O Brasil desanima. Ou: O povo é cúmplice!

Publicado em 27/09/2014 12:22 e atualizado em 28/02/2020 09:03 1283 exibições
blog de Rodrigo Constantino, de veja.com

O Brasil desanima. Ou: O povo é cúmplice!

Nenhum político deve bater diretamente no povo brasileiro. Não pega bem, não rende votos e é politicamente incorreto. Felizmente não tenho pretensões ou ambições políticas. Estou aqui para dizer o que realmente penso. E eis o que penso: o Brasil desanima, cansa, ao menos aquelas pessoas conscientes do que está em jogo, mas incapazes de reagir à altura do desafio.

Como não acordar macambúzio após anova pesquisa do Datafolha? A campanha mais sórdida, mais pesada, mais mentirosa já feita na história deste país surtiu efeito. Dilma subiu, Marina caiu. No Brasil, a baixaria compensa, a mentira rende frutos doces.

Já voltaram a falar na possibilidade – remota, em minha opinião – de vitória no primeiro turno. Lula convocou a “onda vermelha”, segundo coluna de Ilimar Franco, com a ideia de colocar nas ruas 1,8 milhão de militantes para fazer “boca de urna”. Do outro lado, não temos capacidade de mobilização, não conseguimos colocar gente nas ruas.

E pensar que tantos acreditaram que o gigante havia acordado em junho de 2013. Que piada! Mas que piada de mau gosto, gente! Lembro que escrevia textos céticos ou pessimistas à época, e era massacrado. Eu não tinha entendido nada. O povo brasileiro finalmente havia despertado e tudo seria diferente, enquanto eu não fazia nada, só sentado e escrevendo. Pois é…

Tive a companhia, nesse período de ilusões infantis da turma “esclarecida”, dos jornalistas Reinaldo Azevedo e Guilherme Fiuza. Este último escreveu em sua coluna de hoje no GLOBO mais um excelente texto, justamente mostrando como o “gigante” ainda dorme profundamente, “vendo” o circo pegar fogo bem diante de seus olhos fechados. Diz Fiuza:

Ora, não resta outra conclusão possível: o eleitor quer entrar na farra do petrolão. Está vendo quantos aliados de Dilma encheram os bolsos com o duto aberto na Petrobras, e deve estar achando que alguma hora vai sobrar um qualquer para ele. É compreensível. Se o esquema irrigou tantos companheiros nos últimos 12 anos, imagine quando a prospecção chegar ao pré-sal. Ninguém mais vai precisar trabalhar (a não ser os reacionários que não cultivarem as relações certas).

É o show da brasilidade. O operador do petrolão é colocado no cargo no segundo ano do governo Lula, indicado por um amigo do rei já lambuzado pelo mensalão. No tal cargo — a Diretoria de Abastecimento da Petrobras —, ele centraliza um esquema bilionário de corrupção, que floresce viçoso à sombra de três mandatos petistas. A exemplo do mensalão, já se sabe que o petrolão contemplava a base aliada do governo popular. E quase 40% dos brasileiros estão dizendo que votarão exatamente na candidata desse governo lambuzado de petróleo roubado.

Mas os progressistas continuam sentenciando, triunfais: o Brasil jamais será o mesmo depois das manifestações de junho de 2013. Nesse Brasil revolucionário, cheio de cidadãos incendiados de bravura cívica, a CPI da Petrobras, coitada, agoniza em praça pública. Sobrevive a cada semana, a duras penas, com mais um par de manchetes da imprensa burguesa e golpista, que insiste em sabotar o programa do PT (Petrolão para Todos). Tudo em vão. Com uma opinião pública dessas, talvez os companheiros possam até desistir do seu plano chavista de controle da imprensa: o assalto à Petrobras não faz nem cócegas no cenário eleitoral. Contando, ninguém acredita.

E não dá para acreditar mesmo! Como resume Fiuza, o Brasil está louco para virar a Argentina. São infindáveis escândalos e nada. O que dizer de um povo desses? Extremamente ignorante ou cúmplice do butim? Fiuza ironiza, pois é o que nos resta: “O eleitor está certo: vamos reeleger Dilma. Assim chegará o dia em que não apenas a elite vermelha, mas todo brasileiro terá direito à propina própria. Chega de desigualdade”.

É muito complicado ter algum tipo de esperança em um país como o nosso. Gostaria de passar uma mensagem de luta, de esperança, de fé em nosso povo, em nossa capacidade de reverter tudo isso, de mudar para melhor, de colocar o Brasil na rota do desenvolvimento sustentável e da ética. Mas não tenho, no momento, forças ou argumentos para combater aqueles que, cínicos, céticos ou realistas, repetem que isso aqui não tem mais jeito e mandam que o último a sair apague as luzes. A coisa está feia…

Rodrigo Constantino

 

Marina Silva está certa em suas críticas ao BNDES

Em um artigo publicado hoje na Folha, Fábio Kerche, que é assessor da Presidência do BNDES e foi secretário de Imprensa da Presidência da República durante o governo Lula, tentou rebater a acusação que Marina Silva fez ao banco de fomento em sua entrevista no “Bom Dia Brasil”. Não foi nada convincente, demonstrando como é possível contar uma grande mentira usando meias verdades.

Para começo de conversa, o autor se pegou em uma questão semântica ao dizer:

Em primeiro lugar, o BNDES não “dá” dinheiro a ninguém, ele empresta. Isso significa que o banco recebe de volta, corrigidos por juros, os seus financiamentos. Sua taxa de inadimplência é de 0,07% sobre o total da carteira de crédito, segundo o último balanço, sendo a mais baixa de todo o sistema bancário no Brasil, público e privado.

Ora, é lógico que ele oficialmente não “dá” o recurso, e sim empresta. Mas empresta a uma taxa absurdamente subsidiada, que em muitos casos fica em torno da metade da própria inflação! Ou seja, pela ótica do custo de oportunidade, é dinheiro dado sim, pois toda a torcida do Flamengo e do Corinthians gostaria de pegar dinheiro a 3% ao ano. Bastaria aplicar em títulos públicos que rendem quase 11% ao ano e ganhar uma fortuna sem esforço algum. É ou não é dado, na prática? Mas ele continua:

Em relação aos empresários “falidos”, talvez a candidata, em um esforço de transformar em regra a exceção, esteja se referindo ao caso Eike Batista. Se isso for verdade, temos mais uma imprecisão: seja por causa de um eficiente sistema de garantias das operações, seja porque grupos sólidos assumiram algumas empresas, o BNDES não sofreu perdas frente aos problemas enfrentados pelo empresariado.

Qualquer economista conhece o processo de crédito contínuo para empresas ou países falidos. O próprio FMI padece desse mal, pois nenhum burocrata ou analista gosta de reconhecer o erro e o prejuízo. Logo, acaba emprestando mais recursos ainda para grupos em dificuldade, na esperança de que não seja preciso reconhecer o calote, ao menos não por enquanto. Mas quem poderia negar que os bilhões todos emprestados ao grupo de Eike Batista foram um enorme erro? Tem mais:

Por fim, nada mais falso do que dizer que o BNDES empresta para “meia dúzia”. No ano passado, o banco fez mais de 1 milhão de operações, sendo que 97% delas para micro, pequenas e médias empresas.

Usar o volume de operações é ridículo, uma vez que nada diz sobre o montante. Eu posso fazer mil operações de R$ 1 e uma só de R$ 1 milhão. Daria para alegar que emprestei para mil e uma pessoas e, portanto, diversifico bastante minha base de clientes? Piada. Mas ele tenta melhorar depois:

Embora o BNDES não tenha a capilaridade dos bancos de varejo, a instituição aumentou seus desembolsos para as pequenas empresas de cerca de 20% do total liberado na primeira década de 2000 para mais de 30% no ano passado. Se retirássemos as típicas áreas onde os pequenos não atuam (setor público, infraestrutura e comércio exterior), os financiamentos para os menores representariam 50% dos desembolsos do banco.

Pois bem: vamos aos números! Basta ver no próprio site do BNDES as estatísticas disponíveispor porte de empresa:

Fonte: BNDES

Fonte: BNDES

Notem que a partir de 2010 foi criada uma nova categoria de empresa média-grande, o que mais parece um malabarismo do banco para reduzir a proporção de grandes no total. Bem típico do governo Dilma fazer algo assim. E mesmo com esse subterfúgio, o fato é que algo como 70% do total é direcionado para empresas grandes, e de forma bastante estável ao longo do tempo:

Fonte: BNDES

Fonte: BNDES

Ou seja, é inegável que o BNDES canaliza o grosso de seus desembolsos para grandes grupos nacionais, justificando plenamente a alcunha de “Bolsa Empresário”. Apenas Eike Batista recebeu sozinho mais de R$ 10 bilhões, e o mesmo vale para o grupo JBS, que retribuiu doando mais de R$ 100 milhões para a campanha eleitoral, boa parte para o PT. Como negar os fatos tão escancarados?

Desde que o PT assumiu o governo foram destinados algo como R$ 1,2 trilhão pelo BNDES, e mais de R$ 800 bilhões foram para grandes empresas. O banco mudou de magnitude: desembolsava menos de R$ 40 bilhões por ano, e agora chega a quase R$ 200 bilhões.

É a alegria dos “amigos do rei”. É o maior esquema de transferência de riqueza do povo trabalhador para os ricos empresários. E é o que o PT defende, e Marina Silva critica, com toda razão. Só mesmo muito malabarismo para justificar o papel atual do BNDES, distorcendo totalmente a alocação de recursos da nossa economia e tornando o “investimento” em lobby em Brasília mais importante do que aquele produtivo.

Rodrigo Constantino

 

Dilma dá todos os sinais de que pretende dobrar a aposta nos erros

Eu acredito que Dilma será racional e mudará radicalmente o curso da economia no segundo mandato!

Ainda não digeri a entrevista que o banqueiro Ricardo Lacerda concedeu a Geraldo Samor, e que já comentei aqui. Assumindo que se trata de uma análise isenta, sem interesses monetários envolvidos, como pode alguém com tal cargo adotar postura tão ingênua? De onde ele tirou a ideia de que Dilma seria mais pragmática e teria bom senso no segundo mandato, se todos os indícios apontam na direção contrária?

O banqueiro deveria ler com muita atenção acoluna de Rogério Werneck hoje no GLOBO. O professor da PUC mostra justamente como Dilma emite todos os sinais de que não só ignora seus tantos equívocos, como pretende insistir nos erros e dobrar a aposta. Basta ter olhos para enxergar e ouvidos para escutar. Diz ele:

O que é especialmente desanimador é que não se vê, no discurso da presidente Dilma, o mais tênue sinal de disposição para corrigir o rumo da política econômica, à luz dos equívocos cometidos nos últimos anos. A impressão que se tem é que a intenção da candidata à reeleição é dobrar a aposta e persistir nos mesmos erros, na vã esperança de que o desempenho da economia no segundo mandato acabe por lhe dar razão.

[...]

“Então o que nós achamos?”, indaga Dilma. “Nós achamos que a gente tem de ver como é que evolui a crise”, pois, “se ela evoluir para uma situação um pouco melhor”, o país “pode entrar em uma outra fase, que precisa menos estímulos”, “pode ficar mais entregue à dinâmica natural da economia e pode, perfeitamente, passar por uma retomada”.

Parece difícil de acreditar, mas não foi mais do que isso que a candidata a presidente que, com folga, lidera as pesquisas de intenção de voto no primeiro turno, tinha a dizer sobre como pretende lidar com os sérios desafios de política econômica que o país tem pela frente.

Ontem mesmo a presidente ridicularizou quem fala em necessidade de choque fiscal, repetindo um discurso digno do PSOL, de que isso seria cortar benefícios dos pobres para alegrar banqueiros. O próprio banqueiro pode, claro, esforçar-se muito para crer que tudo não passa de jogo de cena, de discurso eleitoral – ou eleitoreiro – para manter-se no poder, e que logo depois a presidente mudaria radicalmente seu discurso e beberia na fonte da razão.

Mas convenhamos: é mais fácil acreditar que um unicórnio chegará voando em sua casa, trazendo junto o Coelhinho da Páscoa e o Saci Pererê, e todos juntos cantarão uma bela canção de ninar para seu filho. Quem lida com fatos, e não com esperanças desprovidas de fundamento, não tem como negar: tudo aquilo que Dilma diz e faz demonstra que é o modelo argentino que ela visa, não uma mudança correta de rumo.

Rodrigo Constantino

 

Quando as elites se alinham aos analfabetos… Ou: Os banqueiros e o PT

Tudo joia, colega? Pode acreditar em mim que adoro ou trouxa!

Acabei de publicar um texto sobre a simbiose entre analfabetismo e populismo. A correlação é evidente: quanto menos educação, mais voto no PT. Mas como meus leitores sabem, sou um crítico ainda mais ferrenho das nossas elites, dos nossos supostos formadores de opinião. Se as massas são manipuláveis, boa parte da elite se mostra alienada.

Tenho um amigo, por exemplo, que é um empresário bem-sucedido, e que defendia Dilma no passado. Hoje a critica, mas parece não ter aprendido nada: pretende votar em Marcelo Freixo, do PSOL, para deputado estadual. O que dá nessa gente? O que tem na cabeça? Titica de galinha?

É o caso até de banqueiros! Em entrevista para Geraldo Samor na Veja.com, o banqueiro Ricardo Lacerda demonstra uma espantosa ingenuidade em relação ao PT e ao que uma reeleição de Dilma representaria ao país. Lacerda, que foi da Goldman Sachs e do Citibank, acha não só que Dilma será reeleita, como que isso não será um desastre, pois seu segundo mandato seria bem mais pragmático. Diz ele:

“Em condições normais a tendência é sempre pela reeleição e tirar alguém do poder é uma tarefa árdua. É preciso um motivo forte para não reeleger um governante. Não vejo esse motivo no cenário atual. Criou-se muita riqueza no país nos últimos 20 anos e, a despeito de um quadro mais adverso a partir de 2013, os principais indicadores econômicos ainda estão em níveis razoáveis. O desemprego ainda é baixo e persiste uma sensação de bem estar na população. Certamente veremos uma disputa acirrada, mas minha leitura é que no frigir dos ovos a maioria vai optar pela continuidade do atual governo.

[...]

Não é possível que não haja denominador comum entre uma presidente reeleita e o mercado. Tem que haver um jeito de trabalhar junto. Vejo como altamente viável uma reaproximação da presidente Dilma com o setor privado após a reeleição. Basta um nome de credibilidade no comando da economia e uma política fiscal séria para as coisas voltarem aos eixos.

[...]

É evidente que o intervencionismo teve um efeito pernicioso e criou um clima de desconfiança, prejudicando o investimento. Mas nada que não seja reversível ou ajustável. O governo precisa abandonar seu viés ideológico e confiar mais na iniciativa privada.

[...]

A reeleição da Dilma não é o fim do mundo. Confesso que não vejo na presidente o bicho papão em que o mercado financeiro insiste em transformá-la. Talvez estejam todos dando uma importância excessiva ao [seu] estilo. A reeleição não significa que o governo estava certo em tudo. Muitos erros estão hoje evidentes. O desejo de mudança está claro em todos os sinais emitidos pela população. Acho que a presidente saberá entender essa mensagem e prevalecerá o bom senso.

[...]

Ingenuidade é imaginar que um país com as complexidades do Brasil pode adotar uma política econômica absolutamente ortodoxa, como nós do mercado financeiro gostaríamos. Não há nada mais distante da realidade do que essa pretensão. Temos um país com enormes diferenças e uma dinâmica política que exige inúmeras acomodações. Nesse contexto, não há muito o que fazer a não ser aprender com nossos erros.”

É ou não é um espanto? Como alguém consegue esperar bom senso de Dilma ainda, depois de tudo o que ela fez e disse? Como alguém pode achar que vai prevalecer a racionalidade? Como alguém pode achar que um nome que goza da confiança dos investidores aceitaria participar de seu segundo mandato? Como alguém pode fechar os olhos para o que aconteceu na Argentina e na Venezuela e pensar que o Brasil está completamente blindado contra tal risco?

Talvez seja apenas um otimismo infundado fruto do desejo, pois há muitos investimentos em jogo feitos por sua empresa. Talvez seja um caso típico de colocar as emoções à frente da razão. Ainda assim não deixa de ser incrível um banqueiro adotar tal discurso negligente, quando o país caminha a passos largos rumo à desgraça. Não falo somente da economia, o que já seria grave o suficiente, mas também do autoritarismo bolivariano.

Outro banqueiro, Daniel Dantas, resolveu dar mais de um milhão de reais para a campanha do PT. André Esteves, do BTG Pactual, doou vários milhões para a campanha do partido. E por aí vai. Mesmo dando um desconto de que Dilma ainda tem chances razoáveis de vitória e que, no Brasil, ficar bem com o poder é muito importante para os negócios, essa postura é execrável e demonstra como falta às nossas elites uma visão de longo prazo de nação.

Rodrigo Constantino

 

Coutinho nas amarelas da Veja: um conservador contra as utopias e o estado-babá

Excelente a entrevista nas páginas amarelas de Veja desta semana com João Pereira Coutinho. Duda Teixeira conseguiu extrair do entrevistado um ótimo resumo de qual a postura típica de um conservador “de boa estirpe”, aquela da linhagem britânica pela qual tenho profundo respeito e apreço.

Na primeira resposta, Coutinho reage com humor ao preconceito tão difundido contra o conservadorismo em nosso país:

Coutinho1

E como não rir (para não chorar) dessa situação pitoresca, em que um comunista ainda pode se dizer comunista sem problemas, mesmo após tudo o que o comunismo fez, mas um conservador anda esgueirado pelos cantos, olhar atento, como se tivesse acabado de matar um pobre inocente em praça pública?

O conservador é, antes de tudo, um cético quando se trata da natureza humana. Condena a ideia de perfectibilidade de nossa espécie, e desconfia de todas as utopias redentoras. Justamente por saber que “somos todos macacos”, entende que o político também é um “macaco” e que, portanto, precisa ter o poder bastante limitado.

Coutinho chama a atenção para a esquizofrenia do povo brasileiro ao considerar a classe política em geral corrupta, enquanto defende mais estado como solução para todos os problemas, como se o estado fosse administrado por seres celestiais, e não pelos próprios políticos. Sobre nossa “presidenta” e o autoritarismo em geral, coloca o dedo na ferida ao constatar ser um caso de narcisismo infantil:

Coutinho2

Um conservador compreende que do “pau torto” de que somos feitos, nada perfeito pode sair. Essa premissa é suficiente para enterrar muita ideologia com a pretensão de substituir as religiões, com a oferta de um paraíso terrestre. O que nos remete ao escandaloso estado-babá atual que temos mundo afora, com a promessa de cuidar de cada um de nós do berço ao túmulo. Diz Coutinho:

Coutinho3

Para lutar contra as utopias, o estado-babá gigante, as revoluções narcisistas, o infantilismo moderno, nada como um bom e velho (ou tradicional) conservadorismo. Infelizmente, vários brasileiros escutam o termo e pensam logo em Sarney, regime militar ou Bolsonaro. Aí complica…

Rodrigo Constantino

 

Freud: um conservador rebelde

A morte de Freud completou 75 anos nessa semana. Escrevi recentemente um ensaiosustentando a tese de que o “pai da psicanálise” não era um “progressista”, e sim um conservador em sua essência, ainda que de forma peculiar. Fico feliz ao ver que Elisabeth Roudinesco, grande especialista em Freud e que acaba de lançar nova biografia sobre ele, o define justamente como um “conservador rebelde”. Ela diz em entrevista ao GLOBO:

A senhora define Freud como um “conservador rebelde”. Por quê?

Sem dúvida é um conservador rebelde. Ele entrou em rebelião contra os modos de pensar majoritários de sua época. Ele é um liberal conservador, que induziu uma revolução do íntimo. É contemporâneo do socialismo, do comunismo, do feminismo, de todos os movimentos de emancipação. Mas sua característica é que retorne sempre ao Antigo, algo muito típico também de Viena e da cultura alemã. Para fazer uma revolução do íntimo, vai buscar modelos míticos na tragédia grega e não na modernidade literária, a qual, aliás, ele não entende muito bem. Ele tem este aspecto politicamente conservador, vota liberal, trabalha com os sociais-democratas em Viena, não confunde jamais o comunismo e o nazismo, mas não acredita que uma revolução social do tipo marxista vai dar certo. Ele é contemporâneo da Revolução Russa. Não é a favor das convulsões republicanas francesas. Mas seu movimento psicanalítico é aberto, com discípulos de todas as tendências, progressistas, conservadores. Ele era pela emancipação das mulheres, e contra a supressão das instituições. Há uma imagem muito justa de Freud: era favorável à morte do pai, ao regicídio, mas a favor de que se recolocasse um rei no trono. Isto é explicado em “Totem e Tabu”. Freud é regicida na condição de que reinstaure a monarquia depois de ter sido abolida. Não é republicano no sentido francês. Ele gosta muito de Paris, mas não é a favor de revoluções do tipo francês. O modelo para ele é Londres, o modelo econômico liberal inglês, e a cultura do Sul, a Itália e a Antiguidade romana.; e mais longe, a grega, e mais longe ainda, o Egito. Freud é um homem da bacia mediterrânica em seus sonhos, algo muito austríaco, entre o Norte e o Sul, e muito ligado ao modelo de monarquia constitucional. E ele é judeu, o que tem um papel considerável. Não é a favor do sionismo, à criação de um Estado judeu, prefere a diáspora, mas herdou algo desta rebelião. Para época de Freud, o inimigo é a religião. Ele é pela ciência. O que faz com que por vezes, em seu debate com o pastor Oskar Pfister (1873-1956), possa se enganar, confunde religião e fé. Mas para esta geração de homens sábios, originados do materialismo, o inimigo é o religioso. Ele tem isto em comum com Marx. Por isso é um conservador bastante singular. Ele é pela liberdade sexual, contra a pena de morte.

Acho que é bem por aí. Foi revolucionário em alguns aspectos, mas tinha o conservadorismo, o apreço pelo Antigo, o respeito pelas instituições enraizadas, o ceticismo com a libertinagem livre de freios, tudo isso bem sedimentado, o que jamais o colocaria no mesmo saco dos liberticidas modernos.

Rodrigo Constantino

Comunistas ficam revoltados com perfumes em homenagem a Che Guevara e Chávez

Dois perfumes inspirados no líder guerrilheiro argentino Che Guevara e no ex-presidente venezuelano Hugo Chávez foram apresentados pelo laboratório farmacêutico estatal Labiofam, em Cuba.

‘Ernesto’ é mais amadeirado e doce, com um toque refrescante no final. Já ‘Hugo’ tem uma fragrância mais suave, com reminiscências de frutas tropicais, como manga e mamão. É menos penetrante e sutil, ao contrário do estilo do intervencionista e sempre confrontativo líder bolivariano.

Segundo os representantes do laboratório estatal, os perfumes foram elaborados com produtos naturais depois de um ano e meio de experiências. A empresa de perfumes francesa Robertet foi parceira na criação de ‘Ernesto’ e ‘Hugo’.

Che Guevara, que pregava a favor de uma sociedade não-consumista, acabou virando mershandising em todo o mundo, inclusive em Cuba: sua imagem está em camisetas, chaveiros, canecas, entre outros produtos. No entanto, o laboratório cubano afirma que não pretende tirar proveito capitalista do uso da imagem dos dois líderes com intenções de marketing.

A notícia gerou muita revolta no meio comunista brasileiro. O PCdoB emitiu uma nota alegando que o irmão Che jamais aprovaria isso, e que um perfume que quisesse homenagear o revolucionário deveria ter o cheiro de sangue, o mesmo que lhe dava tesão. “Che amava o cheiro do sangue de suas vítimas, esse tinha que ser o odor de um perfume com seu nome”, disse o pacifista Frei Betto.

Outros alegaram que o perfume deveria ter a essência sublime de um porco chafurdando na lama, já que seu apelido era justamente el chancho. “Coisa de macho, daqueles que perseguiam gays e tentavam curá-los em campo de concentração”, declarou um eufórico e saltitante Jean Wyllys, usando uma boina no mesmo estilo do ídolo.

Luciana Genro, do PSOL, considerou um absurdo a iniciativa, um claro indício de que Cuba se curva diante da ditadura do mercado, que impõe um conceito de estética burguesa. Quem disse que mulheres precisam se depilar e homens devem usar perfumes? Declarou que era tudo culpa do Capital Financeiro, e disse que não poderia mais falar com o blog, pois estava atrasada para o salão e ainda tinha que passar na MAC para comprar sua maquiagem.

O companheiro Lula também se manifestou, lembrando que Chávez merecia um perfume com o cheiro de enxofre, em homenagem ao seu discurso na ONU em referência ao diabo Bush que passara antes por ali. “Isso de cheiro doce é coisa de viado, que Pelotas exporta”, ironizou o ex-presidente que não sabia que era filmado.

Maduro também criticou a iniciativa cubana, garantindo que Chávez, por meio de um passarinho, não tinha gostado nada da homenagem.

Chico Buarque preferiu não se manifestar, pois alegou que só usa perfume francês e que em Paris não teria acesso aos novos produtos para criticar ou elogiar.

Os comunistas brasileiros decidiram assinar uma carta de protesto, reivindicando o resgate da memória dos dois gurus. Mandaram até uma carta para Kim Jong-Un, solicitando uma intervenção em Cuba para preservar o legado comunista. Ainda aguardam resposta, pois Kim estava ocupado degolando alguns dissidentes que se recusaram a adotar o mesmo corte de cabelo dele.

Rodrigo Constantino

 

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Blog Rodrigo Constantino, veja

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