Praga marabu simboliza a queda agrícola em Cuba

Publicado em 26/09/2010 10:16
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Marabu, proveniente da Europa no século 19, ocupa 18% das terras agricultáveis da ilha e entristece lavradores - Decadência tem origem na queda soviética, que deixou o regime cubano sem compradores para boa parte da produção



"Aqui antes era um grande pomar. Tinha manga, banana, papaia, toronjas, abacaxis. Hoje, é só essa maldição do marabu", lamenta-se o agricultor Pedro S., 64, morador de Candelária, cidade a 84 km de Havana.
O marabu, Dichrostachys cinerea, um arbusto espinhoso proveniente da Europa, é o maior símbolo da crise atual da agricultura cubana.
Não se sabe como o Dichrostachys cinerea entrou na ilha, apenas que isso ocorreu já no final do século 19.
Hoje, epidêmico, o vegetal contamina 10% de Cuba, ou 18% das terras agricultáveis -uma enormidade equivalente à área de um milhão de campos de futebol.
"Onde o marabu invade, não se consegue plantar mais nada, a menos que entrem em ação tratores com braços capazes de arrancar as duras e profundas raízes do solo", diz o agrônomo Carlos F. "Mas os poucos tratores não dão conta."
No domingo passado, em Candelária, em um bairro de 200 famílias, a barraca de António R. exibia apenas uma peça de perna de porco. "Não se traz mais porque não se vende mesmo", disse o açougueiro, expondo a peça sem refrigeração às moscas, na porta de sua casa.
Segundo ele, além dos tratores para arrancar o marabu, falta o combustível.
"Desde a queda do campo socialista, o acesso a tais insumos ficou muito restrito", diz. O resultado é desastroso para a economia agrícola, com o consequente abandono dos campos -e o inchaço das cidades, onde apesar de tudo ainda floresce o turismo incentivado pelo governo.

ASCENSÃO E QUEDA
Até a queda do Muro de Berlim, em 1989, e a derrocada da ex-União Soviética, a economia cubana ancorava-se na agricultura voltada para a exportação.
Nos anos de 1969-70, por exemplo, o Partido Comunista Cubano lançou o chamado "Esforço Decisivo", mobilização à escala nacional com o objetivo de elevar a produção de açúcar na ilha à marca das 10 milhões de toneladas.
A meta não foi atingida, mas bateu-se o recorde mundial. Cuba tornou-se o principal produtor da commodity.
O objetivo era usar a mercadoria para financiar construção civil, aquisição de indústrias e de todos os demais bens de que o país necessitava. Por 30 anos, funcionou.
O colapso da União Soviética e ao mesmo tempo a manutenção do embargo econômico iniciado pelos EUA em 1962, porém, fizeram com que, no início dos anos 1990, a produção agrícola cubana ficasse sem compradores.
"A primeira providência, então, foi liberalizar a economia agrícola", diz Ramón H., docente da Universidade de Havana. "Foi a forma encontrada para dividir com empreendedores privados e cooperativas de agricultores os imensos deficits do setor."
Hoje, se 95% da economia cubana em geral está em mãos do Estado, no setor agrícola, o grau de estatismo cai para 61%, segundo dados do próprio governo.
Cuba ainda produz cana (apenas uma fração dos recordes passados), tabaco e café, mas importa verduras, frutas e proteína animal até para a própria subsistência.
"Sem investimento, sem mão de obra, sem máquinas e equipamentos, o campo transformou-se em território livre para o marabu", resume o professor Ramón H..


Feira livre em Havana reflete dureza atual

Não tem tomate, maçã, laranja, alface, escarola, rúcula. A feira livre no centro de Havana -organizada para atender às necessidades dos cubanos, e não de turistas abastecidos por produtos importados nos hotéis- reflete a pobreza atual da agricultura local.

As barracas têm batatas doces, batatas, mandioca, inhame e feijão. Também têm abacates (é época) e bananas verdes. E carne de porco e de frango. Com esse mix de produtos, falta o colorido típico de mercados de comida. Em vez disso, são poucas cores: marrom e verde predominam.
Não há gritos de ofertas, nem pechinchas, nem hora da xepa. Tabelados, os preços dos poucos produtos são exibido em cartazes. Permanecem os mesmos até o fim da feira.
Segundo o vendedor Felipe P., 48, a situação está melhor agora do que no chamado "período especial", após a queda do Muro de Berlim, quando cessou todo o trânsito de mercadorias entre a Cuba agrícola e a Europa do Leste.
"Antes, não havia nem esse pouco que você está vendo", lembra. "E o pouco que havia era comercializado no escambo. Um pacote de batatas doces por uma blusa ou escova."
A professora Alice R. acredita que a autorização governamental para negócios por conta própria permitirá que muitos cubanos possam também consumir frutas e alimentos importados, vendidos em moeda forte e inacessíveis à maioria dos habitantes locais.
No último dia 13, o governo do país anunciou que demitirá 500 mil funcionários públicos. Também permitirá a criação de pequenos negócios em 178 ramos de atividades. A expectativa é que esse novíssimo setor privado absorva a mão de obra dispensada pelo Estado.

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Fonte: Folha de S. Paulo

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