Conta de luz tem aumento de até 17% e custo da crise no setor elétrico passa de R$ 50 bilhões

Publicado em 14/07/2014 15:22 e atualizado em 11/08/2014 13:50 635 exibições
por Rodrigo Constantino, de veja.com.br

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Conta de luz tem aumento de até 17% e custo da crise no setor elétrico passa de R$ 50 bilhões

Se fosse necessário resumir ao máximo o principal problema da gestão econômica do governo Dilma, eu diria que é sua total desconfiança do funcionamento do mercado e uma completa arrogância na crença na capacidade de controlar toda a economia de cima para baixo. A “arrogância fatal” de que nos falava Hayek tem em Dilma e sua equipe exemplos perfeitos. E o caos no setor elétrico demonstra isso de forma cristalina.

A presidente Dilma decretou a queda das tarifas de eletricidade com muita fanfarra, usando as redes de televisão e rádio para anunciar seu “grande feito”. Como se bastasse “vontade política” para reduzir preços. Como se os preços não tivessem ligação alguma com as leis do mercado. Como se as empresas pudessem continuar investindo mesmo sem receita.

A realidade é muito diferente do mundo fantástico dos governantes do PT. Ela retorna como uma mola, cobrando juros e correção monetária pelo populismo autoritário praticado antes. O governo Dilma conseguiu desorganizar completamente o funcionamento do setor elétrico, e hoje precisa jogar a pesada conta para os ombros dos consumidores e pagadores de impostos. Duas reportagens publicadas hoje no GLOBO dão ideia do tamanho do prejuízo.

Na reportagem de capa do caderno de Economia, consta uma tabela com os aumentos previstos para cada operadora, que podem chegar a 17%. Tudo isso, naturalmente, irá impactar a inflação, que já está acima do teto da elevada meta nos últimos 12 meses:

Os consumidores brasileiros estão pagando um preço muito alto pela redução de 20% nas tarifas de energia elétrica feita pelo governo federal no ano passado. O desequilíbrio financeiro no setor provocado pelas medidas impostas para forçar a queda nas tarifas, somado à operação a plena carga das termelétricas em decorrência da forte estiagem, está batendo nas contas de luz, cujos reajustes já chegam a dois dígitos. De acordo com cálculos feitos pelas consultorias especializadas em energia Safira e Thymos, os aumentos médios nas contas de energia dos consumidores residenciais neste ano devem ficar entre 16% e 17%, o que praticamente anula a redução do ano passado. E em 2015 será pior: o reajuste ficará entre 21% e 25%.

Já outra reportagem, sobre estudo realizado pela CNI, mostra que o custo da crise no setor elétrico pode passar de R$ 50 bilhões:

Os custos de toda a desorganização no setor elétrico — depois da edição da medida provisória (MP) 579, de 2012, que tratou da renovação dos contratos de concessão de geração de energia, aliado à operação das térmicas — chegam a R$ 53,8 bilhões desde 2013. Desse total, R$ 35,3 bilhões serão pagos pelos consumidores de energia elétrica, nas suas contas de luz. Os outros R$ 18,5 bilhões serão pagos em impostos. Ou seja, por todos os contribuintes. 

Os problemas estruturais do setor derivam do excesso de presença estatal nele, uma vez que foram privatizadas na era FHC apenas algumas empresas distribuidoras e poucas geradoras, mas o grosso continuou sob o controle estatal. Um país com tanto potencial hídrico só poderia ter tantos problemas no setor elétrico por demasiada intervenção do estado mesmo, cuja incompetência como empresário é notória.

Mas os problemas conjunturais têm total ligação com as trapalhadas do governo Dilma, e essas, por sua vez, derivam diretamente dessa mentalidade desenvolvimentista arrogante que delega ao estado um poder clarividente de administrar a economia. Dilma, que foi ministra justamente desse setor, pensou que poderia simplesmente derrubar na marra as tarifas. Sua falta de visão foi total, demonstrando enorme incompetência. O resultado é o fracasso.

Na Copa do Mundo, nossa seleção fracassou feio também. Como resultado, o técnico Felipão Scolari acabou caindo, pois a CBF já aceitou hoje mesmo sua demissão. É o mínimo que se espera: a punição pelo fracasso. Já a presidente Dilma não admite fracasso algum, nem mesmo no importante setor elétrico, que ela supostamente conhecia como poucos. Mas ele está aí para todos enxergarem.

Resta saber se os eleitores vão punir tanta incompetência nas urnas, ou se vão cair na ladainha de que a própria Dilma representa a mudança desejada e necessária. Lembrando que a própria presidente Dilma já disse que seu governo é “padrão Felipão”, pergunto: você confiaria em Felipão para realizar as mudanças necessárias em nossa seleção derrotada e humilhada?

Rodrigo Constantino

 

Cultura

A autoestima dos amarelões

O filósofo Luiz Felipe Pondé tem sido um grande crítico da paranoia geral com a “autoestima” de todo mundo. Hoje, tudo gira em torno disso: como expandir a autoestima das pessoas, especialmente das crianças? O resultado é um mundo artificial, politicamente correto, de muitas mentiras, em que as pessoas acabam “protegidas” da dura realidade – e de suas importantes lições.

Em sua coluna de hoje, Pondé usa a derrota do Brasil na Copa como exemplo desse fenômeno. A seleção simplesmente “amarelou”, sucumbiu diante da pressão de lutar pelo “hexa” em casa, em um país onde o futebol toma contornos de fanatismo religioso.

Claro, há as limitações técnicas, a falta de grandes talentos individuais (à exceção de Neymar), os equívocos de Felipão e Parreira, tudo isso que foi reiteradamente apontado pelos críticos. Mas Pondé traz um ponto de vista alternativo (ou complementar), de que aos jogadores faltou a coragem de bater no peito e assumir o fardo da responsabilidade perante a esperança de milhões de torcedores.

O chororô constante, até para bater pênalti, comprova isso. Os jovens jogadores não suportaram a pressão, e isso não costuma ser perdoado facilmente. Diz Pondé:

A inflação do afeto tornou-se valor. Esses exageros têm um valor evidente: escondem, como todo mundo sabe, o medo. Isso nunca dá certo na vida real. E a seleção amarelou mesmo. Não aguentou a pressão. E o povo esperava apenas uma coisa: sucesso. Não se perdoa o fracasso, ainda que um monte de gente diga o contrário, e diga isso por mau-caratismo ou porque quer vender autoestima.

Sempre que escuto o típico discurso da autoestima, de que o importante é competir, que todos são iguais e não importa o resultado, lembro do filme “Entrando numa fria maior ainda”, quando Jack, o personagem de Robert De Niro, entra no quarto em que os pais de Greg, personagem de Ben Stiller, guardavam suas “conquistas”. Ao se deparar com um “troféu” de sétimo lugar em algum esporte, Jack pergunta: por que vocês celebram a mediocridade?

Estou citando de memória, mas foi algo assim. E retrata com humor o mundo politicamente correto de hoje, em que a mediocridade foi alçada ao patamar de deusa apenas para não magoar os perdedores e não ferir sua autoestima. Mas na prática o “povo” não tolera bem essa coisa de perdedor, ainda mais se a derrota teve, entre suas causas, o fator “amarelar” dos envolvidos. Diz Pondé:

E nesse sentido, o futebol, como o grande Nelson Rodrigues dizia, é uma tragédia grega. Cai bem chamar os estádios de arenas, já que os jogares são um pouco como gladiadores. E o comportamento da torcida é um pouco como o da torcida que assistia aos gladiadores na antiga Roma: o povo podia passar do desprezo à misericórdia, ou o inverso, em segundos, caso julgasse que um gladiador ou outro merecia uma das duas atitudes. Um dia a seleção brasileira é inspiração para os jovens, outro dia é alvo de laranja podre. O fã é um infiel por excelência.

O povo, ao contrário do que a esquerda mentirosa e os marqueteiros dizem (ambos dizem isso por interesses comerciais, só que os marqueteiros são honestos e confessam), nunca foi de confiança.

Diante da visível falta de coragem dos jogadores, o povo não perdoa. E nunca antes na história deste país a virtude da coragem teve tão pouco valor. Após tanta gente vendendo manual de autoestima para perdedores (autoajuda, como diz o nome, só ajuda o autor), acabamos com um mundo de perdedores “amarelões”. Resume Pondé:

A seleção foi bem representativa da cultura brasileira dos últimos tempos. Chorona, ressentida, delirante, sem resultados.

Com a era Lula, muitos acreditaram mesmo que sairíamos do buraco com a “bolsa-voto”, casas de graça, carros sem impostos e outras invenções baratas.

A palavra “autoestima” foi muito ouvida nos últimos tempos, principalmente na Copa. É comum hoje as pessoas acharem que todo mundo (e a mídia também) deve se preocupar antes de tudo com a autoestima das pessoas. Discordo. É este mundo da autoestima que forma os amarelões.

Rodrigo Constantino

 

DemocraciaEconomiaPolítica

O Brasil vivia uma ficção dentro e fora do campo, diz Vargas Llosa

Nem preciso dizer o quanto admiro Mario Vargas Llosa. Não só o escritor, que é um dos meus favoritos, mas o pensador liberal, incansável defensor da democracia e do livre mercado. Fiquei muito feliz, portanto, ao ver que o Prêmio Nobel de Literatura escreveu em El País um texto que vai exatamente ao encontro daquilo que disse em minha coluna da Veja esta semana. Recomendo veementemente a leitura na íntegra. Seguem alguns trechos:

[...] eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.

Tudo nasce com o governo de Luis Inácio ‘Lula’ da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências. 

[...] Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.

A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.

[...] As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.

[...] Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores.Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.

Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento.

[...] Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.

Acorda, Brasil!

Rodrigo Constantino

 

Paternalismo

Liberdade e tutela: o fascismo do bem

marionete

O paternalismo crescente dos tempos modernos já foi tema de muitos artigos meus, mas nunca é demais, pois o que esta em jogo é simplesmente nossa mais básica liberdade de escolha. Vejo estarrecido o desprezo cada vez maior por esse fundamental valor das democracias liberais: o direito de escolha de cada um sobre como viver a própria vida, assumindo, naturalmente, a responsabilidade por suas consequências.

Grupos autoritários querem usar o poder coercitivo do estado para tutelar os demais nos mínimos detalhes, ditar como cada um deve viver sua vida. É uma tirania da pior espécie, pois vem acompanhada da máscara da boa intenção. Os autoritários não sentem peso algum na consciência, pois, afinal, fazem tudo isso em nome do nosso próprio bem, ainda que não saibamos disso.

Esse foi uma vez mais o tema da coluna de Denis Rosenfield hoje, outro incansável combatente desse “fascismo do bem”. Nada fica de fora do ataque dos autoritários. Tudo aquilo que ingerimos, um beliscão ou uma palmada que eventualmente podemos dar nos filhos, os produtos que podemos ou não comprar, a propaganda que a televisão mostra, tudo é alvo da sede de controle absoluto dos fascistas modernos. Diz ele:

A liberdade de escolha, um dos pilares do Estado Democrático, continua, cada vez mais, submetida à tutela estatal. Os cidadãos são tratados como menores de idade, incapazes de decidir o que é melhor para eles. Claro que nada disso é feito em nome do autoritarismo, mas, supostamente, do bem de cada um, como se fosse missão do Estado exercer uma espécie de monopólio da virtude. Contudo a associação entre o anticapitalismo e o autoritarismo “do bem”, pró-saúde, geralmente, não é nada saudável.

[...] Note-se que são sempre “estudos”, normalmente meras hipóteses de trabalho, que são considerados como “verdades”. Embora possam mesmo ser verdadeiros, não caberia, de modo algum, ao Estado tomar o lugar dos pais na educação de seus filhos. Ao Estado caberia, isso sim, informar os cidadãos sobre os malefícios de determinados produtos, deixando às pessoas a decisão de seguir ou não tais orientações.

[...] São os pais que, na ótica do legislador, não têm senso crítico para decidir o que é melhor para os filhos nem são capazes de neles o estimular. O significado é óbvio: os pais não têm autonomia, autoridade ou capacidade para educar seus filhos.

[...] O tipo de lei relativo às crianças não difere dos que limitam a liberdade de escolha dos adultos. O ímpeto é o mesmo. A suposta fragilidade das crianças é apenas o subterfúgio palatável do autoritarismo. O recado é claro: você não tem o direito de viver conforme suas convicções, você deve viver conforme o plano que o Estado desenha para você.

Rodrigo Constantino

 

Democracia

O PT defende agora o modelo capitalista americano?

Eis o “avanço” democrático que o PT deseja para o Brasil

A cara de pau dos petistas tende ao infinito. Já sabemos disso. Mas mesmo assim ainda somos capazes de nos surpreender com ela. Foi o caso hoje. O editorial do GLOBO voltou ao importante tema do Decreto 8.243, das “participações populares” que o partido deseja para instalar uma “democracia direta” nos moldes bolivarianos. A outra opinião ficou com Rui Falcão, presidente do PT. Eis o que ele diz:

A maioria dos países desenvolvidos e de economia de mercado tem várias experiências bem-sucedidas de sistemas descentralizados e participativos. França, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Alemanha, Canadá, Índia têm conselhos ou modelos semelhantes de participação da sociedade. Exemplos são muitos: de conselhos nacionais e comunitários de saúde e transportes na Alemanha e nos Estados Unidos a consórcios metropolitanos em Londres, Berlim e Barcelona.

Então quer dizer que os modelos que o PT tem em mente ao propor essas “participações populares” são os dos americanos e alemães? Conta outra, Rui! É um discurso para cada público. Fico pensando a algazarra que haveria se, em um comício do PT, seu presidente colocasse o modelo americano como meta. Só faltou ele citar os cantões suíços como espelho do que o PT quer para o Brasil. Mas a cara de pau continua:

Os que no passado se voltaram contra a abolição da escravatura, o voto do analfabeto, o salário mínimo e o 13º salário têm a mesma posição dos que, no presente, condenam o Bolsa Família, resistem às quotas para negros, investem contra o Mais Médicos e vociferam contra a Política Nacional de Participação Social. 

Ou seja, se você é contra esse grande passo rumo ao modelo venezuelano, você só pode ser um representante da velha elite branca e conservadora que foi contra, no passado, a abolição da escravatura, o voto do analfabeto, o salário mínimo, o Bolsa Família, as cotas raciais e os Mais Médicos. Inclusive como se isso tudo fosse parte de um mesmo pacote desejável!

Não, Rui, qualquer democrata legítimo seria favorável à abolição da escravatura, uma bandeira erguida por liberais e não socialistas, que escravizaram e escravizam até hoje seus povos (vide Cuba e Coreia do Norte). Mas um democrata legítimo não precisa aplaudir cotas raciais, que segregam o povo com base no conceito de raça, tampouco o Mais Médicos, programa absurdo que importa escravos cubanos e levanta enormes suspeitas sobre caixa dois para o PT. Diz o presidente do PT ainda:

A reação raivosa de certos setores da sociedade ao decreto traveste, na verdade, o desejo de limitar a democracia brasileira. O coro contra o decreto é inócuo. A democracia avançou nos governos Lula e Dilma e continuará no centro das prioridades da cidadania. O diálogo entre cidadão e Estado está aberto. Não há volta atrás.

Avançou? Rumo ao modelo venezuelano, onde há “excesso de democracia” como disse Lula? Que piada de mau gosto! Nossa democracia está é ameaçada com o PT, isso sim! E qualquer pessoa minimamente honesta e atenta sabe disso. Há apenas os que são muito alienados para não saber, ou os que sabem e fingem não saber, pois recebem muito bem para isso. O editorial do GLOBO foi direto ao ponto, para derrubar esse discurso mentiroso do PT:

As raízes ideológicas do decreto são chavistas, derivam da obsessão nacional-populista com a democracia direta, em que o caudilho, o líder das massas, manipula de forma direta o povo e, assim, se legitima por meio de constantes consultas populares. A Venezuela foi ao ponto que chegou, de debacle, por esta via.

A reação do Congresso ao 8.243 tem sido acertada, mesmo entre partidos da base do governo, PMDB à frente. Os presidentes da Câmara e Senado, Henrique Alves (RN) e Renan Calheiros (AL), da legenda, discordam, com razão, por ser inconstitucional, do uso do instrumento do decreto-lei para se criar estruturas paralelas de poder, à moda da democracia direta. Se o Planalto tem este objetivo, que envie projeto de lei ao Legislativo, onde assunto tão grave precisa ser discutido com o devido cuidado.

Não há mesmo outra alternativa a não ser aprovar o decreto legislativo que revoga o ato de Dilma e PT.

Rodrigo Constantino

 

DemocraciaPolítica

O voto nulo é um ato político válido?

Essa foi a pergunta que a Folha fez hoje para seu debate de opiniões. Para defender o sim, o palhaço Hugo Possolo entrou em campo. Para defender o não, foi a vez de o cientista político Bolívar Lamounier apresentar suas armas. Vamos ao resumo de ambos os pontos de vista e, em seguida, minha própria opinião. Diz Passolo:

Votar nulo não se trata de atacar o governo ou a oposição, mas o sistema político inteiro, dizendo não à promiscuidade partidária que confunde o eleitor com essa miscelânea de acordos nacionais e regionais que querem reduzir a cidadania a uma negociata por horários na TV.

Quem defende o voto nulo não tem espaço no horário nobre para se manifestar. Isso é democracia?

Basta dar um Google para ver que a Constituição de 88 está remendada e, não é preciso ser muito esperto para saber que os políticos jamais farão uma reforma política que altere as regras de um jogo no qual somente eles estão se dando bem.

Qual a maneira de contestar? Votar nulo! Sempre que defendo o voto nulo, ouço aquela ladainha do fantasma da ditadura que pode voltar e a fatal pergunta do que teria a ganhar anulando meu voto. Bem sei que não quero nenhuma ditadura, mas também sei que essa democracia que aí está não me representa.

E quanto a não ganhar nada votando nulo… Concordo, é isso mesmo. Nenhum marqueteiro trabalharia em campanha onde não se ganha nada.

Por outro lado, diz Lamounier:

A questão a considerar é, pois, o objetivo dos proponentes do voto nulo. Protestar contra o quê, exatamente? Uma razão amiúde invocada para o protesto é o desgaste das instituições, nos três ramos do governo. O desgaste de fato existe e se deve a uma infinidade de razões.

O Congresso atual alterna momentos de omissão, de anarquia e de subserviência ao Executivo, desservindo o interesse público nos três casos. Episódios de corrupção multiplicam-se nos três Poderes, numa sucessão interminável. É um estado de coisas lastimável, mas a contribuição do voto nulo à correção dele é rigorosamente zero. Neste caso, nada há na anulação que se possa chamar de público –ou seja, de político, no melhor sentido da palavra. Nas condições do momento, ele apenas exprime um mal-estar subjetivo, difuso, de caráter individual. Qualquer que seja seu peso nos números finais da eleição, ele será apenas uma soma desses mal-estares e da apatia que deles decorre.

Um protesto contra as políticas do governo atual? Realmente, na política econômica, há equívocos de toda ordem; na educação, é até difícil dizer se há alguma política; na área externa, uma descabida simpatia por ditaduras de vários matizes; sem esquecer a incompetência e os abundantes desmandos que se têm verificado em certas empresas públicas, a começar pela Petrobras. Dá-se, no entanto, que tais políticas derivam fielmente da coalizão partidária no poder; motivos para combatê-las não faltam, mas o voto nulo não as combate. Bem ao contrário, ele contribui para a permanência delas, ao facilitar a pretendida reeleição de Dilma Rousseff.

O que penso disso? Entendo os motivos de Passolo para sua revolta contra o “sistema”, mas acho que Lamounier tem razão. O voto nulo não chega a ser um protesto de fato, e isso é importante. Ele pode trazer regozijo pessoal para quem anulou o voto, por dar a sensação de que ficou de fora da eleição, não teve de escolher um candidato que não aprecia verdadeiramente. Mas não muda nada na prática.

O esvaziamento do processo eleitoral, realidade em diversos países onde muitos sequer vão votar (o voto sendo facultativo), retira parte da legitimidade dos eleitos, sem dúvida, mas o que isso altera de verdade? A abstenção na Venezuela foi enorme. E daí? Isso tirou Chávez do poder quando estava vivo? E isso impediu Maduro de agir como um tiranete?

Quando avaliamos a realidade como ela é, sem fantasias, a impressão que fica é que o voto nulo é uma postura quase imatura. Sim, o eleitor pode voltar para a casa e bater no peito: “eu não aceitei participar desse sistema corrupto”. Mas guess what? O sistema continua lá e você, apesar de não se interessar pela política, será alvo dela, sempre. Não é melhor escolher o menos pior?

Isso torna-se ainda mais importante quando há muita coisa em jogo. Por exemplo, quando temos o risco real de virarmos uma Argentina ou Venezuela. Já em 2010, quando a disputa era entre Dilma e Serra, de quem não nutro simpatia alguma e com quem tenho inúmeras divergências, escrevi um texto comparando a escolha com a aquela de Sofia, e disse:

Tais questões me levaram à lembrança do excelente livro O Sonho de Cipião, de Iain Pears, uma leitura densa que desperta boas reflexões sobre o neoplatonismo. Quando a civilização está em xeque, até onde as pessoas de bem podem ir, na tentativa de salvá-la da barbárie completa? Nas palavras do autor: “Usamos os bárbaros para controlar a barbárie? Podemos explorá-los de modo que preservem os valores civilizados ao invés de destruí-los? Os antigos atenienses tinham razão ao dizerem que assumir qualquer lado é melhor do que não assumir nenhum?”

Permanecer na “torre de marfim”, preservando uma visão ideal de mundo, sem sujar as mãos com um voto infame, sem dúvida traz conforto. Manter a paz da consciência tem seus grandes benefícios individuais. Além disso, o voto nulo tem seu papel pragmático também: ele representa a única arma de protesto político contra todos que estão aí, contra o sistema podre atual. Somente no dia em que houver mais votos nulos do que votos em candidatos o recado das urnas será ouvido como um brado retumbante, alertando que é chegada a hora de mudanças estruturais. Os eleitos sempre abusam do respaldo das urnas, dos milhões de eleitores que deram seu aval ao programa de governo do vencedor, ainda que muitas vezes tal voto seja fruto do desespero, da escolha no “menos pior”. 

Mas existem momentos tão delicados e extremos, onde o que resta das liberdades individuais está pendurado por um fio, que talvez essa postura idealista e de longo prazo não seja razoável. Será que não valeria a pena ter fechado o nariz e eliminado o Partido dos Trabalhadores Nacional-Socialista em 1933 na Alemanha, antes que Hitler pudesse chegar ao poder? Será que o fim de eliminar Hugo Chávez justificaria o meio deplorável de eleger um candidato horrível, mas menos louco e autoritário? São questões filosóficas complexas. Confesso ficar angustiado quando penso nisso.

[...]

Entendo que para os defensores da liberdade individual, escolher entre Dilma e Serra é como uma escolha de Sofia: a derrota está anunciada antes mesmo da decisão. Mesmo o resultado “desejado” será uma vitória de Pirro. Algo como escolher entre um soco na cara ou no estômago. Mas situações extremas demandam medidas extremas, e infelizmente colocam certos valores puristas em xeque. Anular o voto, desta vez, pode significar o triunfo definitivo do mal. Em vez de soco na cara ou no estômago, podemos acabar com um tiro na nuca.

Dito isso, assumo que votarei em Serra, mas não sem antes tomar um Engov. Meu voto é anti-PT acima de qualquer coisa. Meu voto é contra o Lula, contra o Chávez, que já declarou abertamente apoio a Dilma. Meu voto não é a favor de Serra. E, no dia seguinte da eleição, já serei um crítico tão duro ao governo Serra como sou hoje ao governo Lula. Mas, antes é preciso retirar a corja que está no poder. Antes é preciso desarmar a quadrilha que tomou conta de Brasília. Ainda que depois ela seja substituída por outra parecida em muitos aspectos. Só o desaparelhamento de petistas do Estado já seria um ganho para a liberdade, ainda que momentâneo.

Respeito meus colegas liberais que discordam de mim e pretendem anular o voto. Mas espero ter sido convincente de que o momento pede um pacto temporário com a barbárie, como única chance de salvar o que resta da civilização – o que não é muito.  

Acho que não fui tão convincente, e claro, meu apelo não teve muito alcance. Mas pergunto hoje, com o benefício do retrospecto: o Brasil não estaria menos pior com Serra no poder em vez de Dilma? Não seria um país melhor sem todo o aparelhamento realizado pelo PT, ameaçando nossas liberdades e a própria democracia? Creio que sim. Tenho convicção que sim!

Quem vota nulo pode achar que não escolheu ninguém, mas, na prática, acaba ajudando aquele que está na frente, e isso também é uma forma de escolha, ainda que indireta. Portanto, só posso concordar com Lamounier quando diz que o voto nulo “contribui para a [...] reeleição de Dilma Rousseff”. E isso, sabemos, é a desgraça do Brasil.

Anular o voto nessas condições é optar pela “inação” e contribuir com o triunfo do projeto lulopetista de poder.

PS: Se precisei de um Engov em 2010 para digitar 45, confesso que este ano o auxílio medicinal não será necessário, pelo visto. Até aqui, o que tenho visto da campanha e das diretrizes de Aécio Neves, ao lado de gente como Armínio Fraga, tem sido estimulante. Como já disse aqui, apesar de pertencer ao PSDB, um partido social-democrata e, portanto, de esquerda, Aécio tem adotado a postura de um liberal pragmático, defendendo com coragem certas bandeiras impopulares, de que o Brasil tanto precisa.

Rodrigo Constantino

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1 comentário

  • HAROLDO FAGANELLO Dourados - MS

    Após os 7x1 da pomposa Alemanha sobre o fracote Brasil na copa, que enlameou as pretensões da D.ª Dilma e do PT nas eleições, vislumbra para o final do ano, mais uma golpeante goleada de 7x1, INFLAÇÃO X PIB. Que esse placar sirva para o povo trocar o comandante do Planalto....

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