"Gestão Temer virou futuro obsoleto em 12 dias", por JOSIAS DE SOUZA (UOL)

Publicado em 24/05/2016 10:09 e atualizado em 24/05/2016 19:01
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NO BLOG DO JOSIAS (UOL)

O governo provisório de Michel Temer passou da expectativa à decadência sem o estágio intermediário de pelo menos algo capaz de inspirar uma exclamação do tipo ‘agora vai!’. Parece faltar ao substituto constitucional de Dilma Rousseffpresidente interino uma noção qualquer da dimensão histórica do momento. Temer desperdiça a sua hora.

O presidente interino precisa realizar duas tarefas: restaurar a normalidade econômica e promover uma certa assepcia nos negócios públicos. Para devolver a confiança aos investidores, o governo transitório pede ao Congresso que lhe entregue uma meta fiscal realista para 2016 —déficit de R$ 170,5 milhões— e racionaliza seus gastos. Mas há na atmosfera uma fome de limpeza que Temer não consegue saciar. O déficit estético do governo é incalculável.

Temer faz juras de apreço à Lava Jato. Mas permanece abraçado ao pedaço do PMDB que é cúmplice do PT no assalto ao Estado. A coreografia da queda de Romero Jucá potencializou a incômoda sensação de que, por alguma razão, Temer não tem condições de se dissociar do pedaço do PMDB que está podre.

Gravado numa conversa em que sugere que o impechment de Dilma e a ascensão de Temer criariam um ambiente propício à interrupção da Lava Jato, Jucá consolidou-se como uma espécie de vampiro solto no banco de sangue. Mas Temer continuou tratando o amigo como um reles bebedor de groselha.

Em vez de demiti-lo na primeira hora, Temer deu tempo a Jucá para explicar o inexplicável. As alegações não colaram. Mas a preocupação do Planalto era arrumar uma saída honrosa para Jucá, não uma satisfação adequada à opinião pública. Horas depois de informar que não deixaria o ministério, Jucá anunciou que pediria licença de um cargo para o qual jamais deveria ter sido nomeado.

Combinado o desfecho, Temer soltou uma nota. Nela, deixou a porta do governo entreaberta para o retorno de Jucá: o afastamento vai durar “até que sejam esclarecidas as informações divulgadas pela imprensa”, anotou. Além de não recriminar, elogiou Jucá pelo “trabalho competente e a dedicação…”

A licença de Jucá é apenas retórica. Em verdade, ele será exonerado do cargo. Do contrário, não poderia reassumir seu mandato de senador. Sabe-se que são remotas as chances de retornar à Esplanada. O governo busca um substituto. O que torna ainda mais espantosa a reverência dispensada por Temer a Jucá.

Na semana passada, Temer já havia tratado com inusitado respeito uma demanda nada respeitosa do amigo Eduardo Cunha. Rendera-se à vontade do presidente afastado da Câmara, réu na Lava Jato, nomeando o preferido dele para o posto de líder do govenro: o deputado André Moura, outro investigado da Lava Jato, réu em três ações penais no STF, uma delas por tentativa de homicídio.

Dono de uma carreira política de três décadas, Temer não é um neófito na matéria. Longe disso. Daí a suspeita de que ele se integra à banda suja do PMDB por necessidade. É como se precisasse se rebaixar para entrar em sintonia com o todo. Ou, por outra, age como se tivesse de assegurar a fidelidade ao grupo pela cumplicidade, igualando-se aos demais na abjeção.

A surpreendente submissão de Temer oferece a personagens como Jucá, Cunha e Renan Calheiros a tranquilidade de que o presidente interino jamais ameaçará a integridade do grupo com a alegação de que é diferente —ou inocente.

Ao vincular-se à turma que tem saudades do tempo em que os escândalos eram enterrados vivos e ninguém pedia exumação, Temer rende homenagens a réus, investigados por assalto aos cofres públicos e até um suspeito de tentativa de homicídio. Com isso, reforça a impressão de que, sem essa gente, seu governo perderia aquilo que lhe é vital: o enredo.

Em apenas 12 dias, a gestão de Michel Temer virou um futuro obsoleto. Logo, logo o lema positivista que o marqueteiro do PMDB retirou da bandeira para servir de slogan para o novo governo será substituído. Em vez de ‘Ordem e Progresso’, o mais adequado talvez seja ‘Negócio é Negócio’.

Renan e Sarney temem gravações de Machado

A notícia de que o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado negocia com o Ministério Público Federal um acordo de delação premiada fez nascer em Renan Calheiros e José Sarney, os dois principais caciques do PMDB, um novo tipo de medo. Ambos passaram a sofrer de “mimfobia”. Têm medo de si mesmos.

A exemplo do que sucedeu com Romero Jucá, o correligionário Machado gravou com um aparelho de celular conversas que manteve com Renan e Sarney. Os dois entregam-se a um exercício de memória para recordar o que disseram. O medo das próprias palavras os segue como uma sombra. Às vezes se confunde com ela.

De Delcídios e Romeros, por ELIANE CANTANHÊDE (no ESTADÃO)

O presidente em exercício Michel Temer sabia que não seria fácil, mas não sabia que seria tão difícil. Cada dia, sua agonia – ou, cada dia, o seu amigo ou ministro problemático. Se Eduardo Cunha é um peso enorme, Romero Jucá não fica atrás. Os dois, juntos, já puxam Temer e seu projeto para um limbo de interrogações. Mas eles não são os únicos.

Na fita revelada ontem pelo repórter Rubens Valente, Jucá discute com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado um “pacto” para garantir o impeachment de Dilma Rousseff, a posse de Michel Temer e a interrupção pelo meio da Operação Lava Jato. No caso da Lava Jato, era inexequível, pouco mais que um devaneio, mas virou um imenso constrangimento para o governo interino e um explosivo combustível para o discurso da nova oposição e os movimentos que acossam Temer.

 

Na tentativa de pedir a prisão e a cassação de Jucá, a primeira comparação feita pelo PT e seus aliados no Congresso foi com a gravação ambiente que justificou a prisão do primeiro senador no exercício do mandato, o então líder do governo Dilma, Delcídio Amaral. Mas, na verdade, a comparação mais correta é com o diálogo entre o então ministro da Educação Aloizio Mercadante e Eduardo Marzagão, assessor de Delcídio.

 

Delcídio foi preso e cassado por tentativa concreta de obstrução da Justiça, depois de flagrado oferecendo meios práticos, como dinheiro e até um avião, para tirar Nestor Cerveró do Brasil e assim evitar que fizesse delação premiada e contasse cobras e lagartos sobre a participação de amigos do ex-presidente Lula e de empreiteiros que, segundo o ex-líder, estariam sendo protegidos por Dilma.

 

Mercadante foi mais sutil quando chamou Marzagão para uma conversa no seu gabinete. Disse que poderia “ajudar” no que fosse possível, sugeriu que poderia oferecer advogado e até alguma ajuda financeira, mas para a defesa. Tudo implícito, sugestivo, sub-reptício, como fez Jucá com Machado.

 

Jucá não disse onde, como, com quem especificamente e com que recursos práticos pretendia construir um pacto nacional “com o Supremo”, “parar tudo”, “delimitar onde está, pronto”, “proteger o Lula, proteger todo mundo”. Um projeto megalomaníaco, como se bastasse um estalar de dedos para suspender a Lava Jato, parar o STF, o juiz Sérgio Moro, o MP, a PF e a imprensa. Simples, não?

Aliás, é curioso como os políticos pegos em grampos falam do Supremo sem a menor cerimônia, como se fossem íntimos dos ministros. Alguém consegue imaginar Dilma, de um lado, ou Temer, de outro, destacando emissários para calar, cooptar ou sei lá o quê os onze ministros do tribunal, todos e cada um deles listados entre os maiores e mais respeitáveis juristas do País?

 

Nas fitas, Jucá também diz que o vivíssimo Eduardo Cunha “está morto”. Nem tanto... Cunha e Jucá têm em comum a proximidade do presidente em exercício, os rolos com a Lava Jato e destaque no início da gestão Temer, mas Cunha sobrevive mesmo afastado e Jucá é que parece “morto”. Dizem que os peixes morrem pela boca, mas Jucá morre pela boca e por “otras cositas mas”.

 

Ninguém nega que Jucá seja um bom economista e um líder de eficaz de qualquer governo, e esses são os motivos alegados por Temer para destacá-lo para um cargo estratégico como o Planejamento. Desde o início, porém, virou alvo favorito dos adversários de Temer e do impeachment, como exemplo de que o PMDB estaria envolvido até o último fio do cabelo em maracutaias. 

 

Jucá, portanto, era uma crise anunciada. Como são as indicações feitas a dedo por Eduardo Cunha no governo interino, a começar do líder na Câmara, o réu André Moura. Os antigos governistas, hoje oposicionistas, nem vão ter muito trabalho. Podem ficar sentados, esperando os próximos escândalos.

 

Nenhum deles, aliás, tem tanta capacidade de fazer estrago na equipe do presidente em exercício Michel Temer quanto Sérgio Machado – o amigo que jogou Romero Jucá no olho da rua e sabe das coisas.

 

Dilma e o PT querem usar uma conversa sobre o nada para justificar e omitir seus próprios crimes (por REINALDO AZEVEDO, em VEJA.COM)

Pergunte a um petista qualquer de que modo a ascensão de Michel Temer à Presidência contribuiria para brecar a Operação Lava Jato e, obviamente, não haverá resposta. A razão é simples: a suposta causa não tem relação lógica com a suposta consequência.

Para que tal desígnio se realizasse, seria necessário que Michel Temer e as lideranças que o apoiam tivessem meios de encabrestar os procuradores da Lava Jato, a Polícia Federal, o juiz Sergio Moro e Rodrigo Janot. Se a Lava Jato era, assim, tão facilmente subordinável, por que o próprio governo do PT não se encarregou de tal tarefa?

Golpistas dos 50 tons de vermelho tentam obter rendimento máximo das conversas destrambelhadas entre o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e Sérgio Machado, o ex-presidente enrolado da Transpetro. O segundo ameaça o primeiro, induzindo-o a lhe oferecer garantias.

O senador não se faz de rogado e promete, em cinco linhas de transcrição, juntar num mesmo eixo de interesses o Supremo, as Forças Armadas, o PSDB, o PMDB, o futuro presidente… Só faltaram as autoridades eclesiásticas.

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De fato, como afirmou o advogado de Jucá, não há crime nenhum na fala. A não ser o de excesso de imaginação. Visivelmente, o senador tenta acalmar seu aliado, não se dando conta de que caía numa cilada.

É evidente que Jucá estava acenando para o interlocutor com algo que não poderia entregar. Aliás, Machado tinha plena consciência de que não seria beneficiário daquela oferta. Tanto é que, tudo indica, já havia feito delação premiada e estava apenas tentando levar o interlocutor para o buraco, o que acabou conseguindo.

Os petistas e seus esbirros já tinham inventado a tese do golpe, mas faltava o enredo. Os diálogos fornecem o entrecho narrativo que confere verossimilhança a uma farsa. Se, antes, até os petistas ficavam um pouco constrangidos porque não conseguiam apontar onde diabos estava o golpe, agora eles se sentem confortáveis: “Ouçam o que disse Jucá…”.

Foi o que fez Dilma Rousseff, a Afastada, nesta segunda à noite, durante um evento sobre agricultura familiar. Discursando para 700 pessoas, como se estivesse à frente da Presidência, mandou ver: “A gravação mostra o ministro do Planejamento interino, Romero Jucá, defendendo o meu afastamento como parte integrante e fundamental de um pacto que tinha como objetivo interromper as investigações”.

É do balacobaco! Dilma, por acaso, queria fortalecer as investigações? Não foi ela a nomear Lula ministro, aquele que dizia ser ele próprio a única pessoa capaz de botar os procuradores no seu devido lugar? Segundo Delcídio do Amaral, ela, sim, tentou interferir nos tribunais superiores para beneficiar presos e investigados.

E a doidona foi adiante: 
“Se alguém ainda não tinha certeza de que há um golpe em curso, baseado no desvio de poder e na fraude, as declarações fortemente incriminatórias de Jucá sobre os reais objetivos do impeachment e sobre quem está por trás dele eliminam qualquer dúvida. A gravação escancara o desvio de poder e a fraude do processo de impeachment praticados contra uma pessoa inocente. Revelam o modus operandi do consórcio golpista”.

Dilma, como de hábito, não sabe o que diz. Em primeiro lugar, ela precisaria dizer onde está a parte dita “incriminatória” da fala de Jucá. Em segundo lugar, seria preciso evidenciar onde está revelado o “desvio de poder”.

Dilma e o PT querem usar uma conversa sobre o nada para esconder ou justificar os seus próprios crimes. Mas não vão prosperar.

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A notícia de que o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado negocia com o Ministério Público Federal um acordo de delação premiada fez nascer em Renan Calheiros e José Sarney, os dois principais caciques do PMDB, um novo tipo de medo. Ambos passaram a sofrer de “mimfobia”. Têm medo de si mesmos.

A exemplo do que sucedeu com Romero Jucá, o correligionário Machado gravou com um aparelho de celular conversas que manteve com Renan e Sarney. Os dois entregam-se a um exercício de memória para recordar o que disseram. O medo das próprias palavras os segue como uma sombra. Às vezes se confunde com ela.

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Fonte: UOL + ESTADÃO + VEJA

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