Na Veja: Bolsas europeias fecham semana turbulenta em baixa

Publicado em 05/08/2011 16:02 e atualizado em 05/08/2011 18:25 342 exibições
Bolsa de Milão foi a que mais caiu, acumulando perdas de 13% na semana
Os principais índices do mercado de ações da Europa fecharam em baixa, pressionados por receios com a economia dos Estados Unidos e com a aparente morosidade dos governos europeus para implementar medidas de combate à crise das dívidas soberanas. Nesta sexta-feira, comissário econômico da União Europeia (UE), Olli Rehn, tentou acalmar o mercado afirmando que a Comissão Europeia tem como objetivo reforçar a Linha de Estabilidade Financeira Europeia (EFSF, na sigla em inglês).

Apesar disso, Rehn não abordou a questão mais importante: o tamanho da EFSF, que precisa ser aumentado várias vezes para que esse mecanismo possa barrar de forma confiável uma eventual disseminação da crise para Itália ou Espanha. As bolsas receberam leve suporte após dados mostrarem que a economia dos EUA criou 117 mil novos empregos em julho, mais do que as 75 mil vagas esperadas. A taxa de desemprego do país também caiu, de 9,2% para 9,1%. Esses dados foram alguns dos poucos indicadores norte-americanos positivos divulgados recentemente.

Na Bolsa de Londres, o FTSE-100 recuou 2,71%, para 5.246,99 pontos. Em Paris, o CAC 40 perdeu 1,26%, para 3.278,56 pontos. Na Bolsa de Frankfurt, o Xetra DAX fechou em baixa de 2,78%, a 6.236,16 pontos. Na semana, o Xetra DAX liderou a queda entre esses três índices, recuando -12,89%, seguido por CAC 40 (-10,70%) e pelo FTSE 100 (-9,77%).

Em Milão, o índice FTSE MIB caiu 0,62%, para 16.028,80 pontos. O IBEX 35, da Bolsa de Madri, recuou 0,18%, para 8.671,20 pontos. Em Lisboa, o PSI 20 teve queda de 1,20%, para 6.249,21 pontos. O ASE, da Bolsa de Atenas, perdeu 2,25%, para 1.062,00 pontos.

Na semana, esses quatro índices também acumularam queda, liderados pelo FTSE MIB, que caiu 13,04%, seguido por ASE (-11,80%), IBEX 35 (-9,96%) e PSI 20 (-9,34%).

Philippe Gijsels, diretor de pesquisas do BNP Paribas Fortis Global Markets, destacou o declínio relativamente pequeno das bolsas de Madri e Milão na sessão de hoje. "Quando os índices mais prejudicados começam a se recuperar, pode ser um sinal de que já caímos o suficiente", afirmou, acrescentando que os investidores também podem estar cobrindo posições vendidas caso as autoridades europeias anunciem qualquer tipo de medida no final de semana.

Entre os destaques da sessão, o banco francês Natixis subiu cerca de 11% em Paris depois de divulgar um declínio de 3% no lucro do segundo trimestre na comparação com um ano antes. As ações da Alcatel-Lucent subiram 3,5% depois de terem perdido cerca de um terço de seu valor nas últimas sete sessões.

Em Londres, os papéis do Royal Bank of Scotland Group recuaram 6,9%, mas chegaram a cair mais de 20% depois de anunciar que registrou prejuízo no segundo trimestre, em parte devido a perdas com títulos da Grécia.

Mercado de capitais

Bovespa paga o preço de sua exposição ao mundo

Com forte presença de empresas que exportam commodities e investidores estrangeiros, a bolsa brasileira reflete intensamente as oscilações internacionais

Beatriz Ferrari e Carolina Guerra
Ibovespa já está num patamar considerado sustentável: entre 50 mil e 55 mil pontos

Ibovespa já está num patamar considerado sustentável: entre 50 mil e 55 mil pontos (Divulgação/Exame)

Em uma quinta-feira marcada pelo pânico nos mercados financeiros, o índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) registrou declínio de 5,72%. A abertura mais branda nesta sexta-feira, com alta de mais de 1% no início do pregão, não significa que o cenário é de calmaria - tanto que, pouco depois das 11 horas, o índice já caía. A oscilação da última quinta foi a segunda maior queda do mundo, atrás apenas da verificada no índice Merval (-6,01%), de Buenos Aires, e bem acima das baixas nas principais bolsas internacionais. No ano, o Ibovespa acumula perda de 23,8%, a mais elevada entre todas as praças financeiras. Mas se as expectativas para a economia brasileira são melhores que os cenários incertos previstos para Estados Unidos e Europa, por que a bolsa paulista está apanhando tanto? A resposta é que a Bovespa é bem mais internacional do que se supõe.

O Ibovespa tem em sua composição um peso muito maior de produtoras e exportadoras de commodities – itens básicos de origem agrícola ou mineral, como petróleo, ferro, soja, etc, que guardam estreita relação com os ciclos da economia global – do que os índices das bolsas dos países desenvolvidos. Enquanto quase metade da carteira da bolsa paulista é formada por empresas de commodities, no índice S&P 500, da Bolsa de Nova York, a proporção não é maior do que 20%.

“Como há uma perspectiva de desaquecimento mundial mais forte, por conta de risco de recessão nos EUA, os investidores começam a revisar a demanda por commodities para baixo. Assim, os papéis das produtoras destes bens começam a cair e puxar o índice geral para baixo”, diz Carlos Nunes, estrategista de renda varável do HSBC. De fato, só nesta quinta-feira, a ação preferencial da Vale, que responde por 11,6% do Ibovespa, cedeu 5,75%.

Outro fator, este bem brasileiro, intensifica esse movimento. Como os juros são altos no país, o mercado de renda fixa – que é composto por títulos privados e públicos, como aqueles negociados pelo Tesouro Direto – fica ainda mais atraente quando a bolsa despenca. Ou seja, uma alternativa para as ações está bem à mão – o que só acelera o declínio do Ibovespa.

“Se o investidor se sente desconfortável e não vê perspectiva na renda variável, acaba apostando na renda fixa”, diz Clodoir Vieira, economista da corretora Souza Barros. De acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o Ima Geral – índice que mede a rentabilidade dos títulos públicos – ganhou 6,09% no ano.

Por fim, o desempenho ruim nesta quinta-feira foi aprofundado pelo que é conhecido no mercado como ‘efeito manada’. A saída de grandes investidores das bolsas, que já penaliza as ações, torna-se um incentivo a mais para que outros decidam vender seus papéis. Todos se movem, num ambiente de incerteza, para ativos considerados seguros, como os títulos do Tesouro americano (que até terça-feira, ironicamente, corriam o risco de dar calote), o ouro e o franco suíço.

Perspectivas – Apesar da queda ininterrupta que já dura duas semanas, o índice da Bovespa está dentro do patamar que os analistas consideram sustentável, entre 50.000 e 55.000 pontos. Em outras palavras, a “correção” (movimento de queda) que hoje se verifica no país estaria com os dias contados. Poucos foram os especialistas ouvidos pelo site de VEJA que consideraram que as empresas brasileiras ainda estariam caras, como no ano passado. Já não há mais muita gordura para queimar.

Para Richard Wahba, executivo chefe do Banco Fator, a bolsa pode até se recuperar no curto prazo. “Assim que as empresas brasileiras começarem a divulgar seus resultados financeiros, elas poderão comprar suas próprias ações para a tesouraria. Como elas estão bastante capitalizadas, provavelmente vão fazer isso e esse movimento vai ajudar a sustentar a Bovespa”, prevê.

Fundamentos do Brasil – Fazer previsões para o médio prazo, no entanto, é mais complexo porque o cenário internacional é de grande incerteza. A questão é saber em que medida a ventania na Bolsa brasileira é sinal de que um furacão vindo do exterior se aproxima com potencial de causar estragos na "economia real", e não apenas no setor financeiro.

Sobre a Bovespa é preciso fazer uma ressalva quanto à sua capacidade de ser uma bússola precisa da economia brasileira. Terceira maior do mundo, a bolsa paulista possuía capitalização (soma do valor de todas as companhias listadas) de 2,3 trilhões de reais em 2010. Pode parecer bastante, mas é um número tímido se comparado aos de outros mercados mais consolidados. Apenas uma das grandes bolsas americanas, a Nyse (Bolsa de Nova York), tinha dez vezes mais recursos no mesmo ano. A bolsa paulista tem apenas 384 empresas listadas, contra 2.836 companhias da Nyse – contabilizando nesta estatística apenas as corporações fundadas nos Estados Unidos. O Ibovespa reúne 61 empresas em sua carteira, com maior peso para produtoras de commodities. Já o S&P 500 conta com ações de 500 empresas americanas líderes em diversos segmentos. Por estes números, é possível inferir que o Ibovespa ainda não traduz com tanta precisão a realidade do país quanto se verifica com índices de nações que possuem mercados de capitais historicamente estabelecidos.

Ainda assim, a queda do Ibovespa pode ser, sim, considerada um indício da visão que investidores brasileiros e estrangeiros – que respondem por cerca de um terço da movimentação da Bovespa – têm sobre os fundamentos da economia nacional. “Nessas análises são levados em conta até mesmo índices de qualidade do sistema educacional e os níveis do gasto público, pontos fracos do Brasil”, diz Martin Walker, economista chefe da consultoria AT Kearney. Em outras palavras, a queda não deixa de embutir uma opinião sobre o grau de blindagem do país diante de uma crise que parece se aprofundar a cada minuto.

Estamos preparados – Algumas características permitem inferir que o país possui condições para resistir a um forte abalo vindo do mercado externo, mas desde que, à semelhança do ocorrido em 2008, esse impacto não seja uma crise sem precedentes. A começar, o governo possui 348,5 bilhões de dólares em reservas internacionais – recursos que, em última instância, podem ser usados para turbinar a economia doméstica se esta desacelerar com força.

Outro ponto positivo é a relação de complementaridade que se formou entre a economia brasileira (exportadora de matérias-primas) e a chinesa (consumidora voraz desses produtos). A potência asiática, diante de uma eventual crise global, sofreria um abalo, mas é preciso lembrar que seu governo possui 3,2 trilhões de dólares em reservas – o que lhe confere a liderança internacional neste quesito – e costuma ser rápido em usá-las para salvar seu dinamismo. Foi graças a isso que os chineses continuaram a demandar produtos brasileiros em 2008 e 2009, ajudando a salvar o país de um tombo mais sério. A esperança é que, num momento em que EUA e Europa aprofundam sua política de restrição de gastos, empurrando para baixo a demanda mundial, a China possa contrabalançar esse recuo.

Fortuna

Eike diz que não ficou mais pobre

O bilionário brasileiro – dono das companhias 'X', que lideraram as baixas do Ibovespa nesta quinta-feira – usou o Twitter para negar as perdas

Eike Batista, empresário brasileiro

Eike diz que não perdeu porque não vendeu (Divulgação)

Prejuízo de Eike só nesta quinta-feira foi de 2 bilhões de dólares

O mexicano Carlos Slim, considerado o homem mais rico do mundo, também perdeu dinheiro: 8 bilhões de dólares

Após sofrer um prejuízo avaliado em 2 bilhões de dólares com a queda de 5,72% no índice da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), o empresário Eike Batista utilizou o Twitter para enviar um recado. "Não vendi nada. Consequentemente, não perdi! Temos 10 bilhões de dólares em caixa! Estamos começando a gerar bilhões nas companhias X! independência! (sic)", escreveu.

A mineradora MMX, da qual o empresário possui 32,2% das ações, liderou as perdas do Ibovespa (o principal índice da bolsa paulista), com queda de 16% somente nesta quinta-feira, o que representa uma redução de 725 milhões de reais em seu valor de mercado. Mais perdas se seguiram em outras empresas de seu Grupo EBX como os verificados nos papéis da OGX Petróleo e Gás, da empresa de logística LLX e do estaleiro OSX. Em vista das perdas, Eike emendou outro recado pelo Twitter:" O mercado pode continuar caindo, mas o Grupo EBX está super blindado! (sic)".

Eike, com uma fortuna de 30 bilhões de dólares, e que está em oitavo lugar na lista Forbes que divulga os homens mais ricos do mundo, não perdeu sozinho. O mexicano Carlos Slim, com uma fortuna avaliada em 74 bilhões de dólares, considerado o homem mais rico do mundo, dono da operadora Claro, também perdeu com a instabilidade dos mercados nos últimos dias. Seu portfólio de ações perdeu 11% do valor de mercado, causando um prejuízo de 8 bilhões de dólares.

Por fim, ainda que o setor externo – composto do universo de empresas estrangeiras que compram produtos brasileiros, como minérios, produtos agrícolas, etc – tenha importância fundamental para o país, o PIB brasileiro é sustentado mesmo pelo ramo de serviços. Em resumo, uma abrupta queda das exportações, causada por uma recessão global, teria impacto direto naquela parcela da economia ligada à indústria ou à agricultura, cerca 30% do PIB. O restante seria afetado, mas de forma indireta. São os serviços que vem garantindo, nos últimos dez anos, a expansão do emprego e vem aumentando progressivamente sua participação no PIB. Os economistas argumentam, inclusive, que há um círculo virtuoso neste segmento. Seu próprio dinamismo interno acaba por gerar empregos e garantir aumento da renda, que, por sua vez, realimenta a expansão do próprio segmento.

Há boas razões para crer, portanto, que o país pode passar por mais uma turbulência sem que tenha de amargar fase de profundo desemprego e recessão. Os sinais apontam mais na direção de uma desaceleração do crescimento nacional – isto se as turbulências se resumirem à volatilidade nas bolsas e um crescimento pífio no mundo. Contudo, uma eventual quebra de uma grande economia europeia, como Espanha ou Itália, poderia arrastar toda a Europa para uma forte turbulência, com risco de desintegração da zona do euro. Os Estados Unidos, já com prognóstico de recessão, afundariam junto. Seria um cataclismo. Esperar um cenário róseo para o Brasil nestas condições seria, no mínimo, inocente.

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Fonte:
veja.com.br

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