"Até tu, Lawrence?", artigo de Geraldo Samor, de veja.com

Publicado em 02/09/2014 05:35 e atualizado em 04/09/2014 07:52 1673 exibições
e mais Rodrigo Constantino, com 3 artigos analisando a economia sob o ponto de vista de Eduardo Gianetti, da equipe de Marina da Silva.

"Até tu, Lawrence?"

Teorema de Pih: Lógica > Ideologia = Progresso

Quando o PT ainda estava nas fraldas, Lawrence Pih, empresário dono do Moinho Pacífico em São Paulo, foi um apoiador de primeira hora.Lawrence Pih

Nas sucessivas eleições que Lula perdeu antes de chegar à Presidência, Lawrence era membro do conselho político do PT e participou da comissão de finanças do partido, com a tarefa inglória de levantar dinheiro para o então candidato, cuja retórica antimercado sequer sugeria o pragmatismo com que governaria depois.

Agora, quando o PT tenta obter seu quarto mandato presidencial consecutivo, Lawrence prefere ver no Planalto Marina Silva ou Aécio Neves.

Anos de gestão fiscal temerária, baixo crescimento, intervenção estatal em inúmeros setores e ausência de reformas fizeram com que o PT perdesse o voto de um empresário historicamente associado a uma agenda de esquerda no Brasil.

“Tanto Marina quanto Aécio trarão mais credibilidade ao País se eles se cercarem de pessoas competentes. Com Lula, tivemos a continuidade de política macroeconômica através de pessoas como o Antonio Palocci e o Henrique Meirelles. Tenho a esperança de que a Marina faça a mesma coisa. Conheço o trabalho do Eduardo Giannetti, e é um economista que defende políticas macro sólidas, que fazem sentido.”

Se Marina for eleita, vai ter que tipo de apoio dos partidos para governar?

“Acho que ela terá o PSDB sim, e terá a parte boa do PMDB: o Jarbas Vasconcellos, o Pedro Simon. Além disso, quem tem a caneta na mão consegue persuadir muita gente.”

Mas e o horror que Marina parece ter do PSDB, fazendo questão de dizer que não subiria no palanque de Geraldo Alckmin em São Paulo?

“A Marina é uma pessoa inteligente e certamente preocupada com a governabilidade. Quando você senta na cadeira, tem que amenizar suas posições mais radicais. Mas se ela começar, antes de ser eleita, a ser mais flexível, ela vai ser vista como uma política como as outras. Para governar, ela fará concessões, entretanto sempre dentro da ética que lhe é peculiar.”

O que deu errado com o Governo Dilma?

“Sempre que você tiver uma ideologia que prevalece sobre a lógica econômica, ou uma agenda política que se sobrepõe à lógica econômica, a economia sofrerá.”

Quais devem ser as prioridades do novo governo?

“Temos problemas estruturais, como uma economia indexada tanto nos salários quanto nas tarifas públicas, e contratos de médio e longo prazo. Temos uma educação de baixíssima qualidade. Da nossa produtividade então, nem se fala! O Ministro da Indústria e Comércio, Mauro Borges, disse que a produtividade do trabalhador brasileiro é um quinto do trabalhador norteamericano. Nada justifica isso, nem mesmo a diferença na educação! Além disso, nos anos 90 os manufaturados eram equivalentes a 29% do PIB brasileiro, e hoje são 14%. O setor manufatureiro já não exporta nada que seja relevante. A legislação trabalhista também é um desafio. Ela é arcaica e excessivamente onerosa. No Brasil, há mais de 3,3 milhões de ações trabalhistas por ano. Os gastos e o desperdício de recursos públicos também oneram o país.”

Por Geraldo Samor

Vem aí o ninja brasileiro! Ou: Governo fomenta bolha de crédito para estimular economia que patina

reportagem de capa do caderno de Economia do GLOBO hoje diz que o governo pretende estender o financiamento da casa própria para as reformas no imóvel também. Vejam:

Num esforço para reanimar a economia, que entrou em recessão técnica no primeiro semestre de 2014, o governo resolveu retomar sua agenda microeconômica. Sem espaço fiscal para novas desonerações, a ideia agora é tomar medidas para desburocratizar, reduzir custos e aumentar o acesso dos brasileiros ao crédito. Uma das propostas em discussão é passar a permitir que uma pequena parte do financiamento habitacional seja usada para a reforma do imóvel adquirido. A iniciativa, no entanto, ainda não tem prazo para ser adotada.

Nas regras atuais do Sistema Financeiro de Habitação (SFH), que utiliza recursos da caderneta de poupança e permite o uso do FGTS, uma pessoa pode financiar até 80% do valor do imóvel. Mas segundo os técnicos da equipe econômica, o que se estuda é permitir que 5% do valor financiado sejam destinados a obras como pintura, troca de encanamento ou revestimentos, o que hoje é proibido. Todo o valor do financiamento tem que ser depositado pelo banco na conta do vendedor.

— Essa seria uma forma de ajudar o mutuário a embutir as despesas com reforma na conta do financiamento, que tem taxas mais baixas e prazos mais longos — disse ao GLOBO uma fonte do governo.

Segundo o técnico, o governo ainda quer avaliar com cuidado que impactos a medida teria na atividade econômica e suas dificuldades para ser implementada e, por isso, não há prazo para ser adotada. Nos cálculos da área econômica, essa medida poderia acelerar a demanda por materiais de construção e ajudar a aquecer a economia como um todo:

— É uma discussão, mas não significa que a medida vai ser adotada logo.

O governo parece ainda não ter compreendido que o problema de nossa economia não está na demanda, e sim na oferta. Como para quem tem apenas um martelo tudo se parece com prego, o governo só pensa em estimular mais ainda a demanda para “ativar” a economia, ignorando o elevado grau de endividamento das famílias.

Estaremos, com essa medida, dando mais um passo rumo à bolha de crédito que o PT vem fomentando há anos, especialmente no setor imobiliário. Nos Estados Unidos havia os tais “Ninja Loans”, que eram empréstimos para quem não tivesse nem renda (no income), nem emprego (no jobs) e nem ativos (no assets).

O sujeito saía da financeira ou do banco com um empréstimo de 110% do valor de seu imóvel, os 10% extras servindo justamente para reformar a casa ou comprar utensílios. A atividade foi estimulada, não resta dúvida. Até o dia em que a farra irresponsável cessou e a festa acabou com muitas lágrimas.

Incapaz de criar um ambiente favorável aos investimentos para estimular o crescimento da oferta, ou de fazer reformas que aumentem a produtividade de nossa economia, o governo fica apenas incentivando mais crédito de forma insustentável. Ainda bem que Dilma sai do poder este ano, pois mais quatro anos disso seria o caos total…

Rodrigo Constantino

 

Marina e o agronegócio, por MARCOS SAWAYA JANK - O ESTADO DE S.PAULO

Marina Silva aproximou-se do agronegócio na última semana. Esteve numa importante feira do setor sucroenergético, jantou com 60 lideranças na sexta-feira e seus assessores vêm dialogando com pessoas-chave do setor.

Todos sabem que o agronegócio viveu momentos de atrito com Marina no período em que ela foi ministra do Meio Ambiente. Exemplos são os embates em torno do Código Florestal e o zoneamento da soja transgênica, num momento em que produtores gaúchos plantaram variedades argentinas que ainda não haviam sido aprovadas no Brasil. Já se passaram dez anos. Desde então a Comissão de Biossegurança autorizou um amplo uso de sementes transgênicas no Brasil, a exemplo do que vem ocorrendo em quase todo o mundo. O novo Código Florestal virou lei em maio de 2012 e hoje há total consenso entre o agronegócio e a comunidade ambiental de que o desafio é implementar mais rapidamente o que foi definido.

Tendo participado de diversas conversas com Marina e seu grupo nos últimos cinco anos, permito-me fazer aqui uma análise das perspectivas dos temas do agronegócio à luz do seu programa de governo, recém-divulgado. O programa reconhece a competência dos produtores brasileiros, os ganhos de produtividade alcançados, o fato de o País dispor da melhor tecnologia tropical do planeta e o papel salvador que o setor desempenhou na garantia do equilíbrio das contas externas. Em síntese, os principais destaques do programa são:

1) Políticas tradicionais - taxas de juros mais baixas para a agricultura; continuidade das políticas de aquisição de alimentos, preços mínimos e estoques reguladores; ampliação de programas de seguro rural, cobrindo riscos climáticos e de renda; reforço das estruturas de pesquisa e controle sanitário; avanço no zoneamento agroecológico e melhorias na legislação trabalhista.

2) Acordos internacionais - ampliação dos acordos de comércio com os países mais relevantes para o agronegócio, independentemente do Mercosul.

3) Plano ABC - o Plano de Agricultura de Baixo Carbono ganhará prioridade, recebendo mais recursos para estimular o manejo e a recuperação de pastagens e áreas degradadas e buscar a meta de "desmatamento zero".

4) Governança dos ministérios da área - segundo o texto, no mundo inteiro o Ministério da Agricultura também cuida de questões fundiárias, de florestas plantadas e da pesca. "No Brasil temos quatro ministérios cuidando desses temas, disputando o mesmo orçamento e prestígio junto ao Palácio do Planalto, ao Legislativo, à mídia e à sociedade em geral. Ainda interferem no agronegócio mais uma dezena de ministérios e duas dezenas de agências correlatas. É preciso enxugar esse emaranhado de órgãos federais que engessam as ações para o setor rural".

5) Política energética - o diagnóstico e as diretrizes apresentados são claros e corretos. O ponto de maiores destaque é a prioridade de recuperar e revitalizar a produção de biocombustíveis e bioeletricidade, que não deveriam ficar a reboque da intervenção estatal em razão de políticas de controle artificial de preços da gasolina. "A intervenção do governo no setor deveria ser mínima e as regras para o desenvolvimento da energia de biomassa devem ser previsíveis e transparentes."

6) Infraestrutura e logística - o programa propõe ampliar e acelerar concessões, parcerias público-privadas e investimentos, aprimorando os marcos regulatórios, diversificando modais de transporte e aprimorando o diálogo com os investidores.

O programa traz temas que devem gerar embates com o setor, mas podem perfeitamente ser tratados de forma racional pelo Executivo pelo Legislativo:

O texto reconhece a queda expressiva do desmatamento em áreas de floresta, mas menciona seu avanço em certas áreas do cerrado, afirmando "que a agropecuária brasileira não precisa mais avançar sobre novas áreas de vegetação nativa para duplicar ou até triplicar sua produção". Creio que o agronegócio concorda plenamente com a necessidade de eliminar o desmatamento ilegal em todos os biomas. Defende, porém, o desmatamento legal de áreas férteis sob cerrado, seguindo estritamente o novo Código Florestal. A solução do "desmatamento líquido zero" - desmatamento legal de áreas com aptidão agrícola compensado por reflorestamento incentivado de áreas sem aptidão - pode ajudar a resolver a questão.

A atualização dos indicadores de produtividade agrícola relacionados com o diagnóstico da função social da propriedade rural, que permitiria rápida desapropriação de terras nos casos previstos em lei ou prêmio para quem faz uso correto da terra.

A demarcação de terras indígenas e quilombolas, prevista na Constituição, mas que causa discórdias com os agricultores nas áreas onde há disputas.

Na minha modesta opinião, o programa atende às principais expectativas do agronegócio. Ele diz ainda que a agropecuária tem uma agenda própria, que será considerada pelo novo governo, reconhecendo-se a importância do setor para o País. Marina afirmou ainda que o programa divulgado é um "projeto em construção" que será revisado sempre que necessário (como, aliás, já o foi no fim de semana).

Precisamos acabar com a falsa dicotomia que tem colocado agricultura e meio ambiente em lados opostos. O agronegócio global só sobrevive com desenvolvimento sustentável. Ele terá de produzir alimentos, bebidas, têxteis, papel, borracha e bioenergia para mais 9 bilhões de habitantes em 2050. Terá de gerar renda para quem nele trabalha e enfrentar crescentes restrições de recursos naturais e clima.

O mundo deposita enorme esperança no Brasil para servir como exemplo global na conciliação de questões econômicas, sociais e ambientais na agricultura. Nossa História recente mostra que estamos em posição bem melhor do que qualquer outro país para dar esse salto. Ou seja, há muito mais convergências do que divergências entre as agendas do agronegócio moderno e a agenda de gestão sustentável dos recursos naturais proposta por Marina Silva.

Marcos Sawaya Jank é diretor global de Assuntos Corporativos da BRF e foi presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e (Unica).

A bajulação corrompe: Marina vai precisar ser salva pelas críticas

Já que Marina Silva é hoje a favorita para vencer as eleições e Eduardo Giannetti da Fonseca é um de seus principais conselheiros, resolvi resgatar três textos antigos com base em seus livros, para levar aos leitores um pouco do que ele pensa. Se o economista tiver peso e influência na futura gestão de Marina, nem tudo estará perdido.

Mas essa é uma premissa otimista, e tudo é incerto quando se trata dela. Espera-se que Giannetti realmente pratique o que prega e lute contra a bajulação que fortaleceria o autoengano da candidata, que já adota uma postura um tanto messiânica e conta com um séquito de puxa-sacos.

Alguns dizem que Marina é o Lula de saias. Talvez. Há algumas semelhanças, e esse primeiro texto ataca justamente o “efeito Teflon” de Lula, com base nos conceitos de Giannetti e outros pensadores. Segue:

A bajulação corrompe

“A grande vaia é mil vezes mais forte, mais poderosa, mais nobre do que a grande apoteose; os admiradores corrompem.” (Nelson Rodrigues)

Os principais observadores da natureza humana sempre tiveram receio do estrago que a vaidade pode nos causar. Gostamos de elogios, mesmo os insinceros, enquanto criamos mecanismos de defesa contra as críticas duras. O auto-engano pode ser uma estratégia útil para a sobrevivência, como diz Eduardo Giannetti em seu livro sobre o tema: “o enganador auto-enganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”. O enganador embarca em suas próprias mentiras, e passa a acreditar nelas com toda a inocência e boa-fé do mundo. Assim fica mais fácil convencer os demais.

Justamente por conta disso a adulação popular ajuda a criar monstros perigosos. Aqueles que passam a se cercar somente de bajuladores, enquanto concentram mais poder e conquistam as massas, acabam blindados contra todo tipo de crítica. Os conselheiros mais sábios ficam impotentes diante da reverência do povo e, como Cassandras, fazem alertas em vão. De tanto escutar que é uma espécie de messias salvador, o governante populista pode acabar acreditando. Aí reside o maior risco para a sociedade.  

Adam Smith, em Teoria dos Sentimentos Morais, fez um alerta desse tipo: “Nas cortes de príncipes, nos salões dos grandes, onde sucesso e privilégios dependem, não da estima de inteligentes e bem informados iguais, mas do favor fantasioso e tolo de presunçosos e arrogantes superiores ignorantes; a adulação e falsidade muito freqüentemente prevalecem sobre mérito e habilidades. Em tais círculos sociais, as habilidades em agradar são mais consideradas do que as habilidades em servir”. Quando o mais importante na vida de alguém é agradar o poderoso governante, a primeira coisa a ser sacrificada será a sinceridade.

Poucos negariam que a situação brasileira se aproxima deste cenário preocupante. A popularidade do presidente Lula está nas alturas, a imprensa parece filtrar todas as notícias através de uma lente benigna em prol dele, os intelectuais o tratam com incrível condescendência, e até mesmo um filme foi feito para o “filho do Brasil”.

Como diz o editorial do Estado de São Paulo hoje (28/01/2010), há uma espécie de “salvo-conduto que lhe permite, diante dos mais diversos públicos, trafegar sem restrições pelos mundos da retórica, dizendo uma coisa e o seu contrário, construindo verdades de ocasião e exercendo, como já se apontou, o seu notável talento para a quase-lógica”. O presidente adquiriu uma imunidade que nenhum outro cidadão teria em seu lugar. Qualquer outro seria julgado de forma severa por aquilo que Lula diz sorrindo. Há um “efeito Teflon” quando se trata do presidente, já que nenhuma sujeira gruda em sua pessoa.   

O problema é que essa bajulação toda ajuda a despertar a megalomania do presidente, alimentando sua vaidade de forma incrível. O poder corrompe, e o excesso de poder concentrado em alguém vaidoso e popular corrompe ainda mais. Nunca antes na história desse país um presidente contou com tanta indulgência dos críticos. Lula está perdoado por qualquer pecado antes mesmo dele acontecer.

Ele pode se aliar aos mais antigos caciques da política, beijar a mão deles, rir enquanto afirma ser aquilo uma aula de como se fazer política, e tudo é perdoado pelo povo. Ele pode aderir às piores práticas da política nacional, passar a mão na cabeça dos réus de formação de quadrilha do seu partido, que poucos terão coragem de subir o tom das críticas. Se se trata de Lula, então é tudo parte do “jogo democrático”. Cristo teria que se aliar a Judas para governar o Brasil, não é mesmo?

“O mal de quase todos nós é que preferimos ser arruinados pelo elogio a ser salvos pela crítica”, disse Norman Vincent. O antídoto, Schopenhauer já havia dado: “Os amigos se dizem sinceros; os inimigos o são; sendo assim, deveríamos usar a censura destes para nosso autoconhecimento, como se fosse um remédio amargo”. O presidente Lula precisa escutar com mais carinho os seus críticos. Até porque, nesse caso, quem pode ser arruinado não é apenas o presidente, mas todo o povo brasileiro.

Rodrigo Constantino

O valor do amanhã: somos cigarras ou formigas?

O segundo texto que vou resgatar com base nos livros de Eduardo Giannetti da Fonseca é sobre o valor do tempo na economia, o que demonstra a importância de uma profunda reforma previdenciária e mudança cultural dos brasileiros. Giannetti, nesse livro, aproxima-se bastante dos economistas austríacos, pois muito do que é dito já havia sido contemplado por Carl Menger. Espera-se que, caso Marina seja mesmo eleita, tais ideias tenham forte influência em sua gestão econômica.

O valor do amanhã

Em seu livro O Valor do Amanhã, Eduardo Giannetti discorre sobre o tema das escolhas intertemporais de forma bastante objetiva e didática. O autor deixa claro que o fenômeno dos juros é inerente a toda e qualquer forma de troca em diferentes períodos no tempo, representando o prêmio da espera para o lado credor, ou o preço da impaciência na ponta devedora. Ou seja, os ganhos decorrentes da transferência de valores do presente para o futuro, ou os custos de antecipar valores do futuro para o presente. Nesse cenário, os juros monetários são apenas uma pequena fatia do conceito geral de juros.

O economista trata também da questão da miopia temporal, quando o indivíduo dá demasiada importância ao que está mais próximo no tempo, e seu espelho, a hipermetropia temporal, quando é atribuído um valor excessivo ao amanhã, em prejuízo das demandas correntes. De um lado, o sujeito que vive literalmente o carpe diem, de forma hedonista ou mesmo irresponsável, e do outro lado, o que adia tanto seu viver que o hoje vira um enorme vazio.

Se o míope com freqüência é vítima do remorso, porque o futuro chega e cobra seu preço pelo passado despreocupado, o hipermétrope normalmente sofre com o arrependimento pelo desperdício de oportunidades perdidas com o excesso de zelo pelo amanhã. Como disse Schopenhauer, “muitos vivem em demasia no presente: são os levianos; outros vivem em demasia no futuro: são os medrosos e os preocupados”. É raro alguém manter com exatidão a justa medida.

Giannetti inicia sua explanação sobre os juros pelo fator biológico, lembrando que a senescência é o valor pago pelo rigor da juventude. “A plenitude do corpo jovem se constrói às custas da tibieza do corpo velho”, como coloca o próprio autor. Há um claro trade-off implícito em cada escolha intertemporal que fazemos, entre “viver agora e pagar depois”, ou “plantar agora e colher depois”. Não podemos ter e comer o bolo ao mesmo tempo. 

Animais e crianças costumam viver mais intensamente o momento, reagindo basicamente por instinto. Os desejos exigem pronto atendimento, e a busca de rápida satisfação fala mais alto que tudo. Ainda não aprenderam o valor da espera, e não possuem ferramentas racionais para avaliar se esta compensa ou não. A impaciência infantil é fruto da combinação da dificuldade de figurar mentalmente o amanhã e uma baixa capacidade de autocontrole, de resistir ao apelo de impulsos. Como resultante, há uma forte propensão a desfrutar o momento e descontar o amanhã. Infelizmente, são muitos os adultos que não conseguem também dominar tal impulsividade através da razão.

Retardar o consumo atual para poder investir na produtividade rende frutos no futuro. Os recursos não caem do céu, e faz-se mister uma escolha intertemporal entre menos agora, mais depois. Hoje mais que nunca, a preocupação com o amanhã deve ser enorme. Os nômades caçadores viviam o aqui-e-agora, ignorando a necessidade da previdência. Entretanto, quem nasce atualmente vive aproximadamente o dobro do que era comum antes da Revolução Industrial. O progresso da técnica tem aumentado de forma bastante acelerada a expectativa média de vida.

O mundo necessita mais da racionalidade da formiga que da impulsividade da cigarra. A poupança de hoje é que permite o consumo maior de amanhã. Tal obviedade parece ignorada quando observamos a situação caótica dos sistemas de previdência social modernos. Talvez as pessoas não saibam que o governo não cria riqueza, e portanto não pode garantir a renda da aposentadoria futura sem a contrapartida da poupança atual. O conforto de amanhã exige um sacrifício hoje.

Um dos problemas do curto horizonte temporal no Brasil, com baixa taxa de poupança, é o coletivismo. Trata-se de um ambiente social em que o futuro pessoal de cada indivíduo pouco depende dele mesmo, ou seja, depende apenas em pequena medida das escolhas que ele faz. É o moral hazard do nosso modelo previdenciário, sem contas individuais e independente da contribuição de cada um para a determinação do benefício futuro.

Além disso, nosso grau de impaciência como nação é absurdamente elevado, devido às necessidades urgentes impostas pela miséria. Por fim, as oportunidades de investimento, prejudicadas pelo péssimo ambiente institucional, oferecem baixo valor para o uso de recursos que deixam de ser consumidos no presente, podendo assim ser deslocados para render frutos à frente. A confiabilidade da ordem jurídica aumenta a confiança no amanhã. 

O somatório dessas características faz com que a sociedade brasileira tome emprestado do futuro, de forma irresponsável até. Desta forma, a dívida pública através do Estado beira um trilhão e meio de reais, e a taxa de poupança é absurdamente baixa, menor que 20% do PIB. O Brasil vive demasiadamente no presente, com seu governo inchado e assistencialista, sem a necessária poupança que se reverte em investimentos produtivos. Como uma criança, age por impulso, para atender os desejos do momento. Quer o bônus da prosperidade sem o ônus da poupança. Quer o crescimento sem o custo da espera, e quando o resultado não é inflação ou crise na balança de pagamentos, é juros altos. 

O valor do amanhã continua baixo por aqui, como nos tempos indígenas. E quem tudo quer, nada tem. No afã de querer tanto o consumo maior no presente quanto o conforto da farta poupança no futuro, o país corre o risco de terminar sem nada: a cigarra triste e a formiga pobre.

Rodrigo Constantino

O paradoxo de Stalin: o autoengano a serviço do mal

Completando a série com base no que pensa Eduardo Giannetti da Fonseca, esse terceiro texto fala do autoengano, que pode fazer com que pessoas imbuídas de uma crença em sua benevolência espalhem apenas o mal pelo mundo. É preciso muito cuidado com os “abnegados” e “altruístas”, que se enxergam como almas puras. Com frequência se tornam apenas “fascistas do bem” que praticam o mal com a consciência limpa, o que é um enorme perigo.

O paradoxo de Stalin

“Por pior que seja aos olhos dos outros, nenhum homem consegue suportar uma imagem horrível e repugnante de si mesmo por muito tempo.” (Eduardo Giannetti)

Ao revisar para a publicação a sua biografia oficial, o ditador Stalin ordenou que fosse incluída uma frase mencionando que ele jamais deixou que seu trabalho fosse prejudicado pela mais leve sombra de vaidade, presunção ou idolatria. Negar dessa forma tão grotesca a vaidade é justamente confessá-la abertamente, aos brados! A questão que fica é se o ditador soviético pretendia enganar de forma deliberada seu público ou se mentia para si mesmo. Normalmente, o hipócrita é mais calculista, medindo os efeitos de seus atos e colocando-se no lugar da vítima, para não errar o alvo. Um absurdo tão flagrante desses parece mais ser um caso de enorme auto-engano mesmo. Mas nunca se sabe!

O auto-engano é uma estratégia útil para a sobrevivência e procriação das espécies. Temos inúmeros casos entre os diferentes seres vivos, desde vírus, passando por plantas, animais e finalmente o homem. Evidentemente que não faz muito sentido falar em auto-engano para animais sem consciência, pois se trata apenas de um mecanismo automático do seu instinto de sobrevivência. Mas a analogia não deixa de ser útil, quando sabemos que uma cobra-coral falsa age como a verdadeira, ainda que sem seu veneno, intimidando os possíveis predadores.

Como diz Eduardo Giannetti, em seu livro Auto-Engano: “O enganador auto-enganado, convencido sinceramente do seu próprio engano, é uma máquina de enganar mais habilidosa e competente em sua arte do que o enganador frio e calculista”. O enganador embarca em suas próprias mentiras, e passa a acreditar nelas com toda a inocência e boa-fé do mundo. Assim fica mais fácil convencer os demais.

A fé dogmática na ideologia é uma arma poderosa para o auto-engano, permitindo as maiores atrocidades em nome da causa. O fervor religioso sempre trouxe consigo tal perigo, especialmente na seita socialista. Os corruptos não se vêem como tais, pois roubam “em nome da causa”, ainda que os benefícios concretos sejam bem individuais. Os assassinos são perdoados pois “os fins justificam os meios”. Entre seus líderes e seguidores, resta apenas identificar os hipócritas oportunistas e a legião de inocentes úteis, ludibriada pela fé, ou seja, os sinceramente errados. “O auto-engano coletivo em grande escala é a resultante trágica e grotesca de uma multidão de auto-enganos sincronizados entre si no plano individual”, afirma Giannetti.

Os exemplos oferecidos pelo autor são a Inquisição ibérica, o nazismo e o comunismo. A cura está no pensamento independente, rigoroso com a lógica e a veracidade dos fatos. Como coloca o autor, “abrir-se à dúvida radical – à possibilidade de que estejamos seriamente enganados sobre nós mesmos e sobre as crenças, paixões e valores que nos governam – é abrir-se à oportunidade de rever e avançar”. Ou seja, “é ousar saber quem se é para poder repensar a vida e tornar-se quem se pode ser“. O princípio socrático de autoconhecimento seria parte indispensável da melhor vida ao nosso alcance.

Entretanto, Giannetti assume que “a condição humana não comporta demasiado autoconhecimento”. Em outras palavras, há um limite até onde podemos ir, sem perder a faísca das paixões e virar uma máquina fria e calculista. Conforme o “homem subterrâneo” de Dostoievski diz, “há algumas coisas que um homem teme revelar até para si mesmo, e qualquer homem honesto acumula um número bem considerável de tais coisas”.

A busca da objetividade é fundamental, portanto. Segundo Giannetti, “o ideal da objetividade cobra do sujeito do conhecimento uma disciplina que não é apenas técnica e intelectual”. A ética é imprescindível. Ele diz: “A boa conduta da mente no esforço cognitivo requer, entre outras coisas, a honestidade de não se dar como sabido o que se ignora, o respeito à evidência e a disposição de não facilitar as coisas para si mesmo”. Quantos não buscam justamente conforto em vez de fatos incômodos para as crenças preconcebidas?!

Darwin chegou a criar sua “regra de ouro” metodológica, para driblar o auto-engano. Ela consistia em registrar prontamente por escrito qualquer fato empírico ou argumento contrário àquilo que ele tendia a acreditar. O auto-engano não é a ignorância simples de não saber e reconhecer que não sabe. Ele é a pretensão ilusória e infundada do autoconhecimento, uma certeza de saber sem saber na verdade. A ignorância é não saber de algo; a estupidez é não admitir esta ignorância. Mas isso não é o mesmo que negar a possibilidade do conhecimento. “Descartar a possibilidade de um conhecimento final e afirmar o caráter hipotético de todo saber não significa, contudo, cair no extremo oposto de que nada é ou pode ser conhecido”, escreve Giannetti.

O fervor religioso é uma das grandes causas do auto-engano em larga escala. Ele, com freqüência, “mobiliza aquilo que um homem tem de melhor e de mais elevado para colocá-lo a serviço do que há de pior e mais abominável”. Um exemplo citado por Giannetti é o caso do imperativo cristão de “amar ao próximo como a si mesmo”. Estender aos outros o amor-próprio é irrealista. Distribuir o amor de forma rigorosamente igualitária significa destruí-lo. Giannetti é direto: “Quem diz que ama o próximo como a si mesmo não pensa no que diz ou está mentindo – alimenta-se e dorme regularmente enquanto tem gente passando fome na esquina”.

Mas o auto-engano de que realmente se acredita na máxima religiosa faz o crente se sentir bem, mesmo que não esteja professando uma verdade. Note-se que isso não é o mesmo que hipocrisia, onde o sujeito deliberadamente afirma algo sabendo ser falso. O auto-engano é, por natureza, uma ocorrência passiva, e não resultado de má-fé. Diferente do engano interpessoal, o auto-engano não é consciente ou deliberado.

O envolvimento de emoções fortes e poderosas no processo de formação de crenças é motivo de sobra para que se proceda com máxima cautela. Como bem coloca Giannetti, “o brilho intenso ofusca e é inimigo da luz”. Todos aqueles que divulgam aos ventos como são altruístas, colocando sempre o interesse dos outros acima do próprio e se sentindo o mais justo dos homens, deveriam parar para pensar friamente em sua solidão. Seus atos correspondem ao que a boca diz? Afinal, na maioria dos casos os “altruístas” não passam de egoístas exigindo o sacrifício alheio em benefício próprio. Podem ser apenas mais algumas vítimas do paradoxo de Stalin… 

Rodrigo Constantino

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1 comentário

  • Paulo Roberto Rensi Bandeirantes - PR

    Sr. João Olivi, às vezes é bom sair da trivialidade, para arejar as ideias.

    Na cosmologia o universo está em franca expansão desde a sua origem, estimada a 13,7 bilhões de anos. O planeta terra, onde habitam seres superiores da espécie Homo sapiens – Homem sábio, em português. Segundo os cientistas somos extremamente raros, pois as condições que proporcionaram o surgimento da espécie, em bilhões e bilhões de galáxias foram singulares.

    A espécie está a alguns milhares de anos, tentando atingir o nirvana, mas a história demonstra a incoerência, pois o mundo harmônico é utopia. As diferenças são necessárias para o surgimento do conflito de ideias, são elas que nos levam ao crescimento.

    Pronto! Voltei no tempo e espaço que estava tentando fugir!

    Porque o mundo a ser alcançado, nos “compromissos” de campanha têm somente este parâmetro? (Mundo Utópico).

    ....”E VAMOS EM FRENTE” ! ! !....

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