Crise no boteco: bares em BH fecham com inflação..., por Geraldo Samor, de VEJA

Publicado em 20/08/2014 15:36 e atualizado em 21/08/2014 14:47 1481 exibições
e mais... Miriam Leitão fala da tortura que sofreu na ditadura e quer pedido de desculpas. Legítimo, mas e o seu pedido de desculpas?, por Rodrigo Constantino

Crise no boteco: bares em BH fecham com inflação

Belo Horizonte sempre foi conhecida como a “capital dos botequins”. A cidade tem cerca de 14 mil bares — um para cada 170 habitantes.

Mas agora, a inflação de serviços, que roda a cerca de 9% ao ano no Governo Dilma, mergulhou o setor na “pior crise em 20 anos”, o presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes e Bares, Paulo César Pedrosa, disse ao jornal O Tempo, em reportagem de Janine Horta.

Só este ano, fecharam o Maria de Lourdes e o Café de La Musique, no bairro (chique) de Lourdes, o Elvis King Pub, na Savassi, O Bardô, em Santa Tereza, o Belo Comidaria, no São Pedro, e o Judith Café, em Santa Efigênia.

O restaurante O Dádiva, com vários prêmios de melhor restaurante da cidade, fechou as portas depois de oito anos.

Donos de bares contam ao jornal que passaram a “pagar pra trabalhar” com a alta de preços da cerveja, da carne, e com o aluguel que a Prefeitura cobra para permitir que os bares coloquem mesas nas ruas. O valor vai de 4 mil a 10 mil reais por mês, além de uma taxa de 8 mil reais por ano.

Por algum tempo, enquanto a demanda estava forte, o setor de serviços conseguiu repassar o aumento de custo para os preços — e a inflação de serviços ‘roda’ acima do centro da meta desde 2004. Agora, como a renda do consumidor parou de subir, os donos de bares ou engolem o prejuizo ou fecham as portas.

Discretamente, a nova classe média já pediu a saideira.

Por Geraldo Samor

It’s the economy, stupid!… Só falta explicar

O pai de família Israel Araújo, de 41 anos, trabalha como pedreiro numa cidade de 50 mil habitantes do interior de Minas — o Estado que Aécio Neves governou e de onde, costuma lembrar, saiu com 92% de aprovação.

Em outubro, seu Israel, como é conhecido, pretende votar em Dilma Rousseff.Israel Araujo

“Acho que ela está dando um bom seguimento ao governo do Lula,” disse ele à coluna em duas horas de conversa. “Não é tão bom quanto o do Lula, mas é bom.”

Apesar dos avanços dos outros dois candidatos e de seus próprios tropeços — como sua aparição de ontem no Jornal Nacional — a Presidente Dilma continua sendo a favorita para outubro, evidenciando a dificuldade da oposição em comunicar à maioria da sociedade, com eficácia, os problemas econômicos que se avolumam após 11 anos e meio de PT no poder.

A crítica à política econômica de Dilma é conhecida de quem lê os jornais e paga impostos: a economia crescequase nada, a inflação está assanhada há anos, o gasto público explodiu, e os empresários só investem se forem ‘loucos’ (segundo um dos mais governistas da classe). Por fim, o partido que está no poder inspira dúvidas sobre seu compromisso com as liberdades individuais, o que afeta o ambiente econômico no longo prazo.

Seu Israel, no entanto, vê a coisa de forma diferente.

A coluna perguntou por que ele aprova o Governo Dilma. Em vez de apontar uma ou outra iniciativa do governo, Israel emitiu um veredito sobre os últimos 10 anos: “O brasileiro hoje come melhor do que uns 10 anos atrás. A alimentação melhorou muito. Antes o café da manhã era só um cafezinho mesmo, hoje já tem pão, leite, manteiga…”

Seu Israel, que mora no alto de um morro na periferia da cidade, tem uma renda mensal de 1.800 reais, além dos 60 reais que recebe do Bolsa Família para um de seus três filhos, a menina de oito anos. (O mais velho já saiu da idade elegível, e o do meio, de 16, foi cortado do programa por não ter ido à escola regularmente).

Dilma RousseffNas eleições majoritárias, a busca da vitória é uma cruzada pelo Santo Gral do Mínimo Denominador Comum e pelo convencimento do “homem médio”, aquele centro de gravidade onde se sedimentam os raros consensos sociais, que então se transformam em mandatos e legitimidade.

Na campanha que elegeu Bill Clinton em 1992, o marketeiro James Carville fez história ao cunhar a expressão: “It’s the economy, stupid!“. Tudo que Clinton tinha que fazer era explorar o PIBinho de George Bush.

Mas com o Brasil ainda próximo do pleno emprego, a inadimplência ainda em patamares razoáveis e os ganhos de consumo da nova classe média ainda criando uma sensação de bem estar, a tarefa da oposição é mais difícil:  falar dos problemas que ainda não estão à vista de muitos — mas que irão complicar a vida de todos a partir do ano que vem.

Seu Israel, o “homem médio” a ser convencido, entende de racionalidade econômica. Antes de se tornar pedreiro, ganhava a vida como pintor, mas resolveu mudar de profissão porque “todo mundo que perdia o emprego virava pintor, e aí não dava pra tirar a mesma coisa que antes”, disse ele. Além disso, a pintura de um apartamento dura apenas alguns dias, enquanto uma obra qualquer o mantem empregado por muitos meses.

Apesar de tomar decisões econômicas racionais, ele não consegue analisar a política econômica sob a mesma ótica.

A coluna perguntou a seu Israel se ele estava incomodado com a inflação e quem era responsável por isso. Sua resposta: “Acho que isso aí são os grandes empresários”.Aécio Neves

Um banqueiro que acredita que Dilma será reeleita diz: “O boomeconômico ainda não acabou, pelo menos na cabeça das pessoas. Ela foi eleita pelo boom e vai ser reeleita por isso. Você tem uma deterioração [da economia], e quem é mais sofisticado vê isso, mas essa piora ainda não é determinante para o povão.”

A cabeça do seu Israel é, assim, o campo de batalha onde as chances de vitória da oposição exigem o melhor do marketing político.

Como converter o voto deste brasileiro médio, mais decisivo para o resultado das urnas do que os partidários que fazem a guerrilha diária nos blogs, no Twitter e no Facebook?

Marina SilvaComo mostrar para seu Israel que o bem-estar que ele sente hoje foi comprado com uma hipoteca sobre o futuro — e, pior, que a conta está prestes a chegar?

Como falar para este trabalhador sobre os esqueletos dos juros subsidiados, a distorção de preços que existe hoje na economia, como explicar que a inflação já está fazendo o trabalho que as políticas fiscal e monetária não fizeram, e que, se o rumo atual for mantido, sua renda amanhã será menor que a de hoje?

Os economistas sempre disseram que a grande dúvida desta eleição é se a economia vai enfraquecer rápido o suficiente para expor as más escolhas econômicas do Governo Dilma, e com isso virar o jogo… ou se a Presidente vai escapar por pouco.

Com as últimas pesquisas e o ‘fenômeno Marina’, muita gente já acha que a Era Dilma está chegando ao fim, mas, por via das dúvidas, convém combinar com seu Israel.

Por Geraldo Samor

 

Para quem tem apenas um martelo, tudo se parece prego. Ou: Mais veneno para curar o envenenamento!

Calma que o bom senso pode esperar…

Deu na Veja: BC muda regras bancárias para injetar até R$ 70 bilhões na economia

Menos de um mês depois de anunciar medidas que expandem a oferta de crédito no país, o Banco Central (BC) voltou a alterar as regras dos compulsórios dos bancos, contribuição obrigatória que as instituições fazem junto ao BC como forma de proteção ao sistema financeiro. A partir de agora, elas poderão usar, em empréstimos, 60% do montante antes reservado exclusivamente para esse depósito.

Na medida anterior, anunciada em julho, o BC já havia liberado 50% desse valor para empréstimos aos consumidores, o que disponibilizou ao mercado 30 bilhões de reais. Na prática, com a liberação desses outros 10 pontos porcentuais do compulsório, as instituições financeiras podem emprestar mais 10 bilhões de reais, somando 40 bilhões em dinheiro novo em circulação.

Considerando outras mudanças anunciadas nesta quarta-feira, há ainda um potencial de impacto na liquidez da economia de 15 bilhões de reais. Com isso, as duas medidas anunciadas nesta quarta podem ter um efeito de 25 bilhões de reais no crédito dos bancos. 

É realmente impressionante. Vivemos uma era de estagflação, causada justamente pelo excesso de estímulos artificiais do governo, e eis que a “solução” encontrada pelo governo é… aumentar os estímulos artificiais! Bem que o ex-presidente Lula deu o recado naquele evento no Sul, ao lado de Arno Augustin, reclamando do “rigor” (sic) da equipe econômica e demandando mais crédito para “fazer a economia girar”.

Para quem tem somente um martelo, tudo se parece prego. Esqueça reformas estruturais que possam reduzir o Custo Brasil e aumentar nossa produtividade. Esqueça ajeitar as contas públicas, o que poderia resgatar a credibilidade do governo. Esqueça garantir uma autonomia operacional ao BC para que possa perseguir de forma técnica e independente a meta de inflação. Esqueça cortar gastos públicos para aumentar a poupança doméstica.

Nada disso importa quando o governo Dilma “descobre” a máquina de fazer dinheiro “sem custo”. Basta liberar mais compulsório, usar um grau de alavancagem ainda maior, pressionar por mais empréstimos, e pronto: o crescimento seguirá seu curso. Mas as famílias já não se encontram muito endividadas? Mas as empresas não pararam de investir por perda de confiança? Mas a inflação não está no topo da elevada meta?

Perguntas bobas de “neoliberais”. Guido Mantega e Dilma “aprenderam” economia na Unicamp e sabem melhor das coisas. Claro, alguém mais cético poderia perguntar: se era tão simples assim, por que não foi feito antes e por que não estamos crescendo, ainda que a inflação esteja muito alta? E um sujeito ainda mais cético e pessimista poderia mencionar Argentina, Venezuela ou até Zimbábue para reflexão.

Mas quem liga? Faltam poucos dias para a eleição, e isso é tudo o que importa para o PT. O resto que se dane!

Rodrigo Constantino

 

Ressaca: quem tem mais capacidade de administrá-la?

Imagino que o leitor conheça bem a sensação: primeiro, aquela euforia, um sentimento de que tudo é possível, de que o céu é o limite; depois, o começo de um mal-estar, o suor frio, a tontura; por fim, a imensa dor de cabeça, o embrulho estomacal, a garganta seca e a promessa de que jamais beberá tanto novamente. Quem nunca enfrentou uma ressaca?

Ninguém aprecia o efeito colateral da euforia ilusória. Mas a ressaca é fundamental para limpar o organismo. É o corpo sofrendo temporariamente para expurgar os excessos, o invasor estranho que causou aquela “felicidade” artificial. A alternativa é muito pior: insistir na bebedeira, postergar por algumas horas a euforia, sob o elevado custo de uma ressaca muito pior depois, quiçá uma cirrose fatal.

O leitor tem o direito de pensar que se enganou de blog: aqui se fala de economia ou de porre e ressaca? Calma que o elo ficará claro. A analogia é perfeita. Nossa economia viveu nos últimos anos a fase da euforia produzida por estímulos artificiais, por injeção de liquidez via aumento de crédito e gastos públicos. Como não houve contrapartida no aumento da produtividade, e nenhuma reforma estrutural foi realizada pelo governo, tudo não passou de uma doce ilusão.

Chegou a hora do acerto de contas. A inflação no topo da elevada meta de 6,5% ao ano já é parte da fatura, um verdadeiro “arrocho salarial” imposto pelo governo aos mais pobres. Isso mesmo com vários preços represados, o que é insustentável. O “tarifaço” de energia elétrica já começou, com várias regiões tendo aumentos acima de 20% na conta de luz.

A atividade estagnou e, após doze revisões decrescentes seguidas, os principais analistas do mercado esperam um crescimento menor do que 0,8% para 2014. A indústria não para de divulgar dados negativos. Suas exportações caíram quase 6% no primeiro semestre do ano contra o mesmo período do ano anterior, retirando-se da conta o malabarismo contábil das plataformas de petróleo. O setor automotivo é um dos que mais sofrem, com queda de 35% nas vendas externas.

No mercado interno as coisas não estão muito melhores. Após tanto estímulo estatal, as famílias se encontram bastante endividadas e o consumo tem retraído. Não chega a ser uma surpresa, então, o primeiro programa eleitoral do PT ter mostrado uma Dilma “dona de casa”, cozinhandoum macarrão. Como apostar na “gerentona eficiente” se o quadro econômico é terrível? Como investir na “faxineira ética” se os escândalos de corrupção só crescem?

A grande bandeira explorada pelo atual governo tem sido a taxa de desemprego reduzida. Mas cabe perguntar: até quando? Voltando à comparação com a ressaca, o emprego é o último sintoma dos problemas, algo como o vômito do bêbado desesperado. As empresas seguram até o limite seus funcionários, pois as leis trabalhistas são engessadas e é muito caro demitir e contratar.

Enquanto houver alguma esperança de que a situação pode se reverter na frente, as empresas postergam planos de demissões. Mas a esperança, se Dilma continuar no poder, é quase nula, e o pessimismo é total. Já há sinais de demissões em alguns setores, como o de automóveis, e vale lembrar que quase um terço dos empregos formais criados nos últimos anos ocorreu no setor público. É este um modelo decente de país?

Para piorar, não sabemos ao certo o impacto do Bolsa Família na taxa de desemprego, pois muitos deixam de buscar trabalho formal com receio de perder o benefício. Em outras palavras, o mais importante pilar da aprovação do governo Dilma se mostra frágil e insustentável. É questão de tempo até a crise chegar a ele. O desafio da oposição é explicar isso em linguagem clara para as classes C e D, que começam a sentir os primeiros sintomas da ressaca, mas não se dão conta ainda do que vem por aí.

Mas não é só o andar de baixo que precisa compreender melhor o quadro econômico. As elites também, pois parecem encantadas com uma solução messiânica, como se fosse possível driblar a realidade e, num passe de mágica, mudar “tudo isso que está aí”. Quais são as propostas efetivas de Marina Silva? Qual será sua conduta na gestão econômica? Ninguém sabe ao certo.

Como se não bastasse, a locomotiva de nossa economia, que até aqui segurou as pontas e impediu uma crise mais aguda, é o agronegócio, sempre tão difamado pelos “marineiros”. Para garantir uma ressaca descomunal, atacar esse setor é só o que falta mesmo.

Eis o que o eleitor deve se perguntar, sem romantismo: quem tem a melhor equipe para enfrentar a inevitável ressaca que vem por aí?

Rodrigo Constantino

 

Pastor Everaldo quer privatizar até Petrobras, mas convence como liberal? Ou: Em quem um liberal clássico deve votar?

Everaldo JN

Nesta terça foi o dia de o Pastor Everaldo ser entrevistado no “Jornal Nacional” por William Bonner e Patrícia Poeta. Para quem acompanha o blog, não chegou a ser surpresa sua mensagem enfática em defesa da redução do estado e das privatizações. O candidato já foi entrevistado aquipor mim, com viés semelhante. De novo mesmo tivemos a afirmação de que até a Petrobras seria privatizada (antes era apenas a BR Distribuidora), e que quem ganha até R$ 5 mil mensais ficaria isento de Imposto de Renda:

“Eu vou privatizar a Petrobras. A Petrobras hoje, uma empresa que foi orgulho nacional, hoje é um foco de corrupção e uma dívida astronômica de mais de R$ 300 bilhões. Então, eu vou privatizar. O petróleo é nosso, mas a Petrobras hoje não é nossa”, declarou.

O candidato disse que transferirá à iniciativa privada “tudo o que for possível”, em referência às empresas estatais, para alocar os recursos na saúde, educação e segurança pública. “Eu vou fazer corte na carne. Defendo um Estado mínimo. Vou reduzir o número de ministérios de 39 para 20″, disse. Ele disse, porém, que não vai privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, que “representam a segurança do sistema financeiro”.

Ele também prometeu isentar do pagamento de imposto de renda todos os trabalhadores que ganham até R$ 5 mil por mês. Atualmente, estão isentos do pagamento do IR os que ganham até R$ 2.138 mensais. O dinheiro dos impostos é o que financia as ações do governo.

Os entrevistadores do JN apertaram bastante o candidato em relação à falta de experiência administrativa e uma base de apoio parlamentar, dando a entender que sua candidatura pode não passar de uma aventura. Sua suposta mudança ideológica também foi colocada em xeque, uma vez que sua trajetória de vida foi em defesa do trabalhismo brizolista e até mesmo do governo Dilma seu partido PSC fez parte no começo do mandato. Por que uma guinada tão radical assim?

A pergunta ficou sem uma resposta convincente. Everaldo afirmou que não mudou sua ideologia, apenas se deu conta de que Dilma era muito intervencionista e havia aparelhado o estado todo. Ora, isso não era evidente antes? Mesmo que não fosse para alguns, permanece a dúvida: o PT era mais próximo do modelo liberal que Everaldo agora defende do que o PSDB? Não era, mesmo com o também intervencionista José Serra sendo o candidato em 2010.

Dito isso, não deixa de ser um alento ouvir a mensagem liberal chegando ao grande público. É a primeira vez que alguém fala em privatizar a Petrobras, um tabu no Brasil. Lamento que venha da boca de alguém sem uma trajetória coerente na defesa de tais valores, e de um partido “nanico”, o que reduz até mesmo a chance de testar a aceitação da mensagem. Muitos desconfiam da convicção do mensageiro.

No mais, a morte de Eduardo Campos mudou totalmente o quadro eleitoral, com a entrada de Marina Silva na corrida. Marina cativa muitos eleitores evangélicos, que tinham em Everaldo uma opção mais conservadora para as questões sociais. E como ela tem chances concretas de ir para o segundo turno, passa a disputar diretamente com Aécio essa vaga, o que mexe nos eleitores que, acima de tudo, condenam o PT e seu esquerdismo.

Não eram poucos que antes pensavam em votar em Everaldo com duas coisas em mente: 1) garantir o segundo turno; 2) mandar um recado ao PSDB, de que a mensagem mais liberal na economia e conservadora no comportamento tem peso, e que se ele deseja ter esses votos no segundo turno, precisa se afastar mais da esquerda do PSDB atual. Agora tudo isso mudou de cara.

Votar em Everaldo pode significar mandar Marina para o segundo turno em vez de Áecio. E não resta dúvidas de que Marina está mais afastada ainda do liberalismo clássico do que o tucano. Portanto, por puro pragmatismo, quem votar em Everaldo agora poderá estar dando seu voto, na prática, para Marina Silva em vez de Aécio, o que não faria muito sentido para quem tem apreço pelos ideais liberais e/ou conservadores.

A entrada de Marina na equação mudou tudo, e o teste para uma mensagem mais liberal na economia, com a bandeira da privatização até da Petrobras (e por que não incluir o Banco do Brasil e a Caixa também?), ficará para depois, quando houver algo efetivamente NOVO no quadro eleitoral.

Rodrigo Constantino

 

Miriam Leitão fala da tortura que sofreu na ditadura e quer pedido de desculpas. Legítimo, mas e o seu pedido de desculpas?

Fonte: GLOBO

A jornalista Miriam Leitão decidiu revelar as supostas (aprendi com os jornalistas a usar o termo quando não há provas) torturas que teria sofrido durante o regime militar, incluindo ficar numa cela escura com uma jiboia e quase ser estuprada por vários soldados. São relatos chocantes, e não tenho motivos para duvidar de sua veracidade. Diz ela:

Minha vingança foi sobreviver e vencer. Por meus filhos e netos, ainda aguardo um pedido de desculpas das Forças Armadas. Não cultivo nenhum ódio. Não sinto nada disso. Mas, esse gesto me daria segurança no futuro democrático do país.

Uma postura decente. Miriam tem direito a um pedido de desculpas formal, e não resta a menor dúvida de que houve vários abusos e torturas por parte dos militares, o que é inadmissível. Segundo ela, seu único crime era integrar o PCdoB e fazer proselitismo entre os estudantes, além de ser namorada de outro militante, de quem estava grávida de um mês quando foi presa. Sendo verdade, isso não configura crime algum.

Infelizmente, o debate sobre nosso passado está tomado por emoções fortes e muitos interesses, tudo isso turvando a razão. A postura maniqueísta precisa ser abandonada. Compreender ocontexto daquela época de Guerra Fria e ameaça comunista não é o mesmo que transformar os militares em santos, tampouco poupar aqueles que realmente praticaram tortura. Estes deveriam ter sido punidos pelos próprios militares decentes – grupo em maioria.

Por outro lado, a vitimização dos antigos comunistas, que tentam se pintar como legítimos democratas que do nada foram atacados por militares autoritários, não se sustenta por um segundo. Aquela turma jovem sonhava com o modelo cubano ou soviético, nada parecido com uma democracia. Alguns, como Fernando Gabeira, Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar, fizeram uma dolorosa mea culpa de suas lutas juvenis equivocadas. Outros não. Querem pedidos de desculpas, mas não querem pedir desculpas.

Miriam Leitão, que gosta de um discurso de vítima em outras áreas (cartada sexual, racial, indígena etc), aproximou-se dos tucanos e passou a defender uma social-democracia nos moldes europeus, afastando-se assim do velho comunismo do passado. Com isso, passou a ser “acusada”, junto com os próprios tucanos, de “neoliberal” pela antiga esquerda mais radical. Não se conforma com isso.

Tanto é verdade que faz de tudo para ser “perdoada” pelos antigos companheiros. Mesmo quando precisa bater nos mais caricatos, nos “petralhas”, acaba atacando os conservadores e liberais também, como Reinaldo Azevedo e eu mesmo, para ficar bem na foto, posar de “neutra”. É um problema geral do tucanato: a lógica e a experiência os levaram mais para a direita, mas seus corações permanecem na esquerda. São prisioneiros emocionais do passado.

Acho, como já disse, que Miriam tem todo direito ao seu pedido de desculpas. Se sofreu o que diz mesmo, nada justifica isso. É uma postura covarde daqueles militares envolvidos. Mas ela não era uma heroína. Não era uma jovem democrata que defendia a liberdade. Era uma comunista, do PCdoB, entoando hinos marxistas e usando como símbolo a foice e o martelo.

Se essa turma tivesse logrado sucesso naquela época, o Brasil hoje seria uma imensa Cuba, algo que ainda não nos livramos justamente porque os comunistas ainda existem, sob o manto de bolivarianismo ou socialismo do século 21. Portanto, cabe perguntar: e o seu pedido de desculpas, Miriam, não teremos?

Rodrigo Constantino

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blogs de veja.com

1 comentário

  • João Alves da Fonseca Paracatu - MG

    As alcunhas caloteiros ,chorões e destruidores da natureza(usadas para caracterizar os produtores rurais do Brasil) ,se não foi criada pela jornalista Miriam Leitão,foi propalada `a exaustão por ela em seus comentários,agora,ela vem a público exigir que as forças armadas se desculpem pela tortura que praticaram contra ela(acho justo- afinal se existe uma crueldade injustificável,ela se chama tortura),partindo do princípio de reconhecer erros ela deveria se desculpar conosco e, como comentarista de economia dar a mão à palmatória,pois sem agronegócio este País estaria simplesmente morto.

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