O diabo na alma do Ocidente, por Reinaldo Azevedo

Publicado em 13/12/2010 15:49 e atualizado em 14/12/2010 07:58

A capa do caderno Aliás do Estadão deste domingo trouxe o seguinte título: “Liberdade à sombra”. E se pode ler ali uma síntese do que vai no miolo:

“Sakineh Ashtiani? Presa. Liu Xiaobo? Preso, Julian Assange? Preso. São três personagens diversos, a desafiar establishments. Nesta edição, Mohammad Mostafaei, de seu exílio na Noruega, conta como o caso de sua cliente mais famosa, a iraniana condenada ao apedrejamento, é tratado pelo governo de Teerã. O escritor e dissidente chinês Ma Jian analisa por que Pequim quer apagar da história o Nobel de Xiaobo. E Sérgio Augusto percorre o labirinto de acusações que hoje cerca Assange, o polêmico criador do site WikiLeaks.”

Todos sabem: não participo do culto a Julian Assange; não acho que sua “missão” seja virtuosa para a democracia; acredito que o trabalho do WikiLeaks, da forma como se dá, flerta abertamente com a delinqüência. E já expus aqui fartamente os meus motivos. Isso nada tem a ver com liberdade de imprensa. Que ela publique o que quiser já que se sente confortável em ser parte de uma cadeia que, na origem, é criminosa. Roubar dados sigilosos é crime, e um estado que não procurasse coibi-lo e punir os responsáveis estaria renunciando a seu papel.

“Eu só cheiro o pó; não faço o tráfico”, poderá dizer um homem honrado. “Eu só compro relógios e carros roubados; não sou eu quem os rouba”, poderia dizer outro homem honrado… Comparação exagerada? Ora, então me digam onde está a diferença. “No interesse público!”, responde alguém de imediato. Sei… Isso, por acaso, quer dizer que o sigilo das políticas de estado nunca é de interesse da coletividade? A derrota da Alemanha nazista talvez deva pôr tal juízo em perspectiva! Qual é a tese? Quando elegemos governos, segundo leis e regras democráticas conhecidas, nós lhes atribuímos a função de arbitrar o que pode e o que não pode ser tornado público, segundo leis. É uma das regras do jogo. Mesmo esse aspecto perde um pouco de relevância agora.

Já escrevi aqui algumas vezes que o WikiLeaks, mesmo com esses vazamentos irrelevantes, estava servindo para desmoralizar a democracia mais importante do mundo, alimentando, assim, o antiamericanismo tosco. Lula, como sempre, esteve entre aqueles que perceberam o mal com antecedência, e, por isso, ele pôde falar besteira primeiro. A “síntese” do caderno Aliás, do Estadão, não poderia ser mais reveladora; as palavras fazem sentido, e o que vai na página do jornal é claro: Julian Assange, Sakineh e Liu Xiaobo são figuras equivalentes; os três lutam contra “establishments” e estão presos. Tal consideração poderia ser publicada num jornal de Teerã ou distribuída pela Irna, a agência de notícias do governo.

Trata-se de um raciocínio escandaloso, ideologicamente orientado, ainda que a motivação do editor tenha sido outra.

No miolo do caderno, conforme se anuncia, há três textos. Andrei Netto faz uma boa entrevista com Mohammad Mostafaei, advogado de Sakineh. Ma Jian, um dissidente chinês, detalha a Carolina Rossettti a rotina de um regime em que a modernização é imposta no porrete. E coube a Sérgio Augusto, num texto intitulado “Candidatos a ‘homens do ano’”, forçar a mão para demonstrar que Assange, Liu Xiaobo e Sakineh são prisioneiros políticos de regimes distintos, mas vítimas de um mesmo mal que, não obstante, assume faces diversas. Suas palavras não deixam margem para interpretações alternativas. Leiam um trecho:

Liu Xiaobo não pôde ir a Oslo, Julian Assange pode estar indo para Estocolmo. Liu ganhou o Nobel da Paz, periga de Assange levar o próximo (indicado pelos russos já foi). Ambos estão atrás das grades: Liu na China, cumprindo pena de 11 anos, Assange na Inglaterra, desde terça-feira. Liu é um preso político, Assange também, a despeito dos esforços das autoridades britânicas e suecas para enquadrá-lo como um reles delinquente sexual. Mesmo com o vulcão Eyjafjallajökull adormecido, o norte da Europa está pegando fogo. Liu e Assange foram os “homens do ano”, junto com a iraniana Sakineh (o sexo é de somenos nessa categoria): três vítimas de diferentes formas de autoritarismo, três exemplos de coragem e resistência.

Pronto! Todo o resto, no fim das contas, é desnecessário. Sérgio Augusto decretou o empate entre estas três ditaduras: os EUA, a China e o Irã. Tudo o que a delinqüência política e intelectual busca mundo afora é provar a hipocrisia e a falência da democracia ocidental. Se pensarem bem, é essa a motivação da rede terrorista Al Qaeda: “Queremos provar que são eles [os ocidentais, os decadentes, os americanos e seus asseclas] a fazer aquilo de que nos acusam”. A partir do texto se Sérgio Augusto, sabemos que viver é muito perigoso: em Londres, Nova York, Pequim ou Teerã. Osama Bin Laden tem procurado demonstrar isso de modo mais evidente desde a derrubada das Torres Gêmeas e do atentado ao prédio do Pentágono. Qual é o problema desse rapaz? Bem, ele é um tanto exagerado, não é?, e acaba militando contra a causa.

Como percebemos — e Sérgio Augusto não está sozinho nesta abordagem —, Julian Assange conseguiu disseminar esse ponto de vista sem explodir uma única bomba ou fazer verter uma gota de sangue. Americanos (e seus sequazes em Londres ou Estocolmo) não seriam menos autoritários do que chineses ou iranianos quando os interesses dos respectivos “establishments” (assim mesmo, no plural e, na verdade, num singular que a todos englobaria) estão em causa. Se for preciso, os EUA demonstram a sua face chinesa ou iraniana. O que Sérgio Augusto e nenhum outro articulista conseguiria explicar, se acordo com seu próprio raciossímio, é por que o Irã e a China não conseguem exibir o seu lado americano.

Que diferença faz o fato de o Irã ser um país notório por suas farsas jurídicas, agora incrementadas com filminhos de suspense na TV em que a vítima é obrigada a atuar como atriz da própria desgraça, horror que nem Goebbels, o mais articulado das facínoras da “comunicação de massas”, imaginou? O que importa que, na China, a tirania do Partido Comunista seja vista como base necessária da modernização capitalista? Nem e noutro casos, dissidentes vão para a cadeia ou são eliminados em praça pública. Criticar tais países já se tornou quase uma rotina burocrática do humanista padrão.  Sérgio Augusto e o editor do Aliás estão certos de que coragem grande mesmo é denunciar os Estados Unidos e a Suécia…

Porrada nos conservadores
O Ocidente, como vemos, não é  flor que se cheire. Mas nem todos devem apanhar igualmente. É claro que a “direita” e os “conservadores” têm de tomar mais porrada. Sérgio Augusto escreve que Obama ainda não tomou providências contra Assange e o WikiLeaks — falso: seu governo se mobilizou contra o site, no que faz bem 
, mas seu bicho papão, como de hábito, são os sanguinários republicanos… Como vocês sabem, esses “fundamentalistas cristãos” não são muito diferentes de terroristas islâmicos…

Ocorre que Assange está preso na Inglaterra sob a acusação de estupro na Suécia. Ao contrário do que vende aquela chamada na capa do caderno, Sérgio Augusto NÃO “percorre os labirintos da acusação” coisa nenhuma! Limita-se a endossar as restrições feitas por Glenn Greenwald, para quem a história não está bem-contada, pondo sob suspeição o sistema legal sueco. Vocês sabem como Estocolmo pode se confundir com Teerã… Como faltam elementos para endossar as suspeitas de condução política, resta ao jornalista brasileiro repetir Greenwald: provar que a “lei do estupro” na Suécia é absurda, exagerada, “porta aberta para uma próspera indústria do (falso) estupro, mão na roda para mulheres levianas e advogados inescrupulosos”. Posso até concordar com isso.  Mas cadê a evidência de condução política? Ademjais, um dia Sérgio Augusto deveria refletir sobre a lei brasileira, país que, não sendo, assim, uma Suécia, pode considerar, a depender das circunstâncias, o beijo uma variante do estupro…

Sergio Augusto parece ter ainda um outro argumento definitivo em favor de Assange. Leiam:
O WikiLeaks não divulgou de roldão 250 mil sigilosas mensagens diplomáticas. De tão explorada, essa balela corre o risco de virar “verdade”, no sentido que o dr. Goebbels dava à palavra. Dos 251.297 documentos que tem guardados, o WikiLeaks divulgou, até o momento, cerca de mil. E só o fez depois de se aconselhar com as cinco organizações jornalísticas (The Guardian, The New York Times, El País, Le Monde, Der Spiegel) que aos vazamentos se associaram e por eles são corresponsáveis.

Goebbels é lembrado com propriedade nesse trecho. O jornalista considera que o fato de Assange ter anunciado 251.297 documentos e divulgado apenas mil até agora conta a seu favor, como se isso não pudesse caracterizar uma forma de chantagem, a exemplo do que ele já fez com as informações que diz ter sobre um “grande banco americano”, que todos sabem ser o Bank of America. Vejam com que tranqüilidade Sérgio Augusto dá de barato que seja de Assange a prerrogativa de divulgar dados sigilosos obtidos de modo criminoso. Açambarcou uma prerrogativa do estado. Mais: para o jornalista, o “aconselhamento” de cinco organizações jornalísticas elimina qualquer resquício de crime. Por quê? O WikiLeaks ter chamado esses veículos para lavar a origem criminosa dos dados vazados muda a sua essência moral?

Desde o primeiro texto que escrevi a respeito desse caso, eu queria chegar justamente a este ponto, sintetizado com tanta percuciência por Sérgio Augusto. Pouco importam suas intenções, que não sei quais são — mas não cheiram bem —, Julian Assange é hoje um pretexto para a desmoralização dos regimes democráticos e de seus mecanismos de mediação e controle de conflitos. Eis aí. Essa abordagem, reitero, não é só do jornalista brasileiro, não. Neste fim de semana, por algumas horas, fiquei zapeando TVs dos EUA, da França, de Portugal… Essa bobagem vai se repetindo mundo afora.

Se há um empate entre EUA, China e Irã, devemos supor que esses “analistas” queiram o desempate, não é? E ele só se realizariam, vejam que desdobramento lógico fabuloso!, se americanos (e ocidentais) deixassem de punir até os crimes para que seus algozes, do outro lado, continuassem a punir inocentes — ou “criminosos” de consciência; só saberíamos defender a superioridade do nosso regime deixando impunes os nossos criminosos.

O terrorismo começa a ser o vitorioso moral da batalha. Quem não sabe a diferença entre o crime e a liberdade de expressão acaba, fatalmente, condescendendo com quem não distingue a liberdade de expressão do crime. Na China e no Irã, uma coisa e outra se equivalem. E, estamos vendo, de modo espelhado, mas guardando a malignidade essencial da equivalência, o mesmo se dá entre nós. Os principais adversários da democracia não usam turbante. O mal está dentro de nós.

Por Reinaldo Azevedo

Tudo vai ficando muito claro: Lula, o grande democrata, quer participar de ato público em favor do WikiLeaks

Abaixo, escrevo um texto demonstrando como os adversários da democracia ocidental dos mais variados matizes estão se aproveitando do caso WikiLeaks, que conflui para um único objetivo: desmoralizar a democracia americana e transformar os EUA no grande vilão do mundo. Recomendo a leitura. Pois bem. Leiam o que segue. Comentarei a seguir...:

Por Simone Iglesia, na Folha Online:


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta segunda-feira que, ao deixar o governo, não ficará dentro de uma “redoma de vidro” e que participará de protestos. Brincou que só não participará de manifestações contra sua sucessora,Dilma Rousseff. Segundo ele, o primeiro evento nas ruas pós-governo poderá ser pela liberdade de imprensa e pela defesa do site WikiLeaks.

“Podem estar certos que nos encontraremos em algum lugar desse país, em alguma assembléia, em alguma passeata, em algum protesto, não contra a Dilma, mas em algum protesto contra alguma coisa. Um protesto porque censuraram o WikiLeaks, vamos fazer manifestação, porque a liberdade de imprensa não tem meia cara, tem que ser total e absoluta, não pode desnudar só um lado. Tem que desnudar tudo”, disse Lula durante entrega do Prêmio Direitos Humanos 2010.

Dizendo que apanhou até cair no chão durante a crise do mensalão, em 2005, o presidente disse que deveria ter sido atendido, naquele período, pela Comissão de Direitos Humanos. “O governo precisava da Comissão de Direitos Humanos para defendê-lo porque a linha de ataque era violenta, raivosa, aquele negócio de que é hora de acabar com o governo e bater no governo até cair no chão”, afirmou. Lula disse que pediu ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, que entregue nos próximos dias relatório da situação da busca de corpos no Araguaia.

A cerimônia de premiação foi interrompida duas vezes por manifestantes. Primeiro, um grupo aproveitou uma brecha em que ninguém estava discursando e gritou em coro “Abertura dos arquivos já”. Em seguida, quando Lula discursava, uma manifestante parou em sua frente e abriu uma faixa pedindo audiência com ele ou com a presidente eleita, Dilma Rousseff.

A manifestante, Ana Elisabeth Faria Costa, disse depois do evento que um irmão e outras quatro pessoas estão presas por índios dentro de uma reserva no Pará. Ela disse correr risco de morte por vir a Brasília protestar. Depois das duas saias-justas, Lula fez elogios à atuação de Paulo Vannuchi na Secretaria de Direitos Humanos e acabou cometendo uma gafe que logo tentou minimizá-la. O presidente disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS), que assumirá a secretaria no governo Dilma, que ela poderá se esforçar ao máximo, mas que nunca irá superar Vannuchi na área, no máximo, terá seu trabalho igualado a ele. Ao perceber o mal estar causado por sua frase, Lula remendou que não se deve nunca duvidar do potencial das mulheres.

“Acho, Maria do Rosário, que você pode fazer o máximo que fizer, mas vai apenas fazer igual [a Vannuchi]. Mais do que foi feito nesse período, acho impossível. Se bem que na política nada é impossível. E como as mulheres estão galgando mais espaço na política, o que parece impossível para os homens pode ser baba para as mulheres”, afirmou.

Por Reinaldo Azevedo

WikiLeaks e ONU: O meu mundo continua a distinguir tirania de democracia

Não dá! As coisas têm de ter proporção. Reproduzi nesta madrugada trecho da reportagem da Folha em que Navi Pillay, Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, expressa a sua preocupação com a suposta perseguição de que estariam sendo vítimas o site WikiLeaks e Julian Assange. No título, empreguei a expressão “Antiamericanismo na ONU”. Houve quem reclamasse. Então vamos lá.

Hoje é o dia internacional dos Direitos Humanos. Em seu pronunciamento, Navi chamou de “heróis” aqueles que defendem a causa no mundo. E citou o chinês Liu Xiaobo, vencedor do Nobel da Paz, condenado a 11 anos de cadeia. A China ficou furiosa com a premiação. Navy lembrou que a mulher de Xiaobo e seus amigos também estão sendo perseguidos.

Muito bem! Navy cumpre a sua obrigação. Ocorre que, em seguida, engatou uma fala em defesa do WikeLeaks, expressando a sua preocupação com o fato de que empresas estariam sendo pressionadas a não colaborar com o site. Segundo a comissária, a liberdade de expressão pode estar sendo ameaçada. Pondera que, se transgressões foram cometidas, que sejam punidas dentro do sistema legal.

Aí eu acho que dona Navy está falando uma língua de outro pleneta, dos Na’vi talvez… Expressar preocupação com o WikiLeaks no mesmo pronunciamento em que se refere à China, uma tirania, onde se pode ficar uns bons anos na cadeia por discordar de uma medida do governo? Onde inexiste liberdade de expressão, de organização, de religião, de consciência? Aí se trata de mistificação!

Qual foi a transgressão legal cometida pelos EUA até agora? Buscar mecanismos para punir — e ninguém tentou impedir a publicação de nada até agora — o vazamento criminoso de dados sigilosos?

A ONU tem dessas coisas não é de hoje. Comissões e comissariados ligados a direitos humanos e afins estão coalhados de antiocidentais no geral e antiamericanos em particular. Se o australiano Julian Assange está para os EUA como Liu Xiaobo está para China, Navi Pillay está para a Justiça como estaria um Salomão que estivesse falando a sério quando propôs  dividir ao meio a criancinha…

E daí que quase ninguém mais critique essa gente ou se importe com isso? Meu mundo tem valores e hierarquia. Eu ainda sei distinguir uma tirania de uma democracia. Não me importo em ser um dos primeiros de um eventual renascimento dos valores ocidentais ou um dos últimos de um mundo em extinção. Quem junta EUA e China numa mesma censura está, necessariamente, tornando uma democracia pior do que é uma tirania melhor do que é. Melhor para os tiranos.

Sendo assim, eu censuro a língua Na’avi de Navy!

Por Reinaldo Azevedo

Embaixador dos EUA trata o irrelevante como… irrelevante!

Leia o que informa o Estadão Online. Volto em seguida:

O embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Thomas Shannon, disse hoje que seu país tem uma relação “positiva e de longo prazo” com a presidente eleita, Dilma Rousseff. Ao visitar nesta manhã a sede da Ordem dos Advogados do Brasil - seccional São Paulo (OAB-SP), Shannon citou várias ocasiões em que Dilma visitou os Estados Unidos como secretária de Energia do Rio Grande do Sul nos anos 90 e como ministra de Minas e Energia e da Casa Civil no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele negou que os Estados Unidos possuam qualquer tipo de informação sobre a participação de Dilma em ações terroristas durante o regime militar, conforme divulgou o site WikiLeaks.

Na edição de hoje, o jornal Folha de S.Paulo publica que o WikiLeaks teve acesso a telegrama confidencial de 2005 da diplomacia dos Estados Unidos que afirma que Dilma “organizou três assaltos a bancos” e “planejou o legendário assalto popularmente conhecido como ”roubo ao cofre do Adhemar” durante o regime militar.

“Como eu falei ontem, o governo dos Estados Unidos não têm informação alguma sobre essas informações”, disse Shannon. “É importante indicar que a nossa relação com a presidente eleita é positiva e de longo prazo.” De acordo com ele, após a eleição de Dilma, ela já foi convidada pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, para visitar a Casa Branca. “Essa série de experiências com ela mostra claramente nossa confiança nela e as relações excelentes que temos com a presidente eleita.”

Shannon também fez comentários sobre a entrevista concedida na semana passada por Dilma ao jornal Washington Post. Para ele, a entrevista foi “excelente” e foi muito bem-recebida por Washington. Nela, a presidente eleita afirmou que se sentia desconfortável, como mulher, com a violação de direitos humanos no Irã e a condenação à morte por apedrejamento de Sakineh Ashtiani.

“A entrevista mostra a habilidade de Dilma de separar uma política com o Irã e o problema de direitos humanos que existe no país. Isso é muito importante e mostra uma área em que muitos países e organizações não-governamentais querem aprofundar e construir um espaço em que podemos colaborar de maneira importante”, afirmou o embaixador dos Estados Unidos no Brasil.

Comento
Uma informação sem importância não passa a ser importante porque, secreta na origem, acaba chegando à imprensa. Qual é a novidade no comunicado passado pela diplomacia americana sobre Dilma Rousseff? Ela não pertenceu mesmo a grupos que assaltaram bancos? Não era membro da organização que roubou o famoso “cofre do Adhemar”? Não era, segundo vários testemunhos, quadro dirigente da VAR-Palmares? Não chegou, como diria Camões, a “arrostar co’o sacrílego gigante” (para as esquerdas ao menos) Carlos Lamarca para manter a VAR-Palmares, quando ele decidiu refundar a VPR? Seu marido não ficou responsável por parte da grana do tal cofre? Ela não cuidou de uma fatia das finanças da organização? Então…

Os “vazamentos”, na forma como chegam ao público, alimentam fanfarronices, como a de Lula, segundo quem a diplomacia americana foi flagrada fazendo o que não devia. E isso é uma grossa besteira. A tarefa corriqueira de diplomatas assume ares de conspiração. A embaixada americana não foi flagrada propondo alguma maneira de evitar a eleição de Dilma Rousseff. Fez um resumo, até bastante sintético, de sua biografia. Cadê o pecado? Também nesse caso, o crime está no vazamento.

Por Reinaldo Azevedo

Marco Aurélio Garcia: eis um homem corajoso. Ele jamais teme o ridículo!

Pense o pior de um petista. Você pode se adiantar um tantinho aos fatos; pode, por ignorar isso ou aquilo, estar um pouco atrasado, mas uma coisa é certa: jamais estará errado. Nesta sexta, ao tratar do caso da iraniana Sakineh Ashtiani, afirmei que Celso Amorim deve ter ficado um tanto decepcionado ao saber que a notícia de sua libertação era falsa porque certamente se preparava para considerar o evento mais uma conquista da diplomacia brasileira. Eu costumo me adiantar ao petismo, como sabem. Desta vez,  cheguei um tanto atrasado: ATENÇÂO: MARCO AURÉLIO GARCIA JÁ HAVIA FEITO AQUILO QUE EU DISSE QUE AMORIM FARIA. A ignomínia do Top Top chegou antes de meu pior pensamento a respeito deles. Que gente!

Na quinta,Marco Aurélio aproveitou para faturar: “O presidente Lula  ficou muito, mas muito satisfeito e emocionado”  com a libertação de Sakineh. Indagado se era mais uma conquista do Babalorixá de Banânia, ele tentou fingir modéstia decorosa. Afirmou que aquilo não nem era o mais importante! Mas sem negar jamais a influência de Lula na “libertação”.

Vocês sabem: quando se é Marco Aurélio Garcia, isso quer dizer que a pessoa não tem limites. O episódio relacionado aos 199 mortos do acidente da TAM — quando brindou o Brasil com obscenidades; eu me refiro às obscenidades humana e política — sintetiza bem o caráter deste senhor. Na quinta, não foi diferente. Ele aproveitou a falsa libertação de Sakineh para pensar: “É um ato de justiça. É uma vitória dos direitos humanos em geral e confirma que há formas eficientes de vender os direitos humanos que não precisam ser ruidosas.”

Huuummm!!!

Se a libertação evidenciaria tudo aquilo, a manutenção da prisão prova o contrário: trata-se de uma derrota dos direitos humanos (e é mesmo) e confirma que as formas “não-ruidosas” de “vender” (sic) os direitos humanos não funcionam. Ou seja: a política externa brasileira se mostra, uma vez mais, uma fraude. Marco Aurélio tentava justificar os desatinos do Itamaraty, que chegou a enviar à ONU um documento em que pede a revisão da política de sanções a países que violam os direitos humanos. A conversa, diz o governo Lula, seria muito mais eficiente. A gente vê!

Dilma se disse, “como mulher”, contrária à condenação de Sakineh, chamou o apedrejamento de “prática medieval” e discordou do voto dado pelo Brasil, que se absteve de condenar o Irã por violações aos direitos humanos. Ok, mas isso ainda não quer dizer nada. Vamos ver como o Brasil vai se comportar nas votações da ONU e que mensagem ela passará ao mundo: dará seqüência à prática de Lula de desfilar ao lado de tudo quanto é facínora do planeta?

A perspectiva é boa? Boa não é! Antônio Patriota, que vai assumir o Itamaraty, é da turma de Celso Amorim. E Marco Aurélio, esse que aparece, mais uma vez, desempenhando um papel grotesco, foi confirmado como assessor especial para a política externa.

Por Reinaldo Azevedo

A outra mensagem da embaixada americana em Honduras que diz bem quem era Zelaya: bolivariano, maluco e mafioso! Chamem Celso Amorim!

Num dos telegramas vazados pelo WikiLeaks, o embaixador americano em Honduras, Hugo Llorens, classifica de “golpe” a queda de Manuel Zelaya. Celso Amorim aproveitou para tirar uma casquinha - o Brasil é um país que fala grosso com Tegucigalpa!!! -, ironizando setores da imprensa (eu!) que negavam o golpe. E, de fato, não houve! Segundo o Megalonanico, Llorens deixava claro que o governo brasileiro se comportara bem na crise. Sei… Nota à margem: a mensagem do embaixador tem zero de novidade. A Casa Branca também chamou de golpista a deposição e pediu a reinstalação de Zelaya no poder. Não conseguiu e mudou de idéia.

Pois bem. Há outra mensagem da embaixada americana em Honduras, esta de 2008, também vazada pelo WikiLeaks. O antecessor de Llorens, Charles Ford, explica ao sucessor quem é Zelaya, que ainda estava no poder. Traduzo a reportagem do jornal espanhol El País, publicada nesta sexta. Vale a pena ler. Em nenhum momento a embaixada fala em depor o presidente, é claro. O diplomata trata, sim, das ligações de Zelaya com Chávez, mas sua preocupação central é outra: o vagabundo havia levado o crime organizado para dentro do governo.

Essa mensagem da embaixada americana, parece, Celso Amorim não vai comentar. Leiam o texto. Ford faz um relato fascinante. É pena não ter sido embaixador no Brasil. Eu adoraria ler a sua descrição do Babalorixá de Banânia.

*
Por Maite Rico

Caricatura de latifundiário. Adolescente rebelde. Errático em suas opiniões e comportamento. Desconfiado. Encantador nas conversas pessoais. Mas também sinistro. E corrupto. Um mês após deixar o cargo em Honduras, em abril de 2008, o embaixador dos EUA Charles Ford deixou por escrito suas impressões sobre o presidente Manuel Zelaya, que seria deposto e expulso do país em 28 de junho de 2009, episódio que virou de cabeça para baixo a política regional. Esse é o retrato severo e irônico que Ford faz de Zelaya para instruir seu sucessor no trato com a personagem, sugerindo que mantenha com ele uma conversação direta na “esperança de  de minimizar os danos à democracia e à economia hondurenhas”.

O relato, datado de 15 de maio de 2008, é classificado como secreto. Zelaya estava no poder havia dois anos e meio, eleito como representante do Partido Liberal. Até que se deu sua insólita reviravolta rumo a Hugo Chávez e ao eixo bolivariano, o que deixou intrigados seus correligionários e a comunidade internacional.

Ford é claro: “O objetivo principal de Zelaya é enriquecer a si mesmo e a família” e se exibir como um “mártir”, que “tenta fazer justiça social para os pobres”, mas é impedido por “poderosos interesses ocultos”.

O presidente evidencia características autoritárias. “Zelaya se dá bem com os militares e com a Igreja Católica, mas o incomoda a simples existência do Congresso, do Ministério Público e do Supremo Tribunal Federal”, escreve Ford. Seus ataques à imprensa puseram em perigo vários jornalistas críticos de seu governo. Sua estratégia é ” a intimidação,  a perseguição”. O pior, porém, é que está “cada vez mais cercado por pessoas envolvidas com o crime organizado”.

Educado e charmoso
O embaixador demonstra ter conhecido bem Zelaya, que definiu como educado e encantador em seus freqüentes encontros, “disposto”, explica Ford, “a dizer o que ele supõe que eu queira ouvir num dado momento.” Seus argumentos, no entanto, mudam de um encontro para outro, seja para explicar suas relações com Hugo Chávez ou a nomeação do embaixador de Honduras na ONU. E isso confunde o embaixador dos EUA. “É como se ele não se lembrasse de nossa conversa de pouco antes”, escreve ele. “As opiniões de Zelaya mudam de um dia para outro, de uma hora para outra, dependendo de seu humor ou da pessoa com quem esteve por último”.

Exemplo de seu comportamento errático, diz Ford, é o seu relacionamento com os EUA. Apesar de sua retórica violenta, que o levou a qualificar a política de imigração norte-americana de “fascista”, mostrava-se disposto a se reunir com o presidente George W. Bush “a qualquer momento’. Zelaya, recorda o embaixador Ford, “não só permitiu a primeira visita de um navio de guerra dos EUA a Honduras em 22 anos, como fez um inflamado discurso no convés, exaltando as relações bilaterais.” Para, em seguida, expressar seu orgulho pelo papel desempenhado por Honduras “na captura e execução do intervencionista americano William Walker” (pirata e aventureiro do século 19, fuzilado em 1860).

Essa dicotomia deixa Ford perplexo: “Sempre desconfiado das intenções dos Estados Unidos, submeteu-se inexplicavelmente a um perfil psicológico em minha casa. Duas vezes”. A ambigüidade se reflete também em sua atuação no governo. Incentiva manifestações de rua contra políticas de seu próprio governo para resolver o conflito”. Isso serve “para ganhar aceitação popular”.

O crime organizado
“Mas há também o Zelaya sinistro, cercado por uns poucos conselheiros, ligados tanto à Venezuela e a Cuba como ao crime organizado “, afirma Ford. Isso o torna uma pessoa muito pouco confiável. “Sou incapaz de pôr Zelaya a par das ações dedicadas à segurança e à luta contra o narcotráfico por temer pôr em perigo a vida de funcionários americanos”.

O embaixador confirma, por outro lado, a imagem que Zelaya construiu de “filho de Orlancho” [sua terra natal], apegado à terra e a seu chapéu de cowboy. “Ao contrário da maioria dos presidentes hondurenhos, para Zelaya, uma viagem a uma grande cidade significa ir a Tegucigalpa, não a Miami ou a Nova Orleans.” “É um retorno a uma outra época na América Central, quase uma caricatura de caudilho, por seu estilo de liderança”. Fora de sua família, Zelaya não tem amigos porque maltrata as pessoas próximas. “Em um almoço, afirmou que não confiava em ninguém do seu governo”.

Ford se mostra pessimista com o futuro político de Honduras e as relações com os EUA. “Seu esforço para garantir imunidade a várias atividades do crime organizado perpetradas em sua administração o converterá numa ameaça ao estado de direito e à estabilidade institucional”. A recomendação que deixa o embaixador Ford é esta: “Você encontrará o espaço para trabalhar, mas devemos ser muito diretos com ele”. É preciso atraí-lo o máximo possível “para proteger nossos interesses vitais” e “minimizar os danos à democracia e à economia hondurenhas”.

Em junho de 2009, Zelaya foi deposto pelo Supremo Tribunal Federal, acusado de graves violações à Constituição - que pretendia reformar para se reeleger - e foi expulso de Tegucigalpa. A crise aberta pelo golpe terminou com as eleições presidenciais, que foram vencidas por Porfirio Lobo, do Partido Nacional, de oposição. Zelaya refugiou-se na República Dominicana e, na condição de ex-presidente, tem um assento no Parlamento Centro-Americano.

Por Reinaldo Azevedo

Dona Marisa terá de suportar as crises de abstinência de Lula

Como costumo dizer aqui, Lula pode ir contando as suas inverdades que eu vou denunciando. Sem problemas. Ele não cansa. Nem eu.  Abaixo, em vermelho segue uma reportagem do Portal G1. Comento em azul.

Ao discursar durante a cerimônia de lançamento das obras da Ferrovia da Integração Oeste-Leste, em Ilhéus (BA), nesta sexta-feira (10), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma crítica aos que consideram que o governo “só cuida de pobres” e afirmou que a parcela “rica” da população brasileira “não precisa do Estado”.
“As pessoas pensam que o Lula só cuida de pobre. Bolsa Família é só pobre, pobre, pobre… Primeiro, porque o Estado é para cuidar de pobre. Os ricos não precisam do Estado. Quem precisa do Estado é a parte mais pobre do país”, afirmou Lula.
Ninguém diz que “Lula só cuida dos pobres”. Essa é a crítica que ele gostaria que lhe fizessem porque, obviamente, é fácil responder. Por que ele não dá nome aos críticos? Onde estão? Quem são eles?

Mas a questão proposta pelo Babalorixá merece uma reflexão mais acurada. Eu, por exemplo, nunca disse que Lula “só cuida de pobres”. Os banqueiros jamais afirmariam uma besteira como essa. Os setores da indústria eleitos para os benefícios da renúncia fiscal também não! Os que pegaram polpudos empréstimos no BNDES a juros camaradas  não entrariam nessa. Lula, vamos convir, é uma excelente surpresa para os ricos. Que eu saiba, os potentados do capital investiram mais na sua candidatura do que na de José Serra, não? Os petistas sugeriam que o tucano é que seria fonte da instabilidade para… os ricos!

Mas é evidente que a fala de Lula tem uma base verossímil. De fato, setores médios da sociedade, que pagam um carga tributária escorchante, podem se irritar não exatamente com o Bolsa Família, mas com essa retórica pobrista. O problema é que Lula chama “companheiros” os representantes do grande capital e “ricos” esses setores médios descontentes — os que, de fato, pagam a conta de algumas generosidades.

Sob aplausos da plateia que lotou o Auditório Jorge Amado, no Centro de Convenções Luís Eduardo Magalhães, em Ilhéus, Lula disse que o governo estimula o crescimento econômico do país quando “leva R$ 10, R$ 15 na mão de um pobre”, porque, afirmou, ele “não vai comprar dólar.”
“Quando você leva R$ 10, R$ 15 na mão de um pobre, aqueles R$ 10 se transformam num produto de crescimento econômico, porque a pessoa não vai comprar dólar. Ela vai na bodega comprar um feijãozinho e aquele dinheiro retorna ao comércio”, discursou Lula.
Bem, hoje em dia, as pessoas estão vendendo dólares, não é? Os “ricos” do mundo inteiro vêm ao Brasil comprar reais, que o Bolsa Juros do Apedeuta remunera como em nenhum outro lugar do mundo. As coisas não são assim porque Lula seja um homem mau, perverso. É que seu governo gasta demais. Com o Bolsa Família? Não, com o Bolsa Campanheiro.

Ainda de acordo com o  presidente, o Brasil de “antes do seu governo” estava administrativamente desorientado: “Não sabia crescer sem inflação, não sabia exportar e fortalecer o mercado interno, e nós tivemos de provar que algumas coisas poderiam ser feitas concomitantemente sem uma coisa prejudicar a outra.”
O Brasil cresceu sem inflação, sim. E quem a domou foi o país de “antes do seu governo”. Lula não precisou provar coisa nenhuma!  Os fundamentos estavam dados. O resto foi decidido pela expansão da economia mundial e pelo preço das commodities, que triplicou no seu governo.

A 21 dias do fim do seu segundo mandato, Lula foi ao Nordeste para marcar o início de etapas de obras importantes de infraestrutura, como a Ferrovia Norte-Sul. Ao lado de líderes políticos locais, o presidente ainda participará nesta sexta da Cerimônia de formatura do Programa Todos pela Alfabetização, no Centro Administrativo do Governo da Bahia.
Providencial! O Brasil ainda tem 14 milhões de analfabetos entre as pessoas de 15 anos ou mais, segundo o Pnad de 2009,  uma taxa de 9,7%, o que é escandaloso. A meta é chegar a 6,7% em 2015, com uma redução de 3 pontos. Vamos ver. Em 2004, era de 11,5% — uma queda de apenas 1,8 ponto em cinco anos, bem abaixo dos 3 pretendidos.

Para encerrar
Pobre Marisa Letícia! Até Lula voltar a se encontrar com o palco e com o palanque — e não vai demorar muito, aposto! —, a Galega será sacudida à noite por crises de abstinência do maridão. Como é que ele vai suportar a ausência de uma platéia para se dedicar a seu divertimento predileto: falar bem de si mesmo? A saída?

Deve existir por aí uma AEA, Associação dos Ególatras Anônimos. “Ah, mas Lula seria reconhecido”. Ora, ele aparece fantasiado de Alexandre, o Grande, para esconder a sua empáfia.

Por Reinaldo Azevedo

Com boné ou sem boné?

A presidente eleita, Dilma Rousseff, convidou a engenheira agrônoma Maria Lúcia de Oliveira Falcón para o Ministério da Reforma Agrária. Aceito o convite, a pasta sairá das mãos da Democracia Socialista (DS), uma das correntes de esquerda do PT. A grande revolução agrária que a DS promoveu até hoje foi dividir o Incra com o MST… Maria Lúcia, que pertence ao conselho fiscal da Petrobras, é secretária de Planejamento do Sergipe e tem mestrado em economia e doutorado em sociologia.

É um cargo que traz lá suas dificuldades. O MST, afinal, é tão mais extremista quanto inexistente é sua causa. O problema agrário no Brasil, à diferença do que parece, é não mais do que residual. Tanto é assim que João Pedro Stedile já está recrutando trabalhadores urbanos, que descobriram a sua vocação para a… terra. É uma piada!

É piada, ma ela pode ser, e freqüentemente é, violenta. Como Dilma vai lidar com o assunto? A campanha eleitoral permite que a gente pense uma coisa e também o seu contrário. Num dia, ela dizia que ilegalidades não seriam toleradas; no outro, botava na cabeça o boné do MST, como se vê na foto abaixo. Ela estava discursando justamente na convenção estadual do PT de Sergipe, ao qual Falcón é filiada, base política de José Eduardo Dutra, presidente nacional do partido.

Quem será governo? A Dilma com o boné ou sem ele? Com ilegalidade ou sem ela? E não custa notar: a presidente escalou uma mulher para enfrentar a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da CNA, que tem o hábito de lembrar o governo que a Constituição garante a propriedade privada no Brasil… No fim das contas, a questão não é saber qual ministro cuidará da área, mas qual Dilma vai governar.

Com o boné na cabeça: a questão é saber com que ministra, mas com que Dilma

Por Reinaldo Azevedo

Réu, chamado de “chefe de quadrilha”, pede controle da mídia. Faz sentido!

A Central única dos Trabalhadores promoveu ontem um evento chamado “Democracia e Liberdade Sempre”. Conferiu prêmios a alguns batutas que, a seu juízo, foram expressões nessa área. Entre eles, estava José Dirceu! O encontro também serviu como um desagravo a Dilma Rousseff porque a Central considera que a sua opção, no passado, pela luta armada foi criminalizada. Ué! Achei que ela só tocasse piano e lesse poesia na VAR-Palmares… Não vão me dizer agora que ela pegou em armas e até participou do planejamento de assalto a bancos! Estou chocado! Pois bem: se a patuscada era para celebrar “democracia” e “liberdade”, nada como descer o porrete na “mídia”, certo? Foi o que fez o deputado cassado por corrupção José Dirceu, réu que a Procuradoria Geral da República chama “chefe de quadrilha”.

Pois bem: ele disse que a “mídia” precisa, sim, de regulação, “como existe nos EUA, na França e na Inglaterra”. Mas, ressalvou o agora “consultor de empresas privadas”,  há de ser uma regulação adaptada à nossa realidade. Ocorre que a regulação “adaptada à nossa realidade” já existe. Pode até ser aperfeiçoada, mas é uma farsa grotesca essa história de que o setor existe num vácuo legal. A quem interessa essa mentira? Àqueles que, sob o pretexto de nos propor uma “técnica”, querem nos impor uma “política”.

O Zé sempre sempre foi dono de teses um tanto exóticas e tem o seu jeito de trabalhar, não é?, que lhe rendeu a perda dos direitos políticos e lhe conferiu a alcunha de “chefe de quadrilha”. O aspecto mais deletério do que se conhece da proposta do governo é mesmo o “controle de conteúdo”, uma forma oblíqua de instituir a censura no país. O chefão do PT acha tudo isso bobagem e afirmou que as empresas não querem regulação porque temem a concorrência: “Não é uma batalha simples. Vai ter muitas nuances, muitas formas. O que eles [as empresas de comunicação] não querem é concorrência. É o que eles temem. Não é imprensa alternativa, de esquerda ou sindical. É a própria concorrência capitalista”.

Huuummm… Devo entender, então, que Dirceu está empenhado em “manter a concorrência capitalista” no setor. À sua maneira, o governo Lula já faz isso, usando o nosso dinheiro, aquela fatia reservada à publicidade oficial e de estatais. Todos os veículos amigos são generosamente aquinhoados. Há até um galinheiro no fundo do quintal moral do Palácio para sustentar — seja com financiamento direto, seja com triangulações — a guerra suja na Internet. Petistas hoje já se orgulham de “ter” três redes de televisão, duas revistas semanais e dois portais da Internet. Esses são os que a turma tem literalmente no bolso, onde não há risco ser publicada uma informação independente.

O problema é que falta público. No fim das contas, o jornalismo que interessa não se vende, mas vende, e o que se vende não vende: custa caro e não interessa. O leitor, o ouvinte, o telespectador e o Internauta realmente relevantes sabem onde buscar informações e análises — e não costuma ser nos veículos da turma do nariz marrom. E isso os deixa furiosos; inflama aqueles velhos corações leninistas, embora seja hoje um leninismo perfeitamente adaptado ao mercado — não o mercado com regras, mas o selvagem. Em matéria de capitalismo, os petistas também são primitivos.

A abordagem de Dirceu é curiosa porque, até onde se sabe, não há nenhuma proposta para alterar, por exemplo, a presença de capital estrangeiro nas empresas de comunicação, hoje limitado a 30%. Um debate que ainda promete render é que essa limitação não vale para empresas de telefonia, por exemplo, que atuam na Internet, muitas delas prestando serviços jornalísticos, mas sem as limitações impostas às empresas de comunicação propriamente.

E o que José Dirceu tem com isso? Muito mais do que se imagina!

Ele é apontado no mercado como “o” homem, no Brasil, do grupo português Ongoing, que já é dono dos jornais “Brasil Econômico”, do qual o réu e “chefe de quadrilha” (segundo a PGR) é colunista, “O Dia”, “Meia Hora” e “Marca”. Quer agora investir em televisão: a Rede TV e a Bandeirantes estão na mira. Qual é o truque? A Ejesa (Empresa Jornalística Econômico S.A.), que edita esses jornais, tem 70,1% de seu capital em nome de Maria Alexandra de Almeida Vasconcellos, brasileira, mas casada com Nuno Vasconcellos, presidente do Ongoing, que detém 29,9% da Ejesa. Em Portugal, dá-se como certo que é o grupo que comanda esses veículos por aqui. No meio político, o “Brasil Econômico” é chamado “aquele jornal do Dirceu”. Evanise Santos, namorada do réu, é diretora de marketing institucional da Ejesa. O Ministério Público Federal de São Paulo abriu investigação para apurar a atuação do grupo português no Brasil.

O governo quer a “regulação da mídia? Quer, sim! Mas sabe que ela dificilmente sairá como ele deseja. Hoje, o empenho do PT é outro: reforçar a “grande mídia alternativa”, isso que Dirceu chama de “concorrência capitalista” e que não passa de arranjo de cartório.

AS ARMAS
No evento da CUT, Dirceu afirmou que a eleição de Dilma representa a chegada da Geração de 68 ao poder e fez sua leitura sobre o passado. Lamentou que tenha sido a “centro-direita” a fazer a transição democrática: “Uma hegemonia que prevaleceu até a vitória do Lula. E que ainda tem presença nos nossos governos pelas condições e características do nosso processo político.” Também fez sua releitura da luta armada: “Quem pegou em armas foi a ditadura. As armas que a nação entregou às Forças Armadas para defender a Constituição e a democracia, elas usurparam para impor ao País uma ditadura. E foi contra ela que nós nos levantamos e resistimos.”

Há vários problemas aí. Dirceu não teve o papel “heróico” que atribui a si mesmo. Nunca ninguém o viu de arma na mão lutando contra a ditadura. Não que devesse. Mas cumpre não lhe atribuir uma coragem, ainda que doidivanas, que não teve. A centro-direita que fez a transição lhe foi bastante útil. Enquanto ela cuidava da democracia, ele vivia na clandestinidade no Paraná, sob identidade falsa, enganando a própria mulher, Clara Becker, fazendo-a acreditar que ele era Carlos Henrique Gouveia de Melo. Veio a anistia, ele pegou um velho retrato e revelou: “Eu não sou eu; sou outro, este aqui da foto”. E pôs fim ao casamento. Eu me vejo tentado a indagar se ele teria revelado a sua real identidade e desfeito a união sem a anistia. Acho que não! Sua mulher era uma peça involuntária de sua necessidade política da época. No mundo de Dirceu, quem casou com Clara foi o Carlos,  não ele…

Não há dúvida de que se implantou uma ditadura no país. Mas é preciso um mínimo de rigor. Não é que Zé e seus amigos não gostassem de um regime de força; eles gostavam, mas queriam outro, não aquele. Não por acaso, quem deu uma nova cara ao rapaz foram cirurgiões cubanos.

Mas de uma coisa ele pode se orgulhar: nunca ninguém conseguiu lhe mudar o caráter.

Por Reinaldo Azevedo



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Fonte:
Blog Reinaldo Azevedo (Veja)

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