Rodrigo Constantino: RECORDAR É VIVER: A AMBIÇÃO DESMEDIDA DE EIKE BATISTA

Publicado em 29/01/2017 10:12 e atualizado em 30/01/2017 14:35
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COMO ENGAMBELAR TANTA GENTE POR TANTO TEMPO...

Eike Batista foi do céu ao inferno em pouco tempo, da mesma forma que o ex-presidente Lula. Ambos chegaram a acreditar que nem o céu era mais o limite, tamanha a arrogância desses personagens. Como Ícaro, a queda foi brutal, pois a ambição fora desmedida. Do empresário mais rico do país e um dos mais ricos do mundo, Eike Batista virou um foragido procurado pela Interpol que estaria negociando os termos de sua rendição à polícia, já que sequer possuiria diploma superior. Lula anda acuado, e também pode ser preso a qualquer momento.

Segue um artigo que escrevi no GLOBO, em 2014, sobre essa ambição desmedida do fanfarrão ex-bilionário, com base na excelente biografia de Malu Gaspar. Recordar é viver, e é preciso entender que a ascensão e queda de Eike não tem muito a ver com o liberalismo, mas tudo a ver com o “capitalismo de laços” que os liberais tanto criticam e a esquerda, paradoxalmente, acaba endossando:

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Ambição desmedida

Atuava no mercado financeiro, e acabara de sair de um almoço de um banco de investimentos que apresentou o case da primeira emissão de ações do grupo X, de Eike Batista. Ao término, conversando com investidores, quis saber quantos realmente acreditavam naquilo. Poucos. Era um tiro no escuro, uma grande aventura. Não obstante, a coisa toda viraria uma febre depois, e o empreendedor se tornaria o homem mais rico do Brasil.

O episódio me veio à memória ao ler o excelente livro-reportagem “Tudo ou nada” (Editora Record), em que a jornalista Malu Gaspar, de “Veja”, disseca a verdadeira história do mais excêntrico empresário brasileiro. Com mais de cem pessoas entrevistadas, a autora traz inúmeros relatos que reconstroem o dia a dia frenético da ascensão e queda do que foi o império de Eike.

Com espírito aventureiro e muita ousadia, o filho de Eliezer Batista, o poderoso ex-presidente da Vale, já havia tido uma experiência similar antes, no Canadá. Mas não absorveu lições importantes, ao menos não a ponto de impor maior cautela a um inveterado otimista disposto a “dominar o mundo”. É um típico caso em que megalomania pode ser confundida com autoconfiança.

De forma irresponsável, Eike foi ignorando alertas ao longo do caminho, e abraçando cada vez mais empreitadas em diversos setores diferentes. Malu chama a história do grupo X de “a epítome de um período do capitalismo brasileiro”. De fato, foi isso mesmo. Já fiz um paralelo, aqui nesse espaço, entre Eike e Lula em suas respectivas áreas. Se um virou o Midas da economia, o outro foi alçado ao patamar de gênio da política, ignorando-se que perdeu três eleições seguidas, duas delas no primeiro turno para Fernando Henrique.

Tanto um como o outro são carismáticos e muito ambiciosos. Mas ambos eram apenas a pessoa certa na hora certa, surfando uma onda que fora produzida fora do país, pelo crescimento chinês somado ao baixo custo de capital no mundo desenvolvido. Criou-se o ambiente perfeito de “tsunami monetário” para um país como o Brasil, com recursos naturais abundantes. O ciclo favorável das commodities explica os “fenômenos” Eike e Lula mais do que qualquer mérito individual de cada um deles.

Outra coisa que a autora faz com maestria é desvendar em riqueza de detalhes aquilo que já sabíamos em termos gerais: a enorme simbiose entre Eike e o governo. O empresário ficou obstinado em se transformar num “empresário do PT”, ao perceber que tal parceria lhe seria extremamente vantajosa. Com o BNDES presidido por Luciano Coutinho, que desde a década de 1980 defendia o fomento de fortes grupos nacionais dirigidos pelo Estado, o casamento seria inevitável.

“Mais do que um empresário símbolo do novo capitalismo que emergia no Brasil, Eike Batista era agora alguém de confiança do BNDES — o mais poderoso banco de fomento da América Latina. Se havia tal coisa como um ‘empresário do PT’, ele sem dúvida era um deles”, escreve. Foram bilhões injetados no grupo X pelo banco estatal. Eike diria pouco depois que o BNDES era “o melhor banco do mundo”.

O relacionamento promíscuo chegou ao ápice quando a própria presidente Dilma pediu, por meio de Coutinho, que Eike não desistisse do investimento na fábrica de semicondutores em Minas Gerais, empreendimento com a IBM em que o empresário aceitou entrar só para agradar ao presidente do BNDES. A autora revela que Eike sucumbiu à pressão política: “Não vai dar para sair da fábrica. Pelo menos não agora.”

A saga do grupo X, portanto, ilustra com perfeição as mazelas de nosso “capitalismo de compadres”, que já existia, mas que foi expandido pelo governo do PT. Quando a desgraça se tornou inevitável, porém, até o PT precisou encontrar um limite para o que poderia ser feito pelo governo para salvar o empresário. Quando Coutinho se negou a resgatar o estaleiro OSX, Eike não pôde segurar a decepção: “Baixou a cabeça, chorando, deu as costas e foi embora.”

 

Além de ótimo entretenimento, o livro de Malu Gaspar é extremamente relevante para mostrar como o Brasil ainda precisa avançar rumo a um modelo de economia de mercado, em que o sucesso ou o fracasso das empresas não dependam tanto das amizades com o governo. E deixa, ainda, um alerta sobre a ambição desmedida, que pode arruinar mesmo alguém que parecia ter tudo.

Eike tombou feio. Hoje é acusado de crimes financeiros e pode acabar até preso, como provavelmente seria o caso se o Brasil fosse um país em que o império das leis realmente valesse para todos, como ocorre nos Estados Unidos. Talvez chegue a vez de Lula tombar também.

Rodrigo Constantino

COMO A LIBERDADE ECONÔMICA PODE MELHORAR UM PAÍS

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Por Lucas Pagani, publicado pelo Instituto Liberal

A produtividade melhora a condição de vida de modo geral? Quais são os incentivos para que as pessoas produzam mais e melhorem suas condições de vida?

Durante a história, podemos perceber, principalmente, pós Revolução Industrial, no século XVIII que o papel principal da melhoria de vida, principalmente da qualidade de vida, é a própria produção.

Imagine que, naquela época, apenas 1% da população tinha acesso ao que era produzido. Agora imagine que os outros 99% da população tinha pouco ou nenhum acesso ao que era produzido. Roupas de algodão eram consideradas luxuosas para 99% da população. Tudo era feito a mão.

Agora imagine que, um dia, alguém decide fazer algo diferente e inventa uma espécie de “multiplicadora” de trabalho, isto é, uma máquina capaz de aumentar a produção das roupas de algodão de tal modo que seu preço de custo caia de modo drástico. O que fazer com as roupas de algodão que sobraram, visto que aquele 1% da população já estava satisfeita com as peças de roupas que tinham? Isso mesmo. Aquela população, de 99%, que antes não tinha acesso a roupas de algodão puderam comprar aquelas roupas de algodão, que antes, não se poderia ter acesso de tão caras.

Imagine, agora, isso acontecendo só não no setores de roupas, mas, também, nos setores de moradias, de tecnologia, de saúde, de educação, na sociedade de modo geral? A produtividade trouxe, durante 200 anos, uma qualidade de vida infinitamente superior o que tínhamos, no passado.

Para termos uma ideia, a expectativa média de vida, nos anos 1800, era de apenas 32 anos. Hoje, a expectativa média de vida ultrapassa aos 72 anos de idade. Doenças hoje que são erradicadas, na época, matavam milhares. 84% da população vivia em extrema pobreza, hoje, esse número está em menos de 10%.

Através da produtividade, o mundo saiu da sua inércia. Saiu da sua pobreza e entrou numa fase onde nunca fomos tão ricos.

O ponto principal, ao que parecer ser, é o quanto aquele país produz e consome. Quanto maior for sua produção e consumo, melhores serão seus padrões de vida. Melhor condição de saúde, de educação, de segurança e de tantos outros. Um país poderá sair de uma condição de uma concentração de renda – isto é, uma grande desigualdade de renda – por uma alta produção e acessibilidade ao consumo em decorrência da poupança.

Em linhas gerais, o que representa uma alta produção e acessibilidade ao poder consumir é a Lei de Say. Não, não é no sentido que Keynes – erroneamente – Interpreta Say. Dado uma Oferta de X, gera-se uma demanda de por outros produtos numa economia de trocas, seja de modo direto ou indireto. Ou seja, quanto mais produção, mais a possibilidade de consumo teremos. Mais inovação de mercado e assim sucessivamente. Um país marcado por uma boa produção pode ter além de preços mais baixos – em decorrência de uma maior liberdade de mercado – uma boa poupança para poder consumir mais – se assim desejar .

O índice que mede o quanto pessoas de determinado país pode consumir é  o índice do PIB em relação ao poder de compra (PPC) per capta: Enquanto os EUA possuem um poder de compra de $56,100 Dólares, o Brasil possuí $15,600 Dólares.

São recorrentes, nos países de maior nível de Poder de Compra (PPC), a alta liberdade econômica para poder produzir e poder consumir. Pelo Fraser Institute, o seu relatório de liberdade econômica, Economic Freedom of the World: 2016indica países como Cingapura, Suíça, Qatar, Estados Unidos, Emirados Árabes como os 20 países mais livres economicamente do mundo.

Liberdade econômica rima com desenvolvimento. Todos os países de maior PPC tem, consequentemente, uma forte defesa da instituição dos direitos de propriedade, liberdade econômica através de baixas tributações – de importações e exportações – e a estabilidade da segurança jurídica de um país – segurança nos investimentos.

Do outro lado , os países com os menores poderes de compra também são os países com os menores índices de liberdade econômica, como Congo, Nigéria, Etiópia, Nepal e Guatemala.

Nota-se que nesses países é comum uma forte barreira alfandegária, nenhuma seguridade jurídica, o direito de propriedade não é nada fortalecido. Não é mero acaso. Quanto menos liberdade econômica, menor é a capacidade de um país de produzir e melhorar a condição de vida de maneira geral.

Nota-se que é recorrente que um país desenvolvido necessita de uma ordem econômica mais livre para poder prosperar, poder gerar riqueza e poder distribuir – via poder de compra – a riqueza entre indivíduos. O melhor método distributivista é o mercado.

Podemos errar em nossas visões, que são restritas dentro de uma realidade de um sistema complexo e exposto a Cisnes Negros, podemos supor que à uma forte correlação entre a Lei de Say e uma alta produtividade em relação a liberdade econômica que não podemos negar.

Outros fatores podem, sim, ser determinantes para a causa da produtividade. A sociedade é um sistema complexo, onde pessoas escolhem aleatoriamente sem uma ordem dirigida, isto é, em uma ordem espontânea, onde se é impossível conhecer todas as variáveis de um sistema tão complexo e aberto como este. Porém, não podemos negar que a liberdade econômica é uma forte variável nesse sistema para o florescimento do mesmo.

A curiosa tarefa da economia é demonstrar aos homens o quão pouco eles realmente sabem sobre o que imaginam que podem projetar.” – F. A. Hayek

A HISTÓRIA DE EIKE BATISTA: COMO ENGAMBELAR TANTA GENTE POR TANTO TEMPO

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Por João Luiz Mauad, publicado pelo Instituto Liberal

Eike Batista voltou às manchetes dos principais jornais do país.  Agora como foragido da justiça e procurado pela Interpol.  Consta que o dono do Grupo X e seus asseclas irrigaram com montanhas de dinheiro o baronato do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, em troca de contratos e facilidades junto ao governo do Estado, onde mantinha a maioria dos seus negócios.

Eike Batista chegou, em certo momento de sua trajetória, a ser visto quase como uma unanimidade nacional, festejado pelos governos, Brasil afora, como a locomotiva do empreendedorismo tupiniquim.  Um homem possuidor de números grandiosos e de inúmeras virtudes no currículo, mas principalmente alguém que detinha o velho “espírito animal” dos grandes empreendedores, de que falava o notório Keynes.

A imprensa de Pindorama o tratava senão como um verdadeiro ídolo pelo menos como um modelo a ser seguido.  Numa reportagem de 2011, por exemplo, a Exame – uma espécie de Revista Caras do empresariado brasileiro – publicou uma matéria com os 15 conselhos de Eike aos jovens que quisessem se transformar num bilionário (nota: embora não sejam conselhos ruins, eu acrescentaria mais um: faça o que eu digo, e não o que eu faço).  Enfim, Eike era considerado, tanto por investidores quanto pelos governos e a mídia, quase um oráculo.

O que é estarrecedor nessa estória toda é a facilidade com que Eike Batista, um empresário medíocre, que sabidamente administrava os negócios com um olho nos lucros e outro nos astros, além de gastar dinheiro a rodo com despesas pessoais (viagens, carros, iates, aviões, mansões, etc.), conseguiu enganar tanta gente (aqui e alhures) durante tanto tempo, a ponto de ter-se tornado, há apenas poucos anos, o sétimo homem mais rico do planeta – com pretensões de chegar ao primeiro lugar.

É claro que um pouco disso pode ser creditado ao ímpeto empreendedor e à inegável virtude de marqueteiro de Eike.  Quem não se lembra, por exemplo, das gordas doações daquele empresário para programas sociais – “Criança Esperança”, ONG da Madona, Hospital do Coração Infantil, entre outros -, que lhe garantiam generosa publicidade na mídia, além de uma extremada simpatia dos jornalistas e outros opinantes?

Mas a principal “virtude” de Eike, capaz de engabelar milhões investidores mundo afora, foi mesmo a sua proximidade com o governo petista.  Além de amplo acesso a financiamentos e contratos públicos  – Caixa, BNDES, Petrobras e Banco do Brasil estão listados entre os principais credores do grupo -, Eike estava sempre na companhia de algum governante poderoso, notadamente o ex-presidente Lula, o ex-ministro José Dirceu e o ex-governador Sérgio cabral, com os quais mantinha contatos frequentes e grandes afinidades.  Foi Lula, por exemplo, bem ao estilo nacionalista de Donald Trump, quem o convenceu de que produzir “tudo” no Brasil, importando o mínimo possível, a exemplo do que fazia a Petrobras, seria vantajoso não só para o país como para as empresas do grupo. (Pelo visto, não era, pois tanto a Petrobras quanto Eike deram com os burros n’água com essa estratégia).

Era natural, portanto, que, mirando toda aquela intimidade de Eike com os poderosos de Pindorama e a empolgação de boa parte da mídia especializada com ele, os investidores se vissem tentados a acreditar que o governo seria uma espécie de avalista dos ímpetos empresariais do homem, e que os negócios dele não tinham como dar errado, apesar de os balanços de seus empreendimentos nem sempre mostrarem números alvissareiros.  Deu no que deu.  Houve gente que perdeu quase tudo apostando nas ações da OGX, suas subsidiárias e coligadas.

No final das contas, para o governo, os prejuízos causados por decisões equivocadas são “contabilizados” como meros acidentes, como disse certa vez o ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho.  Para os investidores, entretanto, pelo menos para aqueles que surfaram “na onda” do governo, esses prejuízos podem ter representado a poupança de uma vida inteira.

Resumo da ópera: a eterna compulsão dos governos por intrometer-se onde não deveriam gera efeitos nocivos não apenas para os pagadores de impostos, mas também para poupadores, investidores e consumidores.  Esperemos que Pindorama tenha aprendido a lição.

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Fonte: Blog Rodrigo Constantino

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