A mais recente pesquisa Ibope e os eleitores reais que os números escondem

Publicado em 01/08/2010 16:22 e atualizado em 03/08/2010 09:43 1671 exibições

Excitada, a petralhada resolveu cobrar: “Não vai escrever sobre a pesquisa Ibope? Só fala sobre o Datafolha?” Ora, é claro que escrevo. Por que não escreveria? Interrompo o meu verão, já nos finalmentes, para fazer a vontade dos meus leitores — os que me lêem porque gostam e os que o fazem para saber onde pôr seu ódio. Segundo a mais recente pesquisa Ibope, a petista Dilma Rousseff aparece com 5 pontos à frente do tucano José Serra: 34% a 39%. No segundo turno, a diferença seria de 6 a favor dela: 46% a 40%. O Ibope ouviu 2.506 pessoas entre os dias 26 e 29 de julho. Uma semana antes, entre 20 e 22, o Datafolha entrevistou 10.905 pessoas — uma amostra 3,3 vezes maior — e chegou a números bem distintos: empate técnico de 37% a 36%, com o tucano numericamente na frente no primeiro turno, e 46% (Dilma) a 45% (Serra) no segundo.

Em pesquisas, as tais margens de erro tendem a esconder oceanos de pessoas. O que quero dizer com isso? São 135,8 milhões os eleitores brasileiros. Segundo o Datafolha, Serra teria, na hipótese mais provável, 1,358 milhão de votos a mais do que Dilma no primeiro turno; em uma semana, assegura o Ibope, é Dilma quem tem 6,79 milhões de eleitores a mais. O que aconteceu nesses dias para tamanha mudança de humor dos eleitores? A resposta: nada! Os ditos “especialistas” não falam, então falo eu: um dos dois deve estar errado. Em quem confiar?

Não tenho motivos para desconfiar nem do Datafolha nem do Ibope. Então escolho o que o trabalha com a amostra maior — e bem maior: o Datafolha. Desde que se sigam os critérios técnicos corretos, uma pesquisa será tão mais confiável quanto maior for a amostragem. Os “especialistas” sabem disso. Silenciam a respeito porque, afinal de contas, o Ibope está mais de acordo com as previsões que fazem há dois anos.

Discrepância nas regiões
Quando se cotejam os números dos dois institutos por região, sobra espaço para algumas estranhezas. Na Sul, por exemplo, Serra lidera com 45% a 32% (Datafolha) e 46% a 31% (Ibope). No Norte/Centro-Oeste, Dilma está na frente: 41% a 33% no Datafolha e 40% a 33% no Ibope. Como vocês podem notar, os números coincidem dentro da margem de erro.

Na região Nordeste, a coisa muda de figura. No Datafolha, a petista lidera com 41% a 29% — 12 pontos de vantagem. No Ibope, a diferença salta para 24 pontos — 49% a 25%: o dobro. No Sudeste, as coisas se complicam também: o tucano lidera, segundo o Datafolha, por sete pontos: 40% a 33%, mas empata com a petista, numericamente atrás, no Ibope: 35% a 37% para ela. Estivessem certos os dois institutos, uma semana teria sido o suficiente para Serra perder cinco pontos e para Dilma ganhar 4. Por quê? Que ocorrência justificaria tamanha mudança?

Como explicar que Ibope e Datafolha cheguem ao mesmo lugar no sul e Centro-Oeste e a posições tão distintas no Nordeste e no Sudeste? Estando todo mundo certo, seria forçoso constatar que os eleitores destas duas últimas regiões seriam mais inconstantes do que os demais. Alguém aposta nisso?

Há institutos nos quais não confiaria a minha carteira, mesmo tão modesta, e há aqueles de que não tenho motivos para desconfiar. Até onde sei, o Ibope exibe o que apura. Mesmo na hipótese de estar todo mundo certo e de ter havido essa grande movimentação do eleitorado do Sudeste e do Nordeste em uma semana, convém constatar que a série histórica do Ibope não autoriza a euforia dos petistas. Na apuração do instituto, o eleitorado é bastante inconstante. Vejam: no dia 3 de junho, os dois candidatos estavam empatados em 37%; no dia 21, a diferença era de 6 pontos a favor de Dilma (32% a 38%); nove dias depois, eles estavam novamente empatados (36%); passado um mês, a diferença voltou a ser de cinco pontos para a petista.

Pesquisas não decidem eleições, mas influenciam, sim, o processo eleitoral — direi como no post abaixo deste. E servem para criar correntes de opinião, de pressão e, como não poderia deixar de ser, para embates ideológicos.

Por Reinaldo Azevedo

Os institutos costumam perguntar aos entrevistados quem eles acham que vai ganhar a eleição. Nesse caso, todos chegam ao mesmo resultado: Dilma Rousseff. Não há surpresa nenhuma nisso. Algumas pesquisas malandras, que mal disfarçam seu alinhamento com o governo, colaboram para criar esse clima em favor da candidata oficial. Não só isso: há o efeito avassalador da propaganda oficial e o uso descarado da máquina pública em favor da petista.

Esse “clima” pró-Dilma pode não ser decisivo no voto do eleitor, mas influencia o processo eleitoral, em particular as doações de campanha. Por mais que as grandes empresas façam questão de pôr seus ovos nos dois cestos, é evidente que o de Dilma fica mais carregado  — e dinheiro sempre torna a campanha eleitoral mais fácil.

Navego rapidamente e noto que a Al Qaeda eletrônica da petralhada está excitadíssima, pedindo a cabeça do Datafolha. Não é segredo para ninguém que me lê que prefiro os números deste instituto aos do Ibope, certo? Mas não desqualifico a pesquisa que me desagrada — o que fiz em outras ocasiões (e farei sempre)  foi distinguir o que é pesquisa do que é bandidagem a soldo — e, até onde sei, não é esse o caso do Ibope. E, obviamente, não é do Datafolha, referência de seriedade.

Uma cartilha que serve aos propósitos do PT, disfarçada de revista semanal, onde trabalha o chefão de uma empresa que faz pesquisas para o partido, resolveu lançar uma guerra santa contra o Datafolha. Os petistas desmoralizam as instituições dia após dia. Por que não fariam o mesmo com os institutos de pesquisa?  Os que eles não conseguem comprar não prestam, entenderam?

Leituras tortas
Pesquisas também colaboram para chutes que revelam mais a inclinação do analista do que a verdade dos números. No post que escrevi na semana passada sobre os números do Datafolha, notei que há uma grande pressão para que os tucanos deixem de lado os porões do PT.

No Estadão de hoje, José Roberto de Toledo analisa os números do Ibope. Escreve:
“O resultado desfavorável a Serra no Ibope ocorre depois de o tucano ter intensificado as críticas ao governo Lula. Por influência de seu principal marqueteiro, o tucano passou a atacar pontos específicos da gestão petista, como a política exterior e a relação do PT com movimentos sociais que têm uma imagem negativa na classe média, como o MST”.

É evidente que o autor está sugerindo que há aí uma relação de causa e efeito. É fácil, muito fácil, desconstruir a ilação:
1 - Segundo o Ibope, no dia 3 de junho,  Serra e Dilma estavam empatados em 37%,. Dezoito dias depois,  a diferença em favor da petista era de 6 pontos (38% a 32%), e  o tucano, segundo Toledo ao menos, ainda não atacava “pontos específicos” da gestão petista;
2 - “Política exterior” deve ser a “política externa”. Serra a vem criticando desde sempre. Referiu-se ao alinhamento do Brasil com o Irã, por exemplo, em dois discursos: naquele em que admitiu ser o candidato tucano e na fala oficial da convenção. Isso não é novo em sua fala;
3 - Também não é nova a crítica à relação deletéria entre o governo e o MST — como revelam seus discursos e suas entrevistas Brasil afora. Tudo isso têm data e está em arquivo. Nota à margem: o MST não tem uma imagem ruim só na classe média, não. O grupo é repudiado pela esmagadora maioria dos brasileiros de todas as classes;
4 - O que é relativamente novo é a crítica aos flertes do governo e do PT com as Farc, isto sim. As Farc não são um “movimento social”. Lula voltou a escolher o pior lado ao tentar desqualificar o governo colombiano, que exibe uma fartura de provas da aliança de Hugo Chávez com os narcoterroristas 
 que já foram parceiros no PT no Foro de São Paulo.

Ao tentar criar uma relação de causa e efeito entre a crítica mais dura de Serra ao governo e um resultado momentaneamente desfavorável no Ibope, Toledo se comporta como pesquiseiro de obra feita — vale dizer: não tendo uma boa razão para explicar a vai-e-vem do eleitorado, então cai numa falácia lógica que já era apontada pelos escolásticos: “Depois disso, logo, por causa disso” — a forma latina consagrada é esta: “Post hoc, ergo propter hoc”. Caso o discurso de Serra fosse manso como um cordeiro, o autor certamente veria na ausência de confronto a causa da diferença. O que vem antes não é causa necessária do que bem depois.

Eu não sei se o autor da ilação sabe disto ou não, só sei que é fato: a versão de que atacar as relações entre o PT e as Farc é ruim para Serra surgiu no PT. Como não acredito que os petistas queiram o bem do candidato tucano, então me parece que a patacoada interessa aos… petistas.

O “principal marqueteiro de Serra” deu a ele aqueles conselhos, é? Então fez bem. Eu estou entre aqueles que acreditam no poder saneador da verdade. E acho que falta dizer algumas verdades sobre o PT e o governo. Mas deixo isso para a minha volta. Afinal, ainda estou de férias, c0mo sabem. Na madrugada de segunda, volto de mangas arregaçadas. Vai, Tio Rei, em busca do que resta de sol!

Por Reinaldo Azevedo
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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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1 comentário

  • Valter Antoniassi Fátima do Sul - MS

    Não se preocupe Reinaldo,a lei da natureza é perfeita e maravilhosa,mais cedo ou mais tarde todos os petralhas irão arder no mármore do inferno KKKKKKK...fico de queixo caido só de pensar em como são dissimulados,além de utilizarem de todo tipo de artimanha e maracutaias para o benefício próprio em detrimento das pessoas de bem,ainda tem seguidores que reclamam do termo petralhas.Fala sério que falta de senso de humor.

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