A iluminação pelas urnas, artigo de FERNANDO GABEIRA

Publicado em 11/10/2014 03:15 498 exibições
em O Estado de S. Paulo

Pesquisas, análises, previsões, fizemos de tudo para entender o futuro. Mas ele nos escapou, inúmeras vezes, ao longo do caminho. Nunca tivemos uma dose tão cavalar do imprevisível como nesta disputa de 2014.

Alguns jornalistas chamaram o processo de montanha-russa. As emoções foram tantas que, às vezes, essas bruscas oscilações acabaram por ofuscar o conteúdo.

Marqueteiros, campanhas de desconstrução, tudo isso, para mim, foi apenas uma cortina de fumaça. Sem me arriscar a previsões, perplexo com os sobressaltos da campanha, eu a via, no entanto, com uma simplicidade meio tosca: a luta cristalina entre oposição e um governo amplamente rejeitado.

Esse era o fio da meada. Em termos numéricos, a oposição é maioria. Mas quem, dentre os desafiantes, poderia encarnar esse sentimento?

Não sei em que momento preciso, mas creio que Aécio Neves decidiu, no final da campanha, encarnar essa rejeição ao PT e a um governo que assalta a Petrobrás, entre outros bens públicos. Marina Silva não conseguiu, ou talvez nem tenha aspirado a assumir esse papel de "nós contra eles e vamos lá." Além dos vínculos emocionais com um passado no PT, a sua disposição de governar com os bons dos dois lados talvez não fosse a melhor ideia para o momento, embora inatacável de um ponto de vista abstrato.

Apesar das emoções, algumas escolhas racionais estavam em jogo. Uma delas, na economia. Não basta derrotar o governo, é preciso ter projeto e equipe que possam combinar o crescimento econômico e a política social.

Momento importante para a escolha foi o último debate entre os candidatos. No debate anterior, a intervenção de Levy Fidelix acabou roubando a cena, com o agora famoso "aparelho excretor". Compreendo a reação à frase de Levy. Eu o conheci cobrindo um dia de sua campanha e creio que um caminho pedagógico talvez fosse melhor. Mostrar que as pessoas não são uma soma de aparelhos, senão estaríamos sendo vendidos na Casas Bahia.

Dizem que quem sai na frente no segundo turno termina na frente. É mais uma tentativa de controlar o futuro. Como se os candidatos não tivessem diante de si toda uma nova etapa, com idênticos tempos de televisão e debates cara a cara.

Visto superficialmente, o mapa eleitoral do Brasil contrapõe o Nordeste a São Paulo. Parece que estão em jogo, num polo, a amplitude da político social e, no outro, a impaciência com a estagnação. A tarefa de cada candidato é unir esses polos da forma mais convincente.

Indo um pouco mais longe, lembrando-me das constantes viagens às metrópoles nordestinas Recife, Fortaleza e Salvador, creio que há nelas um fator comum a todas as capitais: a consciência de que a corrupção drena os recursos do País e zomba da pessoa que trabalha duro para sobreviver.

No momento, o escândalo na Petrobrás está em curso. Um ex-diretor da empresa já firmou acordo de delação premiada. Depois dele veio Alberto Youssef, o doleiro, que promete entregar todos os documentos das operações de suborno. É uma trama secundária que envolve estas eleições, prometendo sempre influenciar o enredo principal. É o que numa história os americanos chamam de pay back, deixar alguma coisa no ar, seguir com a narrativa e explicar depois, ligando os fatos.

Estamos todos esperando o pay back do escândalo da Petrobrás. Enquanto isso, o segundo turno vai seguindo o seu curso. E pela dimensão do problema, quando se esgotar o processo eleitoral, o escândalo da estatal petroleira ainda estará sendo discutido.

No Rio de Janeiro, 2 milhões de eleitores foram às urnas e votaram nulo ou em branco. Isso se deve, parcialmente, a uma atmosfera política local desoladora. Mas os números foram grandes também em São Paulo. Considerável parcela dos brasileiros rejeita a escolha eleitoral: 38 milhões ficaram de fora, votando em branco, nulo ou faltando às urnas. Isso significa que, apesar de todas as peripécias emocionais, um problema de fundo ainda persiste: o descrédito no processo político.

Neste momento, o País precisa de um governo que, mantendo as conquistas sociais, retome investimentos, saiba gastar. E não considere a gratidão de uma parte do povo como um habeas corpus para saquear o Estado e financiar o partido dominante e seus aliados.

Não sei o que seria desta campanha sem um grande desastre e a montanha-russa em que se transformou, conforme descreveu o jornal El País. Mas à medida que os fatos se decantam, a grande encruzilhada econômica aparece e há uma chance de se debater o tema com mais clareza no segundo turno.

Vamos para um segundo turno. Se isso fosse teatro, diria que no segundo ato há uma crescente revelação dos personagens. No teatro, às vezes, é no segundo ato que as pessoas se revelam, o terceiro apenas lida com seus desdobramentos.

Como nessa peça enredos e subenredos se entrelaçam e se entrechocam, o melhor é sair para o saguão do teatro, tomar um café, conversar com outros da plateia e não perder o foco do enredo: o fim de uma época.

Tenho a esperança, como o pai de Fernando Sabino, de que no fim tudo terminará bem. Se não terminar, é porque ainda não chegou o fim.

Nessa peça está sendo jogado um pouco do nosso futuro. Um pouco, de certa maneira, nossa vida continua depois das eleições, como a vida dos foliões continua depois do carnaval.

No começo da campanha, escrevi um artigo intitulado Rumo às grandes emoções. Não sabia do que estava falando, a realidade nos reservava mais: um primeiro turno eletrizante. As pesquisas foram de surpresa em surpresa e a realidade, uma surpresa maior.

Um candidato chamado Sartori, no Rio Grande do Sul, tinha 29% na boca de urna e terminou com 42%. Se tiramos um r do Sartori, ficamos com Satori, um termo budista que significa iluminação. Com esse r a mais, as pesquisas foram tudo, menos iluminação.

* Fernando Gabeira é jornalista

O partido dos grotões, EDITORIAL DO ESTADÃO

O resultado do primeiro turno da disputa presidencial mostrou que o PT colheu seus melhores resultados nas cidades cujos habitantes vivem em piores condições e que dependem, em sua maioria, do Bolsa Família. Em contraste, o partido sofreu importantes derrotas nas regiões mais desenvolvidas.

Trata-se de um padrão que confirma a mudança do perfil do PT - de partido que nasceu como representante do operariado urbano e da elite intelectual de esquerda, passou a ser uma legenda que obtém o grosso de seus dividendos políticos a partir de seu investimento em políticas assistencialistas nas áreas mais pobres do País.

"No semiárido brasileiro, que se estende por sete Estados, está o coração eleitoral do PT", constatou o jornal francês Le Monde. O diário ouviu moradores de Lajedo, cidade do interior de Pernambuco em que 70% dos habitantes são beneficiários do Bolsa Família. Um deles disse ao jornal que o candidato que questionar o Bolsa Família vai "tocar fogo no País", refletindo a campanha do medo que o PT usou para reeleger a presidente Dilma Rousseff.

A fidelidade desses eleitores ao PT, ao menos no plano federal, ficou clara: Dilma foi vitoriosa em oito dos nove Estados do Nordeste. Sua única derrota foi em Pernambuco, onde foi superada por Marina Silva (PSB) - apoiada pela família de Eduardo Campos, o popular governador pernambucano que se lançou à Presidência tendo Marina como vice e cuja morte em acidente aéreo comoveu especialmente seu Estado. Mesmo assim, Dilma obteve 44,2% dos votos válidos no Estado, contra 48,05% de Marina.

Nos demais Estados da região, Dilma exibiu um desempenho impressionante. Enquanto na votação nacional a presidente terminou o primeiro turno com 41,6% dos votos válidos, seu apoio no Nordeste beirou os 70% - casos do Maranhão e do Ceará. Conforme mostrou o Estadão Dados, a região que compreende Maranhão, Piauí, Ceará e Rio Grande do Norte deu a Dilma 67,8% dos votos, um crescimento de quase três pontos porcentuais em relação à eleição de 2010. Outros Estados nordestinos importantes, como a Bahia e a Paraíba, deram-lhe em torno de 60% dos votos.

Um desempenho semelhante se observa nos Estados do Norte. No Pará, Dilma levou 53,2% dos votos, contra 47,9% nas eleições de 2010.

Levantamento feito pelo jornal O Globo ilustra bem o perfil desse voto maciço em Dilma. Nos municípios em que mais pessoas recebem o Bolsa Família, concentrados em especial no Norte e no Nordeste, 73,1% dos eleitores escolheram a presidente no primeiro turno.

Quando o parâmetro é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que utiliza indicadores sociais como saúde e educação, confirma-se que Dilma obtém melhores resultados em regiões menos favorecidas. Nos municípios com IDH baixo e muito baixo, a petista levou cerca de 70% dos votos.

À medida que a qualidade de vida melhora, a votação em Dilma diminui. Em municípios com IDH médio, a presidente ficou com 55,9% dos votos. O porcentual cai para 35,3% nas cidades com IDH alto e 25,2% nas com índice muito alto.

Assim, fica claro que o PT está cada vez mais dependente dos eleitores que recebem assistência do Estado nas regiões mais pobres do País. A formidável rede de benefícios montada pelos governos petistas desde 2003 transformou esses agradecidos beneficiários em apoiadores fiéis do PT.

No longo prazo, porém, tal política assistencialista só se sustenta se a economia for administrada de maneira competente - visando ao crescimento e à competitividade e gerando renda suficiente para ser distribuída - e se os que recebem o Bolsa Família tiverem chances efetivas de progredir, por meio de uma educação pública de qualidade e de uma assistência médica decente, tornando-se membros produtivos da sociedade. Como sob os governos petistas não acontece nem uma coisa nem outra, resta somente uma enorme clientela de eleitores pobres e desinformados que, dependentes dos caraminguás do Bolsa Família, formam a massa de votos de que se serve o PT a cada eleição.

 

Nas contas, destaque negativo

O Brasil se destaca no cenário global pelo baixo crescimento, um dos menores do mundo, por sua inflação elevada e pelo mau estado de suas contas públicas - muito pior que o da maioria dos emergentes. A desastrosa situação do setor público brasileiro ganhou destaque, mais uma vez, em um relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo a presidente Dilma Rousseff, o governo brasileiro tem finanças muito mais saudáveis que a da maior parte dos países do Grupo dos 20 (G-20) e, naturalmente, que a da maioria dos países desenvolvidos. Bravatas como essa têm sido repetidas nos últimos anos e endossadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Como tantas outras, também essas declarações são desmentidas por números aceitos internacionalmente como confiáveis.

Para desmoralizar o discurso do governo bastaria uma das tabelas incluídas no Monitor Fiscal, uma publicação periódica do Fundo. No ano passado, o déficit público brasileiro, de 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB), foi maior que o da zona do euro, de 3% (resultado médio dos países da união monetária). Foi mais que o dobro da média dos déficits dos países emergentes e das economias de renda média, de 1,5%.

Pelas projeções do FMI, o rombo fiscal brasileiro chegará a 3,9% neste ano e diminuirá para 3,1% em 2015. A média da zona do euro deve ser de 2,9% em 2014 e baixar para 2,5% do PIB em 2015. A dos emergentes deve ser de 1,9% nos dois anos.

A presidente Dilma Rousseff tem o hábito de comparar o Brasil com os países desenvolvidos, quando o assunto é contas públicas. De fato, muitos desses países enfrentaram graves problemas fiscais nos últimos seis anos. Em quase todos a dívida pública é muito alta. Em vários, supera o valor do PIB. Mas a comparação é imprópria e, em alguns aspectos, altamente desfavorável ao Brasil.

Para começar, esse confronto faria sentido se a dívida pública do Brasil fosse tão bem classificada quanto as do mundo rico. Os juros pagos pela rolagem dos papéis públicos dos países avançados têm diminuído. Investidores continuam comprando papéis emitidos pelos Tesouros dos Estados Unidos e da maior parte dos países europeus. Para rolar sua dívida, o Tesouro brasileiro paga juros muito maiores que os do mercado internacional.

Estabelecer comparações sem levar em conta esses dados é abusar das palavras. Em alguns casos, pode ser demonstração de despreparo. Não se deve desprezar esta hipótese, quando se consideram os pronunciamentos da presidente e de seus assessores a respeito de questões internacionais.

A comparação mais adequada é, obviamente, com a situação dos países emergentes e em desenvolvimento. A dívida bruta do setor público brasileiro equivaleu a 66,2% do PIB em 2013, deve passar a 65,8% neste ano e a 65,6% em 2015, pelos cálculos do Fundo. Esses cálculos incluem os títulos públicos na carteira do Banco Central (BC). O governo do Brasil apresenta suas contas sem incluir esses papéis. Mas, como os critérios do FMI são usados de maneira uniforme, as comparações são possíveis. Pelo mesmo critério, a dívida bruta média da América Latina, nos três anos, corresponde a 50,4%, 51,3% e 51,8% do PIB. A dos emergentes, muito menor, fica em 39,7, 40,5% e 41,2%.

Os gastos do governo brasileiro, em todos os níveis, corresponderam a 41,1% do PIB no ano passado, devem ficar em 42,1% em 2014 e em 41% em 2015. Na média dos emergentes, os números são 31,5%, 31,3% e 30,9%. Na média dos emergentes do Grupo dos 20, a média é de 31,6%, 31,2% e 30,9%. O quadro ficaria muito pior se a análise levasse em conta a qualidade e a eficiência dos gastos públicos no Brasil e nos demais países da mesma categoria.

Neste ano, segundo o FMI, o resultado primário do Brasil - o dinheiro destinado aos juros da dívida pública - será inferior à meta de 1,9% do PIB fixada pelas autoridades. O saldo estimado é 1,3% do PIB. O número seria muito menor se do cálculo se descontassem as receitas especiais usadas pelo governo brasileiro para engordar a arrecadação e tornar o balanço fiscal mais apresentável.

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Fonte:
O Estado de S. Paulo

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