Datafolha: Por que Dilma, Aécio e Marina podem tanto comemorar como se preocupar...

Publicado em 18/08/2014 11:09 e atualizado em 19/08/2014 15:25 2031 exibições
por Reinaldo Azevedo, + Lauro Jardim e Rodrigo Constantino, de veja.com

Datafolha: Por que Dilma, Aécio e Marina podem tanto comemorar como se preocupar

Folha desta segunda traz os números da mais recente pesquisa Datafolha para a corrida presidencial. Querem saber? Todos — Dilma Rousseff, Aécio Neves e Marina Silva — têm motivos para comemorar um pouco e para se preocupar também. Vou dizer por quê. Segundo os números apurados, se a eleição fosse hoje, Dilma, do PT, teria 36% das intenções de voto, marca idêntica à obtida há um mês, quando o candidato do PSB era Eduardo Campos. Também o tucano Aécio Neves fica no mesmo lugar: com 20%. E Marina? Ela ressurge na disputa com 21%, tecnicamente empatada com o candidato do PSDB — há um mês, Campos tinha apenas 8%.

Datafolha 18 de agosto

Se Dilma e Aécio não perderam votos e se Marina aparece com 13 pontos a mais do que Campos, de onde saiu essa diferença? Dos brancos/nulos e dos que não tinham candidato. Há um mês, 13% demonstravam a disposição de não votar em ninguém; agora, são apenas 8%. Os que diziam não saber eram 14%; agora, são 9%. Os demais candidatos somavam 8%; agora, apenas 5% — Pastor Everaldo, do PSC, conservou seus 3% (os infográficos que aparecem neste post foram publicados na edição impressa da Folha).

Conclusão óbvia: Marina, a candidata que mais se identificou com os protestos de rua iniciados em abril do ano passado e que nunca censurou, de modo inequívoco, nem mesmo as manifestações violentas,  beneficia-se, vamos dizer assim, do ódio à política e aos políticos. Ela sempre foi muito hábil em fazer de conta que não é feita do mesmo barro que compõe os mortais da vida pública. Há mais: fica evidente, como apontei aqui tantas vezes, que ela não transferia votos para Campos.

No segundo turno, a estarem certos os números, há uma novidade importante. Marina Silva aparece em empate técnico com Dilma, mas numericamente à frente: 47% a 43%. A margem de erro é de dois pontos para mais ou para menos. Contra Aécio, a petista lideraria com 47% a 39%, com oito pontos de diferença.

Datafolha 2 18 de agosto

Então vamos pensar um pouco na contramão do que parece óbvio. A tragédia que colheu Eduardo Campos já atingiu o seu auge. Não há mais como espetacularizar o acontecimento. O Datafolha ouviu 2.843 pessoas nos dias 14 e 15 de agosto. O ex-governador de Pernambuco morreu no dia 13. Obviamente, cairá, a partir de agora, o impacto do acontecimento.

Não dá para ignorar que a nova realidade é ruim para Dilma porque está eliminada, agora de modo inequívoco,  a possibilidade de ela vencer no primeiro turno: seus adversários somam 46 pontos — 10 a mais do que os seus 36. Ela tem ainda a lamentar a rejeição, que segue altíssima: 34% dizem não votar nela de jeito nenhum, índice praticamente igual aos que votam: 36%. Resta o que a comemorar? Duas coisas: apesar da avalanche do noticiário, manteve seu patrimônio eleitoral no primeiro turno e se distanciou um pouco de Aécio no segundo. Também melhorou a avaliação do governo, segundo o Datafolha ao menos: ele é agora considerado ruim ou péssimo por 23% — há um mês, eram 29%. Dizem ser bom ou ótimo 38% — contra 32% em julho. Os mesmos 38% o consideram regular.

Datafolha 3 18 de agosto

A exemplo de Dilma, Aécio conservou os pontos que tinha: 20%. Como a sua candidatura poderia ter sido a mais exposta a prejuízos em razão da entrada de um novo nome no terreno oposicionista, não deixa de ser positivo que tenha mantido o seu eleitorado. A diferença de oito pontos no segundo turno é ruim quando se compara com os apenas 4 do Datafolha anterior. No Ibope de há 11 dias, no entanto, era de 6 pontos. O patamar é o mesmo.

E Marina? Só recebeu boas notícias da pesquisa? Não custa lembrar que, no último Datafolha em que o nome dela apareceu, em abril — antes que ficasse claro que o candidato seria Campos —, ela chegou a marcar 27%. Vale dizer: nem a tragédia monumental, que lhe garantiu uma visibilidade inédita, com todas as tintas da tragédia e da evidente exploração política, lhe devolveu ao patamar a que já havia chegado.

Aparecer à frente de Dilma no segundo turno, dadas as circunstâncias e considerando o momento em que se faz a pesquisa, me parecia desde sempre plausível. O horário eleitoral começa amanhã. Dilma tem um latifúndio: 11min24s contra apenas 4min35s de Aécio e 2min3s de Marina. Mais: a candidata da Rede — ora no PSB — agora terá de falar o que que quer. Como vice de Campos, ela se limitava a dizer alguns “nãos”. Vamos ver.

A síntese das sínteses:
1: Dilma e Aécio certamente esperavam notícias piores;
2: Marina certamente esperava notícia ainda melhor;
3: o segundo turno já é uma realidade inescapável;
4: a estarem certos os números do Datafolha, o horário eleitoral começa com uma certa recuperação de prestígio do governo;
5: a rejeição a Dilma continua elevadíssima;
6: Marina e Dilma são certamente mais conhecidas do que Aécio, e o início do horário eleitoral pode ser, relativamente, mais positivo para ele do que para elas;
7: estamos diante da disputa eleitoral de resultado mais incerto desde a redemocratização do Brasil.

Por Reinaldo Azevedo

 

A segunda viuvez eleitoreira de Marina no velório e no sepultamento que acabou deixando de lado o decoro e se transformando em micareta eleitoral

Marina, à beira do caixão de Campos, ergue o retrato do candidato morto:viúva política e rainha posta

Marina, à beira do caixão de Campos, ergue o retrato do candidato morto: viúva política e rainha posta. Isso não é dor. É política.

Explico. Deixo textos fáceis para outros. Alinho-me com aqueles que preferem os difíceis, ainda que sob pena de desagradar a muitos, até mesmo a alguns leitores habituais. Não posso fazer nada. Penso o que penso. E meu único compromisso aqui no blog, na Folha ou na Jovem Pan é este: dizer o que penso. Vamos lá. De súbito, Eduardo Campos virou a versão masculina e brasileira de Inês de Castro, aquela “que, depois de ser morta, foi rainha”, na formulação imortal de Camões, em “Os Lusíadas”. Se tiverem curiosidade, pesquisem a respeito da personagem. As circunstâncias são outras, mas, nos dois casos, há uma espécie de coroação post mortem. Marina Silva, já apontei aqui, para a minha não supresa, fez-se a viúva profissional de mais um cadáver. Campos foi, sim, coroado rei. Morto no entanto, logo alguém se lembrou de dar vivas à nova rainha. Tudo bastante constrangedor para quem repudia a demagogia, o mau gosto e a exploração da morte como moeda eleitoral.

Vocês sabem que tratei aqui de modo muito decoroso — e não pretendo mudar a rota — a morte de Campos. Mesmo o comportamento da família me parecia correto a mais não poder. Havia dor genuína, mas também comedimento. Havia sofrimento, porém temperado pelo pudor. Afinal, morria o marido, o filho, o pai… Vi, bastante comovido, e comentei nesta página o vídeo que seus filhos fizeram em homenagem ao Dia dos Pais, tornado público três dias antes da tragédia. Renata, a viúva de verdade, preferia, então, o silêncio e, a despeito do aparato que a cerca, não vi partir dela nenhuma nota fora do tom. A cerimônia de sepultamento neste domingo, no entanto, fugiu, obviamente, ao controle. Assistimos ao enterro inequívoco de um político. E o que se via ali era muita gente organizada para fazer o cadáver procriar… votos.

Viatura do Corpo de Bombeiros com lema político da campanha de Campos, estampado também na camiseta de três de seus filhos: punhos cerrados

Viatura do Corpo de Bombeiros com lema político da campanha de Campos, estampado também na camiseta de três de seus filhos: punhos cerrados

Não me peçam para compactuar com isso. Achei justo e correto que se organizasse um velório público. Campos era um governante popular em sua terra e morreu de forma trágica. Mas pergunto: o que fazia aquela faixa no veículo do Corpo de Bombeiros com a declaração “Não vamos desistir do Brasil”, lema idêntico ao que se lia na camiseta de seus filhos, três deles desfilando sobre a viatura, com os punhos cerrados, numa manifestação inequivocamente política? Não! Eu não posso me desculpar por estar aqui a apontar a inadequação da manifestação se eles próprios não souberam separar, como seria o correto, o domínio da dor, que creio ser verdadeira, daquele em que se aloja a pregação eleitoral. Os fogos de artifício, então, não deixaram a menor dúvida de que o velório e sepultamento haviam se transformado numa micareta política. Lamentável. Como era o esperado, houve tempo para vaias à presidente da República e a seu antecessor, Lula, aos gritos de “Fora, Dilma!”, “Fora, PT!” e, é óbvio, “Marina Presidente!”.

Infelizmente, para a tristeza do Brasil, no sentido mais amplo da expressão, o Campos morto ganhou uma projeção que o vivo jamais conseguiu. E Marina, mais uma vez, se apresentou como a viúva de plantão. O PSB ainda não fez dela a candidata, mas é só uma questão de tempo. A já presidenciável teve cinco dias ininterruptos de horário eleitoral gratuito. E, com seu ar sempre pesaroso, magro, quase quebradiço — mas sem se esquecer de acenar de vez em quando e de deixar escapar furtivos sorrisos —, empertigou-se quando necessário para vestir o manto da fortaleza moral e se apresentar para a batalha.

Não foi, assim, então, quando se transformou numa espécie de viúva oficiosa de Chico Mendes? Até hoje há quem acredite que ela era uma seringueira dos pés descalços quando ele foi assassinado, em dezembro de 1988. Não! Ela já tinha sido eleita vereadora um mês antes e, àquela altura, já era militante do PT e da CUT. Tinha fundado com Mendes, em 1985, a central sindical no Acre. Mas ficou com o espólio político do cadáver, como fica, agora, com o de Campos. Rei morto, viúva posta. Em vez de “Brasil pra frente, Eduardo presidente”, o grito de guerra dos campistas, ouviu-se, então, no velório, “Brasil, pra frente! Marina presidente!”.

Não foi um dia feliz para o comedimento, para o decoro, para o bom gosto e para o bom senso. Que Deus tenha piedade do Brasil se os eleitores não tiverem!

Por Reinaldo Azevedo

 

Lula ouve o aviso em forma de choro: até um bebê de colo sabe que oportunismo tem limite

Velório de Eduardo Campos - PE

 

Os políticos presentes ao velório de Eduardo Campos cumprimentaram com sobriedade a viúva, sussurraram duas ou três palavras de consolo a algum parente que estivesse por perto e saíram do foco das câmeras. Os limites da circunspecção foram respeitados por todos ─ com uma única e previsível exceção. Lula, vaiado na chegada, não perdeu a chance de produzir uma imagem que sugerisse um alto grau de intimidade (que nunca existiu) com a família do morto.

Ao topar com Renata Campos, o palanque ambulante capturou o caçula Miguel, até então posto em sossego nos braços da mãe, e posou para os fotógrafos beijando a testa do garotinho de sete meses. O truque eleitoreiro resultaria numa cena e tanto se o pequeno coadjuvante não tivesse rasgado o roteiro: assim que foi levantado por Lula, Miguel caiu no choro. Até bebê de colo sabe que oportunismo tem limite.

(por Augusto Nunes)

 

Hipótese de Renata Campos como vice de Marina é coisa de país na fase das capitanias hereditárias… É essa a “nova política”?

Confesso que cheguei a achar que era piada, mas , percebo agora, não é. Não! Pensa-se mesmo, a sério, em fazer de Renata Campos, a “Dona Renata”, candidata a vice na chapa que será encabeçada por Marina Silva. Dirigentes do PSB têm dito a interlocutores que será o seção de Pernambuco do partido a decidir a vaga — que terá de contar com a aprovação de Marina Silva.

 Ai, ai, ai… Eduardo Campos e Marina Silva sempre ancoraram a sua postulação numa certa “nova política”. Mais de uma vez, indaguei aqui que novidade, afinal de contas, era essa. Marina, ainda que tenha tido uma origem pobre, de todas conhecida e bastante cantada em prosa, verso e subprodutos míticos, fez política tradicional segundo o roteiro petista: foi sindicalista, ajudou a fundar uma central de trabalhadores, ligou-se a movimentos sociais, disputou eleições… O que há de tão novo nisso?

 Campos, então, era tradicional a mais não poder: neto de político, filho de políticos, vinha de uma tradição verdadeiramente fidalga, ainda que uma fidalguia com viés de esquerda. Por mais que “Dona Renata”, como Campos chamava a própria mulher, seja uma parceira de vida, uma militante política, essa militância nunca se tornou notória ou notável além do círculo doméstico. Seria candidata a vice de alguém que aparece em primeiro lugar numa simulação de segundo turno, ainda que possa ser uma situação transitória, por quê? Não faz sentido!

 A menos que estejamos de volta a uma espécie de atualização da política das capitanias hereditárias, deem-me uma boa razão para que seja assim. Como capitania hereditária não é, parece-me que podemos estar diante de algo ainda pior: uma tentativa de fazer com que Campos, morto, possa render os votos que, infelizmente, ele não tinha quando vivo.

 Sinceramente, acho tão estapafúrdia a saída que custo a acreditar que possa prosperar. Mas o simples fato de a hipótese estar sendo tratada a sério me parece constrangedora. O PSB tem até o dia 23 para definir a nova chapa. É certo que Marina, que é da Rede, vai estar na ponta. O que se espera é que seja alguém genuinamente do PSB a ocupar o lugar de vice, quando menos para que a candidata se lembre dos compromissos que Campos havia assumido.

 Ora, querem Renata por quê? Para que se somem duas pessoas sem nenhuma experiência administrativa, mas com chances efetivas de vir a governar o país? Se querem saber, preocupa-me menos isso ser pensado nos círculos políticos de Pernambuco e do PSB do que a hipótese ser tratada pela crônica política como algo corriqueiro e aceitável.

 Parece-me que boa parte dos políticos e da própria imprensa não está se dando conta das dificuldades por que passa — e passará o país em 2015. Há muita gente brincando com fogo. A projeção de crescimento para este ano voltou a ser rebaixada, agora para 0,79%. A do ano que vem está pouco acima de 1%. Fatores negativos tendem a convergir de forma ameaçadora. E pessoas supostamente responsáveis vêm falar em Renata Campos como candidata a vice de Marina, tendo como principal qualificação para tal desafio ter sido mulher de Eduardo Campos?

 Nada contra esta senhora, que, a exemplo de quase 100% dos brasileiros, nem conheço. Mas tenho tudo contra os fundamentos que levam a essa hipótese. Seria bom ter um pouco mais de responsabilidade com os destinos do Brasil.

Por Reinaldo Azevedo

 

Marina Silva vem aí? Ou: A Rede da demagogia

Messias salvadora da Pátria? Nem a pau, Juvenal!

Messias salvadora da Pátria? Nem a pau, Juvenal!

Eis que agora todos aqueles jovens que tomaram as ruas em junho de 2013 não precisam mais anular seu voto. Ou todos aqueles românticos que acreditaram no despertar do gigante e condenam “tudo isso que está aí”, e clamam por uma “nova forma de se fazer política”, sem barganhas ou concessões (ou seja, sem democracia), agora possuem finalmente uma candidata. Marina Silva vem aí!

Mas qual Marina? Será aquela respaldada pelo bom senso e seriedade, ainda que pouca experiência prática, de Eduardo Giannetti da Fonseca? Será aquela que reconheceu recentemente a importância de se preservar o tripé macroeconômico, destruído pelo governo Dilma? Ou será a velha Marina, “sonhática”, idealista, fundamentalista, romântica, ecologicamente correta, aliada do MST? Teremos Giannetti ou Leonardo Boff dando as cartas?

Ninguém sabe dizer. E eis o ponto-chave: Marina é uma incógnita, uma enorme incerteza. Os investidores celebram timidamente e com cautela a pesquisa eleitoral do Datafolha – feita um dia após a morte de Campos – que já a coloca como segunda colocada. Compreensível: nada pode ser pior do que Dilma.

Eu mesmo cheguei a escrever uma carta aberta a Marina pedindo sua candidatura, pois a prioridade é retirar o PT do poder, impedir o golpe bolivariano em curso, cessar com o absurdo aparelhamento da máquina estatal. Daí a crer que Marina representa uma boa alternativa vai uma longa distância! Deixe-me ser mais objetivo: se fosse para votar no Capeta com Lúcifer como vice na chapa para tirar o PT do poder, eu votava!

Mas confesso ao leitor: tenho calafrios com a imagem de um segundo turno entre Dilma e Marina. É uma visão assustadora. Para explicar melhor meus motivos, segue um artigo publicado no GLOBO em março de 2013:

A Rede da demagogia

Há mais um partido na praça. Trata-se da Rede, de Marina Silva, candidata que recebeu 20 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais. Tem muita gente cansada da dicotomia entre PT e PSDB, em busca de alguma alternativa. Será que a Rede é a solução? 

Confesso ao leitor que ela não me convence. Para começo de conversa, o partido fez como o fisiológico PSD, de Kassab, e alegou não ser de esquerda nem de direita, pró-governo nem oposição. Contudo, quando vamos verificar quem são as pessoas por trás dele, só encontramos gente de esquerda, inclusive da ala mais radical, aquela que ainda sonha com o fracassado socialismo cubano. 

Um de seus gurus intelectuais é Leonardo Boff, da Teologia da Libertação, uma mistura tosca entre cristianismo e marxismo. Marina veste literalmente o boné dos invasores de terra do MST. Vários membros do PSOL pretendem migrar para a Rede. E por aí vai. 

Alguns ali abraçam a cruzada ecológica, mas tampouco me enganam. São “melancias”: verdes por fora, mas vermelhos por dentro. Seu discurso transforma o meio ambiente em religião antiprogresso, e dá para notar claramente o viés anticapitalista. O planeta será salvo pelo resgate do “bom selvagem”, de uma vida comunitária idealizada, como no filme “Avatar”. Estou fora dessa seita romântica! 

Que tal um candidato que jamais tenha colocado esse boné infame?

Que tal um candidato que jamais tenha colocado esse boné infame?

Resta a importante questão ética. Uma vez mais, eu não fico tão convencido. Em primeiro lugar, é preciso lembrar que Marina teve quase três décadas de filiação ao PT. E não é novidade alguma o uso de práticas imorais do partido em sua busca implacável pelo poder. Elas chegaram ao auge do absurdo com o mensalão, mas não foram iniciadas ali. Relações com o jogo do bicho, parceria com ditadores comunistas, até mesmo afinidade e aproximação com os guerrilheiros das FARC representam o histórico do PT desde muito tempo. A bandeira da ética sempre foi hipócrita, e está totalmente esgarçada pelas traças do poder. 

Esse rompimento tardio de Marina, que foi ministra de Lula, remete ao caso do escritor Saramago, que rompeu com Fidel Castro após uma nova perseguição a três intelectuais cubanos, ignorando os milhares de cadáveres acumulados na mais longa ditadura da América Latina. 

Marina Silva resolveu sair do PT apenas quando seu espaço político estava prejudicado. Mas ela fez parte do governo, ainda que não tenha praticado atos ilegais. Quando abandonou o PT, disse que foi preciso coragem para sair de sua “casa política”, à qual ainda nutria profundo respeito. Quem respeita tanto assim o PT perde o meu respeito. 

A Rede fez muito barulho com a bandeira ética, tal como o PT de ontem. Mas começou mal, ao recusar dinheiro de empresas de tabaco e cerveja, mas aceitar o de empreiteiras (eu inverteria). Aceitou ainda gente do PSOL envolvida no escândalo do bicheiro Cachoeira. Será que Marina concorda com José Dirceu, para quem a Lei da Ficha Limpa é absurda? Caiu na Rede é peixe? 

Em suma, por trás daquela fala mansa e da mensagem messiânica (o próprio Alfredo Sirkis afirmou que se trata mais de um “estado de espírito” do que de prática política), jaz o embrião de mais um partido populista e demagógico, uma espécie de PT revigorado e embalado em alface orgânico. Um projeto personalista da “salvadora da pátria”. 

O Brasil, infelizmente, continua com uma hegemonia de esquerda na vida política. Todos os partidos relevantes rezam o mesmo credo socialista envergonhado: intervencionista na economia, coletivista e paternalista no social. Nenhum fala abertamente em privatização, em redução do papel do governo na economia e em nossas vidas. Todos querem assumir o papel de “pai do povo” e controlar 40% do PIB nacional. 

O grande nome “novo” é Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes e líder de um partido que ainda se diz socialista. Do lado dos tucanos, temos Aécio Neves, que parece o melhor da turma. Mas algo ali não cheira bem. Falta disposição para assumir uma postura efetiva de oposição. 

Os milhões de brasileiros cansados da completa falta de ética na política, do viés estatizante de todos esses partidos, continuam órfãos políticos, sem representação partidária. Sei que há partidos demais (legendas, na verdade), mas precisamos de uma alternativa verdadeira, sem medo de assumir sua posição de direita liberal, a favor do livre mercado, da família e da propriedade. 

Um partido que não venda ilusões e milagres por meio da pesada mão do Estado, mas sim reformas que devolvam o poder a cada um de nós. Um partido que diga “Basta!” a todos esses privilégios e subsídios estatais. Precisamos de algo realmente NOVO!

PS: Diogo Mainardi disse ontem no Manhattan Conection que Marina Silva ganha de lavada. Acho – e espero – que errará, como errou feio, infelizmente, quando disse que Dilma não ganharia em 2010. Marina tem um teto, mesmo com toda a comoção do cadáver. Conquista o voto de muita gente desiludida, com razão, com nossa política, como se fosse realmente uma alternativa viável a Sarney e companhia. Mas a turma mais pragmática sabe que o buraco é bem mais embaixo. Resta saber quantos “sonháticos” existem no Brasil, e quantos pragmáticos…

Rodrigo Constantino

Sucesso no YouTube

Marina e Eduardo: gravação vazou

Marina e Eduardo: gravação vazou

O programa eleitoral gravado por Eduardo Campos e Marina  (veja aqui) para, originalmente,, ir ao ar a partir de amanhã, já foi visto por mais de 600 000 pessoas, desde que vazou na internet há quatro dias.

Por Lauro Jardim

Futuro planejado

Demissões à vista, em caso de vitória de Dilma

Demissões à vista, em caso de vitória de Dilma

Até a tragédia da semana passada, os bancos de investimentos estimavam que o resultado da eleição definiria o tamanho das suas equipes no Brasil em 2015.

Estas instituições trabalhavam com dois cenários: se Aécio Neves vencesse, o quadro de funcionários ficaria inalterado. Se Dilma Rousseff triunfasse, demitiriam entre 10% e 15% do pessoal. Não mediram ainda como fica a conta com Marina.

Por Lauro Jardim

Na Folha: Para equipes de campanha, morte zera o jogo eleitoral

Integrantes das três principais campanhas presidenciais fizeram neste domingo (17) avaliação semelhante durante o velório de Eduardo Campos: a candidatura de Marina Silva, em meio a uma comoção nacional, zerou o cronômetro da eleição.

Reservadamente, diversos representantes dos comitês eleitorais afirmam que a única certeza agora é de que haverá segundo turno.

Para muitos, o efeito da morte de Campos sobre a popularidade de sua substituta na cabeça de chapa decantará nas próximas duas semanas. Só então então será possível avaliar, com mais clareza, o cenário da sucessão.

Durante o voo que a levou ao Recife, Marina afirmou que a morte do candidato impõe a ela "responsabilidade" e que pretende manter os compromissos que definiu com o aliado. As afirmações foram feitas aos jornais "O Estado de S. Paulo" e "O Globo".

"Penso que existe uma providência divina em relação a mim, ao Miguel [filho mais novo de Campos], a Renata [viúva do candidato] e ao Molina [sobrinho e assessor]", disse Marina ao "O Globo".

Auxiliares de Dilma Rousseff presentes à cerimônia fúnebre não escondiam preocupação com a reviravolta do quadro eleitoral. Tucanos também exibiam apreensão.

No PT e no PSDB, a expectativa é de um segundo turno entre a presidente da República e o candidato do PSDB, Aécio Neves (MG).

Em comum está a avaliação de que Marina tem um discurso fundamentalista em diversos setores e sua eventual vitória traria riscos ao país. Tudo indica que a ex-senadora sofrerá dos dois grupos adversários a mesma investida negativa feita contra Lula em 2002.

Para o PSB, a morte de Campos aumentará o cacife elitoral de Marina para além do conquistado em 2010, quando ficou em terceiro lugar com 20 milhões de votos.

A mexida radical no quadro da sucessão já provocou ajustes no tom da campanha tucana. Se, antes, o slogan era mudança, agora transmitirá a ideia de "mudança com segurança".

Marina, que será oficializada na quarta-feira (20) candidata pelo PSB, afirmou, ao falar de seu ex-companheiro de chapa, que "as ideias não morrem". A ex-senadora tem evitado fazer qualquer comentário sobre seu futuro papel na sucessão.

Seus aliados no PSB acreditam que o principal desafio nas próximas semanas será consolidar o percentual de intenções de voto que novas pesquisas vão mostrar.

Na quarta, a coligação deve escolher o vice na chapa. O mais cotado é o deputado Beto Albuquerque (RS).

PSN: Partido Sem Noção. Ou: Pesquisa indecorosa

Foto que circulou ontem pelas redes sociais

Foto que circulou ontem pelas redes sociais

O velório de Eduardo Campos neste domingo foi um fenômeno estranho, um desafio para o jornalismo. Tivemos a inovação de “narrador de funeral”, como se fosse um jogo de futebol. Tivemos o ex-presidente Lula e a presidente Dilma sendo vaiados, o que é sinal da rejeição legítima a ambos, mas sintoma de falta de respeito aos familiares das vítimas enterradas. E tivemos, pasmem!, um show de horrores quando várias pessoas resolveram tirar “selfies” com o caixão ao fundo. Escrevi em minha página do Facebook:

Essa coisa de “selfie” em velório é o fim da humanidade. Depois reclamam e me “acusam” de conservador quando aplaudo Theodore Dalrymple e sua defesa até de uma vestimenta mais rigorosa para demonstrar respeito em tais ocasiões, para mostrar que ir a um enterro não é como ir ali do lado comer uma pizza ou tomar um sorvete. O mundo anda muito estranho…

Podem me chamar de reacionário, conservador, velho ou mesmo obsoleto, mas sou do tempo em que o sujeito colocava um terno e mantinha uma postura de discrição e sobriedade em um local desses, em homenagem ao morto. A roupa é demonstração de que houve uma preocupação maior, uma preparação diferente de simplesmente descer para comprar pão na esquina. Mas vivemos na era do Mujica, visto como grande líder pois empossa seus ministros com sandálias e unhas nojentas à mostra.

Se, por um lado, o público deu um espetáculo de mau gosto ao transformar um enterro em uma oportunidade para aparecer, em uma espécie de “micareta”, o Datafolha não fez algo muito diferente. Produziu uma pesquisa eleitoral exatamente no dia seguinte da morte de Campos! Seu avião explodiu no dia 13 de agosto, e nos dias 14 e 15 o Datafolha já ouvia 2.843 pessoas em 176 municípios. O cadáver estava quente ainda!

Fonte: Datafolha

Hoje só se fala na pesquisa, os envolvidos ajustam suas estratégias, e Marina já está em segundo na corrida, em empate técnico com Aécio Neves. Mas pergunto: qual o valor de uma pesquisa feita no dia seguinte da morte de Campos, sabendo-se que o brasileiro é um dos povos mais emotivos, imediatistas e influenciáveis do mundo?

Pode até ser que a tendência se confirme, mas é muito cedo para dizer, e se trata de uma pesquisa indecorosa. É como pegar uma viúva na saída do enterro de seu marido falecido e perguntar: ele era um bom esposo? A chance de a resposta lhe ser favorável é bem maior do que aguardar um mês para fazer a mesma pergunta, com ela já mais calma e menos afetada, usando um pouco mais a razão. Os defeitos do homem virão à tona com mais facilidade.

Obama iniciou a farra fazendo “selfie” no funeral de Mandela

Enfim, o Brasil tem mesmo avacalhado tudo, até enterro e pesquisa eleitoral. Muito foi dito logo após a trágica notícia do acidente, na linha de que não era hora de falar de política, em respeito aos mortos. Era só discurso? Pois o pessoal do PSB, partido de Campos, disse que sofreu investidas do PT, diretamente de Lula, para que desse apoio a Dilma e, com isso, rachasse ao meio o partido.

Do PT a gente espera tudo mesmo, e isso é fichinha perto do que faz o partido para se perpetuar no poder. Mas é triste quando vemos que o país como um todo caminha na direção de perda de importantes valores civilizatórios. O que talvez explique o fato de que o PT esteja no poder há 12 anos e com chances reais de permanecer por mais quatro…

Rodrigo Constantino

 

 

Marina Silva, a viúva enlutada e indevida do Brasil

Marina chega neste sábado à cada da família Campos: chegou de preto, como viúva

Marina chega neste sábado à casa da família Campos: de preto, como viúva

Marina Silva já é a candidata do PSB à Presidência. E, como é evidente, existe uma onda a seu favor, ainda que nascida da tragédia. De resto, não dá para ignorar: os deuses da floresta a premiaram com um impressionante senso de marketing — chega perto de rivalizar com o do próprio Lula. Em alguns aspectos, pode-se dizer que ela leva certa vantagem: é mais, como direi?, “sensível” do que seu antigo chefe e diz coisas bem mais abstratas e incompreensíveis, o que sempre desperta no ouvinte a suspeita de que pode estar enxergando o que ninguém ainda vê. Renata, a mulher de Eduardo Campos, recolheu-se num decoroso silêncio. Marina ficou com o papel de viúva. Li na Folha, de novo, neste domingo, que foi a outra, com uma roupa floral, quem consolou uma Marina vestida de preto neste sábado. Que coisa! A minha origem é ainda mais pobrezinha do que a da ex-senadora, sabem? Meu sensor antidemagogia dispara nessas horas.

Não tenho paciência, desculpem os encantados, com Marina! O reino que me interessa é deste mundo. E o que não é requer a intervenção de um Ser superior à líder da Rede, a quem não reconheço o papel de intercessora. Repudio o seu comportamento e o seu ar de vestal, como se ela fosse feita de um barro diferente daquele que faz os outros políticos. Não é.

Eu não sei, por exemplo, e ninguém sabe, do que ela vive e quem sustenta o aparato — que não é pequeno! — que a acompanha. Há tanto tempo sem legenda, flanando por aí, a questão é pertinente. Fosse outro, o jornalismo investigativo já teria se ocupado de apurar. Como é Marina, não se toca no assunto. Imaginem se algum outro candidato à Presidência da República tivesse um banqueiro — ou uma banqueira… — pra chamar de seu. Ela tem. O que nos outros seria pecado é, em Marina, tratado como virtude.

A líder do tal Rede, já apontei aqui num post de maio de 2011, é a nossa vestal. Logo será carregada numa liteira. Constituiu-se, com o beneplácito de boa parte da imprensa babona, numa figura notavelmente autoritária da política. Como esquecer o seu comportamento durante a votação do Código Florestal? A nossa Entidade da Floresta — que só não faz milagre no Acre — sempre se negou a confrontar suas ideias com as de seus oponentes — preferindo ameaçar a Terra e o país com o apocalipse. Contou, para isso, com o apoio de ONGs fartamente financiadas por dinheiro vindo do exterior e de colunistas que não distinguiam e não distinguem um pé de feijão de erva daninha. Caso se dissesse a alguns deles que “o povo pede alho”, eles o mandariam comer bugalho…

Certa de que a “mídia” amiga seria eficiente em matar o novo Código Florestal, relatado então pelo agora ministro dos Esportes, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), Marina se limitou a dizer “não” ao texto. Como o debate avançou, apelou aos universitários. Aí, a até então omissa SBPC resolveu fazer o seu relatório recheado de elogios à agricultura brasileira (que remédio?), mas alertando para o apocalipse que viria se a proposta fosse aprovada. A iniciativa não vingou.

Como sabe ou pode saber o leitor, as vestais romanas, virgens sem mácula, eram encarregadas de manter aceso o fogo sagrado. Gozavam de grande prestígio. Os altos dignitários de Roma lhes confiavam segredos, e elas costumavam ser chamadas para dirimir conflitos e apaziguar dissensões. Excepcionalmente, podiam abandonar seu templo e desfilar pela cidade em sinal de protesto se considerassem que uma grave ameaça pesava sobre o Estado romano.

Foi o que fez Marina naquele 2011. As ONGs resolveram carregar a nossa vestal até o Palácio do Planalto para um encontro com o então ministro da Casa Civil, Antonio Palocci. Ela reivindicava no tapetão o que não conseguira no debate político: o adiamento da votação do relatório. Aldo havia debatido o seu texto país afora. Marina preferiu fazer a cabeça dos ditos “formadores de opinião”. A democracia brasileira tem uma instância chamada Congresso. Ela preferiu os carregadores de liteira das ONGs ao Parlamento. É parte do que chama “nova política”. Não me serve.

O problema é que Marina, eu já escrevi umas 800 vezes, é a outra personagem inimputável da política brasileira. Só perde para Lula. Ambos são beneficiados pelo preconceito de origem às avessas. Como vieram “do povo”, não se questionam seus propósitos. Seriam depositários de uma espécie de verdade ancestral. Note-se, a título de ilustração, que, quando ela deixou o governo, falou-se de seu conflito com Dilma, não com Lula…

A ex-senadora tem um método: se perde o debate nas instâncias consagradas para decidir um embate, apela, então, à galera. Fez isso no PV, aonde chegou, de mala e cuia, para ser candidata em 2010, conhecendo as regras. Disputou a eleição deixando claro, sempre!, que era maior do que o partido. Terminada a peleja, deu início ao esforço para depor a direção da legenda. Como foi derrotada nas instâncias internas — cujas regras ela prometeu acatar quando se filiou —, foi para o debate público, certa de que não precisaria ter razão para conquistar adesões. Não tinha e as conquistou. A direção do PV foi tratada como vilã, mas ela não conseguiu o que queria. Caiu fora. Começou, então, a criar a Rede.

Quer o quê?
O cerne da postulação de Eduardo Campos, convenham, era um tanto confuso. O então candidato insistia na tese de que nada havia de errado no lulismo e que Dilma é que havia se distanciado do bom caminho. Como acertava em alguns diagnósticos parciais que fazia, sua candidatura foi bem recebida. Se não dava para entender o conjunto, havia partes que faziam sentido.

E Marina Silva? Por quanto tempo mais não se vai perguntar, afinal de contas, o que pretende para o Brasil a viúva enlutada e indevida?

Por Reinaldo Azevedo

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1 comentário

  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    A patrícia do JN não agiu como poeta,mas como levantadora ao dar uma bola na medida para a presidente/candidata fazer propaganda política do programa mais médicos,ela nem sequer disfarçou e tome lhe papo furado,por que não tocaram no assunto dos direitos trabalhistas dos médicos cubanos,que aqui estão recebendo uma migalha,enquanto o Brasil financia a ditadura implacável dos irmãos castro ? Ou por que deixaram a economia para um minutinho final? e os bilhões da Petrobrás? entrevista chapa branca é assim mesmo.

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