‘Sob o domínio do medo’, sete notas de Carlos Brickmann...

Publicado em 26/05/2014 17:39 e atualizado em 27/05/2014 18:50 1737 exibições
nos blogs de Augusto Nunes, Lauro Jardim e Rodrigo Constantino, de veja.com.br (+ Estadão)

‘Sob o domínio do medo’, sete notas de Carlos Brickmann

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

CARLOS BRICKMANN

1 – Guilherme Boulos, líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto, MTST, ameaçou impedir o jogo inaugural da Copa, se não atenderem a suas exigências. “Se não respeitam nossos direitos, no dia 12 de junho não vai ter inauguração”. Quem é Boulos, que chantageia o Governo e ameaça fazer de junho um mês de conflitos? É filósofo formado, filho de um professor da USP, médico famoso. Mas o importante não é isso: o importante é que é ligadíssimo ao ministro Gilberto Carvalho. E, depois de instalar três mil de seus seguidores nas proximidades do Estádio do Corinthians, em Itaquera, SP, e ameaçar a realização da Copa do Mundo, foi recebido pela presidente Dilma Rousseff e posou para fotos abraçado com ela e com o ministro Gilberto Carvalho. Como diz o Governo, vai ter Copa. Como diz Boulos, que é quem manda, vai ter Copa se ele deixar.

2 – A Polícia invadiu, em 17 de março, uma reunião em que se planejavam incêndios e paralisação de ônibus — onde, por exemplo, abandonar os veículos para bloquear o trânsito em São Paulo (dois meses depois, dois milhões de pessoas ficaram sem transporte). Na reunião, havia 42 pessoas; destas, 13 eram ligadas ao PCC, Primeiro Comando da Capital, base do crime organizado. Um dos presentes era Carlinhos Alfaiate, acusado de participar do assalto ao Banco Central em Fortaleza. Outro presente era o deputado estadual Luiz Moura, do PT, do grupo do secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto.

O PCC controla cooperativas cujos veículos jamais foram incendiados — só os dos concorrentes.

Os donos do jogo

Boulos, do MTST, e Luiz Moura, do PT, escolhem seus amigos na mesma área. Talvez isso nada tenha a ver com a desenvoltura de pessoas que dominam a situação agindo fora da lei. Mas os amigos comuns nunca se afastaram de ambos.

Enfim
Há certas personalidades que sempre acabam aparecendo no noticiário. É tão infalível quanto achar o ministro Mercadante em fotos da presidente Dilma. A escrita se manteve: o juiz Sérgio Moro, que cuida na Justiça do inquérito da Operação Lava-Jato, informou ao Supremo que Alberto Youssef, apontado como doleiro, por algum motivo depositou R$ 50 mil na conta bancária do senador Fernando Collor, do PTB alagoano. Moro diz que Collor não é investigado e que seu objetivo é apenas informar a existência dos depósitos.

Estranho: se os depósitos são suspeitos, por que negá-lo? Se não são suspeitos, por que divulgá-los?

O dinheiro e os votos
José Batista Junior, o Junior Friboi, sócio do JBS Friboi, maior frigorífico do mundo, acaba de descobrir alguns fatos da vida. Ele foi recebido no PMDB com tapete vermelho, com promessas de apoio total em sua candidatura ao Governo do Estado, com palmas e estrondosos desta vez, vamos. Ele acreditou. Íris Rezende lhe disse que não seria candidato ao Governo. Ele acreditou. Candidatos a cargos legislativos lhe disseram que ajuda financeira seria bem-vinda, claro, mas não seria determinante para apoiá-lo. Ele acreditou.

Agora descobriu que quem manda no PMDB goiano é o ex-governador, ex-senador e ex-ministro Íris Rezende. Íris já teve mais votos (ultimamente, virou freguês do tucano Marconi Perillo), mas, comparado ao estreante Junior Friboi, é o rei do pedaço. Íris tem votos, pode oferecer aos companheiros de partido, apesar das últimas derrotas, uma perspectiva de poder e uma chapa forte, capaz de eleger muitos deputados; Junior Friboi só tem dinheiro. Dinheiro ajuda, mas não se ganha eleição sem voto.

Quem será o candidato ao Governo pela oposição? Simples: quem Íris quiser.

O custo da eleição
Antônio Ermírio de Moraes, conhecido, respeitado pela competência, lançado por um partido forte para o Governo paulista, fez uma campanha caríssima com seu próprio dinheiro. Foi triturado: houve denúncias pesadas contra suas empresas, tentativas de manchar sua reputação, tudo aquilo que hoje ocorre numa campanha eleitoral. Foi derrotado por Orestes Quércia. E nunca mais se candidatou.

Um político diferente
Ele tinha tudo para manter-se permanentemente na política. Seu pai, popularíssimo, era o prefeito Faria Lima — popular o suficiente para eleger-se diretamente prefeito de São Paulo, bem relacionado o suficiente para só não chegar a presidente da República, na época dos generais, por ter morrido quando seu nome era unanimidade. Seu tio, brigadeiro Roberto Faria Lima, fez impecável carreira militar; seu outro tio, almirante Faria Lima, foi governador (indireto) do Rio. O nome valia votos. E, sem precisar de campanha, José Eduardo Faria Lima se elegeu deputado, com grande votação. Não gostou do que viu. Elegeu-se mais uma vez e concluiu que não tinha vocação política. Simplesmente se retirou, esquecendo quaisquer vantagens que um parlamentar possa ter. Foi morar no Interior paulista. Morreu aos 72 anos, no dia 21, num desastre de automóvel.

Da coluna de Cláudio Humberto
“Um dos líderes do MST, João Paulo Rodrigues, encontrou o fundador do Wikileaks na embaixada do Equador e ofereceu asilo ‘em território autônomo’ no Brasil, diz a revista americana Vice. Assange riu”.

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Brasil

Lei e ordem

Os filhos (ou enteados) do poder: a seletiva aplicação das leis no Brasil

Estamos acostumados com a velha “carteirada”, com a impunidade daqueles ligados ao poder, típica dos países que vivem sob o controle de homens, não de leis. Por aqui, as leis existem para alguns, não para todos. Há sempre aqueles que se julgam acima delas, e pelo visto conseguem se safar mesmo.

Foi o que aconteceu em Aracaju na madrugada deste domingo, quando o enteado do Secretario de Segurança Pública de Sergipe, o delegado João Eloy, foi preso e depois liberado. O jovem Ítalo Bruno Araújo Fonseca foi preso por policiais militares quando trafegava em um veiculo da SSP/SE de placa OEQ 6871. Ítalo estava em companhia de um homem identificado como Eduardo Aragão de Almeida que também teria sido detido pela policia.

Contra eles, segundo o ROP da PM, consta a acusação de tentativa de assalto alem de estarem portando armas de grosso calibre de uso restrito da segurança pública. Alem disso  foi encontrado em poder do amigo de Ítalo,  Eduardo Aragão de Almeida, uma carteira funcional da segurança pública falsificada.

Mesmo com todas as acusações que pesam sobre os jovens, segundo declarações do delegado Augusto César, ao portal Infonet, “não foi provado que os suspeitos tivessem cometidos os crimes e no início da manhã ambos foram liberados, com a presença de um advogado”.

Ao contrário do que diz o ROP da PM, o delegado diz ainda à Infonet que “esse rapazes foram presos com as armas dentro do carro e isso não é porte de armas. Além disso, não ficou provado que houve roubo porque dentro do carro não tinha nada que indicasse. Eles erraram, mas não achei prudente lavrar um flagrante de posse de arma. Já ouvi todas as partes, não apareceram vítimas, portanto eles foram liberados”.

Alguém acha que o tratamento seria o mesmo se o garoto não fosse enteado de quem é? O governo desarma a população ordeira, mas o enteado do Secretário de Segurança Pública de Sergipe pode andar armado? Será que haveria tanta benevolência assim se fosse um garoto qualquer, sem ligação alguma com o poder?

O duplo padrão é que mata. Um país sério precisa de igualdade perante as leis, a única igualdade desejável. A estátua da Justiça é cega justamente para não enxergar quem cometeu o delito ou praticou o crime. Eis um nobre ideal republicano e liberal: um governo de leis isonômicas válidas para todos, independentemente da classe, renda, cor ou sexo.

Como estamos longe desse objetivo! A comparação que Roberto DaMatta fez entre os Estados Unidos e o Brasil continua válida. Lá, se alguém for pego tentando burlar as regras, logo alguém vai dizer: “Quem você pensa que é?”. Aqui, se o mesmo acontece, o criminoso infla o peito e brada: “Você sabe com quem está falando?”

Rodrigo Constantino

 

Tempo de maquiagem

arena das dunas

Arenas inacabadas

Não tem mais jeito. A pouco mais de duas semanas para o início da Copa, a Fifa já não tem mais esperanças: vários estádios serão palco de jogos sem estar totalmente prontos.

Eis a lista de abacaxis que o torcedor que pagou caro pelo ingresso verá nas arenas, além das partidas: falta de pisos, azulejos, pias e até privadas nos banheiros; paredes sem pinturas, entulhos de obras etc.

A própria Fifa está tocando a obra em alguns estádios mais problemáticos, como o de Curitiba e Natal.

Por Lauro Jardim

 

Política

Ronaldo, o “Fenômeno”, diz que a culpa é do governo, não do futebol

Em entrevista ao Valor, o ex-jogador Ronaldo, também conhecido como “Fenômeno”, fala sobre a Copa e seus efeitos políticos. Ronaldo protagonizou recentemente um desentendimento público com a presidente Dilma, ao admitir que tinha vergonha pelos atrasos das obras para a Copa, levando a presidente a rebater que não tinha vergonha alguma. Realmente, sabemos que ter vergonha não é o forte dos petistas, caso contrário dificilmente continuariam sendo desse partido. Abaixo, alguns trechos da entrevista:

Valor: Mas essa expectativa não foi criada quando se anunciou a chegada da Copa. Não houve um exagero de expectativa?

Ronaldo: Sim, mas o que a Fifa e a Copa do Mundo têm a ver com isso? Não têm nada a ver. Os culpados são os governos que prometeram e criaram essa expectativa para o povo. É uma oportunidade perdida. A gente tinha tudo para aproveitar esta grande chance e fazer tudo acontecer, entregar todos os investimentos prometidos ao povo e fazer uma grande festa. Foi uma grande oportunidade perdida. Foi feita muita coisa, mas poderia ter sido feita muito mais.

Valor: Porque você acha que as obras atrasaram?

Ronaldo: Por quê? Eu não sei. É um planejamento. Posso dizer que em todas as outras Copas do Mundo houve muito atraso. Em 2006, a Alemanha, que é primeiro mundo, não entregou um estádio para a Copa das Confederações e acabou fazendo o torneio com um estádio a menos. Isso não é um problema. Dá-se um jeito. Mas os atrasos que eu acho que são uma grande pena para o nosso povo são os que acontecem em infraestrutura, em aeroportos, em mobilidade urbana. Esse é o legado que deveríamos ter da Copa e teremos pouco, de acordo com o que era previsto antes. É isso que as pessoas precisam entender: isso são os governos. Os governos em que elas mesmas votam. Isso não tem nada a ver com futebol, com a Copa.

[...]

Valor: O gastos com a Copa vão ser de R$ 25 bilhões, sendo uns R$ 14 bilhões com mobilidade e aeroportos, que teríamos que fazer de qualquer jeito. R$ 10 bilhões são em estádios. Você acha isso muito?

Ronaldo: Eu acho que essa pequena parte da população que está fazendo manifestações contra a Copa – não digo os vândalos nem os black blocks que vão quebrar as coisas, esses a gente condena de cara -, mas o povo em geral está confuso. As informações são sempre todas distorcidas, tudo é muito manipulado para que seja uma coisa negativa. A Copa do Mundo é uma vítima que chegou num País completamente desarrumado. É vergonhoso. Um país, em que agora o povo parece estar muito revoltado, pouco paciente, pouco tolerante. Na verdade, a Copa veio para trazer uma série de investimentos ao nosso país. Investimento esse que a gente não sabe se algum dia sairia.

[...]

Valor: Esse clima que existe em relação à Copa, existe também na classe empresarial. Você que é também um empresário, você corrobora essa opinião. O Brasil está nesse momento ruim? Como é que você se sente como empresário?

Ronaldo: Inseguro. Inseguro como o setor todo. Eu tinha previsão de fazer investimentos no Brasil no ano que vem e não vou fazer. Essa insegurança que estamos vivendo, essa instabilidade, a revolta, o ódio do povo… o governo deveria tranquilizar a população, o setor empresarial. Dizer que está tudo tranquilo, mas não faz isso. A gente vive tapando buraco aqui e ali e o Governo não dá segurança à população.

[...]

Ronaldo: Ainda há muita oportunidade no Brasil. Amo meu país, sou patriota. Mas tenho receio e o estrangeiro também tem muito receio de investir no Brasil. Principalmente agora que estamos às vésperas de uma eleição.

Valor: Você vai votar em Aécio Neves (PSDB-MG)?

Ronaldo: Eu voto no Aécio.

(por Rodrigo Constantino)

 

Todo cuidado é pouco

Um quarto da energia do país via termelétrica

A ordem é acionar as termelétricas

Em seu último relatório, a ordem do Operador Nacional do Sistema Elétrico para as geradoras é a seguinte nesta última semana de maio:

- As geradoras baseadas na hidroeletricidade devem priorizar a preservação dos volumes dos reservatórios das hidrelétricas, sendo que para tal, está sendo acionado todo o parque gerador térmico existente no Sistema Integrado Nacional.

Numa palavra, o que o ONS determinou é: economizar água das hidrelétricas e acionar todas as termelétricas.

Por Lauro Jardim

 

Economia

A farra da carne

maduro

Maduro: mais uma dívida

A inadimplente Venezuela deve 6 milhões de dólares em faturas atrasadas aos frigoríficos brasileiros.

Por Lauro Jardim

 

Brasil

Prêmio para quem?

raymundo nonato

Nonato: aversão à transparência

Quatro ministros e dois servidores do Superior Tribunal Militar arrumaram um pretexto para passar dez dias na Itália, há duas semanas. Tudo com dinheiro público, lógico.

O sexteto embolsou 70 000 reais só em diárias. Presidente do STM, Raymundo Nonato, que estava na excursão, odeia prestar contas. Mas quatro passagens de executiva e duas de econômica, compradas um mês antes, saem a 32 000 reais.

A desculpa para torrar 100 000 reais na Europa? Entregar uma honraria, Ordem do Mérito Judiciário Militar para o embaixador brasileiro em Roma e para três adidos militares.

Por Lauro Jardim

 

Perdendo as estribeiras?, editorial do Estadão

Para quem vive no Brasil, não é propriamente uma novidade, mas a recente fala de Lula, classificando como "babaquice" o desejo popular de que os estádios de futebol tenham boa conexão com o transporte público - discursava naturalmente para uma plateia condescendente -, traz um dado novo ao atual contexto político. Demonstra que com certo atraso ele entendeu as pesquisas de opinião de abril. Percebeu o problema que tem pela frente e está desnorteado, falando a coisa errada na hora errada.

A pesquisa do Ibope do mês passado apontava, por exemplo, que 68% dos entrevistados tinham a expectativa de que se modifique a forma de governar o País e 64% diziam que preferiam essa mudança com "outro presidente". Lula entendeu o recado: Dilma precisa desesperadamente dele. Mas não é apenas isso o que está fazendo Lula perder as estribeiras; o problema é mais profundo.

A situação atual é muito diversa da de 2010. Há quatro anos, tratava-se de criar uma personagem a partir do zero. Agora, ele precisa recriar uma candidata com enorme passivo político, que não poupou esforços em desmentir a imagem de gerente competente.

Dilma não pode culpar as circunstâncias, internas ou externas, pelo seu pífio governo. Teve maioria no Congresso e, por bom tempo, altos índices de popularidade, a economia internacional melhorou, a arrecadação interna aumentou. E ainda recebeu um generoso dote do padrinho político: a realização da Copa do Mundo no seu governo. Quem poderia imaginar melhor cenário do que esse para a mãe do PAC atuar e deixar patente ao mundo inteiro a sua competência?

Mas a companheira Dilma, tão obediente nos tempos de juventude, insistiu na incompetência e em incompetentes, manifestando uma incrível capacidade de transformar oportunidades em problemas. A Copa do Mundo é o exemplo mais evidente dessa sua "qualidade".

Há motivos para acender a luz vermelha no painel político de Lula. Os dois presidentes anteriores reelegeram-se. Agora, quando era a vez de Dilma, a imprevisibilidade é consenso, e Lula precisa entrar novamente em cena, para recriar a candidata. Isso não significa que está afastada a possibilidade de ele concorrer. Se alguma coisa o recente doutor honoris causa por Salamanca ensinou-nos durante os últimos anos é a de que não se deve ouvi-lo literalmente. Até a Convenção Nacional do PT, em junho, tudo pode acontecer.

O destempero da fala de Lula sobre a expectativa do brasileiro em relação aos serviços públicos evidencia também que ele captou a mensagem das manifestações de junho. Embora não tenha se dirigido diretamente contra o ex-presidente petista, a voz das ruas protestou contra a situação, e ninguém mais do que ele é responsável pelo que está aí. Os onze anos de governo do PT deixam uma herança maldita não apenas na economia e nos serviços públicos, mas de retrocesso político (que é a outra face da moeda do populismo), administrativo (não é novidade que Pasadena é apenas a ponta do iceberg) e institucional (a começar pelas agências reguladoras).

Mas será que isso é suficiente para que Lula ande dizendo o que está dizendo? Não é novidade que ele fale coisas sem muito nexo. Tem a rara capacidade que Andy Hertzfeld, um dos pais do Macintosh, atribuiu certa vez a Steve Jobs: a de criar um campo de distorção da realidade, posteriormente definida como a habilidade de acreditar e fazer acreditar em quase tudo, pelo carisma, exagero e marketing persistente, distorcendo o sentido coletivo de proporção e dimensão.

No entanto, Lula não está apenas falando coisas sem nexo. A sua própria bússola política está desorientada: enfrenta ele legítimas aspirações populares com uma arrogância típica da sua sucessora? Talvez seja um sintoma de que tenha compreendido o seu verdadeiro problema político. Gaba-se de eleger qualquer poste, mas agora - e aqui está o seu calcanhar de aquiles - ele não pode escolher o poste. Já foi escolhido há quatro anos, noutro cenário político. Certamente, a companheira Dilma, combalida por sua própria incompetência, não seria a sua atual opção. É uma das consequências de ser governo, que ele parece não ter aprendido: os seus atos geram responsabilidade. Mas essa palavra ainda não está no seu dicionário.

 

Mais maquiagem nas contas

O governo vai depender mais uma vez de receitas extraordinárias para fechar suas contas e entregar o resultado fiscal prometido para este ano, um superávit primário de R$ 80,8 bilhões no balanço conjunto do Tesouro Nacional, do Banco Central e da Previdência. O superávit primário é o dinheiro separado para o pagamento de uma parte das obrigações da dívida pública.

Sem disposição para economizar e racionalizar os gastos, a equipe econômica tem recorrido, nos últimos anos, a soluções heterodoxas para atingir a meta oficial. Essa disposição é ainda mais duvidosa em ano de eleição. Mas o compromisso tem sido reafirmado. A promessa, no entanto, vai além daqueles R$ 80,8 bilhões. A economia total fixada para o ano, de R$ 99 bilhões, dependerá, segundo o plano original, da contribuição de Estados, municípios e empresas controladas pela União. Se a contribuição efetiva ficar abaixo da programada, a diferença será coberta por um esforço maior das entidades federais, segundo anunciou há meses o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

O uso de dinheiro extraordinário para fechar o balanço foi confirmado no relatório de avaliação orçamentária do segundo bimestre, divulgado na quinta-feira pelo Ministério do Planejamento. A cada reavaliação o governo atualiza a programação de receitas e de despesas, com base na evolução recente das contas públicas e nas últimas projeções econômicas. As projeções incluídas no relatório mantêm a perspectiva de crescimento de 2,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) e elevam a inflação de 5,3% para 5,6%.

O ritmo da atividade pouco deverá contribuir, portanto, para a geração de receitas. Além disso, a expansão projetada de 2,5% está acima das previsões do mercado, em geral inferiores a 2%, mas esse detalhe é desconsiderado, obviamente, nas estimativas oficiais. A inflação poderá elevar a receita nominal, a curto prazo, mas isso dependerá da confiança de empresários e consumidores, neste momento em deterioração.

Por enquanto, pioram as projeções da receita tributária normal. Diminuíram na segunda revisão os valores previstos para os Impostos de Renda, de Importação e sobre Produtos Industrializados. Aumentou a dependência de recursos extraordinários, mas as contas mostram um resultado final ajustado. O valor estimado para a arrecadação extraordinária de impostos passou de R$ 18,7 bilhões para R$ 30,2 bilhões em todo o ano. O aumento inclui o ganho previsto como resultado de uma reabertura do Refis, o programa de refinanciamento de tributos em atraso.

No ano passado o Refis também foi reaberto - mais uma vez - e os primeiros pagamentos ajudaram a ajeitar as contas de 2013. Em geral, a arrecadação proporcionada por esse programa tende a decrescer em pouco tempo e boa parte das empresas beneficiadas simplesmente deixa de cumprir as obrigações.

As receitas extraordinárias incluem também um bom volume de bônus de concessões de infraestrutura e dividendos de estatais. As estimativas indicam R$ 13,5 bilhões de bônus de concessões e R$ 23,9 bilhões de dividendos.

De janeiro a março, os dividendos, no valor de R$ 5,9 bilhões, foram 667,6% maiores que os de um ano antes. O governo está obviamente cobrando um esforço especial das estatais para ajeitar as contas do Tesouro. No ano passado essa contribuição, somada à receita das concessões, foi fundamental para a apresentação final das contas. O trabalho de maquiagem, também conhecido como contabilidade criativa, foi apontado pela imprensa e por analistas do mercado. Já havia ocorrido no ano anterior e comentários sobre o assunto apareceram na imprensa internacional.

Em resumo: pelo novo relatório de avaliação bimestral, ninguém deve esperar cortes adicionais de despesas nos próximos meses. Além disso, falta o governo esclarecer alguns mistérios. Não há referência, no documento, ao déficit projetado para a Previdência nem ao custo do subsídio às contas de luz. A melhora das contas públicas, têm dito dirigentes do Banco Central, seria uma contribuição importante para o combate à inflação. Eles terão de continuar esperando essa contribuição.

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Fonte:
veja.com.br

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