Na FOLHA: A alta do dólar e os ajustes da economia (artigo de V

Publicado em 16/09/2014 05:23 478 exibições
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Dólar, Dilma e o duro 2015

Alta recente do dólar não tem a ver com eleição, mas nos lembra dos problemas do ano que vem, por VINICIUS TORRES FREIRE

A ESPECULAÇÃO com ações baseada em resultados de pesquisas eleitorais induziu "analistas" a chutar que a recente desvalorização do dólar também se deve a idas e vindas da votação de Dilma Rousseff (PT). Se é para chutar, porém, é possível fazê-lo de modo mais informado.

O dólar sobe faz mais de uma semana no Brasil como sobe na média das maiores economias "em desenvolvimento", todas ao que parece sujeitas ao recente zum-zum no mercado financeiro mundial a respeito da alta das taxas de juros nos Estados Unidos.

Parece razoável relacionar a alta do dólar à do rendimento dos títulos da dívida pública americana de dez anos ("juros"), que vem desde o início do mês.

A princípio, essa alta se deve a uma nova onda de especulação a respeito do que o banco central deles, o Fed, vai dizer a respeito de juros ao fim da reunião deste mês, na quarta-feira.

Sim, trata-se da velha história da alta dos juros nos Estados Unidos, que deve acontecer até meados do ano que vem. Em tese, a perspectiva de juros em alta levará mais dinheiro para os EUA, secando um pouco o mar de dólares pelo mundo, o que deve provocar desvalorização da moeda por aqui e nos "emergentes".

Essa história, ou hipótese de história, serve para nos lembrar de problemas reais e imediatos que o próximo presidente do Brasil deverá enfrentar.

Já não vai ser fácil estabilizar a economia a partir de 2015 (estabilizar: criar condições para a baixa da inflação e de juros, arrumar as contas públicas, dar jeito na distorção de vários preços básicos). Pode ser que o próximo presidente tenha de fazê-lo em meio a um ligeiro tumulto na finança mundial (devido à mudança na economia americana). Pode ser. Ninguém sabe.

A tarefa fica um tanto mais difícil, política e economicamente, porque o deficit do governo está em alta. Em 3,84% do PIB, está chegando perto da situação de 2006 (excluída a da crise aguda de 2009).

Mas em 2006 as contas do governo sofriam o efeito da alta cavalar de juros de 2005; o gasto com juros chegaria a 7,6% do PIB em fevereiro de 2006 (agora está em 5% do PIB). Ou seja, o deficit ora é grande mesmo com menos gastos com juros. Além do mais, o país crescia mais rapidamente, assim como a receita de impostos. Havia mais folga para fazer uma poupança que reduzisse deficit e dívida.

O crescimento de 2014 está estimado em 0,3%. O de 2015, decerto muito chutado ainda, em 1%. Seja como for, a alta da receita do governo será pequena. Não é improvável que a taxa de juros aumente (assim como os gastos com juros), dada a inflação resistente e represada.

Dada tal situação, reduzir o deficit já será complicado. Aumentar gasto, social ou não, fica impossível. O aumento da renda do trabalho será pequeno, se algum, dada a lerdeza econômica. Logo, o clima não vai estar muito bom.

Prometer mundos e fundos, nessa situação, pode criar frustração política. Pode, não é certo que vá. Lula, em 2003, deu nó em pingo d'água, fez um "baita ajuste" e ainda assim manteve um clima de esperança paciente. Mas a gente sabe muito pouco do poder de persuasão do próximo presidente e do nível de tolerância do eleitorado de agora.

Me engana que eu gosto

por ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Marketing é coisa de gênio e nós, meros mortais, não somos gênios. Mas também não precisam tratar os 145 milhões de eleitores do país como idiotas.

Querer vender Marina como "elite branca", quem sabe como "elite branca de olhos azuis", quem sabe até como "elite branca de olhos azuis do capitalismo paulista", vai colar?

Depois do sociólogo, do migrante nordestino e da primeira mulher, faz sentido uma mulher negra, saída dos cafundós do Acre e alfabetizada a duras penas aos 16 anos. Um "Lula de saias". Daí o pânico da campanha de Dilma. O poder da imagem de Marina, a força da sua simbiose com a maioria do povo brasileiro.

E lá vem Dilma e sua propaganda deformando a cor, a cara, a imagem, a história e as intenções de Marina, adulterada como representante de banqueiros e um perigo para o prato de comida dos pobres. E lá vem João Pedro Stedile, do MST, ameaçando invadir tudo, todo dia, se ela vencer. É a implosão da Marina real e a construção da Marina "de direita".

Será que os eleitores brasileiros somos tão imbecis, caímos como patinhos em qualquer lorota? Ou será que só cai quem é manipulável e quem está pendurado nas boquinhas e verbonas, na promiscuidade entre o público e o privado? Para cair no engodo, na "genialidade" da propaganda, só por ignorância ou por má-fé, pura e simples.

Se Lula saiu de um casebre do interior de Pernambuco, Marina emergiu de um seringal do Acre. Se Lula fez curso de torneiro mecânico, Marina teve de lavar chão para formar-se em história. Se Lula se tornou o grande líder sindical no Sul Maravilha, Marina impõe-se na órbita do ambientalista Chico Mendes.

A diferença é que Lula se rendeu aos lucros estratosféricos do setor financeiro, aos jatinhos das empreiteiras, às vantagens camaradas para filhos e noras e aos convescotes das oligarquias políticas mais atrasadas. Logo, o candidato dos sonhos dos banqueiros não é Marina. É Lula.

No topo se fala inglês (editorial desta terça-feira)

Não há muita razão, diante da lista da consultoria Thomson Reuters que tem só quatro brasileiros em meio aos 3.215 pesquisadores mais influentes do mundo, para alimentar o "complexo de vira-lata" de que falava Nelson Rodrigues.

O levantamento se baseia no 1% de trabalhos científicos de maior repercussão entre os publicados de 2002 até 2012.

Quase todos os membros dos Brics têm pouquíssimos representantes nesse Olimpo. A Índia, com população muito maior e tradição de intercâmbio com instituições anglo-saxãs de pesquisa, exibe meros nove cientistas relacionados.

A Rússia, herdeira do sistema soviético de ciência e tecnologia, que por décadas rivalizou com a usina americana de conhecimento, ostenta cinco nomes. A África do Sul tem 50% a mais que o Brasil, mas são só seis --com amostras tão pequenas, as comparações perdem significação estatística.

Resta o caso da China. São 150 pesquisadores no topo delineado pela Thomson Reuters a partir das citações de artigos científicos (medida de comparação mais aceita). Mais útil que se abater com essa desproporção é interrogar-se sobre o que está por baixo dela. Uma pista são os próprios perfis dos quatro brasileiros destacados.

Adriano Nunes Nesi estuda fisiologia de plantas na Universidade Federal de Viçosa (MG). Tem no currículo seis anos de pesquisa no Instituto Max Planck, da Alemanha, período em que publicou muitos dos trabalhos mais citados.

Álvaro Avezum trabalha no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (SP). Integrou a equipe de gigantesco estudo internacional sobre fatores de risco para o infarto.

O químico Ernesto Gonzalez, da USP de São Carlos, especialista em células de combustível, passou por universidades do Reino Unido, da Argentina e da Venezuela. O físico Paulo Artaxo, da USP, estuda o clima e a Amazônia. Participa do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC).

Qualquer um pode perceber que o traço comum aos quatro são a experiência e as colaborações internacionais. Sem publicar em inglês com grupos de instituições consagradas, a ciência brasileira seguirá quase invisível para o mundo.

A China se deu conta disso há tempos. Quase todos os seus periódicos científicos relevantes já são editados em língua inglesa, e suas universidades se internacionalizaram rapidamente. Não há caminho alternativo a seguir.

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Fonte:
Folha de S. Paulo

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