“Sem crescimento não há como atender a demandas sociais”

Publicado em 13/11/2014 14:02 412 exibições
por Ricardo Constantino, de veja.com

“Sem crescimento não há como atender a demandas sociais”, alerta Gerdau

Jorge Gerdau

Criou-se uma falsa dicotomia entre crescimento econômico e políticas sociais, como se estas não dependessem daquele. Quando uma economia para de crescer, o governo precisa apertar os cintos, cortar gastos, fechar a torneira. E isso afeta os programas sociais, claro.

A alternativa é produzir inflação, o que representa um imposto perverso sobre os mais pobres. De uma forma ou de outra, o social é duramente prejudicado pela ausência de crescimento da economia. Um país estagnado pune de forma desproporcional os mais pobres.

Quem reforçou esse alerta foi o empresário Jorge Gerdau, que já esteve mais próximo do governo Dilma, tentando levar algum bom senso da iniciativa privada para a gestão pública. Hoje ele reconhece que não é algo simples, pois o mecanismo de incentivos é diferente: ao contrário da empresa, o governo não corre o risco de “morrer”. Suas trapalhadas recaem sobre ombros alheios.

Para Gerdau, falta visão estratégica ao governo. Qual será a postura externa adotada pelo governo? Será mesmo na linha do Mercosul, ou há chance de seguirmos na linha do Pacífico e nos aproximarmos dos Estados Unidos? Sem tais definições, os empresários não conseguem investir pesado, pois temem um futuro sombrio. Dezenas de bilhões aguardam por definições na gaveta.

Em evento da Lide, Gerdau chegou a criticar a postura do governo em relação ao Bolsa Família, alegando que deveria ser comemorado quando alguém deixa o programa assistencialista, não quando mais gente entra nele, dependendo do estado. É preciso valorizar o trabalho. “Quem caça come, quem não caça, não come”, resumiu. Nossos valores invertidos têm privilegiado quem não produz.

Jorge Gerdau sempre defendeu abertamente a importância da economia de mercado como locomotiva do progresso social. Em tempos mais recentes, tentou colaborar com o governo Dilma, dando conselhos, buscando levar essa mensagem mais liberal aos governantes. Sua decepção tem sido visível.

Chegou a chamar de “burrice” criar tantos ministérios, o que tornaria inviável o governo. Dilma diz que é “lorota” essa suposta necessidade de reduzir a quantidade de ministérios. Algumas pessoas são mesmo impermeáveis à razão. Gerdau deve ter descoberto isso na prática, tentando persuadir Dilma e sua equipe com argumentos lógicos…

Rodrigo Constantino

Por que você deve se preocupar com os déficits gêmeos?

Não venha me falar de ortodoxia…

Uma das situações econômicas mais preocupantes é a de déficits gêmeos, quando tanto as contas externas como o lado fiscal estão no vermelho. O país importa mais do que exporta, e o governo gasta mais do que arrecada. Por que isso é tão perigoso?

Sempre gosto de comparar o estado ou um país com um indivíduo, pois fica mais fácil para o entendimento. Afinal, o que é um país além do somatório de indivíduos? E o que é o estado senão um instrumento para administrar os recursos públicos obtidos por nossos impostos?

Pensemos, então, num indivíduo: ele “exporta” seus bens e serviços, praticando trocas voluntárias no mercado, e “importa” de outros, comprando bens e serviços produzidos por terceiros. O que ele exporta serve para pagar pelo que importa.

Se ele exportar mais, está acumulando poupança, que será emprestada para outros em troca de um rendimento. Não necessariamente é positivo sempre exportar mais, como acreditam os mercantilistas. Podemos pensar em um jovem em fase de ascensão profissional, que precisa investir mais em conhecimento para prosperar na carreira. Nessa fase jovem, fará sentido ele tomar poupança emprestado e investir em coisas produtivas.

Claro que se ele importar mais, tomando emprestado de outros, apenas para consumir mais luxo, em vez de melhorar sua produtividade, ele estará bancando o playboy irresponsável e terá dificuldades à frente.

Do lado fiscal, é mais simples ainda: ele ganha um salário e tem seus gastos. Se estes são maiores do que aquele, ele precisará se financiar com terceiros também, eventualmente entrando no cheque especial ou caindo nas garras de um agiota.

Aqui há uma diferença básica entre indivíduo e estado: este possui a prerrogativa de imprimir dinheiro ou moeda paralela, via crédito de bancos públicos. É como um indivíduo com uma máquina de falsificar reais. Se ele abusar desse poder, irá prejudicar os outros, gerando inflação. Haverá mais demanda por bens do que oferta, já que a demanda foi artificialmente criada.

Toda essa introdução resumida foi para chegar na conclusão: um país que mergulhou nos déficits gêmeos, com rombo tanto nas contas externas como no orçamento estatal, terá de contar com o financiamento de outros países, ou indivíduos de outros países. Será cada vez mais dependente da poupança externa.

O problema é que todos os credores estarão avaliando essa situação e julgando nossa capacidade futura de pagamento. Um gastador crônico costuma ter o nome sujo na praça. Para tomar dinheiro emprestado, acaba tendo que pagar altas taxas de juros.

A presidente Dilma minimizou nosso quadro, comparando o Brasil com países desenvolvidos em condições bastante diferentes, como o Japão. Disse que nossa dívida líquida é de apenas 35% do PIB, ignorando que temos uma dívida bruta acima de 60%, e que ninguém mais olha para a líquida, pois conhece os malabarismos contábeis e o orçamento paralelo via BNDES. O que importa é o risco total, maior hoje por conta da dívida bruta do governo.

A presidente não levou em conta, ainda, que os países ricos gozam de credibilidade, confiança nas regras do jogo, possuem muito mais ativos, e podem se financiar pagando taxas de juros bem menores. Já o Brasil é como um ex-alcoólatra que saiu da clínica de reabilitação há alguns anos, e começa a beber socialmente, cada vez mais, prometendo ter tomado juízo. Até quando pode abusar da sorte?

editorial do GLOBO de hoje alerta para a proximidade desse limite, afirmando que a contabilidade criativa chegou ao seu apogeu com o governo tentando rasgar a responsabilidade fiscal e fingindo que não é nada disso. Conclui:

Não será possível começar o segundo mandato nesse quadro calamitoso. É urgente que a presidente Dilma componha sua nova equipe econômica com nomes de reconhecida credibilidade e capacidade para pôr a casa em ordem. A economia brasileira está na eminência de ser rebaixada na classificação de agências internacionais de avaliação de risco, ficando a um passo de perder o grau de investimento conquistado a duras penas. A cada rebaixamento, ficará mais difícil financiar os déficits gêmeos, das contas externas e das finanças públicas, o que, por sua vez, se refletirá em mais inflação e menos crescimento econômico.

Exatamente: para fechar os rombos dos déficits gêmeos, o governo terá de produzir cada vez mais inflação e pagar juros maiores, jogando a economia de vez em recessão e mesmo assim com alta inflação. É o custo da heterodoxia, que trata aumento de gastos públicos como uma solução para todos os males sociais, sem levar em conta os limites impostos pela realidade econômica.

Quando Lula assumiu em 2003, a situação também era bem delicada, em boa parte devido ao próprio medo dos investidores com o PT no poder e suas velhas promessas heterodoxas. Lula soube abandonar esse passado e adotar postura mais pragmática. Nem ele nem o médico Palocci eram economistas, e souberam ignorar as receitas dos economistas da Unicamp ligados ao PT.

Carlos Alberto Sardenberg, com sua forma didática, resume bem essa trajetória, e faz uma comparação com a situação atual de Dilma. Lembra que o pragmatismo de Lula foi duramente combatido pelos aliados mais próximos da presidente, e por ela mesma, que sempre tentou derrubar Palocci e Meirelles. Uma vez no poder, teve liberdade para adotar seu próprio modelo. Deu no que deu. Conclui Sardenberg:

Entra Dilma e começa a derrubar os pilares daquela base macroeconômica. Não anunciou que as metas mudavam, mas fez a coisa. Dizia ter compromisso com a meta de inflação de 4,5%, mas deixou-a correr para 6,5%. Dizia ter compromisso com a estabilidade das contas públicas, mas aumentou o gasto sistematicamente, enquanto reduzia o superávit primário, até transformá-lo em déficit. O resultado dessa virada é isso aí: inflação alta, juros altos e estagnação.

Por necessidade, de novo, Lula voltou a campo. Quer levar Henrique Meirelles para o Ministério da Fazenda, com poderes para comandar e mudar a política econômica. Quer que Dilma 15 seja igual Lula 2003. Dilma resiste. Exatamente a mesma disputa de 2002. Com uma diferença: o presidente era Lula.

Agora é Dilma uma vez mais. Todos clamam por bom senso, até a ex-ministra da Cultura, Marta Suplicy, que pede mudança de equipe e resgate da credibilidade perdida. É o racha entre “dilmismo” e “lulismo” dentro do próprio PT. São as velhas forças ideológicas lutando contra o maior pragmatismo daqueles que, não sendo economistas, aprenderam ao menos alguma coisa com a experiência.

Quais são as chances de Dilma efetivamente levar a sério os alertas dos ortodoxos que criticam os déficits gêmeos? Há quem acredite que, no final, o bom senso irá prevalecer. Não tenho tanto otimismo. Acredito no poder da ideologia, que pode cegar suas vítimas para quaisquer fatos contrários e produzir dissonância cognitiva. E jamais subestimo a intransigência dos crentes…

Rodrigo Constantino

Cegueira inatencional: atenção seletiva e o gorila invisível

Quase todos conhecem o experimento do “gorila invisível”, que ficou famoso quando um vídeo com jogadores de basquete se espalhou pelo mundo, pois surge do nada um grande sujeito fantasiado de gorila, mas poucos notam sua presença. Estão muito focados no desafio proposto, de contar os passes de bola dos times.

Os autores do experimento são Christopher Chabris e Daniel Simons, ambos Ph.Ds em psicologia, um por Harvard e o outro por Cornell. O caso do gorila invisível abre o livro deles com o mesmo título, e que contém outros experimentos interessantes sobre as falhas de nossa intuição. Eles escrevem:

A ilusão de atenção afeta a todos, de diversos modos, do corriqueiro ao risco de vida – é realmente uma ilusão cotidiana. Ela influencia tudo, dos acidentes de tráfego e painéis de aviões aos telefones celulares, na medicina e até nas performances do metrô. O experimento do gorila ficou cada vez mais conhecido e tem sido usado para explicar inúmeras falhas de atenção, das concretas às abstratas, em diversas áreas. Não se trata apenas da atenção visual; a ilusão se verifica no mesmo grau em todos os nossos sentidos e até mesmo em questões mais amplas à nossa volta. O experimento do gorila é poderoso porque força as pessoas a se confrontarem com a ilusão de atenção. Ele fornece uma excelente metáfora justamente por conta do amplo alcance da ilusão de atenção.

É o que os autores chamam de “cegueira inatencional”. Devido ao nosso limite de tempo e recursos e o custo de atenção a tudo, tendemos a focalizar o pensamento para economizar energia. Normalmente, isso funciona bem, pois eventos inesperados são inesperados por uma boa razão: são raros. Mas quando eles ocorrem e impõem grandes consequências, aí ignorá-los pode ser fatal.

Isso veio à mente hoje quando vi a reação dos mercados ao governo tentando mudar a meta do superávit fiscal no Congresso, com amplo apoio do PMDB e da base aliada. O Ibovespa subiu! Confesso que esperava uma reação diferente, mais nervosa, pois isso é algo muito grave. Significa, como argumentei aqui, a destruição do último pilar do tripé macroeconômico, a morte da Lei de Responsabilidade Fiscal. No entanto, foi ignorado pelo “mercado”, pelos investidores. Por quê?

Não sei ao certo a resposta. Talvez a maioria dos investidores pense que isso já era esperado e que está no preço dos ativos, ou que é apenas uma medida temporária para compensar uma queda da atividade econômica. Sabemos como o desejo de crer pode ser mais forte do que a experiência e a razão somadas.

Mas uso a tese do gorila invisível como uma explicação alternativa: o “mercado” todo está atento a uma só coisa, basicamente: quem será o ministro da Fazenda novo? Esse nome nunca foi tão importante para definir qual rumo a presidente Dilma pretende adotar no segundo mandato. Estão tão atentos a essa questão, que talvez tenham deixado passar o gorila que dançou bem diante de seus olhos.

Enquanto debatem se vai ser Henrique Meirelles, Nelson Barbosa, Alexandre Tombini, ou algum outro nome dos mais cotados por aí, esqueceram de observar o gorila enorme que entrou na quadra, ou melhor, na Bolsa: o recado já foi dado pela presidente e seu governo, e não é nada animador.

Vem abandono total da responsabilidade fiscal aí, e isso não pode significar nada além de “mais do mesmo”, ou seja, Dilma continuará sendo… Dilma! Como celebrar uma coisa dessas?

Rodrigo Constantino

 

Então o PT reconhece que o modelo bolivariano é antidemocrático?

Min. Gilmar Mentes, dos poucos a reconhecer publicamente o risco bolivariano no próprio STF

Fiquei confuso com a reação que a declaração do ministro do STF Gilmar Mendes causou. Em entrevista à Folha, ele disse que “o STF não pode se converter em uma corte bolivariana”, deixando claro, portanto, que enxerga tal ameaça. Muitos aliados do governo condenaram o ministro, alegando que a comparação é absurda.

Um deles, Luís Inácio Adams, ninguém menos do que o ministro-chefe da Advocacia-Geral da União, publicou um artigo hoje no mesmo jornal com o seguinte trecho:

De uma só vez, o ministro questionou três Poderes da República. O Executivo, pois é a Constituição que determina ao presidente da República a indicação dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal). O Legislativo, já que incumbe ao Senado a aprovação da indicação. E o Judiciário, uma vez que o STF é nossa corte suprema. Mas, sobretudo, foram atingidas a democracia brasileira e suas instituições.

Tal declaração assenta-se em grave equívoco. A realidade venezuelana não se compara à do Brasil, sendo que a afirmação do ministro Gilmar Mendes não guarda qualquer proximidade com o efetivo funcionamento das instituições políticas brasileiras, particularmente do Supremo Tribunal Federal.

De fato, a nossa corte suprema tem se notabilizado, nos 26 anos de vigência da Constituição, como uma instituição independente e vocacionada à defesa da dignidade da pessoa humana, da democracia e do Estado brasileiro.

É preciso reafirmar que o governo do presidente Lula e o governo da presidenta Dilma Rousseff foram exemplares no fortalecimento das instituições democráticas.

Então quer dizer que o PT reconhece que o modelo venezuelano é antidemocrático agora? Admite publicamente que as instituições democráticas foram dilapidadas no país? Pergunto isso pois lembro perfeitamente de Lula afirmando que havia “excesso de democracia” na Venezuela chavista. Dilma ofereceu apoio a Maduro mesmo quando este usava milicianos para atacar a população.

O que mudou? Quer dizer que afirmar que o PT pretende caminhar na direção do modelo bolivariano, algo declarado pelos próprios petistas da alta cúpula, é agora temerário? Adams diz que a verdadeira ameaça à democracia brasileira vem da oposição, dos que pedem recontagem de votos “sem nenhuma sustentação”, dos que se mostram “intolerantes” (com a corrupção?).

A tentativa de descolar completamente o Brasil da Venezuela vem daqueles que, ontem, elogiavam o modelo venezuelano, e ainda hoje se recusam a criticá-lo abertamente. Fica complicado compreender o que pensam os petistas. Seguir na linha venezuelana é bom ou ruim, afinal?

Se é tão terrível assim, como nós sempre pensamos e agora vocês dizem, a ponto de gerar essa reação toda, então por que o PT não rejeita publicamente o bolivarianismo? Isso não ajudaria a dissipar dúvidas? Sem esse ato público, creio que nós temos o direito de manter a cautela e julgar tal reação dissimulada, de quem não quer que o outro reconheça a existência do diabo, pois assim fica bem mais fácil para ele fazer seu trabalho…

Rodrigo Constantino

 

A máscara da morte escarlate

Eu sei lá por que pensei no Brasil atual ao ler esse conto macabro de Edgar Allan Poe. Só sei que todo cuidado com a Morte Vermelha é pouco. Eis o trecho de abertura e o de conclusão:

Havia muito tempo que a “Morte Escarlate” devastava todo o país. Jamais uma peste fora tão letal e tão terrível. O sangue era a sua encarnação e o seu sinal: o vermelho e o horror do sangue. Começava com dores agudas, com um desvanecimento súbito, e logo os poros se punham a sangrar abundantemente. Sobrevinha, então, a decomposição. Manchas escarlates no corpo e, notadamente, no rosto da vítima, segregavam-na da humanidade e a afastavam de todo socorro e de toda compaixão. O contágio, o progresso e o fim da enfermidade consumiam apenas meia hora.

[...]

Ecoou um grito agudo e o punhal caiu, como um relâmpago, sobre o tapete fúnebre, onde o Príncipe o Príncipe Próspero tombou morto, instantaneamente. Então, invocando a frenética coragem do desespero, a multidão de mascarados precipitou-se à sala negra, e, agarrando-se ao desconhecido, que se mantinha imóvel e ereto como uma grande estátua à sombra do carrilhão, viu-se presa de um terror inominável, ao perceber que não havia forma tangível alguma sob a mortalha e sob a máscara cadavérica. Todos reconheceram, então, que ali estava presente a “Morte Escarlate”. Ela se insinuara como um ladrão noturno.

E todos os convivas tombaram, um a um, nos salões das orgias, manchados de sangue, morrendo na mesma postura desesperada com a qual desabaram.

E a vida do relógio de ébano se extinguiu com a do último daqueles seres licenciosos. E murcharam as chamas das trípodas. E as Trevas, e a Ruína e a “Morte Escarlate” deitaram sobre tudo o seu ilimitado domínio.

Sinistro, não? Será que ele estava antecipando o Ebola ou o bolivarianismo?

Rodrigo Constantino

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Blog Rodrigo Constantino (VEJA)

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