Debate no SBT: Candidatos evitam bater em Marina, mas ela bate com gosto em Dilma. E vence!

Publicado em 01/09/2014 15:30 e atualizado em 02/09/2014 23:18 2036 exibições
por Reinaldo Azevedo, de veja.com

Candidatos evitam bater em Marina, mas ela bate com gosto. Ou: Dilma só sabe bater em Aécio

Marina Silva e Dilma Rousseff polarizam o debate presidencial promovido pela Jovem Pan, Folha, UOL e SBT. Sempre que possível, uma faz a pergunta à outra. E, no embate, Marina sai vencedora. Parece mais segura, fala com mais fluência, parece mais treinada para o debate. E tem dois confortos que faltam a Dilma: está em ascensão nas pesquisas e não tem de defender a cidadela; vale dizer: a ex-senadora joga no ataque, e a atual presidente, na defesa.

Dou um exemplo de uma Dilma mal treinada para enfrentar uma Marina muito afiada. A petista quis saber por que o programa da candidata do PSB dedicou apenas uma linha ao pré-sal. Marina, claro!, declarou a importância do petróleo, mas exaltou a busca de novas fontes de energia e aproveitou para atacar os desastres na Petrobras. A petista ficou sem resposta.

Quando chegou a vez de Marina perguntar, mandou ver: Dilma não cumpriu a promessa de fazer o Brasil crescer com inflação baixa. O que deu errado? A petista afirmou que responderia o que deu certo. Na tréplica, a adversária contra-atacou: afirmou que a petista tem dificuldades de reconhecer os problemas do governo. Ganhou de novo.

Aécio Neves teve um ótimo desempenho. Falou com fluência e segurança, mas não foi um dos polos do debate. Num embate com Dilma, ficou claro que os petistas sabem bater em tucano — hoje uma tática meio suicida —, mas não sabem o que fazer com Marina.

O tucano indagou por que o governo federal investiu tão pouco em segurança pública. Sem agressão ou ataque. Na resposta, Dilma disse que ele tem memória fraca, é mal informado e não estudou direito. Vale saber: a candidata do PT sabe ser dura com quem, se a eleição fosse hoje, seria derrotado por ela. Mas não tem o que fazer com uma Marina que sairia vitoriosa. O PSDB está numa situação muito difícil, e o PT está absolutamente perdido.

Por Reinaldo Azevedo

Dilma, a grande derrotada da noite!

O saldo do debate promovido nesta segunda pela Jovem Pan, Folha, UOL e SBT? Uma Marina Silva que se consolidou como alternativa aos olhos do eleitorado e que cresceu, como presidenciável, atropelando Dilma Rousseff, que teve, de muito longe, o pior desempenho entre os três principais candidatos. O debate está na Internet, pode ser visto por qualquer um que não o tenha feito. O tucano Aécio Neves se saiu muito bem. Respondeu, como de hábito, com clareza e desenvoltura. Demonstrou conhecimento de causa e segurança. Mas, como afirmei no post de ontem, as circunstâncias não o transformaram em um dos polos do debate, que caminhou para o confronto entre Marina, ora no PSB, e Dilma, do PT. Qualquer juízo objetivo constata o óbvio: a candidata à reeleição perdeu feio o embate. Os petistas estão completamente desorientados.

Há dias, chamo aqui a atenção para o desastre a que as ideias fixas podem conduzir as pessoas, lembrando o Machado de Assis de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Como nunca, o PT tem sido vítima de sua natureza. Se não conseguir sair da encalacrada em que está, perdeu a eleição.

Os petistas só sabem fazer campanha presidencial contra, nunca a favor. A de 1989 se organizou na oposição a José Sarney e Fenando Collor, hoje seus queridos aliados. Em 1994, passa a ser vítima da ideia fixa: atacar os tucanos. Perdeu dois pleitos consecutivos no primeiro turno no ataque ao Plano Real, às privatizações e à Lei de Responsabilidade Fiscal. Em 2002, mudou de rumo: passou a falar uma linguagem propositiva e se tornou monopolista da esperança e da mudança — um discurso que hoje, tudo bem pensado, serve a Marina Silva.

Muito bem! Eleito presidente, Lula resolveu governar com os marcos macroeconômicos herdados do PSDB — não adianta disfarçar —, mas deu início à demonização do adversário. Com impressionante vigarice, o PT se portava como “oposição”, embora fosse governo, embora fosse situação, embora estivesse no controle do Estado. Exercitou, no limite do possível, o discurso do ressentimento, do ódio e da perseguição aos adversários. Queria, em suma, ser o senhor — e era! —, mas com o poder das… vítimas.

Enquanto as circunstâncias econômicas foram favoráveis à construção dessa farsa, surfou na onda. Acreditem: os petistas já não contavam mais — e não contam ainda — com a possibilidade de deixar o poder. Há pouco mais de um ano e meio, falavam abertamente na reeleição de Dilma no primeiro turno e depois em mais oito anos de Lula… Tudo assim, com desassombro, sem combinar antes com a história e com o imponderável.

Para isso, no entanto, sempre dependeu de um inimigo de estimação: o PSDB. O partido era sua antivitrine, seu exemplo de elite pernóstica e insensível aos reclamos do povo. Os braços de aluguel do partido na subimprensa e na imprensa ainda insistem nessa cascata. Mas eis que surge uma Marina no meio do caminho, oriunda justamente do ninho… petista! Também sabe fazer o discurso dos “Silva”; também sabe desempenhar o papel da “vítima triunfante”; também é especialista na “demonização do outro”, embora tenha uma fala menos rascante do que a de Lula, embora se expresse com mais fluência — o que não quer dizer clareza —, embora pareça a pura expressão da mansidão.

E eis que vemos um PT sem resposta, a dar tiros no próprio pé. No debate desta segunda, Dilma tentou encurralar Marina, mas perdeu todas. Mesmo quando atacava, estava na defensiva. A petista só se esmerou no jogo bruto, beirando a grosseria, contra Aécio. Ocorre que, hoje ao menos, quem fará Dilma mudar de endereço é Marina Silva.

Depois do debate, Dilma se reuniu com seu núcleo duro de campanha — incluindo o marqueteiro João Santana e o ministro Aloizio Mercadante — e com Lula. Foi, certamente, uma reunião para lamber as feridas do dia. Marina foi a vencedora da noite, e Dilma, a grande derrotada. Os petistas vivem o dilema expresso pelo asno de Buridan, aquele que pode morrer de fome e de sede, incapaz de decidir entre a água e a alfafa. Se bate em Marina, teme se esborrachar com a rejeição do eleitorado, que vê na ex-senadora a magricela pobrezinha do seringal, que se esforçou e se tornou uma figura mundialmente conhecida. Se não bate, a magriça se agigante e engole a máquina petista nem que seja com um trocadilho, no que ela é boa. Nesta segunda, mandou ver em mais um: “Não sou nem pessimista nem otimista, sou persistente”. O que quer dizer? Nada! Enquanto isso, Dilma, coitada!, se enrolava em números e siglas, com a cara feia, visivelmente contrariada.

Pela primeira vez, desde 2002, as circunstancias atuam contra a ideia fixa do PT. E o partido não sabe o que fazer. Desta vez, nem o Santo Lula pode ajudar. Encontrou uma Silva que sabe ser ainda mais coitadinha e mais orgulhosa do que ele próprio. Como colar nela a pecha de candidata da Dona Zelite, né, Lula?

Por Reinaldo Azevedo

Nervosa, atrapalhando-se com as palavras, consultando textos e precisando ler para responder, Dilma vai mal no debate do SBT

Dilma questiona Marina:   (Foto: Reprodução SBT)

Dilma questiona Marina: logo de cara, a presidente se confundiu com as regras do debate e admitiu “nervosismo” (Foto: Reprodução SBT)

Questionada e pressionada por todos os demais seis candidatos à Presidência no debate recém-encerrado pelo SBT, a presidente Dilma Rousseff (PT), aspirante à reeleição, teve uma atuação fraca e sai como a grande perdedora.

Nervosa, algo que admitiu logo no início do programa ao mostrar desconhecimento das regras do debate, Dilma repetiu sucessivamente cantilenas de realizações que ninguém vê, de melhorias que não se identificam e de feitos que só constam do mundo dos sonhos, como a contenção da inflação e o crescimento econômico.

Atrapalhando-se, como sempre, com as palavras, a presidente não deixou uma só vez de consultar textos feitos por sua assessoria ao endereçar perguntas, comentar respostas ou oferecer tréplica. Quando tentou improvisar, tropeçava nas frases e, num universo — o da imagem — em que o que se vê é mais importante do aquilo que se ouve, naufragou.

Eduardo Jorge debate com Aécio

Eduardo Jorge debate com Aécio: nanicos acabaram dando ao candidato tucano o espaço que Dilma e Marina, espertamente, recusaram (Foto: Reprodução SBT)

Aécio Neves (PSDB), desta feita, criticou com mais dureza o governo do que no debate anterior, o da Band, assinalando sempre que possível que a gestão Dilma “fracassou”, afirmando que nenhuma das supostas providências anti-corrupção que a presidente disse ter adotado funcionou e, entre outros pontos, lembrando que há um importante ex-diretor da Petrobras preso. Deixou, porém, de bater em pontos fracos do governo lulopetista, como, entre muitos outros, sua incompreensível aliança com o regime de Cuba.

Marina Silva (PSB), sem perder a postura de Gandhi que costuma adotar, acabou sendo mais direta e clara nas críticas, falando do descontrole da inflação, da paralisia na economia e dos “péssimos serviços prestados à população”, e teve um de seus melhores momentos fustigando Dilma ao assinalar:

– Quando as coisas vão bem, os louros vão para seu governo. Quando vão mal, a culpa é da crise externa ou até da natureza.

Em outro bom momento, Marina disse que é incapaz de reconhecer os erros de seu governo, e sentenciou:

– Se não se reconhecem os erros, não há como repará-los.

Dilma e Marina, em uma tática correta do ponto de vista de seus interesses eleitorais, ignoraram Aécio, que, porém, teve oportunidade de dar seus recados graças a perguntas ou indicação para comentar provenientes dos candidatos nanicos, dos quais, como sempre, o mais patético foi o candidato profissional Levy Fidelix (PRTB), já em sua 10ª campanha eleitoral, todas sem o mais remoto sinal de qualquer repercussão no eleitorado.

(por Ricardo Setti)

Debate no SBT: e o circo continua… (por Ricardo Constantino)

Pensei em nem comentar o novo debate entre os candidatos no SBT, pois em muitos aspectos foi parecido com o primeiro da Band, que já comentei aqui. Além disso, há esse excelente resumo em apenas 3 minutos que diz quase tudo:

Vimos uma vez mais um circo com muita mentira e pouca proposta concreta, muita acusação e pouco argumento. A constatação infeliz que somos obrigados a fazer é a de que nossa democracia ainda precisa progredir muito.

De novidade vimos aquilo que era esperado: Dilma subindo o tom contra Marina Silva, agora em sua cola no primeiro turno e já na frente no segundo. A presidente tentou mostrar Marina como alguém sem capacidade para administrar um país, e começou logo na primeira pergunta questionando de onde tiraria tantos bilhões para suas promessas, que Marina chama de compromissos.

Marina perdeu uma ótima oportunidade de dizer que apenas parando de financiar a nefasta ditadura cubana já seria possível economizar alguns bilhões preciosos. Só não sei se ela concordaria comigo ou com a própria presidente, companheira do ditador Castro.

Dilma, logo após sua primeira pergunta, mostrando que o novo alvo é Marina, já não quis responder pergunta alguma. “Nervosismo de debate”, justificou-se pela confusão, ao achar que não poderia ser perguntada por já ter feito uma pergunta. Mas acho que está mais para ato falho de autoritária mesmo…

Afinal, Dilma continuou se enrolando em todas as respostas, mentindo descaradamente, usando meias verdades para criar uma grande fantasia, como a de que a inflação está, agora, nula! Só se for agora, mas agora mesmo, nesse exato minuto! A inflação acumulada em 12 meses é de 6,5%, o teto da elevada meta. Ainda usou a alta recente da bolsa como indício de que não há crise, ignorando que a alta se deve justamente à sua queda nas pesquisas. Como pode tanta cara de pau?

Dilma afirmou também que o pré-sal é nosso passaporte para o futuro. Se por nosso ela quer dizer o PT, disse a verdade pela primeira vez na vida! Marina lembrou bem do que isso tudo resultou para a Petrobras, transformada em instrumento partidário e com seu valor derretendo no mercado. Aécio também bateu novamente na Petrobras.

Por falar nele, Aécio Neves foi razoável em geral, mas não desistiu da imagem de bom moço simpático, que faz concessões demais ao adversário, que o trata como inimigo. Começou enfiando os pés pelas mãos, afirmando que o país está melhor hoje do que há 15, 20 anos. Como é? O país está indo para o buraco, rumo ao bolivarianismo, a inflação voltou com tudo, há recessão, por que Aécio não enfatiza esse cenário sombrio?

Falta-lhe a firmeza que sobra ao Levy Fidelix. Esse foi o ponto alto do debate, ainda que por diversão. Ficou nitidamente nervoso ao ser acusado de liderar uma legenda de aluguel para mamar no fundo partidário e acusou o autor da pergunta, o jornalista Kennedy Alencar, de ser um vendido, parte da imprensa chapa-branca. Eu já acho que os dois podem estar certos…

Eduardo Jorge, do PV, protagonizou o momento mais hilário da tarde, quando disse que não tinha nada a ver com isso, na réplica ao discurso de Fidelix sobre os partidos pequenos e o fundo partidário. Todos riram. Disse que PV é uma espécie de coligação internacional, uma corrente. Você vota nele e elege a Rockfeller Foundation, é isso? Digita seu número na urna e leva junto o Greenpeace e a WWF nas costas? Pode isso, Arnaldo?

Luciana Genro foi uma vez mais motivo de vergonha alheia, até para os padrões do PSOL. Como disse um leitor, seria menos ridículo se a Luciana Gimenez fosse a candidata do partido. Chamou Dilma, Marina e Aécio de “os três candidatos do sistema”, de “irmãos siameses”, e com isso quer dizer que são todos “neoliberais”.

A filha de Tarso Genro disse, ainda, que é preciso escolher lado, criticando a postura “neutra” de Marina. Ela realmente escolheu um: o da estupidez ideológica. É essa a candidata de Gregório Duvivier. E é esse o perfil do “intelectual” no Brasil. Alguém estranha nossa calamidade? Alguém acha graça nessa piada?

Como outra evidência do atraso de nossa democracia, além da presença de alguém como Luciana Genro na disputa, está o ataque insistente aos bancos. Após o governo Dilma ter reduzido na marra a taxa de juros com esse resultado patético que hoje vemos, é realmente triste ver candidatos como Eduardo Jorge e a própria Luciana Genro insistindo nessa tecla batida de que os grandes bancos são os culpados por nossos males e que basta reduzir os juros para termos progresso.

Aécio ao menos lembrou que não basta voluntarismo para reduzir juros, como mostra o fracasso do atual governo. E vale lembrar que o estado controla metade do setor financeiro no país. Mas como é fácil apontar para o “capital financeiro” como o responsável por nossos males, causados pelo excesso de estado e falta de liberdade econômica…

Enfim, aos trancos e barrancos, em passos de cágado, muito aquém do que necessitamos, vamos tentando progredir em nossa democracia. Mas não está fácil. A qualidade dos concorrentes ao Planalto é muito fraca. Só não é mais fraca do que a de quem ocupa a cadeira no momento…

Rodrigo Constantino

Convidado presidenciável

Raul: admiração por Levy

Raul: admiração por Levy

O apresentador Raul Gil fez um tremendo sucesso na plateia do debate de hoje do SBT. Nos intervalos foi bastante procurado para fazer selfies.  Ao final, dirigiu-se a Levy Fidelix, o fanfarrão maior dos debates, para abraçá-lo efusivamente e convidá-lo para cantar em seu programa. A democracia é uma farra.

Por Lauro Jardim

 

Datafolha faz disparar Ibovespa. O PT se torna eternamente responsável por aqueles que hostiliza!

Lá pelas bandas do PT, não há sinais de que muita gente tenha lido “O Príncipe”. Naquela seara, não se crê muito que um governante deva ser nem amado nem temido. Eles sempre acreditaram mais na lógica dos aliados comprados. E depois passaram a se regozijar de satisfação com os próprios insucessos. Mas parece que não leram também nem aquele que era o livro das misses de antigamente, “O Pequeno Príncipe”. Como é mesmo? “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” Toda sentença dessa natureza sempre pode ser lida pelo avesso: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que hostilizas” — que é o mesmo que “cativar”, só que ao contrário.

Pois bem: a última pesquisa Datafolha, que trouxe Marina Silva 10 pontos à frente de Dilma no segundo turno, fez disparar o Ibovespa, o índice da Bolsa de Valores, que iniciou setembro acima de 62 mil pontos. As ações das empresas estatais — apelidadas pelo mercado de “Kit Eleição” — lideram a valorização. Não há outra explicação para a disparada que não a possibilidade de Dilma e de o PT serem derrotados na eleição do mês que vem. Até porque a bolsa de Nova York está fechada por causa do feriado do Dia do Trabalho nos EUA. Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil lideram a valorização.

O governo Dilma paga o preço de uma política destrambelhada no caso das estatais. De tal sorte elas foram usadas para fazer política mesquinha; de tal sorte o governo avançou sobre elas para compensar desajustes estruturais na economia; de tal sorte se atentou contra a economicidade dessas empresas, que não resta ao mercado senão pôr um preço na possibilidade de o PT ser apeado do poder. Assim como haverá um preço — e, neste caso, melhor sair de baixo — se Dilma recuperar a dianteira no processo eleitoral.

Não deixa de ser espantoso. Marina Silva divulgou seu programa. Há lá algumas boas intenções, afirmações bastante perigosas — além de erradas — sobre a democracia brasileira e considerações que chegam a ser um tanto irresponsáveis sobre a indústria. E daí? Ninguém está olhando muito para isso porque sabe, também, que programas de governo não têm assim tanta importância.

Uma coisa é certa: as pessoas que estão dando pitaco na área econômica do marinismo parecem bem menos apegadas à ideia de que uma estatal existe como quintal onde o governo pode fazer suas manobras para compensar sua incompetência técnica na gestão da economia. Caso Aécio Neves consiga tomar de Marina o segundo lugar nas pesquisas, o otimismo se deslocará para ele. O que se tem como consenso é um “não” a Dilma.

Convenham: não foi por falta de advertência que os petistas estão colhendo esse resultado. Mas o poder sempre os tornou arrogantes demais para prestar atenção a uma crítica. Ao contrário: eles tratam os críticos a pontapés e chegam a financiar uma imprensa pirata só para desmoralizá-los.

Eis aí o resultado. Nunca ninguém cobrou que o PT fosse humilde. Dele se cobrou apenas que fosse racional. Mas são prepotentes demais para ouvir a voz da razão. E se tornam, então, eternamente responsáveis por aqueles que hostilizam.

Por Reinaldo Azevedo

A lógica do “mal menor”

“O sentimento que nos move – PSDB, DEM e Solidariedade – é garantir a ida de Aécio para o segundo turno. Se não for possível, avalizar a transição para o segundo turno. Ou seja, com uma aliança com Marina Silva, por exemplo. É tudo contra um mal maior que é o PT.”

A fala é do senador Agripino Maia (DEM-RN), coordenador-geral da campanha do tucano Aécio Neves à Presidência da República. Convenham: caso Aécio não passe mesmo para o segundo turno, vai prevalecer nas hostes da oposição a lógica do mal maior/mal menor. Um apoio a Dilma Rousseff, nesse caso, seria impossível. O mais provável é que se externe o apoio a Marina, fora, no entanto, de qualquer compromisso futuro.

De resto, há a realidade. Ainda que tucanos e democratas advogassem a neutralidade, parte esmagadora do eleitorado de Aécio migraria para Marina por conta própria. Convenham: nestes 12 anos de poder, os petistas não buscaram exatamente estabelecer pontes com adversários. Ao contrário: sempre buscaram destruí-los.

Por Reinaldo Azevedo

Mesmo com resultado maquiado, balança comercial tem pior resultado desde 2001

Pois é… A balança comercial teve em agosto o pior resultado desde 2001, com superávit de US$ 1,2 bilhão. Ainda assim, ele está maquiado e é fruto da contabilidade criativa. Para todos os efeitos, houve esse saldo positivo, mas ele só foi conseguido graças a uma mandracaria que já não é nova: a falsa exportação, que só existe no papelório, de uma plataforma de petróleo de US$ 1,1 bilhão. Ou por outra: o superávit de US$ 1,2 bilhão foi, na verdade, de apenas US$ 100 milhões. Só para lembrar: essa plataforma não sai do país, é produzida aqui e vendida aqui, e há um trâmite de papéis que garantem facilidades fiscais. Mas não é exportação.

Com o truque empregado, o acumulado da balança comercial conseguiu, pela primeira vez, ficar no azul: US$ 249 milhões. Isso é conta para Guido Mantega ver. De verdade, o déficit acumulado ainda é de US$ 851 milhões. No acumulado de 12 meses, o superávit é de US$ 6,4 bilhões. Para o ano de 2014, o Boletim Focus estima um saldo positivo de apenas US$ 2,17 bilhões.

Por Reinaldo Azevedo

Focus: expectativa de crescimento cai para… 0,52%. Prevê-se um 2015 com inflação alta, juros estelares e expansão mixuruca

Não é por nada, não, mas, quando se olha o cenário econômico, a gente se pergunta por que tantos querem governar o país, não é mesmo? O boletim Focus reviu para baixo, mais uma vez, o crescimento neste 2014: na semana passada, era de 0,7%; agora, de 0,52%. A mudança se dá depois de os números do IBGE terem demonstrado que o Brasil entrou em recessão técnica, com o encolhimento da economia em 0,2 % no primeiro trimestre e 0,9% no segundo. Este é 14º rebaixamento consecutivo da expectativa de crescimento. Caiu também a previsão para o ano que vem: de 1,2% para 1,1%.

Se, nessa área, os números assombram porque baixos, no que diz respeito à inflação: o índice deste ano segue firme em 6,27%, e o de 2015 passou de 6,28% para 6,29%, no teto da meta. Também as previsões para a Selic são siderais: fecha este ano em 11% e vai a 11,75% no ano que vem.

Resumo da ópera: o mercado prevê um 2015 com crescimento mixuruca, inflação alta e juros nas estrelas. Imaginem se a gente acrescentar Dilma Rousseff a essa receita indigesta, dado o que o mercado anda pensando dela…

Por Reinaldo Azevedo

TRE indefere candidata de Maluf; ele vai recorrer ao TSE e não tem como não perder. Aleluia!

Leiam o que informa a Folha. Volto em seguida.
Por Gabriela Terenzi:
O TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) indeferiu, nesta segunda-feira (1º), o registro de candidatura de Paulo Maluf (PP) a deputado federal, com base na Lei da Ficha Limpa. Por 4 votos a 3, venceu o entendimento de que a condenação de Maluf no caso de superfaturamento na construção do túnel Ayrton Senna, quando ele era prefeito de São Paulo, o enquadra no artigo da Ficha Limpa que trata da inelegibilidade por improbidade administrativa.

O candidato sempre negou todas as acusações de improbidade e alegou inocência em todo o processo. Cabe recurso da decisão ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Na última sexta-feira (29), o julgamento foi adiado após empate entre os membros da corte. Foi o voto do presidente do TRE, Antônio Mathias Coltro, que definiu o caso. Maluf foi condenado pelo Tribunal de Justiça em dezembro do ano passado. Além de ser um caso previsto na Lei da Ficha Limpa, a sentença do TJ previa a suspensão dos direitos políticos do ex-prefeito por cinco anos.
(…)

Voltei
A única coisa que não entendi na decisão do TER foi o 4 a 3. Deveria ter sido 7 a zero em favor da cassação da candidatura. Qual é a dúvida? Maluf foi condenado por um colegiado, em segunda instância, por improbidade administrativa, antes do prazo final para a o registro da candidatura. Os três que votaram contra podem não gostar da Lei da Ficha Limpa. Mas por que disseram que ela não se aplica?

É claro que Maluf vai recorrer ao TSE. E vai perder — ou estamos no manicômio. A situação dele é bem mais clara e explícita do que a de José Roberto Arruda. Afinal, o ex-governador do DF foi condenado depois do registro; mesmo assim, teve a candidatura anulada. Maluf não tem isso a seu favor. Nem isso nem a biografia. É claro que este senhor indica, assim, uma espécie de passagem melancólica do tempo. Explico: uma eleição sem este estorvo, será a prova de que ficamos mais velhos. Mas temos de aprender a viver sem aquilo que nos empurra para o atraso, né? 

Por Reinaldo Azevedo

 

Marina, a energia nuclear e os gays. Ou: Setores da imprensa criticam as bobagens menos relevantes da candidata do PSB…

O PSB lançou o seu programa de governo na sexta-feira. Trazia duas, vamos dizer, “inovações” em relação, se assim se pode dizer, ao “Marinismo Clássico”: o apoio ao desenvolvimento da energia nuclear e ao casamento gay. No capítulo dos direitos da chamada comunidade GLBT, hoje uma espécie de fetiche da imprensa dita “progressista”, a candidata prometia ainda apoio ao PLC 122 — a tal lei que criminaliza a homofobia. O texto ia adiante e dizia que o governo Marina também se comprometia com o tal Projeto de Lei da Identidade de Gênero Brasileira, de autoria dos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Érika Kokay (PT-DF). A íntegra do texto, para os interessados, está aqui. Basicamente, o troço torna a identidade sexual de livre escolha, entenderam? Qual é o sexo do indivíduo para efeitos civis? Ele escolheria. Em que país do mundo é assim? Com essa largueza, em nenhum. Pô, se a gente tem jabuticaba e pororoca, por que não isso?

Muito bem! As coisas mudaram um pouco. Como lembrei no programa “Os Pingos nos Is”, na Jovem Pan, na sexta à noite, Marina Silva era contra o apoio ao desenvolvimento da energia nuclear. Pois é. E continua contra. Horas depois de o programa ter vindo à luz, interlocutores da candidata foram a público para divulgar a primeira errata. Não! Ela não quer dar apoio ao desenvolvido da energia nuclear. Um lembrete: Roberto Amaral, presidente do PSB, quando ministro da Ciência e Tecnologia de Lula, chegou a defender que o Brasil tivesse a bomba atômica. E como é que o programa veio a público sem a concordância de Marina? Vai saber…

Aí chegou a hora de fazer a segunda errata. Não! Marina, se eleita, não vai se comprometer com o casamento gay, mas apenas respeitar as consequências da decisão do Supremo, que equiparou as uniões civis hétero e homossexuais. Também não vai dar apoio formal ao PLC 122, a lei que criminaliza a homofobia, nem ao tal projeto sobre identidades sexuais.

Numa nota divulgada à imprensa, vazada naquela língua quase impossível falada pelo marinismo, ficamos sabendo que “em razão de falha processual na editoração, a versão do Programa de Governo divulgada pela internet até então e a que consta em alguns exemplares impressos, distribuídos aos veículos de comunicação, incorporou uma redação do referido capítulo que não contempla a mediação entre os diversos pensamentos que se dispuseram a contribuir para sua formulação e os posicionamentos de Eduardo Campos e Marina Silva a respeito da definição de políticas para a população GLBT”. Ufa!!! Ou por outra: o programa foi feito sabe-se lá por quem. Marina não concordava com ele.

Que coisa! O programa de governo de Marina faz algumas críticas à democracia que são, a meu ver, francamente obscurantistas; flerta com mecanismos pernósticos de democracia direta e, acho eu, diz coisas bastante perigosas sobre a indústria — tratarei desses assuntos em outra oportunidade. Mas só mesmo a mudança de redação do capítulo sobre os direitos da comunidade GLBT arrancou de setores da imprensa alguma crítica decepcionada. Atribui-se a alteração à religião de Marina, que pertence à Assembleia de Deus e foi, sim, criticada por muitos pastores.

Pois é… Quando há uma bolha favorável a alguém no noticiário, até a crítica funciona ao contrário, não é mesmo? Em vez de prejudicar, ajuda. De fato, todas as promessas que estavam no programa eram matéria a ser decidida pelo Congresso, não tarefa do Executivo. Uma coisa é um candidato se comprometer com o apoio genérico à causa da igualdade; outra, distinta, é entrar em minudências e garantir suporte a este ou àquele projetos em particular. Da forma como estava, com efeito, o programa de Marina mais tirava votos do que rendia adesões.

Nem entro no mérito se ela cobrou a alteração da redação pensando no eleitorado ou na sua religião. O que sei, e isto me parece claríssimo, é que a insistência da imprensa em atribuir as opiniões de Marina nessa área à sua confissão religiosa — e isso é sempre noticiado com viés negativo — mais fortalece do que enfraquece a candidata. O PLC 122 é um texto ruim e autoritário. A tal proposta sobre identidades sexuais, com a redação que tem, é uma aberração. Marina tem falado, a meu ver, bobagens estratosféricas — como aquela sobre os transgênicos. A correção do conteúdo do que ia no capítulo sobre a comunidade GLBT é um de seus acertos. Não obstante, é justamente esse o aspecto que mais lhe rendeu críticas na imprensa. Assim fica fácil demais para ela, não é mesmo?

Texto publicado originalmente às 4h39

Por Reinaldo Azevedo

Datafolha: é ruim para Aécio? É! Mas quem está no poder é o PT. Nesse caso, é pior. E o partido está fazendo tudo errado

Pois é… Segundo o Datafolha, e acredito que os números possam estar, quando menos, próximos da realidade, Dilma Rousseff, do PT, e Marina Silva, da Rede (mas aboletada no PSB), têm 34% das intenções de voto no primeiro turno. Aécio Neves, do PSDB, aparece em terceiro lugar, com 15%. Nas simulações de segundo turno, a ex-senadora e ex-petista vence a presidente por 50% a 40%. A diferença entre Dilma e Aécio segue de oito pontos apenas: 47% a 39% em favor de Dilma há duas semanas; 48% a 40% agora.

Vejam que coisa: nem nos melhores sonhos do PSDB, imaginava-se que Aécio pudesse ter, a esta altura, no segundo turno, apenas 8 pontos de diferença em relação a Dilma. Chamo a atenção para esse aspecto por dois motivos:
– oito pontos de diferença, numa disputa binária, entre A e B, podem ser apenas quatro;
– oito pontos de diferença, apesar da máquina oficial e da demonização permanente dos tucanos, seriam uma verdadeira bênção.

Ocorre que existe um primeiro turno no caminho, tanto quanto existia uma pedra à frente do mineiro Carlos Drummond de Andrade. E é evidente que a situação é muito difícil.

Marina se tornou a caudatária dos votos que já tinha — no último Datafolha em que seu nome apareceu, antes da definição do nome de Eduardo Campos, tinha 27% —, da comoção gerada pela morte de Eduardo Campos e da crescente repulsa ao governo Dilma, que, parece-me, é superior ao que captam as pesquisas.

Há um enfaro óbvio com “tudo isso o que está aí”. Em primeiro lugar, rejeita-se é o petismo mesmo, com todas as suas fraudes contra os fatos e contra o óbvio. Em segundo lugar, mas não menos importante, temos a rejeição à política.

Há, acrescente-se, a estupidez petista e o desastre da ideia fixa. O petismo está preparado para enfrentar os tucanos; para satanizá-los; para desqualificá-los; para transformá-los na morada de todo o mal. Mas não tem repertório para enfrentar Marina Silva. A cada vez que Dilma Rousseff ataca o PSDB e FHC, o que faz é reforçar o discurso de Marina Silva. É de tal sorte estúpido que, nos dias atuais, o PT se dedique a atacar Aécio e o PSDB que me pergunto se essa gente continua com seus meridianos ajustados.

Os idiotas da objetividade do PT podem achar que enfrentar uma Marina no segundo turno pode ser melhor do que enfrentar um Aécio porque, afinal, ela terá menos estrutura e menos aliados. É só manifestação de ignorância. Deveriam se lembrar da fala de Walker, do filme “Queimada”, de Gillo Pontecorvo: fogo não atravessa o mar, mas ideias, sim. Marina encarna uma abstração, um valor, não uma proposta objetiva de mudança. E isso quer dizer que seu poder de contaminação é muito maior.

Mas os petistas são reféns de suas ideias fixas, de suas taras. Se não mudarem o rumo da prosa, Dilma, reitero, pode começar a fazer as malas. O mais impressionante: o PT não perderá, nesse caso, a eleição para as propostas objetivas do PSDB, mas para as ideias etéreas de Marina, que atravessam mares. Ainda que não tenham a menor importância.

O Datafolha é ruim para Aécio? É. Mas quem está no poder é o PT. Nesse caso, é pior! E o partido está fazendo tudo errado! 

Por Reinaldo Azevedo

Entrevista de Serra: “Aécio sabe escolher bem a equipe; presidente não joga sozinho”

Assista, abaixo, à entrevista que o tucano José Serra, candidato do PSDB ao Senado por São Paulo, concedeu à jornalista Joice Hasselmann, no programa “Direto ao Ponto”, na TVeja. Serra tratou de vários assuntos que dizem respeito ao Estado e falou também sobre a eleição presidencial. Segundo ele, uma das grandes virtudes do presidenciável tucano Aécio Neves é “saber escolher bem a equipe, e presidente da República não joga sozinho”. Serra falou ainda das demandas do Estado de São Paulo e fez o elenco de projetos que pretende apresentar, especialmente na área da saúde.

Por Reinaldo Azevedo

Não vamos arrochar salários nem assassinar velhinhas

Érica Fraga e Mariana Carneiro, na Folha:
“Nomeado” futuro ministro da Fazenda, caso Aécio Neves (PSDB) vença a eleição, Arminio Fraga, 57, reclama do aparente patrulhamento, na sua opinião, do atual debate sobre problemas econômicos. Ele diz que precisa “fazer um discurso” antes de tratar de temas relevantes, como o reajuste do salário mínimo e as mudanças na previdência. “Senão, você é acusado de ser assassino de velhinhas, o que obviamente não é o caso.” Falar da discussão muda a fisionomia do (quase sempre pacato) economista: “Eu tenho que fazer um preâmbulo. Se não, imediatamente, o PT vai falar: Eles vão arrochar os salários, arrochar os aposentados’”, afirmou. Nesta entrevista à Folha, Arminio fala sobre uma das bases de maior apoio político de Aécio: a diminuição da oferta de empréstimos do BNDES. “O empresariado tem que se engajar numa posição mais moderna.” Para ele, sua “nomeação”, sozinha, não representa um choque de confiança. “Arminio Fraga não resolve nada.”

Folha – Se Aécio Neves vencer, qual será a regra de reajuste do salário mínimo?
Arminio Fraga
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 O Aécio já declarou que a política de aumento real do salário mínimo continua. A regra, no mínimo, vale por um ano e a essa altura não vejo por que mudar –a preocupação é que ele [o reajuste] fique até baixo neste momento.
Eu disse, e fui mal interpretado, que os salários em geral tinham subido muito, e que para continuar a subir, o que é totalmente desejável e alcançável, o Brasil teria que mostrar também um crescimento da produtividade. Como acredito que, com Aécio, os salários vão subir, sinceramente, não tenho problema com essa fórmula.

Economistas próximos do sr. dizem que a regra atual onera a Previdência e desequilibra as contas do governo.
O papel de um futuro ministro da Fazenda não é tanto ter uma opinião a respeito disso, mas mostrar qual é o orçamento e qual é a tendência no médio prazo. Eu acho que isso está fazendo falta, o Brasil está voando no escuro, em um ambiente de um populismo exacerbado.

Vocês são críticos à atuação do BNDES, mas o banco oferece crédito barato para parte do empresariado. Como dizer para eles que isso tem de mudar?
O empresariado hoje entende que esse mercado de crédito dual, onde alguns privilegiados recebem crédito e a maioria não recebe, não é bom. Indiretamente põe pressão no juro, tem implicações distributivas perversas e, no fundo, existe porque outras coisas não estão funcionando.
Se outras coisas forem postas para funcionar, todo esse aparato de UTI pode ser removido. Fazer uma reforma tributária que desonere a exportação, o investimento, simplifique o sistema [tributário], tem um impacto enorme. Mobilizar capital para infraestrutura e arrumar a casa para ter um juro mais baixo para todo mundo tem um impacto enorme também.

Essas políticas, não só o crédito subsidiado, mas muitas das desonerações e do aparato protecionista, não são a resposta ideal.
À medida que se possa corrigir essas falhas, será possível desfazer esse caminho que não está dando certo. Alguém acha que a indústria no Brasil está indo bem, com todo esse crédito, subsídio e proteções?

Um ajuste fiscal envolveria cortar quais gastos?
A sociedade tem que fazer opções. O nosso papel é colocar essa discussão na mesa, de uma maneira que ela possa ser concluída com mais consciência dos custos e benefícios e quais são os efeitos do ponto de vista do crescimento, da distribuição de renda. Há um imenso espaço para fazer políticas que teriam impacto redistributivo relevante. O caminho a seguir foi mapeado pelo FHC. Ele tomou a decisão de delegar áreas que naquele momento faziam parte do governo para o setor privado, sob supervisão, para focar em saúde e educação. Foi um pacto extraordinário. Essa discussão tem que ser permanente.

O sr. falou em tirar subsídios e focar na redução da desigualdade. Como os empresários reagiriam?
Eles temem que a correção dos fundamentos [da economia] não ocorra e eles fiquem no pior dos mundos. Mas acho que o empresariado tem de se engajar numa posição mais moderna. O melhor exemplo é o Pedro Passos [sócio da Natura e colunista da Folha], que com muita coragem está quebrando todos os tabus e defendendo posições muito parecidas com essas. Acho que esse esgotamento do modelo já é entendido pela maioria. Ninguém gosta de ficar indo a Brasília negociar alguma coisa. Mesmo os que se beneficiavam mais disso estão vendo o Brasil parando.
Eu tenho a convicção de que arrumar a casa, fazendo ajustes, vai gerar crescimento. A recessão já chegou.
(…)

Por que a independência do Banco Central não é bandeira do PSDB?
Esse é um tema antigo e polêmico dentro do PSDB. O partido sempre gostou da ideia de dar autonomia ao Banco Central, mas com algum mecanismo de proteção em relação a problemas extremos, como o Banco Central trabalhar mal. O Aécio deixou claro que vai dar a chamada autonomia operacional ao Banco Central e não está fechado discutir a lei.
(…)

O sr. participaria de um eventual governo Marina Silva?
Estou discutindo esses temas com Aécio há quase dois anos e acredito que ele é o caminho. Eu não vou. Não pretendo ir se não for com ele.

Por Reinaldo Azevedo

Brasil em recessão: o país à espera de Godot. Será que ele usa xale e colares indígenas?

O Brasil está em recessão técnica. Segundo o IBGE — que não é o PSDB, que não é Aécio Neves, viu, presidente Dilma? —, o PIB do segundo trimestre encolheu 0,6%. Como o Produto Interno Bruto revisado do primeiro trimestre havia caído 0,2%, então se tem esta chancela: recessão técnica. Por que esse nome? Porque, neste exato momento, o país já pode ter saído da recessão e voltado a crescer, mas o encolhimento da economia foi óbvio. Ainda que esteja aí a retomada da expansão, ela recomeça de um patamar, evidentemente, mesquinho.

E o que diz Guido Mantega, ministro da Fazenda? Segundo ele, trata-se de mero efeito estatístico, como se os números não estivessem assentados em dados da economia real. Parece piada! Nesta quinta, ele saiu atirando contra Armínio Fraga, que será ministro da Fazenda de Aécio caso o tucano seja eleito presidente. Mantega o desqualificou de modo bronco, afirmando que, sob o comando de Armínio, a economia poderia entrar em… recessão! Parece piada, não? Ele e Dilma, afinal, produziram o quê? Ocorre que, junto com a retração da economia, temos a paralisação dos investimentos, o descontrole dos gastos, inflação alta e juros estratosféricos.

O país está parado. Como na extraordinária peça de Samuel Beckett — e aqui vai o meu abraço saudoso para o meu querido amigo Gerald Thomas, seu grande intérprete —, estamos “esperando Godot”. Ou, então, como no maravilhoso poema do grego Constantino Kaváfis, somos os romanos do fim do império, à espera dos bárbaros. Boa parte do país está na expectativa de este governo passe logo: com sua incompetência, com sua truculência, com sua inexperiência.

Inexperiência? É disso que se trata. Mantega e Dilma atribuem as dificuldades econômicas e a paralisia do Brasil ao cenário internacional. Mas, por acaso, esse cenário é diferente para os demais países da América Latina? Quem enfrenta severas dificuldades hoje na região? Curiosamente, Venezuela, Argentina e Brasil: uma ditadura, um regime aloprado e nós. A culpa não está nos outros. Está aqui dentro mesmo.

O país paga o preço de o governo de turno ter fechado os olhos e os ouvidos aos muitos chamados da realidade. A recessão técnica em que entrou a economia, o crescimento ridículo deste ano e a expansão mixuruca prevista para o ano que vem decorrem da inexperiência de Dilma Rousseff.

Na peça de Beckett, Godot é uma resposta que viria para tirar as pessoas da paralisia, de sua vida mesquinha. Só que ele não vem. Não dá as caras. Não se sabe quem ou o que é Godot. Somos mais carnavalizados e esperançosos do que o gigantesco Beckett. Por aqui, há quem ache que Godot — a grande saída — costuma usar xales nos ombros e exibir colares com sotaque indígena, além de ser hábil na glossolalia da natureza.

Será mesmo?

É a inexperiência de Dilma que conduziu o país à recessão. O Brasil tem de se perguntar: quem virá em seu lugar? O nosso Godot pode se dar ao luxo de nem mesmo saber fazer contas?

Por Reinaldo Azevedo

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Blog Reinaldo Azevedo (VEJA)

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