O Itamaraty condecorou um prontuário, (sobre Erenice Guerra)

Publicado em 25/09/2010 20:34
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O Itamaraty condecorou um prontuário

Erenice Guerra, Ana Maria Amorim, Mariza Campos e Marisa Letícia

Até a descoberta de que a Casa Civil foi reduzida a covil da família de Erenice Guerra, a concessão da Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco à mãe do próspero vigarista Israel foi apenas e já não é pouco mais uma torpeza produzida pelos áulicos profissionais do Itamaraty. Na Era da Mediocridade, não basta agraciar a melhor amiga de uma possível presidente da República com rapapés, genuflexões, agrados subaternos, minuetos servis e discurseiras bajulatórias. É preciso também condecorá-la.

O desmoronamento da Casa Vil promoveu a coisa de celerado a vilania consumada em abril. Prestar reverências à matriarca de um clã unido no banditismo é vassalagem de comparsa. Quem homenageia publicamente um monumento à corrupção impune está moralmente corrompido até a medula. Até que alguém se responsabilize pelo ultraje, a paternidade da ideia pertence a Celso Amorim. Ao agraciar Erenice, ele se desonrou. Isso não tem importância. E desonrou a Grã-Cruz. Isso é imperdoável.

Enquanto a roubalheira descarada foi carinhosamente rebatizada de denuncismoou factoide pelo presidente e pela primeira devota, os envolvidos na infâmia puderam olhar para os lados e fingir que não era com eles. O truque já perdeu a validade, avisa a confissão malandra feita pelo presidente Lula ao portal Terra: .Se alguém acha que pode chegar aqui e se servir, sabe, cai do cavalo. Porque a pessoa pode me enganar um dia, pode me enganar, sabe, mas a pessoa não engana todo mundo todo tempo. E quando acontece, a pessoa perde. O que aconteceu com a Erenice é que ela jogou fora uma chance extraordinária de ser uma grande funcionária pública deste país.

Tradução: Erenice foi ávida demais e cautelosa de menos. Perdeu a chance de ser uma grande funcionária por estar exclusivamente interessada na chance de virar milionária. Segundo regras fixadas pelo Ministério das Relações Exteriores,  as condecorações conferidas no Dia do Diplomata são oferecidas a pessoas que se destacam em suas áreas de atuação. Os parentes devem saber o que fazem de especial as mulheres de Lula, de José Alencar e de Amorim. Talvez uma receita de pastel de antigamente, provavelmente um bordado no capricho, quem sabe um remédio caseiro que a avó ensinou.  As áreas de atuação em que Erenice se destacou são conhecidas. Estão todas capituladas no Código Penal.

Também de acordo com o Itamaraty, a Ordem do Rio Branco é destinada a galardoar os que por qualquer motivo se tenham tornado merecedores do reconhecimento do Governo Brasileiro, servindo para estimular a prática de ações e feitos dignos de honrosa menção, bem como para distinguir serviços meritórios e virtudes cívicas. Conjugados, o palavrório do presidente e a sopa de letras em itamaratês permitem que até os cegos voluntários, os portadores de miopia cafajeste e os cretinos fundamentais vejam as coisas como as coisas são: para desfazer a ignomínia costurada a muitas mãos, Erenice Guerra deve ter a honraria imediatamente confiscada.

Um prontuário enfeitado com a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco não faz sentido nem no Brasil de Lula.

Segue a essência do que penso sobre os acontecimentos das últimas horas: a notícia de que vai crescendo a possibilidade do segundo turno na eleição presidencial é muito boa para os democratas, mas nada tem de surpreendente.

Sempre duvidei dos resultados das pesquisas. Nunca perdi muito tempo com índices pescados a milhares de léguas do dia da eleição. Sempre achei que na reta final as curvas seriam, como direi?, corrigidas. Também vivo repetindo que Dilma Rousseff é a adversária que todo concorrente pede a Deus. A oposição que luta na internet tem feito o possível para que o eleitorado enxergue a evidência: a Doutora em Nada é mais que uma candidata de quinta, é um perigo de bom tamanho. Faltava a oposição partidária acordar.

Tomara que tenha acordado a tempo para a obviedade reiterada a cada meio minuto: os governistas precisam ser empurrados para o combate na frente moral. Nessa, eles não têm chances. É por saberem disso que andam tão visivelmente desesperados há tantos dias. Todos sabem que não é possível esconder por muitos dias mais o palanque atulhado de stalinistas farofeiros, órfãos de Marcos Valério, guerrilheiros genoínos, oligarcas cleptomaníacos, sessentonas que fazem qualquer negócio para aparentarem algumas horas a menos, pelegos que cobram por minuto, blogueiros estatizados, jornalistas sem jornal, milicianos de hospício e todas as demais categorias de sócio do imenso clube dos cafajestes.

Eles sabem o que acontecerá se houver segundo turno.

Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa.

Assim começa a crônica publicada por Nelson Rodrigues em 5 de abril de 1968 no jornal O Globo, com o título Os dráculas.  Há 42 anos, o grande cronista ironizou uma trêfega ideia de dom Helder Câmara: modernizar a missa católica com a substituição da música sacra por sons mais brasileiros. Parece ao arcebispo de Olinda e Recife que se pode louvar a Deus, igualmente ou até com vantagens, com a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o tamborim.

Certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: a nossa. Assim pode começar qualquer texto sobre este assombroso início de primavera. Os dráculas de 2010 são bem menos inofensivos que os de Nelson Rodrigues. Querem transformar a imprensa no Grande Satã para louvar a roubalheira, a corrupção, o liberticídio, a impunidade institucionalizada.

Não há nada de espantoso na relação dos organizadores da manifestação que prega o assassinato da verdade. São pelegos arrendados, universitários em idade de aposentadoria, desocupados sem terra e sem cérebro e outras nulidades. O que assombra é o local do evento: as tropas do primitivismo vão declarar guerra à liberdade de imprensa no sindicato dos jornalistas de São Paulo.

A desoladora indigência intelectual dos dirigentes permite uma segunda suspeita. Como jamais conseguirão assinar uma reportagem em jornais ou revistas que obedeçam a critérios profissionais, aí estaria uma chance de verem seus nomes impressos em publicações sérias. Mas fico com a primeira hipótese. Eles não sabem o que fazem. Como todos os que contribuem para deixar nossa época com cara de doente mental.

Nenhum brasileiro sensato compraria da turma que aparece no vídeo sequer uma bicicleta usada. No momento, todos eles querem vender uma Dilma Rousseff zero voto. Só topa um negócio desses quem não tem juízo. Veja o assustador cortejo de cabos eleitorais. Se o Brasil ainda faz sentido, é o suficiente para liquidar qualquer candidatura.

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Fonte: Blog Augusto Nunes (VEJA)

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