ANÁLISE - Estratégia eleitoral de Dilma aumenta problemas para economia do Brasil

Publicado em 08/10/2014 07:48 e atualizado em 08/10/2014 09:36 726 exibições
Por Brian Winter e Alonso Soto, da Reuters

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SÃO PAULO/BRASÍLIA (Reuters) - A estratégia da presidente Dilma Rousseff de atacar banqueiros e ressaltar as divisões de classe pode lhe dar uma vantagem na eleição deste mês, mas reforça as tensões com as lideranças empresariais no momento em que a estagnada economia brasileira precisa urgentemente de novos investimentos.

A candidata do PT à reeleição, que liderou a votação em primeiro turno no último domingo e vai enfrentar o favorito dos mercados Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno, está usando fortes gastos governamentais e a retórica dura para garantir o apoio entre os pobres.

O Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2002, usou estratégia parecida para vencer as últimas três eleições presidenciais em um país marcado pela concentração de renda, mas Dilma está aumentando a aposta na mais acirrada e incerta disputa no país em décadas.

Ela está concentrando no histórico impressionante de redução de pobreza durante os 12 anos do PT no poder, enquanto descreve PSDB, que ocupou a presidência entre 1995 a 2002, como um defensor dos mais ricos.

"Vamos ter mais uma disputa contra o PSDB, que governou para um terço da população e se esqueceu dos mais necessitados", disse Dilma na noite do domingo, após Aécio garantir, no último minuto, o segundo lugar e a oportunidade de disputar o segundo turno.

Ela insistiu no mesmo tema na segunda-feira, classificando o PSDB como o partido dos ricos e a recuperação dos mercados após o desempenho de Aécio como irrelevante.

"Eu desconfio que os investidores podem fazer tudo, mas não ganham uma eleição. Quem ganha e vota no Brasil chama-se povo brasileiro", afirmou a presidente.

Durante o primeiro turno, a sua equipe de campanha veiculou um anúncio na TV criticando a proposta da candidata Marina Silva (PSB) de um banco central independente ao mostrar banqueiros de terno e gravata sentados em uma mesa e rindo enquanto a comida desaparecia dos pratos de uma família pobre. 

Em reunião com aliados, Dilma e marqueteiro tentam passar tranquilidade

Por Jeferson Ribeiro

BRASÍLIA (Reuters) - A presidente Dilma Rousseff (PT) e seu marketeiro, João Santana, tentaram traçar um quadro de tranquilidade e confiança para os aliados nesta terça-feira na reunião que deu o pontapé inicial da campanha de segundo turno da petista.

"O João Santana disse que no segundo turno todo mundo tem a sensação de que está entrando num túnel, escuro, que assusta no começo, mas logo depois há luz", contou um deputado à Reuters na saída da reunião em Brasília, pedindo para não ser identificado.

Ficou acertado, por sugestão da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) e do governador eleitor de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), que será feita uma pesquisa qualitativa para tentar traçar um perfil dos 22 milhões de eleitores de Marina Silva (PSB), que ficou em terceiro lugar na disputa e que agora estuda apoiar formalmente o adversário de Dilma, Aécio Neves (PSDB).

Além da cúpula da campanha, estavam na reunião 15 governadores, entre eleitos, reeleitos e que concorrem no segundo turno e não estão em disputa com outro aliado. Também compareceram 12 senadores e todos os presidentes de partidos que compõe a aliança de Dilma.

O diagnóstico relatado por alguns participantes é que o eleitorado de Marina pode ser conquistado por Dilma porque não é homogêneo e também não a seguiria por inteiro, caso a candidata do PSB feche um acordo formal com Aécio.

O governador da Bahia, Jaques Wagner, argumentou que ninguém tem mando sobre os votos.

"O eleitor da Marina se divide em duas partes principalmente: o da negação da política e o eleitor mudancista. Nem Dilma e nem Aécio pregam a negação da política. E o Aécio não representa a mudança. Ele representa a alternância de poder", disse a jornalistas na saída do encontro.

Wagner contou também que alguns aliados reclamaram da falta de material impresso de campanha e reivindicaram que as estruturas digitais das campanhas estaduais sejam mais conectadas à estrutura nacional.

O presidente do PDT, Carlos Lupi, afirmou que a reunião foi num clima leve e de otimismo e que sentiu ânimo dos aliados para derrotar o projeto tucano.

"O Aécio não cresceu pelos suas qualidades, cresceu muito pela queda da Marina", afirmou à Reuters.

Durante o encontro, segundo relato dos participantes, Dilma voltou a citar suas propostas de programas para um eventual segundo mandato e disse que a melhor forma de derrotar os tucanos é comparando os oito anos da gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os 12 anos da administração do PT.

Os aliados ouvidos pela Reuters disseram que a presidente não mencionou mudanças na área econômica.

O governador eleito do Piauí, Wellington Dias (PT), disse que João Santana também apresentou um relatório mostrando que a maioria do eleitorado consegue compreender e comparar os governos do PT e do PSDB, onde está centrada a estratégia e o discurso da presidente.

Ao final da reunião, Santana foi questionado pelos jornalistas sobre o tom da campanha, se seria de ataques a Aécio e ao PSDB, e negou.

"A campanha vai ser a favor da Dilma e não contra o Aécio", disse rapidamente.

PORTA-VOZ

Dilma anunciou também que a partir dos próximos dias o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, vai tirar férias para se tornar o porta-voz da campanha.

"Vou falar todos os dias. Vou fazer o debate político", disse Mercandante à Reuters no final da reunião.

Segundo ele, os debates sobre economia com a equipe de Aécio estarão no seu foco, mas evitou dar detalhes sobre eventuais mudanças que a presidente pode fazer na área.

Questionado sobre qual será o tom da campanha no segundo turno, ele voltou a dizer que a comparação de projetos estará no centro do debate, mas afirmou que haverá questionamentos sobre a gestão de Aécio em Minas Gerais e apresentação de propostas.

"Por que ele perdeu a eleição em Minas Gerais? Ele perdeu onde governou, Minas, e perdeu onde mora, no Rio de Janeiro", provocou o ministro.

Aécio perdeu para Dilma em Minas no primeiro turno, não conseguiu eleger seu candidato Pimenta Veiga (PSDB) ao governo do Estado e viu o candidato do PT, Fernando Pimentel, vencer a disputa no primeiro turno.

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Reuters

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