Lulistas semeiam na terra dos xucros e lançam manifesto indigno! (por REINALDO AZEVEDO)

Publicado em 02/03/2017 12:44
Enquanto isso, alguns inocentes imaginam que podem, parafraseando Drummond, tirar um “Trump do nariz”, assim como Manuel Bandeira tirava ouro (REINALDO AZEVEDO,em VEJA.COM

Ainda que pareça assombroso, surpreendente não é. Até porque a estupidez, à direita e à esquerda, conspira, como sempre, em favor do desastre, não é mesmo?

No dia em que Marcelo Odebrecht depõe ao TSE e revela, segundo consta, que 80% dos recursos doados à campanha de Dilma em 2014 tiveram como origem o caixa dois; no dia em que esse mesmo empresário confirma que uma Medida Provisória enviada por Lula em 2009 era do interesse do grupo, o que gerou uma compensação depois na forma de recursos de campanha; bem, num dia assim, mais de 400 sedizentes intelectuais e artistas lançam um manifesto cobrando que Lula se declare desde já candidato à Presidência da República na eleição do ano que vem.

Também nada há de surpreendente nos nomes que encabeçam a inciativa: Chico Buarque, Leonardo Boff, o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão, que é subprocurador da República, e o escritor Fernando Morais. Esses compõem a linha de frente. Mas, enquanto escrevo, leio no site “Congresso em foco” que outras 420 pessoas já aderiram ao troço. A lista segue no post anterior. E, é claro, o objetivo é buscar adesões. Milhares delas. Não será difícil a julgar pelos índices que o Babalorixá de Banânia exibe nas pesquisas eleitorais.

Está escrito o seguinte no glorioso manifesto. Leiam com atenção:

“Por que Lula?
É o compromisso com o Estado Democrático de Direito, com a defesa da soberania brasileira e de todos os direitos já conquistados pelo povo desse País, que nos faz, através desse documento, solicitar ao ex-Presidente Luiz Inácio LULA da Silva que considere a possibilidade de, desde já, lançar a sua candidatura à Presidência da República no próximo ano, como forma de garantir ao povo brasileiro a dignidade, o orgulho e a autonomia que perderam.

Foi um trabalhador, filho da pobreza nordestina, que assumiu, alguns anos atrás, a Presidência da República e deu significado substantivo e autêntico à democracia brasileira. Descobrimos, então, que não há democracia na fome, na ausência de participação política efetiva, sem educação e saúde de qualidade, sem habitação digna, enfim, sem inclusão social. Aprendemos que não é democrática a sociedade que separa seus cidadãos em diferentes categorias.

Por que Lula? Porque ainda é preciso incluir muita gente e reincluir aqueles que foram banidos outra vez; porque é fundamental para o futuro do Brasil assegurar a soberania sobre o pré-sal, suas terras, sua água, suas riquezas; porque o País deve voltar a ter um papel ativo no cenário internacional; porque é importante distribuir com todos os brasileiros aquilo que os brasileiros produzem. O Brasil precisa de Lula!”

Retomo
É claro que Lula tentaria reagir. O que a muitos surpreende é que essa reação seja tão rápida e tenha origem no eleitorado. Por que é assim? Porque a política se tornou a terra devastada. É nesse ambiente que um manifesto indigno como o que se lê acima vem à luz. Ali se defende, na prática, os governos que promoveram o maior assalto aos bens públicos de que se tem notícia. E daí? Segundo os ditos intelectuais e artistas, só Lula pode devolver ao “povo brasileiro a dignidade, o orgulho e a autonomia”.

Uma farsa como essa vai prosperar? Tomara que não! Ocorre que isso tudo, infelizmente, depende cada vez menos de fatores racionais. Tudo vai depender da devastação.

Enquanto isso, alguns inocentes imaginam que podem, parafraseando Drummond, tirar um “Trump do nariz”, assim como Manuel Bandeira tirava ouro.  Ah, em tempo: no nosso sistema, Trump teria perdido a eleição.

Objetivo: trabalhar direito. Anseio: barrar ascensão da esquerda! (REINALDO AZEVEDO)

Ai, ai…

Dá uma preguiiiça às vezes! O que tem de boboca querendo pegar carona nos embates nos quais entrei… É você cochilar, e salta na tela um frangote do tipo que ainda derrapa a cuequinha do Frajola…

Não sabe ainda se limpar, mas já expele sentenças “urbi et orbi”. Os abduzidos de Jair Bolsonaro costumam ter a elegância do mestre, emulando com ele na sofisticação do pensamento.

Os “olavetes”, coitados!, empregam termos cujo significado claramente desconhecem, manejando um instrumental teórico assimilado de orelhada. E que também vem de fonte ruim, uma vez que este senhor é um grande tradutor do pensamento alheio para uma língua que só se fala no Olavistão. É o homem que sabe e ensina olavistês! É do tipo que faz trocadilho.

O mais divertido é tentarem, como posso dizer?, me expulsar da “direita”, como se esta realmente fosse um lugar, um área ocupada, um espaço físico. Como se houvesse uma sede. É gente que certamente teria mandado fechar a Escola de Frankfurt para impedir a divulgação do pensamento de esquerda. Ou que teria ordenado: “Invada a Escola de Frankfurt e prenda todos aqueles comunistas”.

Quando não, eis que surge no debate um sedizente liberal, de pistola na mão. Os liberais de verdade tratam a criatura como bobo da corte. Nunca ninguém o levou a sério. Nunca ninguém o levará. Mais engraçado: acha que só foi “banido” da mídia porque era bom demais e porque não suportavam as verdades que ele tinha a anunciar.

O que essa gente tem em comum? Ninguém trabalha. Ninguém tem ocupação. Ninguém ganha a vida honestamente. Sabem como é… No regime socialista que vigora no Brasil, não é mesmo?, não sobrou lugar para um pensamento tão abusado.

No fim das contas, é uma espécie de Conjuração dos Vagabundos. E, bem, pelo visto, sempre há um trouxa que paga, não é?

Ódio Sei a razão do ódio.

Antevi que as boçalidades que escreviam, diziam e propagavam, em associação com a banda politicamente podre da Lava Jato, acabaria por ressuscitar Lula e o PT.

Como eu estava e estou certo; como a realidade está aí aos olhos de todos; a canalha se desesperou e resolveu cortar a cabeça do mensageiro.

Direita unida

Dia desses um rapaz veio me falar da tal “direita unida”. E emendou: “Pô, se o Lula realmente tiver chance de ganhar, vai dizer que você não vota no Bolsonaro”.

COMO???

DIGO!!!

NÃO VOTO!!!

Eu não voto em Bolsonaro em nenhuma hipótese. Nem contra o capeta. Não! Nunca votaria em Lula. Nunca votaria no PT. Nunca votaria na esquerda. Mas o meu repúdio pelo outro não é menor.

Aí um pistoleiro ou outro então acham que podem bater o martelo: “Reinaldo não é mais de direita”, como se eu dependesse do aval de boçais para ser alguma coisa.

E eu não dependo.

Objetivo e anseio
O meu único objetivo é fazer honestamente o meu trabalho e opinar com base nas informações que tenho e nas interpretações a que dou curso a partir delas. Não minto, não distorço e não simplifico para ganhar leitores, ouvintes, telespectadores, internautas.

E tenho, sim, um anseio: contribuir para civilizar o debate político e me opor à horda de arruaceiros e fanáticos que estão pavimentando o caminho da volta do PT ao poder.

Porque não se enganem: com ou sem Lula, se a eleição se decidir à esquerda, será o PT a governar.

E essa será, sem dúvida, uma grande conquista da direita xucra.

O ensaio geral do bloco dos sabotadores da Lava Jato (por AUGUSTO NUNES)

Em 7 de fevereiro, o onipresente Gilmar Mendes sacou do coldre o trabuco retórico para anunciar o recomeço do duelo com o juiz Sérgio Moro e a força-tarefa do Ministério Público engajada na Operação Lava Jato: “Temos encontro marcado com essas alongadas prisões que se determinam em Curitiba”, avisou o ministro do Supremo Tribunal Federal que também preside o Tribunal Superior Eleitoral. Em vez de ao menos lamentar a indolência cúmplice de quem demora a julgar e só absolve, Gilmar se enfurece com homens da lei que investigam, provam, condenam e prendem.

Em 20 de fevereiro, o senador Romero Jucá, líder do governo no Congresso, sucumbiu ao medo decorrente da aproximação do camburão e, disposto a tudo para continuar sob as asas do foro privilegiado, pariu a Teoria da Suruba: “Se acabar o foro, é para todo mundo”, comunicou. “Suruba é suruba. Aí é todo mundo na suruba, não uma suruba selecionada”. Nessa linha de raciocínio, o STF é uma espécie de casa de tolerância reservada a meliantes incomuns. Por exemplo, gente como Jucá, um prontuário à espera de uma gaiola desde os tempos do bercário.

Em 24 de fevereiro, o ministro Marco Aurélio Mello resolveu infiltrar um recado à Lava Jato, tão enviesado quanto impertinente, num trecho da justificativa para a soltura do goleiro Bruno: “A esta altura, sem culpa formada, o paciente está preso há 6 anos e 7 meses. Nada, absolutamente nada, justifica tal fato. A complexidade do processo pode conduzir ao atraso na apreciação da apelação, mas jamais à projeção, no tempo, de custódia que se tem com a natureza de provisória”. (Horas depois, o advogado Wasley Vasconcelos reivindicou ao Supremo Tribunal Federal que o indulgente parecer de Marco Aurélio fosse estendido a seu cliente Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, amigo de Bruno e seu comparsa na execução e ocultação do cadáver de Eliza Samudio, ex-namorada do então jogador do Flamengo).

Em 26 de fevereiro, domingo de Carnaval, o onisciente Gilmar Mendes aproveitou uma entrevista ao Estadão para endossar a tese do senador que preside o PMDB. “Eles têm razão: se se quer acabar com o foro, é para todos”, pontificou o artilheiro do time da toga. (“Eles” são os jucás). À caça de explicações menos mambembes, o ministro acabou ampliando o acervo de aberrações que recomendam a imediata interdição da suruba: “Falam de 22 mil autoridades com direito a foro privilegiado. Ora bolas, 17 mil são juízes. E quanto serão os membros do Ministério Público?” Como engolir um privilégio com tamanha multidão de beneficiários togados? “Quando se fala que o grande problema do Brasil é o foro privilegiado, é irresponsável”, delirou o entrevistado, sem esclarecer onde ouviu tamanha bobagem. Quem luta pela revogação desse foro inconstitucional e imoral nele enxerga não a origem de todos os males da nação, mas um dos muitos tumores que infestam o sistema legal. “Só 8% dos homicídios são desvendados no Brasil”, foi em frente o ministro. “Os processos não andam em várias instâncias. As pessoas só são investigadas quando passam a ter foro privilegiado”. Se os supremos sherloques do de fato investigam, nunca encontram nada: o índice de condenações no STF é inferior a 1%.

Em 27 de fevereiro, dois dias depois do advogado de Macarrão, Rui Falcão descobriu que a rota de fuga pavimentada por Marco Aurélio e inaugurada por Bruno poderia ser percorrida por uma trinca de bandidos de estimação engaiolados em Curitiba. “Diante do excesso de prisões preventivas, sem motivo e prolongadas no tempo para forçar delações, o rigor jurídico do ministro Mello para um homicida confesso deveria estender-se ao conjunto das sentenças do STF”, caprichou no cinismo o presidente do PT num artigo publicado pelo site do partido. “Afinal, por que manter presos João Vaccari, José Dirceu e Antônio Palocci – e há outros em situação semelhante — contra os quais só existem delações e nenhum prova consistente? É hora de cessar a parcialidade nos julgamentos, dar um fim à perseguição politica promovida por certos juízes e procuradores e libertar Vaccari, Dirceu e Palocci”. Rui Falcão, quem diria, enfim confessou que o PT é um viveiro de goleiros brunos que, em vez de uniformes de times de futebol, trajam o modelito imposto à população carcerária.

Conjugados, os cinco episódios confirmam que, enquanto o País do Carnaval se distraía, começou neste fevereiro o ensaio geral do bloco dos sabotadores da Operação Lava Jato. O enredo carece de ajustes, a bateria vive atravessando o samba, a ansiedade atrapalha a harmonia, os destaques sofrem frequentes surtos de exibicionismo. Mas seus integrantes já não escondem o rosto nem recorrem a fantasias para enganar a plateia. Para manter confinado na área de concentração o bloco da infâmia, é preciso que as multidões que representam o Brasil decente voltem às ruas e renovem a advertência: ninguém vai deter a Lava Jato.

É essa a bandeira que mobiliza, aglutina e une o país que presta. É essa a palavra de ordem que afugenta e isola tanto extremistas de direita quanto devotos do lulopetismo que espreitam as manifestações programadas para o fim deste mês, decididos a deformá-las com reivindicações absurdas, deliberadamente cretinas ou apenas equivocadas. Os idiotas estão por toda parte. Assumirão o controle das ruas se a resistência democrática embarcar na nau dos insensatos.

Moro condena Delúbio Soares a cinco anos de prisão (nesta quinta, dia 2)

O juiz Sergio Moro condenou o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares a cinco anos de prisão pelo crime de lavagem de dinheiro. Segundo a sentença de Moro, “Delúbio Soares de Castro tem maus antecedentes, tendo sido condenado criminalmente por corrupção ativa”.

O juiz diz ainda que a lavagem envolveu especial sofisticação, já que foram utilizadas duas pessoas entre a fonte dos recursos e o seu destino final, e que houve ainda simulação de dois contratos falsos de empréstimo.

Defesa de Okamotto acusa Moro de ser simpático ao PSDB

A defesa de Paula Okamotto protocolou uma petição em que tece duras críticas ao juiz Sergio Moro. Entre tantas, ao contextualizar o pedido de inquirição da Fundação Fernando Henrique Cardoso, para fortalecer a tese de que as doações ao Instituto Lula foram feitas na legalidade, o advogado afirma que imaginava que Moro não fosse autorizá-lo:

“Afinal, a simpatia de V. Exa. por figuras do PSDB certamente impede que o pleito seja analisado com imparcialidade. Aliás, comprova tal fato o inédito pedido de desculpas feito por V. Exa. antes de formular uma pergunta ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso”, diz.

O Ano-Novo de Temer, Lula e Doria (por VINICIUS TORRES FREIRE, na FOLHA)

O Ano-Novo político costuma começar na Quarta-feira de Cinzas.

Começou o Queremismo, a campanha para que Lula seja candidato a presidente ou a líder de algum movimento "contra tudo o que está aí", uma condição de sua sobrevida.

Começou a reação de Michel Temer aos miasmas da Odebrecht, no caso ao processo que pode cassar a chapa Dilma-Temer 2014 no TSE. A discussão da sobrevida de Temer pode morrer em meados do ano, mas por ora é aberta.

Recomeçou uma discussão vívida na elite a respeito de quem pode substituir as estrelas decadentes do tucanato, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, que talvez explodam na Lava Jato e, de qualquer modo, estão avariadas pelo histórico político medíocre.

Como quinto elemento, há "as ruas", protestos, uma incógnita de força ainda improvável.

Recomeçou o debate da recuperação econômica, em termos ligeiramente modificados. Por ora, há menos dúvida sobre a estabilização da economia já neste primeiro trimestre. Há também mais certeza de que sair dessa estagnação será muito difícil. Percebe-se mais risco de acidentes pelo caminho.

A arrecadação de impostos continua a cair muito, sinal de persistência recessiva disfarçado por muitas receitas extraordinárias.

Dadas tais más notícias e a meta de redução do deficit, o governo arrocha as despesas, em especial as de investimento, o que é de imediato inevitável, mas não deixa de ser um problema. O que tem sido chamado por aí de "bom resultado fiscal de janeiro" é apenas reação defensiva prudente diante de perspectivas ruins.

As taxas de juros nos bancos ainda sobem. As concessões de empréstimos para empresas ainda caem em ritmo de depressão, apesar da ligeira despiora.

Sim, as taxas de juros reais no atacado passaram a cair de modo notável no atacado, o que, em princípio, tende a influenciar decisões de investimento e de captar dinheiro no mercado de capitais.

Em princípio. Por enquanto, vão fazer escassa diferença, dada esta situação de incerteza renovada, de imensa capacidade ociosa, de endividamento das firmas e inexistência de projetos de concessão pública.

Na política politiqueira, há um desarranjo imprevisto e ainda misterioso no próprio partido do presidente, o PMDB. De resto, com lideranças avariadas, o comitê central de Temer tem dificuldades de negociar a reforma da Previdência.

Sem aprovar reformas, o governo Temer se torna pouco mais útil do que um tampão até 2018. Sem reformas, goste-se ou não delas, o clima econômico fica anuviado. Economia ainda fraca ou até conturbada antecipa a discussão de 2018.

Certa elite paulista quase não se segura de animação com João Doria, mas sabe que o lance é precoce. Ainda se discute até Cármen Lúcia como opção a tucanos talvez abatidos pela Lava Jato ou por identificação com a velharia política corrupta.

Lula, em campanha para evitar cadeia ou voltar à Presidência, neste quadro se torna uma ameaça para o "bloco no poder". Descobrir seu adversário se torna uma questão mais premente.

O ambiente será especulativo e tenso até que se contem os mortos-vivos pela Lava Jato e se saiba se Temer terá condições de passar pela pinguela carregando as reformas. Um trimestre de dúvidas.

A hora da limpeza, EDITORIAL DO ESTADÃO

O prolongamento da recuperação do ministro Eliseu Padilha – que não deve retornar aos trabalhos na Casa Civil no dia 6 de março, como era inicialmente previsto, devendo esticar a licença médica por mais duas ou três semanas em razão de uma cirurgia – dá ao presidente Michel Temer a oportunidade perfeita para a tão necessária limpeza do quadro de seus colaboradores mais próximos. No momento atual, com o Congresso analisando a reforma da Previdência – cujo desfecho terá grandes consequências, positivas ou negativas, para o equilíbrio das contas públicas e para a retomada do crescimento econômico –, o Palácio do Planalto não pode se dar ao luxo de não ter um ministro da Casa Civil atuante, que ajude a coordenar a base aliada.

Se em algum momento o presidente Michel Temer considerou que a necessidade das reformas aconselhava tolerância em relação a alguns nomes de seu Ministério envolvidos em denúncias e escândalos de corrupção, agora a situação é justamente a inversa. As reformas pedem uma pronta limpeza, sem qualquer indulgência com políticos com o histórico de Padilha.

Não se trata de desprezar o princípio da presunção da inocência, banindo pessoas da vida pública apenas por terem sido citadas em algum documento, delação ou investigação. Todos são inocentes até julgamento em contrário. A questão aqui tratada é mais simples: quem ocupa um cargo público deve estar em condições de exercer a contento as funções para as quais foi designado. E não se encontra nessas condições alguém cujo nome exige diárias explicações sobre sua conduta. Quem tem muito a esclarecer sobre o seu passado – como ocorre com alguns dos colaboradores do presidente Michel Temer –, precisa antes dirimir todas as dúvidas que pairam contra ele e só depois, usufruindo da tranquilidade que provê a cabal transparência, dedicar-se às funções públicas.

O envolvimento de uma pessoa num escândalo de corrupção ou num procedimento de investigação não interfere apenas em sua capacidade pessoal de trabalho, o que já seria motivo suficiente para deixar o governo. O problema principal é que pessoas com currículos sujos ou que demandem alguma explicação embargam o funcionamento de todo o governo. Os danos não ficam restritos a um Ministério e acabam afetando, em última instância, o próprio presidente Michel Temer.

Foi o que se viu na entrevista de José Yunes, ex-assessor e amigo de longa data do presidente Temer. A declaração de Yunes, que a princípio vinha apenas esclarecer um dado, foi ocasião para aproximar o nome de Michel Temer de um episódio que pode envolver a transferência de altas somas. É cada vez mais evidente, portanto, que as consequências dos escândalos não param nas pessoas diretamente envolvidas, tendo efeitos diretos sobre o presidente da República.

A manutenção no governo de pessoas com histórico complicado deixa, portanto, o presidente da República numa situação de vulnerabilidade, exposto a ataques que, além de enfraquecerem sua autoridade – nem se fala aqui de sua popularidade –, demandam tempo e energias.

O momento exige do Palácio do Planalto uma absoluta dedicação às reformas previdenciária, trabalhista e tributária. O destino do País – e, por consequência inarredável, do presidente Michel Temer – está vinculado à aprovação dessas alterações legislativas estruturantes. Ao mesmo tempo que são necessárias, tais reformas são de difícil aprovação, uma vez que mexem com privilégios, corporativismos e acomodações a que determinados grupos já se ajeitaram. Um governo que precisa, a cada momento, dar explicações sobre a honorabilidade de seus quadros, desarmando uma bomba a cada dia, dificilmente terá energias de sobra para levar a cabo, com sucesso, a sua importante missão. O País precisa de um governo cuja composição seja fonte de tranquilidade, e não o oposto.

Na tramitação das reformas no Congresso, o presidente Michel Temer precisará recorrer à sua conhecida habilidade política para não se tornar refém da oposição. Não há qualquer razão para se tornar, por livre e espontânea vontade, refém de seus colaboradores.

 

 

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