‘Sinais alarmantes’, por Fernando Henrique Cardoso... (Publicado no Estadão deste domingo)

Publicado em 01/12/2013 17:16 e atualizado em 24/02/2014 14:26 3466 exibições
no blog de Augusto Nunes), e + artigos...

Opinião

‘Sinais alarmantes’, por Fernando Henrique Cardoso

Publicado no Estadão deste domingo

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Finalmente se fez justiça no caso do mensalão. Escrevo sem júbilo: é triste ver na cadeia gente que em outras épocas lutou com desprendimento. Eles estão presos ao lado de outros que se dedicaram a encher os bolsos ou a pagar suas campanhas à custa do dinheiro público. Mais melancólico ainda é ver pessoas que outrora se jogavam por ideais ─ mesmo que controversos ─ erguerem os punhos como se vivessem uma situação revolucionária, no mesmo instante em que juram fidelidade à Constituição. Onde está a revolução? Gesticulam como se fossem Lenines que receberam dinheiro sujo, mas o usaram para construir a “nova sociedade”. Nada disso: apenas ajudaram a cimentar um bloco de forças que vive da mercantilização da política e do uso do Estado para se perpetuar no poder. De pouco serve a encenação farsesca, a não ser para confortar quem a faz e enganar seus seguidores mais crédulos.

Basta de tanto engodo. A condenação pelos crimes do mensalão deu-se em plena vigência do Estado de Direito, num momento em que o Executivo é exercido pelo Partido dos Trabalhadores (PT), cujo governo indicou a maioria dos ministros do Supremo. Não houve desrespeito às garantias legais dos réus e ao devido processo legal. Então, por que a encenação? O significado é claro: eleições à vista. É preciso mentir, autoenganar-se e repetir o mantra. Não por acaso, a direção do PT amplifica a encenação e Lula diz que a melhor resposta à condenação dos mensaleiros é reeleger Dilma Rousseff… Tem sido sempre assim, desde a apropriação das políticas de proteção social até a ideia esdrúxula de que a estabilização da economia se deveu ao governo do PT. Esqueceram as palavras iradas que disseram contra o que hoje gabam e as múltiplas ações que moveram no Supremo para derrubar as medidas saneadoras. O que conta é a manutenção do poder.

Em toada semelhante, o mago do ilusionismo fez coro. Aliás, neste caso, quem sabe, um lapso verbal expressou sinceridade. “Estamos juntos”, disse Lula. Assumiu meio de raspão sua fatia de responsabilidade, ao menos em relação a companheiros a quem deve muito. E ao país, o que dizer?

Reitero, escrevo tudo isso com melancolia, não só porque não me apraz ver gente na cadeia, embora reconheça a legalidade e a necessidade da decisão, mas principalmente porque tanto as ações que levaram a tão infeliz desfecho como a cortina de mentiras que alimenta a aura de heroicidade fazem parte de amplo processo de alienação que envolve a sociedade brasileira. São muitos os responsáveis por ela, não só os petistas. Poucos têm tido a compreensão do alcance destruidor dos procedimentos que permitem reproduzir o bloco de poder hegemônico; são menos numerosos ainda os que têm tido a coragem de gritar contra essas práticas. É enorme o arco de alianças políticas no Congresso cujos membros se beneficiam por pertencerem à “base aliada” de apoio ao governo. Calam-se diante do mensalão e das demais transgressões, como se o “hegemonismo petista” que os mantém fosse compatível com a democracia. Que dizer, então, da parte da elite empresarial que se ceva dos empréstimos públicos e emudece diante dos malfeitos do petismo e de seus acólitos? Ou da outrora combativa liderança sindical, hoje acomodada nas benesses do poder?

Nada há de novo no que escrevo. Muitos sabem que o rei está nu e poucos bradam. Daí a descrença sobre a elite política reinante na opinião pública mais esclarecida. Quando alguém dá o nome aos bois, como, no caso, o ministro Joaquim Barbosa, que estruturou o processo e desnudou a corrupção, teme-se que, ao deixar a presidência do STF, a onda moralizante dê marcha à ré. É evidente, pois, a descrença nas instituições. A tal ponto que se crê mais nas pessoas, sem perceber que por esse caminho voltaremos aos salvadores da Pátria. São sinais alarmantes.

Os seguidores do lulopetismo, por serem crédulos, talvez sejam menos responsáveis pela situação a que chegamos do que os cínicos, os medrosos, os oportunistas, as elites interesseiras que fingem não ver o que está à vista de todos. Que dizer, então, das práticas políticas? Não dá mais! Estamos a ver as manobras preparatórias para mais uma campanha eleitoral sob o signo do embuste. A candidata oficial, pela posição que ocupa, tem cada ato multiplicado pelos meios de comunicação. Como o exercício do poder se confundiu, na prática, com a campanha eleitoral, entramos já em período de disputa. Disputa desigual, na qual só um lado fala e as oposições, mesmo que berrem, não encontram eco. E sejamos francos: estamos berrando pouco.

É preciso dizer com coragem, simplicidade e de modo direto, como fizeram alguns ministros do Supremo, que a democracia não se compagina com a corrupção nem com as distorções que levam ao favorecimento dos amigos. Não estamos diante de um quadro eleitoral normal. A hegemonia de um partido que não consegue deslindar-se de crenças salvacionistas e autoritárias, o acovardamento de outros e a impotência das oposições estão permitindo a montagem de um sistema de poder que, se duradouro, acarretará riscos de regressão irreversível. Escudado nos cofres públicos, o governo do PT abusa do crédito fácil que agrada não só aos consumidores, mas, em volume muito maior, aos audaciosos que montam suas estratégias empresariais nas facilidades dadas aos amigos do rei. A infiltração dos órgãos de Estado pela militância ávida e por oportunistas que querem beneficiar-se do Estado distorce as práticas republicanas.

Tudo isso é arquissabido. Falta dar um basta aos desmandos, processo que, numa democracia, só tem um caminho: as urnas. É preciso desfazer na consciência popular, com sinceridade e clareza, o manto de ilusões com que o lulopetismo vendeu seu peixe. Com a palavra as oposições e quem mais tenha consciência dos perigos que corremos.

 

Direto ao Ponto

Surto de insônia em Brasília: Jeany Mary Corner voltou ao noticiário pornopolítico

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Sete anos depois de viver suas dez semanas de fama como uma das principais coadjuvantes da chanchada pornopolítica “República de Ribeirão”, protagonizada pelo então ministro da Fazenda Antonio Palocci, Jeany Mary Corner voltou repentinamente ao noticiário nesta segunda-feira, ao ser presa em companhia de oito parceiros (veja reportagem aqui no site de VEJA). Ela é acusada de “tráfico interno de pessoas, rufianismo e associação criminosa”.

Tanto quanto a profissão oficial que aparece no seu cartão de visitas ─ “promotora de eventos” ─, o juridiquês de polícia camufla com palavras enroladas o verdadeiro ofício de Jeany: fornecedora de prostitutas padrão Fifa. No comando dessa batalhão de elite, supre com presteza e muita competência as necessidades da clientela composta por figurões da pital federal.

Jeany atende a qualquer tipo de encomenda, faz entregas em domicílio ou deposita a mercadoria em esconderijos remotos sem exagerar no frete. No ramo há mais de vinte anos, aprendeu como poucas concorrentes a ganhar dinheiro, fazer amigos e influenciar pessoas.

Em 2006, Jeany fez um conciso balanço do negócio que administra há muitos governos. “O de Collor foi o melhor. O de FHC foi ‘marrom’(‘marromenos’, traduziu em seguida). O de Lula estava bom demais para ser verdade”. Aparentemente, os ventos continuaram soprando a favor no segundo mandato de Lula e nestes três anos de Dilma Rousseff.  Antes que conte como foram as coisas nesse período, Jeany decerto será libertada.

Para tirar da cadeia a dona da agenda telefônica de altíssimo risco, a turma atormentada pelo surto de insônia é capaz de tudo (até de pilotar uma operação aérea de resgate a bordo da frota de jatinhos da FABTur). Os poderosos festeiros perderam a vergonha há muito tempo. Mas nenhum perdeu o instinto de sobrevivência, aguçado pela existência de vídeos e fotos.

Nessas circunstâncias, mesmo os extraordinariamente inventivos ficam sem saber o que dizer em casa. A patroa pode achar que a coisa passou dos limites. E mulher de política é um perigo. Pode bater-lhe a vontade de vingar-se da humilhação contando tudo sobre o maridão.

 

Opinião

’50 tons de pele’, por Carlos Brickmann

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

Toda a feroz campanha contra o ministro Joaquim Barbosa terá como causa a vingança contra a ousadia de condenar réus do sacrossanto partido que ocupa o poder federal? Ou, como causa associada, a possibilidade de que o ministro saia candidato à Presidência da República, cometendo o crime de lesa-majestada?

Talvez a causa seja outra (até porque Barbosa, arrogante, de trato áspero, muitas vezes grosseiro, dificilmente ganharia uma eleição): o ator Milton Gonçalves, respeitado militante dos movimentos negros desde os tempos em que isso não era moda, vê a face do racismo na guerra a Joaquim Barbosa. “Se fosse louro de olhos azuis, o discurso seria outro”. Completa: “Ele tem méritos. Não entrou por cotas, fala cinco línguas, é um personagem importante em nosso país”.

O advogado Humberto Adami, do Instituto de Advocacia Racial, entrou na luta por Barbosa, criando a campanha “O Brasil abraça o ministro Joaquim e o STF” nas redes sociais e criticando a “campanha desonesta, vil e evidentemente racista contra um brasileiro que tem cumprido fielmente suas obrigações constitucionais”. Lembra que a campanha racista é movida contra Barbosa, que é negro, e poupa os demais ministros que votaram a seu lado pela condenação. Mas os outros que condenaram os réus são brancos e não sofrem ataques.

Racismo também é coisa nossa. Esmeraldo Tarquínio, prefeito eleito de Santos, foi hostilizado por militares por ser de esquerda e cassado por ser negro.

Da ditadura à democracia, muita coisa mudou. Mas há fatos tristes que se repetem.

Tons de pele 2
A questão da cor da pele é travada também em torno do Casal da Copa. A FIFA tinha há mais de seis meses contratado Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert ─ artistas de sucesso, com amplo apelo popular. Foram propostos então Camila Pitanga e Lázaro Ramos; como já tinha contratado Fernanda Lima e Hilbert, a FIFA não aceitou a indicação. Os cartolas passaram a ser acusados de racismo.

Bobagem: como pergunta o jornalista Mário Mendes, mulato, “Camila Pitanga e Lázaro Ramos são mais brasileiros do que Fernando Lima e Rodrigo Hilbert porque são negros?” Por que, então, a guerra? Talvez porque a bela Camila Pitanga, também artista popular e de sucesso, tenha a imagem ligada à da Caixa Econômica Federal, cujos anúncios estrela. Alguém na Copa com imagem vinculada à do Governo, em ano eleitoral, seria ótimo para a campanha presidencial.

Quem sabe não falou
Até agora, na discussão sobre o estado de saúde de José Genoino, nenhum meio de comunicação ouviu o médico que o tratou no Hospital Sírio-Libanês, que o encaminhou para a delicada cirurgia de aorta, e que é, como responsável por seu acompanhamento, quem melhor conhece a situação do paciente: o Dr. Roberto Kalil.

Quem discutirá o parecer de profissional tão abalizado?

O pó voador
Este colunista está tentando entender: o deputado estadual mineiro Gustavo Perrela, do Solidariedade, é dono de um helicóptero. O piloto do helicóptero é seu funcionário; o copiloto do helicóptero é seu funcionário; o transporte da carga foi autorizado por ele. E ele não sabia de nada. Muito menos, até, que a carga fosse de cocaína. Seu pai, o senador Zezé Perrela, do PDT, chefe do clã, também não sabia.

E, veja o caro leitor, tratava-se de um helicóptero de estimação, tanto que o nobre parlamentar faz questão de que a Assembleia Legislativa mineira reembolse suas despesas com combustível (neste ano, foram R$ 14.078,31).

O dinheiro voador
Talvez a família Perrela use dinheiro público no helicóptero por estar momentaneamente sem caixa. Diz Leandro Mazzini que Zezé Perrela comprou uma casa por R$ 10 milhões em Brasília, numa região das mais nobres da Capital, o Lago Sul. E tem tido muitas despesas com grandes festas em que recebe pessoas importantes, e a quem assegura boa companhia.

Na campanha vale tudo
Zezé Perrela é do PDT, partido ligado à presidente Dilma. Gustavo Perrela é SSD, que apoia Aécio. Aécio já foi fotografado com os Perrela (e com mais uns mil políticos mineiros).

Acusá-lo nesse caso é, ao menos por enquanto, leviano.

Boa notícia (boa notícia?) 
Dentro de dois meses, entra em vigor no Brasil uma lei de combate à corrupção, a 12.846, semelhante à que vigora nos Estados Unidos. A partir de sua vigência, as empresas serão responsabilizadas por relacionamento indevido entre seus colaboradores e órgãos estatais. Não importa quem pague a propina, a empresa terá também a responsabilidade objetiva no caso. A lei deve funcionar como a que pune o trabalho escravo: a empresa será responsável por irregularidades de coligadas, controladas, consorciadas e parceiros comerciais, o que a obriga a fiscalizar o comportamento de seus fornecedores. As multas chegam eventualmente a 20% do faturamento bruto e pode haver proibição de receber incentivos ou financiamentos públicos. Conforme o caso, a empresa pode ser fechada.

Boa notícia ─ se funcionar. De boas leis o arquivo está cheio. Se funcionar, se for aplicada sem levar em conta o peso político do infrator, pode mudar o país.

 

O vídeo do Implicante sobre o aumento da gasolina prova que Dilma Rousseff mente até quando conversa com o seu ‘butão’

“Eu aí acordo e pergunto pro meu butão: será que eu falei em sonhos alguma coisa?”, intrigou-se Dilma Rousseff em 6 de novembro, na resposta à jornalista que lhe perguntou sobre o iminente aumento nos preços dos combustíveis . Há muito tempo se sabe de gente que costuma conversar com seus botões. Sabe-se agora que existe no Brasil alguém que, quando vai sair da cama, prefere trocar ideias com um único “butão”.

Como lembra outro vídeo oportuníssimo do Implicante, Dilma garantiu no começo do mês que nem sequer existiam as propostas de aumento reiteradas todo mês por Graça Foster desde o primeiro minuto na presidência da Petrobras. Depois de negar a verdade, recitou a falácia de sempre: aquilo era apenas invenção da imprensa. Mais uma. Neste fim de novembro, o aumento foi autorizado pelo governo.

A “invenção da imprensa”, soube-se na sexta-feira, fora apenas mais uma invenção da chefe de governo que mente como quem respira. Dilma deveria reconvocar a cadeia nacional de rádio e TV pedir perdão aos  milhões de brasileiros tapeados. E o neurônio solitário está obrigado a confessar ao crédulo “butão” que já não consegue distinguir o que diz dormindo do que fala quando acorda.

 

Opinião

‘Sem regalias na Papuda’, editorial do Estadão

Publicado no Estadão deste sábado

A Vara de Execuções Penais (VEP) do Distrito Federal (DF), em decisão subscrita por três de seus integrantes, determinou que os 11 condenados no processo do mensalão que cumprem pena na penitenciária da Papuda, em Brasília, recebam o mesmo tratamento dispensado a todos os mais de 9 mil encarcerados no local – feito para abrigar cerca de 5 mil. A Papuda é um dos piores exemplos dos descalabros do superlotado sistema prisional brasileiro. Mas nem isso poderia justificar os afrontosos privilégios desfrutados pelos mensaleiros nos seus primeiros dias de cadeia. Tampouco se poderia admitir que fossem ressarcidos, desse modo, por suas atribulações na transferência para Brasília e subsequente admissão na Papuda.

Os juízes da VEP basearam-se em duas ordens de consideração – uma, de fato; outra, de direito. A primeira focaliza os efeitos da diferença de tratamento para a sempre frágil normalidade no interior do presídio. Uma inspeção realizada na segunda e na terça-feira passadas pelo Ministério Público do DF constatou que se formara um “clima de instabilidade e insatisfação” entre os detentos. Eles ficaram sabendo que, enquanto os seus familiares eram obrigados a chegar na madrugada dos dias de visita para não perder a viagem, tamanha a fila que engrossariam, as portas do presídio podiam se abrir a qualquer hora para dar passagem a levas de políticos – entre eles o governador do DF, Agnelo Queiroz – desejosos aparentemente de levar a sua seletiva solidariedade aos autodenominados “presos políticos” petistas, José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.

Grupos de mulheres, incertas se seriam admitidas – porém certas do indigno tratamento que teriam dos agentes penitenciários incumbidos de revistá-las e aos seus pertences -, chegaram a bater boca com um punhado de ativistas do PT, em “vigília” diante do estabelecimento. Detentos também ficaram furiosos com a prerrogativa dos mensaleiros de complementar o invariável trivial servido na Papuda com alimentos que recebessem do exterior a qualquer momento. O caso mais citado foi o da entrega, a cargo da Polícia Federal, de uma pizza destinada a Genoino, tarde da sua primeira noite na cadeia. Assim como em incontáveis outras, ali qualquer coisa à toa pode servir de motivo para violência entre os reclusos ou contra os seus carcereiros: é uma forma corriqueira de acertar contas ou cobrar o atendimento de demandas. Que dizer, então, da descoberta, nesse meio, de uma classe de presidiários com direitos especiais?

“É justamente a crença dos presos na postura isonômica por parte da Justiça do Distrito Federal”, argumentam os magistrados da VEP, “que mantém a estabilidade do precário sistema carcerário local.” Daí a exigência de que as autoridades observem estritamente as normas prisionais, “especialmente no que se refere ao tratamento igualitário a ser dispensado”. A essa fundamentada linha de raciocínio, eles agregaram a questão de direito a que se fez referência no início deste comentário. Trata-se do princípio da igualdade jurídica entre as pessoas. O então presidente Lula se permitiu a enormidade de atacar os críticos das transgressões éticas cometidas pelo aliado José Sarney na presidência do Senado, alegando que ele não poderia ser tratado como se fosse “uma pessoa comum”. Mas, em liberdade ou no cárcere, é o que todos devem ser perante a lei.

A condição de político preso não dá a ninguém o gozo de regalias inacessíveis aos outros. A menos, ironizam os juízes, que se consagre a existência de dois grupos de condenados: um, “digno de sofrer e passar por todas as agruras do cárcere” e outro, “o qual deve ser preservado de tais efeitos negativos”. Ironia ainda maior é a naturalidade com que figurões do partido que apregoa ter nascido para combater a desigualdade assumiram o papel de “mais iguais” que os demais. Podiam ao menos fingir que preferiam ser tratados com a isonomia de que o PT volta e meia invoca. Mas é pedir muito para quem não se peja, como José Dirceu, de aceitar de um político aliado do governo – e por ele favorecido nos seus negócios – uma sinecura de R$ 20 mil mensais para, nas horas livres, “administrar” o hotel de Brasília de propriedade da família.

 

Direto ao Ponto

Os hóspedes do St. Peter terão de carregar nos bolsos o que guardavam nos cofres do hotel antes da chegada do novo gerente

O presidiário José Dirceu, alojado na cela S 13 da Papuda por corrupção ativa e formação de quadrilha, exerce o ofício de xerife de cadeia enquanto espera que a Justiça o autorize a disfarçar-se de gerente-administrativo de hotel. Se a ameaça for consumada,os hóspedes do St. Peter terão de fazer o contrário do que fazem, desde o aparecimento da primeira estalagem, todos os fregueses  de todos os estabelecimentos do gênero.

No mundo inteiro, o manual de instruções básicas recomenda ao cliente que, para não ter o patrimônio reduzido por larápios que agem nas ruas, deixe guardados nos cofres do hotel objetos de valor e quantias consideráveis em dinheiro. Com a mudança de gerente, o St. Peter será o primeiro e único a inverter a regra. Os hóspedes tratarão de  carregar nos bolsos maços de cédulas, joias valiosas ou mesmo bijuterias de R$ 1,99.

Não faltam ladrões nas avenidas e superquadras de Brasília. Mas a cidade é bem menos insegura que qualquer espaço controlado pelo gerente-geral do mensalão.

 

Reportagem de VEJA expõe as sombras que envolvem a disputa entre a agência do PT e a tropa de Franklin Martins

ATUALIZADO às 9H33

Por que será que a Pepper, depois que se tornou a agência do PT para a internet, conseguiu tantos clientes no governo e em estatais? Será que o PT está usando verbas do Estado para remunerar sua agência, cujo faturamento não para de engordar? Na reportagem publicada na edição de VEJA que acaba de chegar às bancas, essas e outras perguntas à espera de respostas imediatas se somam a alguns mistérios ainda por desvendar.

Um dos mais intrigantes é a disputa entre a Pepper e o ex-ministro Franklin Martins pelo comando da guerra suja nas redes sociais que o PT pretende travar contra os adversários. Franklin não aceitou trabalhar em parceria com a Pepper. O que ele quer é chefiar sem interferências o exército das trevas recrutado para agir na internet. A posição intransigente sugere que Franklin está decidido a usar como achar melhor a tropa liberticida? Até para combater a candidatura de Dilma Rousseff?

Franklin Martins é da tribo que acha que os fins justificam os meios. Nada do que vem de figuras assim é surpreendente. São incapazes capazes de tudo ─ menos de fazer a coisa certa. Confira a reportagem de VEJA.

 

Opinião

‘Algo está errado’, por J.R. Guzzo

Publicado na edição impressa de VEJA

J. R. GUZZO

Alguma coisa deu terrivelmente errado com o Brasil de hoje. Só pode ser isso: com o dramático início do cumprimento das penas pelos condenados do mensalão, nessa feia penitenciária da Papuda, a corrupção na vida política brasileira deveria estar na defensiva. Se os principais chefes do partido que manda no Brasil há dez anos foram para a cadeia, o lógico seria esperar mais cautela dos bandos que operam nos escalões inferiores; afinal, se a impunidade de sempre falhou até com a turma que está no topo da árvore, poderia falhar de novo com qualquer um. Uma retração geral da roubalheira, nessas circunstâncias, teria de estar acontecendo em todo o território nacional. Mas os fatos mostram exatamente o contrário: justo agora, com Papuda e tudo, está no ar um espetáculo de corrupção maciça, sistemática e rasteira na prefeitura de São Paulo, envolvendo possíveis 500 milhões de reais em prejuízos para o público, duas administrações e fiscais que chegavam a ganhar 70 000 reais por semana desviando dinheiro do ISS municipal. Mas essa turma toda não deveria estar com medo do ministro Joaquim Barbosa? Não teria de parar um pouco, pelo menos durante estes momentos de mais calor no Supremo Tribunal Federal? Sim, sim, mas está acontecendo o contrário ─ rouba-se mais, e não menos. Que diabo estaria havendo aí? É uma disfunção do sistema; parece que o programa não está mais respondendo.

Sem dúvida, vive-se no Brasil de hoje um momento todo especial. De todos os instrumentos conhecidos para fazer concentração de renda, poucos são tão selvagens quanto a corrupção; lideranças que se colocam na vanguarda das “causas populares”, como se diz, deveriam, para merecer algum crédito, ser as primeiras no combate a essa praga. Mas não foi possível notar, quando esse último escândalo estourou, a mínima preocupação do mundo político oficial com os fatos denunciados ─ é como se 500 milhões fossem um mero trocadinho, coisa para o juízo de pequenas causas, talvez, ou algo a ser tratado como um empurra-empurra em escalões inferiores. A reação do maior líder político do país, o ex-presidente Lula, e das cúpulas do PT resumiu-se a uma única questão: como evitar que o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, que se estranhou no episódio com o seu sucessor petista, Fernando Haddad, crie problemas para a candidatura à reeleição da presidente Dilma, em 2014. Afinal, trata-se de um aliado — e aliados estão acima de tudo para a “governabilidade” da nação, tal como ela é vista no partido do governo. Foi precisamente por aí, na verdade, que se chegou até aqui: de apoio em apoio, de acordo em acordo, de negócio em negócio, Lula e o PT tornaram-se iguais às forças políticas que mais combateram quando eram oposição, e que sempre denunciaram como as grandes culpadas pelo atraso, pobreza e injustiça do Brasil. Ao fecharem os olhos à corrupção e a outras taras que degeneram a vida pública no país, e ao descartarem como “moralismo” toda e qualquer denúncia contra a imoralidade, criaram os corvos que hoje os perseguem. Nada mais merecido, para quem adotou essa opção, do que ver na cadeia José Dirceu e José Genoino, suas “figuras históricas” e astros do mensalão ─ e em plena liberdade, com sua vida política cada vez melhor, os Sarney e os Collor, os Maluf e os Calheiros, inimigos de ontem e sócios de hoje.

Não era assim que estava programado.

***

Há personagens que nos presenteiam com momentos de grande conforto. O ex-presidente Harry Truman, dos Estados Unidos, até hoje o único ser humano a utilizar armas atômicas em guerra, é um deles. Depois de deixar a Presidência, como lembra um relato que tem circulado no mundo digital, recusou todas as ofertas financeiras que recebeu das grandes empresas americanas para exercer cargos de diretor, ou consultor, ou membro do conselho, ou qualquer atividade paga por elas. “Vocês não querem a mim”, dizia Truman, certo de que ninguém estava interessado em pagar para ouvir suas ideias, conhecimentos ou lições. “Vocês querem é a imagem do presidente. Isso não está à venda.”

O ex-presidente Lula, e antes dele Fernando Henrique, e antes de ambos Bill Clinton, e depois dos três a presidente Dilma Rousseff e o presidente Barack Obama, têm todo o direito às fortunas que já ganharam ou vão ganhar das maiores corporações do mundo com suas palestras. Mas dão direito, também, a que se faça uma pergunta: do ponto de vista da decência comum, qual das duas posturas parece ser a mais bonita?

Valeu, Mr. Truman.

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Fonte:
Blog de Augusto Nunes (veja.com)

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2 comentários

  • Hilário Casonatto Lucas do Rio Verde - MT

    QUE PENA QUE NOSSO FERNANDO H CARDOSO NÃO TENHA 50 ANOS PARA PODER GOVERNAR ESSA NAÇÃO QUE ESTA SENDO DESPEDAÇADA POR ESSES MARGINAIS DO PT E ALIADOS

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  • getulio marcos pereira Bueno Brandão - MG

    REALMENTE, O DEPOIMENTO DO SENHOR FERNANDO HENRIQUE CARDOSO DEVE SER LIDO E RELIDO POR TODOS. SAO PALAVRAS QUE PARECE QUE NOSSOS PAIS JÁ FALAVAM, NAO SAO NOVIDADE E, NO ENTANTO, SAO ATUAIS. MAS, E A QUESTAO DOS CONTRATOS NO GOVERNO PAULISTA, E O MENSALINHO NO GOVERNO AZEREDO, E O EMPRESTIMO DE 45 BILHOES DE DOLARES PARA SEGURAR O REAL EM 1998, QUATRO MESES ANTES DA ELEIÇÃO ?. VAMOS OUVIR O EX-PRESIDENTE, DAR A RESPOSTA NAS URNAS. MAS NAO PENSEM QUE A RESPOSTA SE CHAMA PSDB, PORQUE VAI SÓ TROCAR DE CAMISA - OS JOGADORES SAO OS MESMOS. PARA QUEM EH DA PAZ, UM AVISO: NAO SE ASSUSTEM, PORQUE A RESPOSTA VIRA ANTES DE OUTUBRO DE 2014 - O POVO JA PERDEU MUITO, INCLUSIVE A PACIENCIA.

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