Por que eles odeiam tanto a classe média?

Publicado em 27/05/2014 04:43 e atualizado em 09/07/2014 16:09 1733 exibições
por Rodrigo Constantino e Nizan Guanaes

ComunismoFilosofia política

Por que eles odeiam tanto a classe média?

Por João Luiz Mauad, publicado no Instituto Liberal:

“A história do homem é a história da luta de classes” (Karl Marx)

Malgrado as mais contundentes demonstrações em contrário, os marxistas continuam não se dando por vencidos e insistem na existência de uma inexorável luta de classes, que terminará com a vitória final do proletariado e do modelo comunista.

Num famoso vídeo que se tornou viral na internet, a filósofa marxista Marilena Chaui destila toda a sua verve contra a existência e a progressiva prosperidade da chamada classe média, não por acaso a prova cabal de que as profecias de Marx estavam absolutamente equivocadas.  Diz a filósofa da USP:

“Eu odeio a classe média. Ela é um atraso de vida, é o que há de mais reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista…”

“Eu me recuso a admitir que os trabalhadores brasileiros, porque conquistaram certos direitos (…) se transformaram em classe média. (…) A classe média é uma aberração política, porque ela é fascista. É uma aberração ética, porque ela é violenta. É uma aberração cognitiva, porque ela é ignorante…”

Aquele discurso pode ter surpreendido alguns incautos, mas não quem já estudou, ainda que superficialmente, a teoria marxista.  Chaui apenas reverbera as batatadas que produziram seus mestres no famigerado Manifesto Comunista.  Vejam:

“De todas as classes que hoje em dia defrontam a burguesia só o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As demais classes vão-se arruinando e soçobram com a grande indústria; o proletariado é o produto mais característico desta.

Os estados médios [Mittelstände] — o pequeno industrial, o pequeno comerciante, o artesão, o camponês —, todos eles combatem a burguesia para assegurar, face ao declínio, a sua existência como estados médios. Não são, pois, revolucionários, mas conservadores. Mais ainda, são reacionários, pois procuram fazer andar para trás a roda da história.”

Segundo a teoria, a acumulação capitalista faria com que uns poucos burgueses acabassem detendo toda a riqueza disponível, graças à exploração do restante da população.  Toda o capital do mundo nas mãos de poucos, em contraste com a miséria de muitos, faria emergir a ira revolucionária que desembocaria, inexoravelmente, na tomada do poder pelo proletariado.  O capitalismo nada mais seria, portanto, que uma etapa no caminho da consolidação do comunismo.  De forma resumida, eis como a coisa toda deveria desenrolar-se, nas palavras de Marx e Engels:

“A condição essencial para a existência e para a dominação da classe burguesa é a acumulação da riqueza nas mãos de privados, a formação e multiplicação do capital; a condição do capital é o trabalho assalariado. O trabalho assalariado repousa exclusivamente na concorrência entre os operários. O progresso da indústria, de que a burguesia é portadora, involuntária e sem resistência, coloca no lugar do isolamento dos operários pela concorrência a sua união revolucionária pela associação. Com o desenvolvimento da grande indústria é retirada debaixo dos pés da burguesia a própria base sobre que ela produz e se apropria dos produtos. Ela produz, antes do mais, o seupróprio coveiro. O seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis.”

Imunes à razão, os marxistas mantiveram, ao longo dos últimos séculos, uma fé inabalável nos prognósticos de seu guru, o que os leva a odiar com todas as forças tudo quanto lhes faça vislumbrar que ele pudesse estar equivocado, não só em suas teorias, mas principalmente em suas previsões.  Daí porque o ódio por essa classe de gente que se convencionou chamar de “média”, cuja multiplicação, especialmente nos países capitalistas mais avançados, é a comprovação empírica irrefutável de que a fabulosa tese profética de Marx foi um erro crasso.

Os crentes desta religião confiam até hoje na realização da referida profecia e odeiam tudo quanto possa indicar que a história tenha seguido um caminho diferente.  Odeiam especialmente o fato de que a história do capitalismo é a história da multiplicação acelerada da riqueza, e não da luta de classes. Acima de tudo, odeiam o fato de que a riqueza gerada pelo desenvolvimento industrial nos países capitalistas acabou beneficiando a maioria das gentes e não apenas os mais ricos.

Dotados que são de extraordinária vocação para retorcer a realidade, os marxistas jamais admitirão o fato de que os interesses dos agentes econômicos no capitalismo são harmônicos – como demonstraram Adam SmithBastiat e tantos outros – e não antagônicos, como queria Marx. Continuam apostando no caduco discurso de classes “hegemônicas” e “dominantes”, além de dar demasiada atenção às desigualdades de renda, no lugar de focar no combate à pobreza.

Ocultam de seus jovens prosélitos certas verdades, muitas vezes até óbvias, como a de que os interesses do banqueiro estão atrelados à prosperidade do devedor – não só para pagar os empréstimos contraídos, como para fazer outros – e não à bancarrota do mesmo.  Utilizam-se de raciocínios espúrios que, na maioria das vezes, inferem a existência de uma conspiração burguesa para empobrecer o proletariado, muito embora a lógica mais rudimentar determine exatamente o contrário, ou seja: quanto maior a renda dos trabalhadores, maior será o consumo e melhor será para todos os produtores.

Peguemos, por exemplo, alguns dados estatísticos dos Estados Unidos da América – a mais capitalista das nações capitalistas – compilados pela Heritage Foundation:

43% de todas as famílias consideradas pobres são donas de sua própria casa.  A residência padrão dessas famílias tem 3 dormitórios, 1,5 banheiro, garagem e varanda (ou pátio). 80% delas dispõem de calefação ou ar condicionado.  Um típico americano pobre tem mais espaço de moradia do que a média das pessoas morando em Paris, Londres, Viena, Atenas e outras cidades européias. Perto de ¾ das famílias pobres nos EUA são donas de pelo menos 1 carro e 31% têm dois automóveis ou mais. 97% das residências têm televisão a cores e mais da metade têm duas ou mais.  78% têm um DVD payer; 62% dispõem de Tv a cabo ou recepção por satélite.  89% das famílias pobres são donas de fornos de microondas, enquanto mais da metade delas têm equipamentos de som estéreo e 1/3 possui máquinas de lavar pratos.

Na média, portanto, um típico americano pobre tem um carro, calefação, geladeira, fogão, máquina de lavar roupa, forno de microondas, televisão a cores com recepção a cabo ou por satélite, aparelho de DVD e equipamento de som e telefone celular.  Isso sem falar de esgotamento sanitário, energia elétrica e água encanada disponíveis a quase 100% da população daquele país.

Olhando os dados acima, fica claro que um cidadão considerado pobre, como definido pelo governo americano, desfruta de um padrão de vida infinitamente superior ao imaginado pelo mais abastado dos nobres na época em que Marx e Engels fizeram suas profecias.

Os padrões de consumo e conforto das famílias pobres da América – que são similares aos das classes médias em muitos países, inclusive o Brasil – é a prova cabal de que o capitalismo, longe de representar o empobrecimento da classe trabalhadora, tornou-se a sua verdadeira redenção, para desespero de muitos intelectuais, como Marilena Chaui.

Tags: João Luiz MauadMarilena ChauíMarx

 

Cultura

Uma lata de fezes é só uma lata de fezes

Obra de arte?

Por Aluízio Couto, filósofo em Ouro Preto

“Você está brincando! Isso são apenas tijolos”, disse uma mulher ao se deparar, em uma galeria de arte, com a celebrada obra “Pile of Bricks”, de Carl Andre. O rosto de estupefação da incauta cidadã pode ser visto no bom documentário “Why Beauty Matters”, cuja condução é do filósofo Roger Scruton. O ultraje pode ir ainda mais longe: em 1961, o italiano Piero Manzoni encerrou as próprias fezes em pequenas latas e chamou o resultado de “Merda d’artista”. Há poucos anos, um colecionador comprou uma das latas por alguns milhares de euros. Poucas vezes o conto do Rei Midas pôde ser aplicado a um caso de forma não completamente metafórica. Uma vez que o lastro das moedas é dado pelo ouro, a obra de Manzoni é um desses casos. Mas é também possível, no entanto, transferir o ultraje para o campo ontológico. No começo da década de 1970, Michael Craig-Martin colocou um copo de água sobre um suporte de vidro e deu ao resultado o nome de “An Oak Tree”. Em uma entrevista, Craig-Martin disse que, de fato, o trabalho era uma árvore de carvalho porque ele havia decidido chamá-lo assim.

As três obras têm algo em comum: são exemplos do que se chama “arte pós-moderna” ou “arte conceitual”. Um dos principais objetivos da arte pós-moderna é o de romper com os valores estéticos da arte clássica, associada à burguesia. Os valores estéticos de um quadro de Velásquez são, assim, aqueles ostentados pela classe dominante. Fazer arte, de acordo com a concepção pós-moderna, é uma declaração política, um grito de independência em relação ao ancién regime artístico. Para terem sucesso, esses artistas contam com intrincadas teorias filosóficas, das quais o pós-estruturalismo é destaque, e com a anuência de galerias e empresários do mundo artístico. As galerias exibem as obras, o valor de mercado delas sobe e os artistas ficam ricos. Quando perguntados sobre a natureza do que fazem e exibem, artistas e galeristas costumam recorrer a uma prosa impenetrável para quem não é familiarizado com a obscura prosa francesa contemporânea.

Uma característica de muitas obras desse gênero dá uma pista para explorar o valor artístico da arte pós-moderna, ou pelo menos de boa parte dela: a ausência dos atributos típicos que notamos nas obras de arte comuns. Obras de arte paradigmáticas, como a escultura romana “Augusto de Prima Porta”, exibem grande beleza e dão vestígios inequívocos de apuro técnico e refinamento estilístico. O apuro técnico, em si, não é um atributo estético, mas não seria razoável pensar que o espanto que a obra causa por sua beleza seria possível sem a perícia do artista. Obras como as citadas no primeiro parágrafo não são belas, dispensam o apuro técnico e fazem pouco caso do refinamento. Nunca ficou claro para mim o papel dos atributos estéticos nesse tipo de manifestação artística, mas imagino que não haja papel algum. Para mostrar isso, proponho um simples experimento mental. Dele vou extrair algumas consequências provisórias.

Vamos supor que haja um exímio falsificador anônimo disposto a reproduzir, nos mínimos detalhes, “Augusto de Prima Porta”. O falsificador estuda as técnicas originais, busca o mesmo mármore, adquire com incrível competência até mesmo os traços do artista original e se põe a esculpir. Terminado o trabalho, ele coloca o resultado final à venda. A pergunta que fazemos é: qual seria o valor que um eventual comprador estaria disposto a pagar? Intuitivamente, respondemos “uma boa quantia”. E a razão é que, embora não se trate da obra original, a cópia bem feita preserva os atributos estéticos do original: beleza, simetria, proporções, etc. Ou seja, o que o comprador está disposto a gastar pela falsificação reflete a presença desses valores estéticos tradicionais. 

Imaginemos agora que o mesmo falsificador reproduza fielmente algo como “An Oak Tree”. Não precisamos ter uma imaginação especialmente acurada para concluir que ele nada conseguiria com um copo de água sobre um suporte de vidro. Isso aponta para algo interessante: o valor de mercado da falsificação de “Augusto de Prima Porta” parece refletir a permanência de atributos estéticos relevantes, ao passo que o fato de o preço da falsificação do copo de água de Craig-Martin ser zero indica que nada sobrou de interessante na cópia (não vou abordar a polêmica de quais são esses atributos, mas imagino que o leitor comum não veja muito mérito artístico em um copo de água ou em uma lata de fezes). 

A principal conclusão a que chego é esta: quando vemos que nosso falsificador não conseguiria vender seu exemplar de “An Oak Tree”, logo emerge a suspeita de que o valor da obra original é inteiramente derivado de elementos não estéticos como a autoria, a tendência do momento e a anuência de uma instituição de prestígio. Qualquer pessoa disposta a defender que os exemplos de arte pós-moderna citados neste texto são instâncias genuínas de arte se comprometerá, penso, com a ideia não muito intuitiva de que é possível haver arte sem quaisquer atributos estéticos relevantes. Dadas as características do mundo artístico de hoje, isso é o mesmo que defender que qualquer coisa será arte se tiver a autoria correta e estiver inserido na comunidade correta. 

Isso, claro, não é muito mais do que recorrer à uma “espécie” bastante exigente de teoria institucional da arte. Mas é de se duvidar que tal teoria esteja correta: em primeiro lugar, parece ter havido arte reconhecida como tal mesmo na ausência da quase generalidade das instituições artísticas. Em segundo lugar, e isso talvez reforce a primeira afirmação, há argumentos que tentam estabelecer uma perspectiva evolucionista para o instinto artístico. O proponente mais famoso dessa perspectiva é Dennis Dutton. Em terceiro lugar, mesmo que as instituições sejam relevantes, elas podem ser apenas necessárias para um objeto ser arte, e não suficientes. E sejamos francos: não é fácil pensar em como um conjunto de tijolos pode ser arte sem atribuir às instituições certa onipotência ontológica.     

A outra conclusão é a seguinte: para decidir como devemos considerar o valor artístico de uma obra qualquer, não é de todo infrutífero explorar o mérito da falsificação da própria obra. Não é implausível argumentar que o substrato estético de qualquer obra se revela com mais nitidez quando desconsideramos fatores como a autoria e as instituições artísticas. Quando passamos essa régua, vemos com mais clareza que uma lata de fezes nada mais é do que uma lata de fezes. E, por fim, notamos que talvez a única teoria possível de ser brandida pelo defensor da arte pós-moderna é uma versão muitíssimo pesada do institucionalismo.   

Roger Scruton sugeriu que o empobrecimento da arte contemporânea é explicado pela negação do religioso e do transcendente. A arte medieval, por exemplo, transporta-nos para algo além de nós próprios. Nos afrescos religiosos típicos da época, temos um vislumbre, se não da eternidade, da sensação da eternidade. Categorias como belo e sublime eram testemunhas do divino, e o assombro causado pela obras sublimes tinha como uma de suas fontes primordiais o próprio mistério do mundo.

Vale a pena encerrar com uma breve objeção moral do escritor Mario Vargas Llosa. Segundo Llosa, as belas artes refletem virtudes pessoais como a dedicação, o treino, a competência, o apuro e a paciência. Um quadro de Velásquez não deixa de ser uma testemunha da virtudes do artista. Por outro lado, os artistas pós-modernos alcançam a fama sem pagar o preço pelo reconhecimento justo. A frivolidade das sociedades contemporâneas é sua aliada. As manifestações artísticas pós-modernas relevam não apenas a deficiência estética, mas também a deficiência do espírito.  

Tags: Aluízio CoutoRoger Scruton

 

NA FOLHA, ARTIGO DE NIZAN GUANAES:

Fruta feia

Quem ficar obcecado pelas novas tecnologias vai perder o principal, o software definitivo: a alma

Mudança é o curso natural da vida. O que garante a sobrevivência não é a força, mas a capacidade de adaptação. O rádio não morreu com a televisão porque o rádio mudou. O jornal não vai morrer com a internet porque o jornal está mudando.

A IBM e a Apple mostraram como mudar é liderar. Por isso, novos titãs como Google e Facebook investem bilhões para adquirir ou para criar a próxima grande coisa.

A complacência é grande exterminadora de empresas. O processo de transformação deve ser contínuo e constante.

Muitas vezes é o medo de ficar obsoleto que promove mudanças. O medo deve ser um grande aliado na evolução pessoal e profissional. Mas ele deve ser usado como o cafezinho. Tome pela manhã para acordar, mas use com moderação durante o dia, se não ele não deixa você dormir à noite. E, se você não dorme, não sonha.

Sou empresário e criativo numa área que nos últimos anos virou sinônimo de mudança, a comunicação. Os publicitários nunca tiveram tantas opções --são novos formatos, novas plataformas, novos dados.

A comunicação hoje é multiplataforma, mas ela não deve estar em todas as plataformas. É preciso fazer escolhas. Saber o que não fazer é tão importante quanto saber o que fazer. E o mais importante será sempre a boa ideia e a boa entrega, em qualquer plataforma, em qualquer área.

Como um caso sensacional em Portugal que vi no "New York Times" no último final de semana. Um grupo de empreendedores voluntários lançou há alguns meses uma cooperativa chamada Fruta Feia. Um nome lindo e sonoro para uma ideia inteligente e moderna.

Eles basicamente criaram um mercado para frutas e verduras consideradas feias demais pelos padrões rigorosos da União Europeia, mas que podem ser perfeitamente consumidas. São produtos que, apesar da aparência, mantêm os seus valores nutricionais e o seu sabor.

Fruta Feia é um grande sucesso. Como escreveu o "New York Times", ela "subverteu noções rígidas sobre o que é bonito, ou, pelo menos, sobre o que é comestível".

Não é pouca coisa para uma cooperativa que começou a comercializar frutas e verduras no fim do ano passado.

Isabel Soares, a portuguesa que criou a Fruta Feia, começou sua operação em novembro depois de ganhar um prêmio de inovação da Fundação Calouste Gulbenkian. Hoje já tem uma lista de espera com mais de mil pessoas.

Um de seus clientes, entrevistado pelo jornal americano, disse que compra os produtos da Fruta Feia não só pela economia, mas, mais do que isso, pela possibilidade de contribuir para reduzir o desperdício de alimentos.

Estima-se que a União Europeia desperdice cerca de 89 milhões de toneladas por ano de comida por causa de suas rígidas regras de comercialização de produtos e outros ralos. Em Portugal, cerca de 30% da fruta produzida era desperdiçada por não atenderem às exigências de cor e formato do comércio tradicional.

A ideia de Soares é brilhante, e sua marca, também. Fruta Feia virou fruta bonita. E ganhou o mundo com propaganda gratuita via reportagem do jornal mais influente do planeta. Isso é comunicação no século 21. Isso é entender as mudanças em sua volta --crise econômica europeia, combate aos desperdícios, valorização do natural-- e criar um conceito, um produto, uma marca que possam levar essas mudanças ao próximo patamar.

Este é o caminho. Quem ficar obcecado pelas novas tecnologias vai perder o principal. E o principal é a alma, o software definitivo.

Como minha querida amiga Arianna Huffington colocou em seu mais recente livro, o sucesso não é mais o acúmulo de dinheiro e de poder. Isso não é sustentável. É preciso encontrar a terceira métrica, a terceira medida: a felicidade. E ela se sustenta em quatro pilares: bem-estar, sabedoria, encantamento e benemerência.

Fruta Feia se sustenta nesses quatro pilares. E a sua atividade?

NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC, escreve às terças-feiras na Folha.

 

Política Fiscal

Uma pilha de impostos do Oiapoque ao Chuí massacra os mais pobres

Basta uma rápida lida para entender nossa legislação tributária…

Somadas, as 4,7 milhões de regras tributárias baixadas de 1988 até dezembro passado comporiam um livro de 112 milhões de páginas impressas (em papel A4 e com letra Arial 12). Enfileiradas, as páginas cobririam o país em linha reta do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul. Quem afirma isso é o jornalista José Casado em sua coluna de hoje no GLOBO.

A teia burocrática avança em velocidade espantosa, com 780 novas normas por dia no último quarto de século. São dados do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. O governo acaba sendo o maior obstáculo ao avanço dos mais pobres. Ironicamente, tanta parafernália é criada em nome do combate à desigualdade social. Mas o tiro sai pela culatra, e os pobres são os mais prejudicados:

As consequências vão muito além de infernizar a vida das pessoas e empresas. A opção política por manter intocada essa estrutura fiscal e tributária produziu uma perversidade: aumentou a desigualdade social no Brasil nas últimas duas décadas, advertem pesquisadores como o economista José Roberto Afonso, do Ipea.

O sistema atual privilegia tributos indiretos e sobre o consumo. Com ele, até 1996, o Estado se apropriava de 28% da renda mensal das famílias pobres, com até dois salários mínimos (cerca de R$ 1.400). Em 2008 o Estado já tomava 54% do rendimento familiar dos mais pobres. No ritmo atual, prevê-se que no fim da década o peso dessa carga tributária esteja em 60%.

No longo prazo, praticamente anula a expansão dos gastos governamentais com programas sociais destinados às famílias mais pobres, como aconteceu nas últimas duas décadas.

A tributação, em boa parte indireta (PIS/Cofins), recai de forma desproporcional sobre o consumo, e como este tem um peso muito maior no orçamento dos mais pobres, nosso modelo tributário pune as classes baixas e fomenta a desigualdade. Mas nenhum candidato encara o desafio de frente (justiça seja feita, Aécio Neves fala em redução e simplificação de impostos, mas é preciso mostrar como exatamente).

Até quando vamos depositar no próprio estado a esperança para combater a miséria, se vemos que é ele mesmo um dos grandes obstáculos à criação de riqueza? Para financiar tantos programas sociais, o estado arrecada 40% do PIB, de forma complexa, com dezenas de impostos e tributos que punem justamente os mais pobres. Mas os burocratas e políticos vão bem, obrigado.

Casado conclui com a fina ironia de Sérgio Porto, o humorista mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta: diante da alta do custo de vida, “a continuar essa carestia, pobre tende a desaparecer”.

Rodrigo Constantino

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Fonte:
Blog Rodrigo Constantino/Folha

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