrário do professor, não definiria tal condição como patológica.

Meu primeiro argumento é matemático. De acordo com o Datafolha, 25% dos brasileiros afirmam crer na versão bíblica da criação do mundo. Outros 59% até acreditam em evolução, mas acham que é Deus quem a guia. Assim, se definimos patológico como aquilo que se desvia da normalidade, então os anormais somos eu, o Rogério e os outros 7,9999...% que consideram que a evolução ocorre sem qualquer interferência divina.

A questão central, porém, é outra. Será que Marina e demais criacionistas da Terra Jovem realmente acreditam no que dizem acreditar? A crer num modelo de arquitetura cerebral cada vez mais popular entre neurocientistas, a resposta é "só às vezes".

Nesse paradigma, a mente é o resultado de um grande concerto de diferentes facções cerebrais, que competem umas com as outras pelo controle. Na imagem de David Eagleman, o cérebro é uma democracia representativa, na qual diversos módulos e sistemas podem ter opiniões divergentes sobre o mesmo tema. Vence quem, naquele momento, se mostra mais eloquente, isto é, consegue persuadir o córtex pré-frontal ventromedial, estrutura que parece ter papel importante no gerenciamento do tráfego de informações entre zonas reflexivas e emocionais da mente.

O bacana desse modelo é que ele permite explicar, sem que precisemos necessariamente recorrer à má-fé ou a oportunismo, casos de pessoas como Marina, que proclamam fidelidade a ideias religiosas fundamentalistas, que, se levadas a sério inviabilizam a biologia, mas nem por isso deixam de tomar remédios desenvolvidos a partir da ciência ateia.

coluna TENDÊNCIAS/DEBATES

A retomada do etanol

Para que o etanol volte a experimentar um ciclo virtuoso é preciso uma política para reposicioná-lo como combustível estratégico

O período pré-eleitoral é um bom momento para um exame de eventuais correções de rumo na política energética. O país precisa aproveitar seu potencial e suas vantagens dada a diversidade de fontes disponíveis. O setor sucroalcooleiro é candidato natural porque representa uma enorme oportunidade para nossa economia. Não por outro motivo, o Brasil chegou a ser reconhecido como a "Arábia Saudita verde".

Após um período de crescimento contínuo até o final da década passada, motivado pela elevação do preço do petróleo no mercado internacional e pela expansão da frota "flex fuel", o setor hoje enfrenta uma crise sem precedentes.

Em 2011 e 2012, a produção de etanol ficou estagnada devido à perda de competitividade frente à gasolina, beneficiada pela política de preços administrados. O setor também foi prejudicado pela desoneração da gasolina nos últimos anos. Assim, o etanol permanece competitivo só nos Estados em que é produzido, especialmente São Paulo, onde a alíquota de ICMS é mais baixa.

Além da competição desleal com a gasolina, o setor enfrenta adversidades em outras áreas. Desde a crise de 2008, o setor tem tido dificuldade em levantar recursos para investimento e, para piorar, as últimas safras foram afetadas por problemas climáticos. Para compensar a dificuldade de captação de recursos, o BNDES passou a investir no setor a partir de 2008, mas com reduções de 2011 em diante.

O resultado dessa sequência de erros é que desde 2008 não há instalação de novas usinas no país. Segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar, das 330 usinas de açúcar e etanol do centro-sul do Brasil, responsáveis por 90% da cana-de-açúcar processada no país, 60 deverão fechar as portas ou mudar de dono em dois ou três anos. Nos últimos cinco anos, 43 usinas foram desativadas e outras 36 entraram em recuperação judicial. Apenas quatro unidades estão previstas para entrar em operação até o fim de 2014, mas são projetos definidos antes da crise.

O setor sucroalcooleiro poderia contribuir também com seu grande potencial de geração térmica a bagaço, que vem sendo deixado de lado apesar da sua complementaridade com a geração hídrica no período seco, em especial quando o país vive a iminência de uma crise de abastecimento de energia elétrica.

A crise mostra que o setor sucroalcooleiro vem sendo mais uma vez penalizado por uma política de "stop and go". Uma hora é tudo etanol e outra é tudo gasolina. Com a miragem do pré-sal, o governo abandonou uma fonte verde disponível. Para que o etanol volte a experimentar um ciclo virtuoso, é preciso uma política de longo prazo para reposicioná-lo como combustível estratégico.

É necessário que o próximo governo estabeleça uma política baseada em quatro pontos para que isso ocorra. Primeiro, dar previsibilidade e transparência à política de preços de combustíveis. Segundo, reintroduzir a Cide para recuperar a competitividade do etanol. Terceiro, fortalecer o Inova Auto para que a política de incentivos à indústria automobilística tenha como contrapartida o aumento de eficiência dos motores a etanol. Quarto, realização de leilões de energia nova por região e por fonte fixando uma meta de crescimento para as fontes renováveis, como no caso do bagaço de cana.

A adoção de extremos não é a solução para nossa matriz de energia, uma das mais limpas do mundo. O Brasil tem a vantagem de possuir grande diversidade de fontes. O pré-sal e etanol não são excludentes. Ao contrário, são uma dádiva da natureza para fomentar o desenvolvimento do país.

(por ELENA LANDAU E ADRIANO PIRES)

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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