O Guia do Stalinismo Farofeiro, por AUGUSTO NUNES

Publicado em 18/01/2010 16:07 e atualizado em 19/01/2010 09:57 494 exibições
É claro que o presidente da República assinou sem ler o 3° Programa Nacional de Direitos Humanos. Como faz há sete anos, limitou-se a ouvir o resumo da ópera, recitado por um Alto Companheiro, antes de endossar com garranchos outro hino ao obscurantismo.

Mas é claro que sabia o que estava fazendo ─ e fez o que fez com prazer. Nenhuma das principais diretrizes do programa colide com o que o chefe de governo acha, imagina ou pensa. Mais que isso: reduzidas à sua essência, as 71 páginas do documento apenas repetem, sem tantos pontapés no português, conceitos e opiniões que povoam os improvisos de Lula depois do almoço. A diferença está na forma: o que se lê é sempre mais assustador que o que se ouve.

Declamadas pelo palanqueiro compulsivo, as agressões à lógica, à sensatez e à Constituição lembram bravatas de inimputável. A aversão ao convívio dos contrários, o desapreço por valores democráticos, a ojeriza pela imprensa independente, a opção preferencial por alianças fora-da-lei, a institucionalização da impunidade, o ódio à divergência ─ esses e outros sintomas de autoritarismo agudo nem sempre são suficientes para  desmascarar o tirano que o portador camufla.

Reunidos num decreto depois de retocados por revolucionários de araque, os mesmos sinais de perigo bastam para anunciar a iminência do naufrágio. O que para Lula é instrumento eleitoreiro vira programa de governo quando transcrito por um Paulo Vannuchi, um Tarso Genro, um Franklin Martins ou qualquer outro devoto de velharias  desaparecidas do mundo civilizado há 30 anos.

Em parceria, o presidente que jamais levou um livro no isopor da praia e a Irmandade dos Órfãos do Muro de Berlim produziram um indispensável esboço ideológico do governo Lula. Sob o codinome Programa Nacional de Direitos Humanos, foi lançada no Natal a primeira edição do Guia do Stalinismo Farofeiro.

A novidade é o cérebro sem filtro

A demissão por justa causa de quatro ou cinco gramas, consumada num spa em Gramado, não produziu efeitos notáveis na silhueta.  Os cabelos curtos combinam mais que a peruca com a sessentona roliça que se exercita em companhia do personal trainer e de um labrador chamado Nego. A calça esportiva da aparição matinal e o terninho vespertino informam que houve tempo para as compras de Natal. E a cabeça está um pouco pior, comprovou a discurseira de meia hora com que Dilma Rousseff abriu, nesta terça-feira, o capítulo 2010 do Discurso sobre o Nada.

Principal oradora de outra quermesse em louvor do milagre da multiplicação de casas invisíveis a olho nu, Dilma reforçou a suspeita de que, por achar que Mãe do PAC é coisa pouca, resolveu encarnar  cumulativamente o papel de Madrasta das Plateias Federais. Confiram dois momentos  exemplares, sempre sem correções:

“Antes se fazia casa a conta-gotas. Com isto mostramos que seremos capazes de estar à altura do desafio que está em nossa frente, que é dar conta de construir casa suficiente para a população brasileira sem casa, sem moradia, vivendo em situação insuficiente”.  (Tradução: é importante construir casas porque é importante construir casas).

“No momento em que vimos cidades brasileiras serem atingidas por alagamentos e por desmoronamentos, enfim, por uma série de calamidades, nós somos obrigados a pensar por que isso ocorre nessa dimensão. Aí sabemos que, durante mais de 25 anos, uma imensa parcela da nossa população ficou sem direito a esses direitos fundamentais”. (Tradução: se a coisa anda feia, o governo Lula não tem nada com isso).

Nesta quarta-feira, entre um passeio com Nego, meia dúzia de abdominais e uma caminhada de 300 metros, Dilma tornou a capturar o microfone fantasiada de doutora sem doutorado. Teria chegado a hora de pontificar sobre o 3° Programa Nacional de Direitos Humanos, que fez uma escala de 13 dias na Casa Civil antes da festa de lançamento? Ainda não, decepcionou-se a plateia de jornalistas. Ansiosa por conhecer as opiniões da candidata sobre o Guia do Stalinismo Farofeiro, a imprensa foi apresentada por Dilma à potência esportiva que Lula criou. Trecho da exposição:

“A Copa com os Jogos Olímpicos mostram que o Brasil é hoje uma das maiores e melhores oportunidades de investimento nesta área em todo o mundo. As atenções do mundo vão se voltar ao Brasil na expectativa fundamentada que em breve seremos uma das cinco maiores economias do planeta”.

Uma das atribuições da chefe da Casa Civil é a ”verificação prévia da constitucionalidade e legalidade dos atos presidenciais”. Outra é a “análise do mérito, da oportunidade e da compatibilidade das propostas, inclusive das matérias em tramitação no Congresso Nacional, com as diretrizes governamentais”. No caso do calhamaço malandro concebido pela Secretaria de Direitos Humanos, a ministra não fez uma coisa nem outra. Talvez nem tenha lido o papelório. Talvez tenha gostado do que leu. Talvez não tenha entendido nada. Difícil saber. Dilma Rousseff passou tantos anos sem falar que talvez precise de outros tantos para conseguir tornar-se inteligível.

Aos amigos que chegavam do exterior nos anos 60, o cronista Rubem Braga contava que a grande novidade na praça era o Hollywood com filtro. As declarações da candidata de Lula radiografam uma cabeça incapaz de juntar as peças do mosaico, preencher lacunas no raciocínio, reunir as partes da frase, refinar impressões e informações que chegam aos pedaços ou em estado bruto, fazer a triagem que só libera o que faz sentido. Tudo o que Dilma diz parece turvado pela poluição.

Cinquenta anos depois do cigarro de Rubem Braga, a novidade da estação eleitoral é um cérebro sem filtro.

A liberdade não foi convidada

A Declaração Universal dos Direitos Humanos tem 30 artigos. O 1° constata que todos nascemos livres. O 3° estabelece que  todo homem tem direito à liberdade.  O 17° sublinha o direito irrevogável à liberdade de opinião e expressão.  Sempre claros e coerentes, outros registros condensam em linguagem diplomática uma concisa lição de Don Quixote a Sancho Pança.

“A liberdade”, ensinou o personagem de Miguel de Cervantes, “é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus; a ela não podem igualar-se os tesouros que encerra a terra e nem o mar encobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventurar a vida; e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode vir aos homens”.

O 3° Programa Nacional de Direitos Humanos tem 71 páginas e 29.538 palavras. Nesse pântano de vogais e consoantes, a expressão liberdade vem à tona 19 vezes, sempre com significado diverso  ─ e muito menos nobre ─ do que lhe atribuíram o magnífico escritor e os arquitetos do mais belo documento político da era moderna. A Liberdade ─ substantiva, maiúscula, luminosa ─ não figura entre os direitos humanos vislumbrados por pastores do autoritarismo. A Liberdade não foi convidada para o comício da companheirada.

O Programa Nacional de Direitos Humanos é também o esqueleto da plataforma política da candidata Dilma Rousseff (que chancelou o papelório irresponsável com o selo de má qualidade da Casa Civil).  A palanqueira sem rumo e seu padrinho sem siso andam sonhando com um Brasil polarizado entre os soldados do povo e a elite golpista. Se o Guia do Stalinismo Farofeiro não for atirado ao lixo a tempo, o casal de caçadores de votos pode acabar  enredado num duelo perigoso.

Do lado de lá estarão os liberticidas. Do lado de cá, os democratas que jamais capitularam. Eles não passarão sem resistência.

Celso Arnaldo sobre o escritor Sarney: ‘É tão ruim que é bom’

Merece transcrição no Direto ao Ponto o seguinte trecho do comentário do jornalista Celso Arnaldo sobre o artigo de José Sarney na Folha desta sexta-feira. Divirtam-se:

Os escritos de José Sarney, semana após semana, estão se consagrando como os piores textos assinados da imprensa brasileira ─  e incluo aí, além dos jornalões, jornais de bairro. A coluna se insere na categoria “tão ruim que é bom”, aplicada a chanchadas e novelas mexicanas do SBT.

Na coluna desta sexta-feira, intitulada “O scanner corporal”, ele analisa, como um astuto observador de usos e costumes deste novo mundo, o reforço de segurança nos aeroportos depois do frustrado atentado do nigeriano na véspera do Natal. Sarney ficou fascinado com esse tal scanner que colocaria a nu os passageiros na revista:

“A grande discussão que hoje preocupa a liberdade individual é como manter os direitos de privacidade num mundo em que a tecnologia tudo invade e torna esses direitos inexistentes, acabando com os direitos humanos”.
(É bem capaz de os revisores do PNDH 3 quererem agora incluir no programa o scanner do Sarney, sempre tão preocupado com direitos que repete a palavra três vezes em duas linhas. O PNDH, aliás, já está entrando no assunto).

“Fora do mundo, no Brasil abre-se um grande debate sobre as diretrizes do Programa Nacional de Direitos Humanos e propõe-se até mapear em que momento da história não foram cumpridos, para punição dos responsáveis”.
(A pavorosa sintaxe sarneysista nos revela pelo menos uma novidade geopolítica: o Brasil fica fora do mundo).

Mas, mesmo falando de alta tecnologia, Sarney nunca resiste a uma pitada imperial sem nexo:
“Lembro-me de que, quando os ossos de dom Pedro 1º vieram para o Brasil e percorreram todas as capitais do país, em Recife não quiseram recebê-lo, pois ele fora o repressor da Confederação do Equador e quem mandara enforcar o Frei Caneca. Enquanto discute-se isso, os operadores de controle alfandegário podem tirar as nossas roupas e verificar o que temos demais e de menos”.

(De repente, os ossos de dom Pedro se corporificam novamente na entrada do Recife. Quem é barrado na imigração é o imperador em pessoa, que está magro que dói. Para Sarney, aliás, demais é sempre junto - ao contrário do dividido de menos. Só uma pergunta: o que têm a ver os ossos de Dom Pedro com o scanner?)

“Ora, aqui no Brasil, onde o segredo de Justiça só existe para os que são acusados, o que não valerá passar para a mídia todo segredo da Gisele Bündchen, com direito a Photoshop? Então, os nossos ministros Vannuchi e Jobim estão como a UDN dos meus tempos de jovem: discutindo o sexo dos anjos”.
(Gisele Bündchen, UDN, Photoshop e Vannuchi num mesmo parágrafo, só na cabeça tosca de Sarney, que, em vez do sexo dos anjos, há 50 anos discute a nomeação de apaniguados e porcentagens de comissões nada angelicais. Mas não é que ele acaba nos dando uma grande ideia? Gisele já era, que tal passar para a mídia “todo segredo” da Dilma no scanner, sem Photoshop?)

Começo a arquivar essas pérolas, porque isso dá antologia - afinal, Sarney (alguém lembra?) foi nosso presidente e está próximos dos 80. Iniciei a coleta pra valer pela primeira coluna do ano, que começava assim:
“Já estamos há nove anos no século 21, e parece que foi ontem que se discutia se os computadores rodariam o século ou um tumulto marcaria essas máquinas estreantes no calcular cem anos”.

Um exemplar autografado de O Dono do Mar para o ensaio que melhor explique essa Teoria da Relatividade de José Sarney.

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Fonte:
Blog (veja.com.br)

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