O campo e o tempo, por MIRIAM LEITÃO, no GLOBO

Publicado em 08/10/2017 10:39 e atualizado em 10/10/2017 02:54
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O arrendamento será um atentado duplo... Quando o século XXI chegará ao campo brasileiro? (na edição deste domingo em O GLOBO)

O agronegócio brasileiro precisa entender o século XXI. Nele, para ser global, é indispensável não ter a marca de quem produz destruindo o meio ambiente. Essa ideia tão cristalina ainda não foi entendida, como mostram as propostas defendidas pelos seus representantes no Congresso. A última é de uma Medida Provisória para arrendar terras indígenas.

O governo nega que fará a MP, mas a pressão dos ruralistas está crescendo. Imagine se um dos muitos concorrentes que o Brasil tem na sua bem sucedida expansão internacional fizer sua campanha contra nós explorando esse ponto? O agronegócio brasileiro exporta US$ 100 bilhões. É fundamental para a economia brasileira. Mas no setor convivem a lavoura arcaica e a agricultura de precisão. Seus porta-vozes, lobbistas e parlamentares não representam a parte moderna da agropecuária. Insistem em demonstrar pelas ideias, projetos e discursos que estão ainda nos clubes da lavoura do século XIX.

A proposta de arrendamento de terra indígena é péssima. As TIs são unidades de conservação, como os parques nacionais e as florestas nacionais. Quem se dispuser a acompanhar as imagens de satélites verá que os índios prestam um serviço ambiental ao país porque as suas áreas têm se mantido preservadas. Um ou outro caso que fuja dessa regra não confirma coisa alguma, porque em sua maioria as áreas ocupadas por indígenas, e demarcadas, estão entre as mais preservadas.

Se isso for oficializado haverá um ataque do agronegócio a essas terras. Os indígenas, que são hoje ameaçados por grileiros, passarão a ser assediados por compradores, ou arrendatários, de terras com um risco enorme para a preservação da sua cultura e identidade. Imagine-se por exemplo a terra dos Awá Guajá. Quando estive lá, em 2013, pude ver a pressão dos grileiros e produtores em torno da terra, uma das poucas áreas remanescentes de floresta amazônica no Maranhão.

Foi quando escrevi a reportagem “Paraíso sitiado". Eles foram contactados a partir de 1979, a maioria nem fala português e o povo está totalmente despreparado para negociar arrendamentos. Eles são poucos e estão extremamente ameaçados de extinção. A proteção de suas áreas têm permitido o crescimento populacional. Só na aldeia Juriti nasceram este ano seis crianças. Para um povo de 400 pessoas, isso faz diferença. Fico tentando imaginar o líder Piraima’á ou o jovem Juí’í enfrentando a volta dos grileiros, que foram tirados de suas terras, agora com dinheiro na mão propondo um “arrendamento". Será um atentado duplo: à identidade de um povo que fugiu do contato por quase 500 anos e à floresta que eles têm defendido. Ainda ouço o que eles me disseram quando estive lá: “eles estão matando as árvores, eles estão nos matando".

O Brasil não precisa disso. O agronegócio pode ampliar-se por terras hoje disponíveis e que já foram usadas na agricultura ou pecuária e podem ser recuperadas para seu uso produtivo. O cálculo dos especialistas é que há 60 milhões de hectares disponíveis. A pecuária extensiva é improdutiva e deveria adotar novas formas de produção. Alguns já estão fazendo isso na Amazônia. É preciso usar melhor a terra disponível.

Os ruralistas têm aproveitado momentos que eles acham oportuno para apresentar suas propostas indefensáveis. Quando foi aprovada a reforma trabalhista, a bancada apresentou um projeto de mudança das leis rurais que permitiria o desconto do salário dos trabalhadores da moradia e alimentação. Era tão absurdo, em vários detalhes, que o próprio autor do projeto, o deputado Nilson Leitão, o recolheu. Agora aparece essa nova ideia exatamente quando o presidente Temer está com seu balcão de negócios aberto no Planalto. Tentam ver se emplacam. Por enquanto, o governo nega. Até quando?

É espantoso e cansativo que o setor do agronegócio, tão importante para o Brasil, não tenha aprendido o básico sobre o tempo que estamos vivendo. Nele, a produção de alimentos tem que ser feita com alta tecnologia, respeito às leis trabalhistas, compromisso com o meio ambiente, cumprimento das normas sanitárias, rastreabilidade. O que se flagrou no escândalo da carne fraca é que a prática de comprar fiscais era adotada até em grandes frigoríficos. Quando o século XXI chegará ao campo brasileiro?

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Fonte: O Globo

6 comentários

  • Deocleciano Pentello Goiânia - GO

    Concordo quando diz que as TI funcionam como unidades de conservação, basta ir no google earth pra constatar que grandes fragmentos florestais no PA e MT são TI. Porém há TI em todo o país já desmatadas, onde já ocorrem arrendamentos, a MP só vai regulamentar isso, ela não permite o desmate para novos arrendamentos.

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  • Rodrigo Cavalheiro Gomes Gurupi - TO

    Esta senhora precisa andar mais pelo Brasil, vai falar besteira assim lá longe!! Vá conhecer as aldeias que tanto defende, não plantam um pé de banana no quintal. Com exceção de algumas tribos na Amazônia o restante já são "brancos" há muito tempo. O produtor rural brasileiro é o que mais preserva a natureza através de uma legislação ambiental moderníssima, que nenhum outro país possui. O campo, minha senhora, está além do séc.XXI.......

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    • ALEXANDRE CARVALHOVENDA NOVA DO IMIGRANTE - ES

      Mas o senhor Rodrigo há de concordar com ela (Miriam Leitão), no que se refere à quantidade de terras disponíveis para agricultura que podem ser infinitamente melhor aproveitadas e no que se refere à produção extensiva. Assim como hoje o frango e o suíno são criados confinados, já passou da hora do Brasil explorar melhor o confinamento bovino, não é verdade? Eu sei que muitos falarão que isso (confinamento) praticamente inviabilizará a atividade, mas a gente sabe que não é verdade. Quantos aos índios, eu prefiro nem comentar. Pra mim, eles só estão sendo usados como desculpa.

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    • RODRIGO CAVALHEIRO GOMESGURUPI - TO

      Concordo plenamente, Sr. Alexandre Carvalho.

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  • Vilson Ambrozi Chapadinha - MA

    Mas os guaranis arrendam suas terras a muito tempo. Colocar como ex um grupo indigena recem contactado não me parece justo aos que a séculos tem contato com o agro.

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  • carlo meloni sao paulo - SP

    Miram Leitao nao tinha o que escrever, entao escreveu um monte de baboseiras sem nenhum significado.

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  • André Luís Mota de Andrade Itumbiara - GO

    Essa jornalista não entende nada de agronegócio e de indígenas. Quem convive com indígenas sabe que esses brasileiros querem manter sua cultura mas querem também os benefícios que o dinheiro pode comprar, como internet, luz elétrica, medicina e escola de qualidade, bons veículos, etc. Só interessa à Funai e seus antropólogos mantê-los isolados para que continuem fonte de renda desta fundação pública federal.

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    • ARNOLDO TROLEGILONDRINA - PR

      Sinto muito, mas indio nunca foi gerador de riqueza para o País, só prá Funai. E através deles que as ONGS, madeireiros, mineradoras, vão se infiltrando e explorando nossas riquezas naturais. Talvez, também, essas ONGS, já se apossaram das terras de nós, Brasilianos.

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    • VALCIR RAIMUNDO GHIZZONIGENTIL - RS

      Proprietário que arrendar terras indígenas está dando um tiro no pé. Quanto mais interessados em arrendar suas terras, mais avançarão sobre áreas privadas.

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  • Rafael Antonio Tauffer Passo Fundo - RS

    ...o seculo 21 ja chegou no campo faz muito tempo, só jornalistas de esquerda e mal informados, como essa senhora, é que nao enxergaram ainda.

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    • SERGIO ANTONIO SCHLEDERBARREIRAS - BA

      Jornalista de esquerda e Burra, incompetente, acho interessante arrendar terras indígenas, desde que o resultado do arrendamento seja revertido em benefícios para a comunidade da aldeia, com saúde, educação, moradia, para que as famílias passam ter uma vida digna, e não viver com as migalhas que a Funai repassa, precisa, criar um concelho dentro da comunidade para administrar a renda do arrendamento e usar bem o dinheiro. Dentro dessas comunidades indígenas, pode ter índios com capacidade para para se tornar agricultor e produzir também, em suas terras, só falta dar a oportunidade, e colocar em suas mãos máquinas, para produzir, e uma boa orientação técnica, e vão ver como eles sabem trabalhar. Conheci em Barra do Garças, um índio chamado Humberto, na sua Aldeia, ele queria plantar, produzir soja, milho, arroz, comprar maquinas, mas a Funai o considerava como um menor de idade, que não podia assumir responsabilidade, sendo que a Funai era o tutor dele, e não deu condições do índio Humberto, realizar o sonho de ser agricultor. Mas empresário, e agricultores da região, o ajudaram, emprestando máquinas, e financiando outras para ele começar o plantio, ai veio o problema maior a Funai não queria deixar ele plantar nas terras da sua própria aldeia, mas foi resolvido com uma autorização especial, concedida pela direção da Funai em Brasília. Passar mais de 30 anos, e as noticias que sei é que ele ampliou suas lavouras, comprou mais maquinas, carros, e vive com qualquer outro cidadão brasileiro, deu condições de seus filho cursarem faculdades, mas sempre se preocupou com os seus irmão da sua Aldeia. Os índios só precisam de oportunidades, e orientação séria, e não de uma Funai que só os explora. a Funai tem que pessoas sérias, ou ser extinta.

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