325 veículos depredados no Rio. O que é isso, companheiro?

Publicado em 08/05/2014 17:38 e atualizado em 07/07/2014 14:48 1069 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br

Greve dos motoristas no Rio -- Cinquenta ônibus depredados pela manhã: o que é isso, companheiros?

O que se passa com o Brasil? Está certo que sempre sentimos um baque quando saímos do país e vamos para os Estados Unidos ou a Europa. A começar pelas gritantes diferenças entre os aeroportos. Mas assim já é demais! Chego em Miami, no belo e organizado aeroporto internacional, alugo um carro bom por ótimo preço e 20 minutos depois estou no meu destino em Miami Beach. Uma rápida descansada (classe econômica, algo que a esquerda caviar não sabe o que é), e ligo o computador para ler as notícias. A primeira que vejo é essa: Cinquenta ônibus são depredados por grevistas na Zona Oeste do Rio:

A greve de rodoviários, que acontece desde o primeiro minuto desta quinta-feira, pegou os passageiros de surpresa e causa transtornos no município do Rio. Na Zona Oeste, as empresas de ônibus que operam foram alvos de vandalismo por parte dos rodoviários em greve. Somente a Viação Jabour teve 30 coletivos depredados, e os motoristas tiveram que voltar à garagem nesta manhã. A Viação Redentor também teve veículos depredados pelos grevistas. O BRT circula com 60% da frota, prejudicando milhares de usuários.

No início da manhã, um grupo de grevistas estava reunido na porta das garagens das empresas de ônibus na tentativa de convencer colegas a aderir à paralisação. Alguns profissionais discordaram do aumento firmado entre o Sindicato de Motoristas e Cobradores do Município do Rio (Sintraturb Rio) em março deste ano. O acordo fixou reajuste de 10% no salário e 40% na cesta básica. O grupo dissidente, no entanto, reclama que a classe não foi consultada sobre esse acordo e pede, pelo menos, mais 10% de aumento salarial e tíquete de R$ 300.

Por coincidência eu já estava pensando em escrever algo sobre o novo hobby dos “manifestantes” (prefiro chamá-los de vândalos), que é justamente queimar ônibus. Só esse ano já foram mais de cem! O que acham que vão conseguir com isso além de encarecer as passagens e transformar a vida de todos num inferno? Também acho que o transporte público no Brasil precisa melhorar, e muito. Mas por acaso o método para tanto será destruir tudo que é coletivo no caminho? Não me parece uma ideia muito brilhante…

Até que ponto há interesses políticos nisso tudo? Por que os grevistas ameaçam aqueles que querem trabalhar? Greve pode até ser um ato legal, mas uso de coerção sobre trabalhadores não. Isso é crime! Assim como é crime destruir propriedade alheia. Esses “manifestantes” são, portanto, criminosos. Não importa se suas intenções são boas ou se há legitimidade em suas demandas: perdem a razão no momento em que partem para a violência.

O Brasil voltou à época de greves diárias que paralisam o país, é? Foi essa a grande conquista do PT no poder? Antes esse era um método usado pelo PT para chegar ao poder; agora parece ser um método que usam para tirar o PT do poder. E sempre quem paga o pato são as pessoas humildes, os trabalhadores que desejam apenas chegar no trabalho e garantir seu ganha pão, de preferência sem perder 2 ou 3 horas no trajeto e sem tanto risco de assalto ou, como vemos, de ataques violentos.

O contraste com um país mais desenvolvido e civilizado é grande demais, chocante. Esse tipo de coisa apenas aumenta a vontade de muitos de ficar por aqui, de partir do Brasil de vez para voltar apenas nas férias. É muito triste tudo isso, pois sabemos o potencial que nosso país possui. Mas muitos fazem de tudo para que ele seja eternamente o país do futuro. What a shame!

Rodrigo Constantino

 

Black Blocs já estão de carona na greve dos ônibus no Rio

Pelo Facebook, páginas convocam manifestantes profissionais para atuar em garagens de ônibus e em protestos nesta quinta-feira. Uma cobradora foi ferida a pedrada. Sindicato das empresas de ônibus relata 325 veículos depredados

A paralisação dos rodoviários iniciada à meia-noite desta quinta-feira no Rio de Janeiro tem tudo para extrapolar o direito de greve e de manifestação e avançar em direção às ações abusivas, que invariavelmente põem a população contra uma categoria. A contagem do sindicato Rio Ônibus indicava, até as 10h20 desta quinta, 325 ônibus depredados – 50 deles completamente destruídos –, uma cobradora ferida e um número incontável de trabalhadores sem chegar ao trabalho. No fim da manhã, houve tiros e bombas lançadas na Lapa, no Centro, um ponto de conexão de várias linhas que ligam a Zona Norte ao Centro.

Como fizeram na greve dos professores, na ocupação do terreno da Oi e em todos os movimentos recentes, os manifestantes profissionais estão de carona na greve. A página do grupo Anonymous informou, pouco depois da meia-noite, locais de garagens de empresas onde deveriam ocorrer protestos – e lugares onde, efetivamente, ônibus foram destruídos. Os mascarados do Black Bloc convocaram “a população” para apoiar a greve e programam uma manifestação no Centro, nesta quinta ou sexta-feira.

A legitimidade da greve vai pelo ralo quando ocorrem, como esta manhã, tentativas de paralisar a cidade. Um grupo de cerca de 30 rodoviários tentou fechar as pistas da Avenida Brasil, sentido Centro. Houve também bloqueio de ruas importantes no Grajaú, Avenida Ayrton Senna (Barra da Tijuca), Rua Teodoro da Silva (Vila Isabel), Avenida Marechal Rondon (Sampaio), Rua Conde de Bonfim (Tijuca) e em uma série de vias próximas de garagens de empresas de ônibus.

O prefeito Eduardo Paes criticou a depredação, em coletiva concedida no fim da manhã. "Obviamente, esperamos que aqueles que estejam no movimento grevista o façam sem violência e sem piquete. É inadmissível que, a esta altura, tenham 325 ônibus alvos de vandalismo."

De acordo com a Rio Ônibus, cerca de 30% dos ônibus estão circulando. Só da Viação Jabour foram quebrados 60 coletivos. A paralisação de 24 horas de motoristas e cobradores é organizada por um grupo de dissidentes, que discorda do reajuste acertado entre o Sindicato de Motoristas e Cobradores do Município do Rio (Sintraturb-Rio) e a Rio Ônibus, sindicato das empresas na cidade do Rio. O acordo estabelecia um aumento de 10% no salário e 40% na cesta básica, mas os grevistas exigem pelo menos mais 10% de aumento salarial e vale-refeição de 300 reais. 

Grevistas fizeram protestos em diversas regiões da cidade. Chegaram a fechar pistas da Avenida Ayrton Senna, na Barra, Zona Oeste do Rio, para impedir a circulação de ônibus. Também houve protesto na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, o que atrapalhou ainda mais o trânsito na região. Um vídeo no YouTube mostra um grupo atacando ônibus e obrigando passageiros a descer, antes de começar o quebra-quebra.

Black blocs - Além de se infiltrarem na greve dos rodoviários, integrantes dos grupos Black Bloc e Anonymous devem participar ainda da paralisação dos professores, marcada para começar na próxima segunda-feira. Quando a categoria cruzou os braços por mais de 70 dias, no ano passado, a união não só foi bem recebida como os manifestantes aprovaram até os atos de vandalismo e violência. Na tarde desta quinta, os mascarados devem se reunir também com o movimento Não Vai ter Copa.

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CulturaDemocraciaInstituiçõesLei e ordem

O Brasil precisa voltar a acreditar nas instituições: sem esperança resta apenas o caos!

Fonte: Band

Não é de hoje que as nossas instituições gozam de pouca credibilidade. O tema é batido: a justiça é lenta e falha, os políticos são corruptos, a polícia abusa do poder. Dito isso, e parafraseando um famoso metalúrgico, nunca antes na história deste país se viu um clima de tanta desesperança com nossas instituições e nosso futuro. O metalúrgico tem boa parcela de culpa.

Não, o PT não inventou nada disso, e os problemas nacionais não começaram em 2003 com Lula. Mas os petistas são responsáveis, sim, pelo agravamento da situação. Ao colocar as expectativas de muitos lá em cima, após décadas monopolizando a bandeira da ética na política, e ao se mostrar simplesmente o mais cínico e corrupto de todos os partidos, o PT colaborou muito para o esgarçamento social completo. O editorial do GLOBO de hoje concorda:

Há uma séria questão nisso tudo que é a percepção popular — mesmo que não seja verbalizada por todos — da falência de instituições. A situação se agrava com o péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção.O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos. Não há culpado único por todo este drama social.

Após o escândalo do mensalão, abriram-se as comportas do cinismo e passou a valer tudo para se perpetuar no poder. É verdade que os eleitores têm culpa também. Dizem que cada povo tem o governo que merece. Pode ser. E eu mesmo apontei várias vezes o dedo para as escolhas que estavam sendo feitas, desprezando-se totalmente as questões éticas. Quando Dilma foi eleita, mesmo após claro abuso da máquina estatal em uma “democracia suja”, escrevi no GLOBO:

O dia 2 de novembro foi escolhido como data oficial para a homenagem aos mortos. Gostaria de prestar aqui minha homenagem ao mais recente defunto brasileiro: a Ética. Seu falecimento gerou profunda tristeza em milhões de brasileiros. Não foi morte acidental, mas homicídio. Cinqüenta e cinco milhões de brasileiros executaram a Ética a queima-roupa, no dia 31 de outubro. As armas usadas: as urnas.

Em sua coluna desta terça, Arnaldo Jabor escreveu talvez seu melhor artigo dos últimos anos, ao fazer um diagnóstico dos motivos pelos quais o Brasil “está com ódio de si mesmo”. O país, por meio da maioria dos eleitores, acabou trilhando um caminho que nos trouxe até aqui, em meio a esse clima de anomia, de desesperança, de raiva, intolerância e ódio. Ele diz:

O Brasil está irreconhecível. Nunca pensei que a incompetência casada com o delírio ideológico promoveria este caos. Há uma mutação histórica em andamento. Não é uma fase transitória; nos últimos 12 anos, os donos do poder estão a criar um sinistro “espírito do tempo” que talvez seja irreversível. A velha “esquerda” sempre foi um sarapatel de populismo, getulismo tardio, leninismo de galinheiro e agora um desenvolvimentismo fora de época. A velha “direita”, o atraso feudal de nossos patrimonialistas, sempre loteou o Estado pelos interesses oligárquicos.

A chegada do PT ao governo reuniu em frente única os dois desvios : a aliança das oligarquias com o patrimonialismo do Estado petista. Foi o pior cenário para o retrocesso a que assistimos.

Invocando a profecia de Lévi-Strauss, Jabor alerta que podemos chegar a barbárie sem conhecer a civilização. Junto ao clima de ódio, há a mentalidade fatalista sendo alimentada, aquela que afirma a inevitabilidade de nossa desgraça. Recebo muitas mensagens de leitores com esse tom, alegando que só resta ir embora, e o último que sair que apague a luz. É a morte de qualquer esperança, a última que morre – e com boa razão: sem ela, o que resta? O niilismo, o caos!

O Brasil mergulhou com o PT na era do maniqueísmo também: tudo se resume ao “nós contra eles”. Toda crítica construtiva ao governo foi tratada como ataque de um inimigo da nação. A imprensa, que mostrava os escândalos, trazendo luz como detergente das impurezas, era tratada como “partido de oposição”, uma “mídia conservadora e golpista”.

O PT conseguiu o impensável: em véspera de Copa do Mundo, que será realizada no Brasil, nunca se viu um clima de tanta indiferença. Não há ruas pintadas, bandeiras penduradas, mascotes, nem mesmo febre de álbum de figurinhas, apesar de toda a campanha. Há a indiferença, ou mesmo a incerteza diante de várias ameaças de protestos e manifestações. O PT levou tão adiante o “pão & circo” que o tiro saiu pela culatra e o povo cansou. Jabor conclui:

E o pior é que, por trás da cultura do crime e da corrupção, consolida-se a cultura da mentira, do bolivarianismo, da preguiça incompetente e da irresponsabilidade pública.

O Brasil está sofrendo uma mutação gravíssima, e nossas cabeças também. É preciso tirar do poder esses caras que se julgam os “sujeitos da história”. Até que são mesmo, só que de uma história suja e calamitosa.

Não há como discordar. O Brasil precisa resgatar alguma esperança no futuro, acreditar que um país desenvolvido se constrói solidificando as instituições republicanas, e que isso depende de nós, pois nada em nossos genes nos impede disso. É preciso dizer não ao fatalismo derrotista. É preciso enfrentar a ameaça com coragem e derrotá-la.

Muitos, com razão, consideram as próximas eleições talvez a última chance de virar o jogo. Caso contrário, a Venezuela vem aí. Vamos aceitar isso passivamente? Ou vamos arregaçar as mangas e lutar para salvar nossa democracia?

Segue, para quem não viu ainda, a homenagem que fiz a todos aqueles que não desistiram e pretendem lutar pela liberdade:

Rodrigo Constantino

Tags: Arnaldo JaborLulaPT

 

ComunismoCultura

O filósofo militante: não era mais barato fazer terapia?

Guilherme Boulos, o filósofo militante. Fonte: Folha

O fenômeno “esquerda caviar” não é simples, tanto que listei 20 potenciais origens dele em meu livro sobre o assunto. Uma delas fala não sobre os tradicionais artistas ricos que enaltecem o socialismo, mas de intelectuais de classe média que abraçam ideologias anticapitalistas, muitas vezes com o uso da violência. Escrevi:

Nem todos os membros dessa esquerda caviar são ricos canalhas, herdeiros culpados, madames e jovens entediados, ou preguiçosos, claro. Há uma categoria relevante formada por intelectuais que vivem bem, mas que não são necessariamente abastados. Esses precisam de alguma explicação também. E Raymond Aron forneceu uma boa dica em seu magistral O ópio dos intelectuais.

Para o pensador francês, o marxismo ou o comunismo viraram uma espécie de “religião secular”, prometendo o paraíso terrestre em vez de aquele pós-morte pregado pelo cristianismo. O título já é uma clara provocação ao ditado famoso repetido por Marx, de que a religião é o ópio do povo. Para esses intelectuais, o comunismo era o ópio, a droga capaz de fornecer a fuga para a falta de sentido em suas vidas.

Para o típico intelectual, a reforma é uma coisa chata, enquanto a revolução é emocionante. Uma é prosaica, a outra poética. A revolução fornece ao intelectual uma pausa bem-vinda ao curso diário dos eventos rotineiros e incentiva a crença de que todas as coisas são possíveis. Por que pensar em como melhorar algumas questões do cotidiano, sempre imperfeito, quando se pode abraçar a utopia revolucionária de que todos os males que assolam a humanidade terão finalmente uma solução?

Isso me veio à mente ao ler hoje, na Folha, que há um filósofo entre os líderes dos invasores de terrenos e propriedades em São Paulo:

Há 12 anos, Guilherme Boulos deixou o conforto de casa num bairro de classe média para ajudar a montar barracas em áreas invadidas na Grande São Paulo.

Formado em filosofia, ele ficou conhecido em 2003, quando participou da coordenação da invasão a um terreno da Volkswagem, em São Bernardo do Campo.

[...]

Filho do médico Marcos Boulos, professor da USP e um dos principais especialistas em doenças infecciosas e parasitárias do país, o líder sem-teto não fala de sua vida pessoal. Sempre dá entrevistas, mas só para falar de políticas de moradia, do MTST e da Frente de Resistência Urbana.

No ano passado, Boulos se aproximou dos jovens ligados ao Movimento Passe Livre -responsável pela série de protestos pelo país que resultaram na redução da tarifa de ônibus em várias cidades.

Um misto de alienação, de sensibilidade mal calibrada, de ignorância econômica e de desejo por ação revolucionária talvez explique seu caso. Posso estar fazendo uma “psicologização” barata, mas como explicar algo tão bizarro? A única alternativa que vejo é assumir que o filósofo é apenas um oportunista em busca de fama ou seguidores. Ser líder de movimentos e seitas é um entorpecente e tanto.

Ironia das ironias, seu pai é “um dos principais especialistas em doenças infecciosas e parasitárias do país”. A única doença bastante infecciosa e parasitária que o médico pelo visto não foi capaz de identificar, muito menos curar, é justamente a estupidez ideológica. O sujeito investe na educação do filho, que faz filosofia na universidade, para depois vê-lo virar um militante invasor de propriedades particulares, um parasita do esforço alheio?

Deve ser muito triste para o pai. Se for o caso de uma revolta contra o “sistema”, a Lei, toda forma de autoridade, tudo isso fruto de um problema mal resolvido com o próprio pai, fica aqui a minha pergunta e sugestão: não era mais barato fazer terapia? Ao menos seria muito melhor para aqueles que querem trabalhar e produzir riquezas e empregos e precisam aturar filósofos militantes que lideram grupos de invasores comunistas por aí…

Rodrigo Constantino

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O caminho de Verissimo

Verissimo, o filho do grande escritor, não costuma perder uma oportunidade de atacar o capitalismo e os ricos, enquanto desfruta de tudo aquilo que só a riqueza capitalista pode oferecer a gente abastada como ele (inclusive hospitais particulares caros quando fica entre a vida e a morte). Em sua coluna de hoje ele resolveu bancar o economista e enaltecer o diagnóstico da celebridade da vez entre a esquerda mundial: Thomas Piketty. O filho de Erico escreve:

Um espectro ronda a Europa e o resto do mundo onde a receita neoliberal contra a crise é austeridade para os pobres e liberdade total para os ricos enriquecerem cada vez mais. O espectro tem nome e sobrenome: Thomas Piketty. É um jovem economista francês cujo livro “O capital no século XXI” é um best-seller internacional e está apavorando muita gente. Não há resposta para a sua tese de que a ideia de que basta deixar os ricos se lambuzarem que sobrará para os pobres — todos se beneficiarão e a desigualdade acabará no planeta — é furada como um donut — a não ser chamá-lo de um marxista com preconceitos previsíveis. Mas justamente o que assusta em Piketty é que sua tese foge da ortodoxia marxista e é baseada em retrospectiva academicamente irretocável e fatos e números inegáveis, não em ideologia. 

Não há ideologia? Sei, como não há ideologia em Verissimo, que por acaso sempre defende o socialismo, mas só porque se trata do modelo mais justo já inventado, como podemos ver com farta evidência na história. O sucesso do livro, que não chega a assombrar tanto, deve-se justamente ao fato de que ele vende aquilo que muitos demandam: uma explicação simplista para todos os males, culpando os mais ricos e propondo a expropriação deles como solução. Demagogia é música clássica pra os ouvidos da esquerda caviar e funk para os populares.

A tese liberal, que Verissimo resume como “deixar os ricos se lambuzarem que sobrará para os pobres” (Adam Smith deve ter se revirado no túmulo), não se mostrou um fracasso coisa alguma, pois não foi o liberalismo o responsável pela crise, apesar de a esquerda insistir nessa falácia. Por acaso Cingapura e Hong Kong, mais liberais economicamente, estão em crise? Por acaso a Austrália está em situação pior do que a Grécia? Alguém tem a cara de pau de culpar o liberalismo pela crise grega ou portuguesa? Acho que nem o Verissimo…

Não, a crise é do welfare state de um lado, com estados inchados demais e gastando demais, e da hipertrofia das finanças, em boa parte causada pelas políticas expansionistas dos bancos centrais defendidas por economistas como Paul Krugman, de esquerda e que agora aplaudem entusiasmados o tal Piketty. Não é engraçado? Krugman pediu uma bolha imobiliária em 2002 para curar a crise de tecnologia, e conseguiu! Agora se faz de desentendido, e engana muito inocente útil por aí.

A tese furada, não como um donut, mas como um pneu de caminhão, é justamente a de que o estado será capaz de combater a desigualdade e ainda preservar o crescimento! Onde? Quando? Na França? Risos. Hollande não tem sido exatamente um sucesso, não é mesmo? Brasília tem a maior renda per capita do Brasil, tudo em nome do combate à desigualdade.

Até mesmo os países escandinavos enfrentam crises causadas pelo excesso de estado, algo que os esquerdistas ignoram para fingir que a região é um paraíso socialista (ignorando também que são países com liberdade econômica bem maior do que a nossa). Mas Verissimo não quer debater de verdade. Prefere apelar para o sensacionalismo:

A concentração de renda não se deve a nenhum tipo de meritocracia, já que vem principalmente de dinheiro herdado ou produzido pelo próprio dinheiro, sem nenhum proveito social, e nem as oligarquias mais “esclarecidas” estão prontas a renunciar à sua capacidade de autogeração, que, no caso, é a possibilidade de se autorremunerar ao infinito. 

Quer dizer que no Vale do Silício não há meritocracia? Todos aqueles empreendedores que começaram suas empresas com mil dólares numa garagem e acumularam bilhões não demonstram mérito algum e não produziram nada de proveito social? Nem mesmo a Apple, a Dell, a Microsoft, a Oracle, entre tantas e tantas outras? O próprio Verissimo é um usuário dessas benesses que mudaram o mundo, mas prefere fingir que capitalismo é sinônimo de um gorducho com um chapéu e uma bengala explorando os pobres trabalhadores. Assim não dá…

Gosto daquela cena num filme dos irmãos Marx em que Groucho, no papel de um general, prepara-se para explicar a seus comandados o significado de um mapa na parede. “Uma criança de 3 anos entenderia este mapa”, diz Groucho. E, depois de estudar o mapa por alguns minutos: “Tragam uma criança de três anos!” Sem querer diminuí-lo — ao contrário — acho que monsieur Piketty é a criança de 3 anos desta história. Ele traz uma visão nova de uma situação que todo mundo está vendo mas nem todo mundo enxerga ou quer enxergar, e que a criança de 3 anos veria com a mesma simplicidade, sem os mesmos recursos do francês.

Aqui finalmente concordamos! Piketty assume o papel da criança de 3 anos quando vira celebridade não pelo conteúdo todo do livro, que quase ninguém da esquerda efetivamente leu, e sim pela proposta que corre o mundo, de sobretaxar os ricos após culpá-los pela crise. É de um simplismo infantil demais. Só mesmo uma criança de 3 anos poderia levar a sério uma proposta dessas. Ou alguém com a mentalidade de uma criança de 3 anos, e com uma inveja brutal dos mais ricos.

Mas também desconfio que, passado o primeiro susto, a tese de Piketty terá o mesmo efeito da explicação da hipotética criança de 3 anos — muito pouco. A lição que Piketty aprendeu ou apreendeu no passado estava evidente. Se o caminho errado continua o mesmo é porque interessa economicamente e politicamente a quem tem o poder e não quer distribuí-lo como se distribui renda. É um caminho para o desastre conscientemente assumido.

Claro, a solução é muito simples – basta tirar dos que têm mais – mas não será aplicada porque os ricos estão no poder e são muito malvados. Não sei por que Verissimo ao menos não começa fazendo sua parte e distribuindo sua fortuna toda! Eu, que sou um pobretão perto do gaúcho, ele mesmo já herdeiro de boa fortuna, prefiro deixar o populismo de lado e entender que os mais ricos não são meus inimigos, e sim os criadores de mais riqueza e empregos no mundo. Os inimigos são o “capitalismo de laços”, os bancos centrais politizados, o socialismo, a demagogia, a inveja.

Mas também sei que tudo isso que escrevo será em vão, pois o caminho de Verissimo, o filho, já ficou muito claro: sempre que houver a chance de disseminar de forma hipócrita sua ideologia socialista e cuspir no capitalismo que lhe forneceu tudo que tem, ele irá aproveitá-la. Usar o economista francês que virou celebridade por querer tirar os bens dos ricos era simplesmente uma tentação incontrolável…

Rodrigo Constantino

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O sensacionalismo de Freixo: quais suas reais intenções?

Em artigo publicado hoje no GLOBO, o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, discorre sobre a escravidão moderna, mas se perde totalmente no caminho, levantando suspeitas sobre suas reais intenções. Trata-se de um texto bastante sensacionalista, que parte de um fato – ainda existem casos absurdos de escravidão – para chegar a conclusões que nada têm a ver com isso. Ele começa narrando um caso chocante de escravidão moderna:

Após 13 horas golpeando o canavial da fazenda com seu facão, o negro Romário chega, sob os últimos raios de sol, ao barraco minúsculo onde vive trancafiado com outros três homens, igualmente escravizados e negros. O espaço não tem janela, água tratada e conta apenas com duas camas. Apesar disso, ele precisa comer os restos que o capataz lhe oferece e descansar: às 4h do dia seguinte, a labuta recomeça. Se resistir, será agredido com chicotadas e pauladas.

Tal absurdo teria ocorrido em uma fazenda no Norte Fluminense, e três pessoas acabaram presas. Mas após tal relato, o deputado, queridinho da esquerda caviar, começa a escorregar feio. Afirma, sem mais nem menos, que tal caso não é exceção. Ele diz: “Entre 1995 e 2012, fiscais do Ministério do Trabalho resgataram 44.415 pessoas submetidas a condições análogas ao regime escravista”.

Aqui já mora o primeiro grande perigo. É tratado como trabalho escravo ou análogo à escravidão qualquer relação entre patrão e trabalhador que não preencher uma lista de quesitos das leis trabalhistas. Tal lista inclui mais de 200 itens, entre eles até a espessura do colchão é levada em conta! Ou seja, muito daquilo atribuído ao trabalho escravo não guarda relação alguma com a escravidão passada ou com este exemplo citado pelo deputado no começo.

E aqui chegamos na possível intenção verdadeira do deputado socialista: “Apesar dessa tragédia, a PEC do Trabalho Escravo se arrasta no Congresso Nacional há inacreditáveis 15 anos, graças ao lobby dos ruralistas. Eles resistem porque a proposta prevê a desapropriação de terras onde haja trabalho escravo”. Resistem com razão!

Como já disse, basta não cumprir um ou alguns desses mais de 200 itens para ser considerado trabalho escravo. Com a PEC defendida por Freixo, isso já seria suficiente para o estado simplesmente expropriar a terra. Não pense, caro leitor, que estamos falando de enormes latifúndios com escravos levando chibatadas, como Freixo quer que pensemos. Pequenas e médias propriedades que não atendem todas as demandas legais já seriam vítimas de expropriação, o sonho marxista, o objetivo do MST, a meta de Freixo e do PSOL.

Não satisfeito em deixar transparecer sua real intenção de forma um tanto sensacionalista e questionável, Freixo faz em seguida um verdadeiro samba do crioulo doido:

Apesar dos exemplos, a nossa herança escravocrata não se restringe ao campo. Ela impregna as instituições, o acesso a direitos fundamentais, as nossas relações cotidianas mais banais. Como escreveu Caio Prado, aquele passado colonial ainda está presente naqueles quartinhos apertados construídos nos fundos dos apartamentos; na resistência a reconhecer os direitos trabalhistas das empregadas domésticas; na proibição de uma babá entrar num clube da Zona Sul sem seu distintivo uniforme; na criminalização do funk; no êxtase provocado pelo justiçamento de um adolescente acorrentado a um poste; no assassinato de jovens negros nas favelas; na negação da humanidade da massa carcerária brasileira…

Eis que descobrimos que as empregadas domésticas são escravas modernas, e cada patrão que mantém um quartinho para elas dormirem é um legítimo escravocrata! Eis que a babá, em horário de trabalho, que não pode entrar no clube sem seu uniforme de trabalho, por regras decididas pelos sócios do clube, também é uma escrava moderna!

Criminalização do funk? Que diabos é isso? Vejo funk em todo lugar, disseminando letras chulas que degradam as mulheres, pregam violência contra a polícia ou enaltecem bandidos. Vejo a classe média consumindo cada vez mais esse lixo, financiado pelo próprio estado. Vejo até tese de mestrado sobre funkeira. Do que Freixo está falando? Seria da proibição de bailes funks em favelas onde crimes ocorrem à vista de todos, como consumo deliberado de drogas ilícitas ou sexo envolvendo menores de idade? É isso que Freixo quer legalizar?

Por que Freixo fala o tempo todo da cor de algumas vítimas? Só negros são mortos? Se for branco não tem problema? Quando a vítima é branca as ONGs dos “direitos humanos” desaparecem, e Freixo, pelo visto, endossa tal postura abjeta, cuja “sensibilidade” varia de acordo com a cor da pele. Para os liberais, não importa se a vítima é negra ou branca, homem ou mulher, pois todos são iguais perante as leis. O PSOL pelo visto discorda…

Por fim, quem nega um tratamento mais humano à população carcerária? Outro espantalho criado pelo deputado socialista para fugir do debate. Prisões existem em primeiro lugar para punir pela má conduta, em segundo lugar para afastar pessoas perigosas do convívio da sociedade, e finalmente para tentar reeducar tais criminosos, quando possível. Tudo isso, claro, deve ser feito com base num tratamento humano, porém firme.

É isso que liberais querem. O que os socialistas realmente querem? Soltar bandidos? Transformar prisões em hotel cinco estrelas? Sabemos que boa parte dessa esquerda radical trata criminosos como “vítimas da sociedade”, eximindo-os de responsabilidade por seus atos. Isso não é aceitável. Mas ninguém em sã consciência acha que os criminosos devem ser tratados como dejeto humano em condições insalubres, à exceção talvez de uma direita caricata e minoritária.

Marcelo Freixo não quer debater de verdade. Prefere o sensacionalismo em busca de votos fáceis. É lamentável ver que essa esquerda ultrapassada ainda tem voz em nosso país…

PS: O que Marcelo Freixo e seu PSOL têm a dizer sobre o maior caso de trabalho escravo no século 21, o modelo cubano e norte-coreano sob o socialismo? Por que Freixo não faz barulho contra o programa Mais Médicos do governo Dilma, que importa milhares de escravos à luz do dia como se isso fosse a coisa mais normal do mundo?

Rodrigo Constantino

 

Venezuela e Cuba: os camaradas do PT

Duas reportagens publicadas no GLOBO hoje mostram como Venezuela e Cuba afundam na completa ausência de direitos humanos e liberdades individuais. A primeira trata do relatório preparado pela ONG Humans Right Watch sobre a situação venezuelana:

A Venezuela se tornou uma anomalia na América Latina, com o emprego de tortura e repressão brutal pelas forças de segurança e grupos civis armados contra opositores e manifestantes pacíficos, concluiu a ONG Human Rights Watch, após análise in loco de 45 casos de abusos contra 150 cidadãos desde 12 de fevereiro, quando explodiram os protestos nas ruas do país. Segundo a entidade, há um padrão sistemático de violência, perseguição, prisão, ameaça e desrespeito a garantias constitucionais, sob o beneplácito e o incentivo do presidente Nicolás Maduro e de outras autoridades. A violência teria ainda a cumplicidade do Judiciário e do Ministério Público, em desafio a princípios democráticos seguidos por outros mandatários latinos. Só a pressão da comunidade internacional, o quadro venezuelano pode ser alterado e o Brasil tem responsabilidade especial na resolução do problema, diz a ONG.

Cobrindo seis semanas de manifestações, o relatório “Punidos por protestar: violações de direitos nas ruas, centros de detenção e sistema judicial da Venezuela”, divulgado nesta segunda-feira, revela atrocidades cometidas pela Guarda Nacional Bolivariana, polícias regionais e outras forças do Estado. Nenhuma consta das 145 investigações abertas pelo governo. A Human Rights Watch afirma que o uso de violência pelos manifestantes, ao contrário, foi residual.

A violência tem sido patrocinada pelo governo de Maduro, aquele que recebe apoio irrestrito do PT e do governo Dilma. Também recebe apoio do PT e afagos da presidente Dilma a ditadura cubana, tema da segunda reportagem do jornal, que mostra como a ilha, ao contrário do que muitos pensam, não tem progredido em matéria de direitos humanos:

O último relatório sobre repressão política divulgado pela Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional revela o pior início de ano, nesta década, para aqueles que se opõem à ditadura no país. De janeiro a abril de 2014, foram 3.821 detenções de “dissidentes pacíficos”, de acordo com a comissão. O número é 140% maior se comparado ao mesmo período do ano passado, quando 1.588 opositores foram detidos, e já corresponde a quase 60% do total de 2013, que terminou com 6.424 prisões.

Segundo o relatório, é o maior número já registrado de detenções, desde 2010, nos quatro primeiros meses de um ano. Nem quando o Papa Bento XVI visitou Cuba, em março de 2012, houve tantas prisões no primeiro quadrimestre.

Em Cuba, para ser criminoso basta se opor ao regime. Mas há quem diga que as coisas mudaram, ou quem justifique tal absurdo com base nas “conquistas sociais”, mitologia canhota que não bate com os fatos. São esses os melhores amigos do PT na América Latina.

E ainda somos obrigados a assistir ao espetáculo de hipocrisia dessa turma dizendo que lutava pela democracia no passado e que ainda luta hoje pela “justiça social” e pelos “direitos humanos”. Aqueles da Venezuela de Maduro? Ou aqueles de Cuba do Castro?

PS: Claro, os petistas podem alegar, ao lado do ditador norte-coreano, que são os Estados Unidos “o pior violador de direitos humanos” do planeta. Há idiota útil que ainda cai nessa…

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

2 comentários

  • Odilon José alves filho Zé doca - MA

    Este pais está um verdadeiro caos! Falta de autoridade. Baderneiros como estes grupos de bandidos incendiando ônibus há mais de um ano com a permissão do governo. E nenhuma medida contra estes marginais são tomadas. Será que o governo não tem coragem para colocar estes baderneiros na cadeia ou tão achando que é o MST que está agindo ?

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  • wilfredo belmonte fialho porto alegre - RS

    Este tal de Freixo,sociólogo da mais alta estirpe, não

    é o mesmo que tinha como assessora uma tal de "sininho"

    que se envolveu com o assassinato do câmera da Band. Aonde

    está a tal de "sininho", ela continua falando em nome deste deputado sociólogo nas horas vagas. Porque ninguém

    mais fala da tal de "sininho"? será que quebrou o "badalo" dela?

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